Por Juacy da Silva*
O povo nas ruas em defesa da democracia e da soberania nacional
Para alguns, foi um verdadeiro milagre; para outros, nada mais do que o despertar das massas diante da possibilidade de um grande retrocesso político, institucional e até mesmo da ameaça e possibilidade de um golpe de Estado. Foram às ruas e às “redes sociais” para garantir a nossa soberania e a estabilidade das instituições democráticas em nosso país.
Diante de uma vitória do candidato Flávio Bolsonaro, representando boa parte do “centrão”, da direita tradicional e, o pior de todos os cenários, de uma extrema direita raivosa, revanchista, subserviente aos interesses de grandes potências e de grandes corporações econômicas e financeiras, principalmente das “big techs”, que descaradamente interferiram no processo eleitoral, parece que esses fatos e a possibilidade de um governo direitista, autoritário e corrupto se instalar no Brasil acordaram milhões de brasileiros.
Aconteceu o que muitos, tanto da esquerda quanto do centrão e também da extrema direita, jamais acreditavam que seria possível: uma “virada” no 2º turno. Jamais, na história política recente ou passada do Brasil, um candidato a presidente derrotado, que tivesse ficado em 2º lugar no primeiro turno, venceu no 2º turno. Isto era algo inimaginável, mas acabou acontecendo.
A euforia no entorno de Flávio Bolsonaro era enorme, principalmente após uma grande vitória da direita, da extrema direita e do bolsonarismo ao eleger a maior bancada no Senado da República e na Câmara Federal, e de governadores. A euforia era tanta que só falavam na composição do ministério, em “tesouraço”, com certeza nos direitos dos trabalhadores, dos aposentados, de milhões que passaram a ter um pouquinho de dignidade através das políticas e programas sociais do Governo Lula, da entrega de nossos recursos naturais, terras raras e minerais estratégicos a grupos econômicos internacionais, para os quais estavam planejando “vender” a soberania e o futuro de nosso país.
Do lado do centro e da esquerda, também a sensação, com raras exceções, como para o Deputado Janones e a jovem deputada negra mineira Ana Elisa e para milhões de defensores de um projeto de país soberano, democrático, justo, digno e inclusivo, não era de tristeza e espírito derrotista.
Foi aí que, em menos de três semanas, tempo entre o 1º e o 2º turnos, aparentemente muito curto para uma virada, mesmo que apertada, com uma vitória de Lula com uma margem muito pequena de votos, esses eram os temas em discussão nas hostes democratas de “esquerda” e das massas.
Foi aí, repito, que surgiu uma grande ONDA VERMELHA, que passou a ocupar as praças, as ruas, avenidas e estradas do Brasil, e também a mesma ONDA VERMELHA ganhou as redes sociais, antes território bolsonarista, da extrema direita e da direita adesista a um projeto autoritário e elitista de governo, enfim, de um projeto antidemoníaco de poder, prestes a se instalar no Brasil. Um verdadeiro retrocesso democrático.
O surgimento do “EXÉRCITO” DE LULA, iniciativa do Deputado Janones, da Rede de Minas Gerais, deu um novo e grande ânimo à campanha de Lula, e a certeza da virada, da vitória de Lula, já era antevista, apesar da manipulação dos institutos de pesquisa, dos grandes grupos empresariais de comunicação, do famoso e famigerado “mercado”, a “Faria Lima”, todas as forças conservadoras e retrógradas apostando abertamente em um governo de direita e extrema direita.
A adesão dos candidatos “nanicos”, mas que, em seu conjunto, abocanharam mais de 7,58% dos votos válidos (do total de 120 milhões de votos válidos no 1º turno), ou seja, somando essa votação desses candidatos da chamada Terceira Via, atingiram pouco mais de 9 milhões de votos.
Como Flávio Bolsonaro conseguiu, no primeiro turno, 56,1 milhões de votos (47,03%) e Lula, 53,8 milhões de votos (45,15%), a diferença percentual foi “pequena”, mas a diferença numérica, de mais de 2,3 milhões de votos, era enorme.
Além dessa diferença entre os dois candidatos, a adesão de três candidatos da “terceira” via, com seus mais de 9 milhões de votos, alimentava a sensação de que Flávio Bolsonaro já estava eleito.
Ledo engano: a extrema direita “raivosa” e revanchista, que só falava nas promessas e mentiras do seu candidato, não contava com esta virada eleitoral histórica. A campanha de Lula conseguiu “reverter” a derrota no 1º turno e, neste 2º turno histórico, tornar-se vitoriosa em 213 municípios onde havia perdido, inclusive vários de grande porte em termos eleitorais. Além disso, mesmo nos demais municípios e em todos os estados, Lula conseguiu, tanto onde venceu quanto onde foi derrotado no 1º turno, abocanhar mais de 11 milhões de votos, inclusive revertendo o resultado no Estado de Minas Gerais.
Resumindo, Lula ampliou a votação no 2º turno em todas as 27 Unidades da Federação e em 5.410 municípios, ampliando em mais de 11 milhões de votos entre os dois turnos, e Flávio Bolsonaro, que já só pensava na instalação de seu governo, com quem iria subir a rampa do Palácio do Planalto, mesmo com a adesão oportunista dos três candidatos nanicos (Caiado, Zema e Cury), aumentou a votação entre os dois turnos em apenas três milhões de votos.
Isto significa que milhões de eleitores que votaram nesses candidatos da 3ª via não seguiram a opção de adesismo de seus candidatos e, inclusive, segundo algumas estimativas, diante das mentiras e do desempenho pífio de Flávio Bolsonaro nos dois debates (Rede Band e Rede Globo), acabaram migrando para Lula, o que explica a vitória de Lula no 2º turno, com mais de 4,4 milhões de votos, passando de um quase derrotado para o maior vitorioso na história política brasileira desde a redemocratização e a vigência da Constituição de 1988.
Depois de amargar uma derrota acachapante no 2º turno, no último domingo, com mais de 4,4 milhões de votos de diferença e com medo desta grande ONDA VERMELHA que coloriu o Brasil e de investigações que tramitam na Justiça, o candidato Flávio Bolsonaro, que dizia a todo momento que subiria a rampa do Palácio do Planalto com o pai, condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, a quem iria conceder perdão e de quem “receberia” a faixa presidencial, simplesmente amarelou e, na surdina, deixando seus correligionários mais próximos e quase 60 milhões de eleitores que acreditaram em suas bravatas, mentiras e “fake news” a verem nuvens que se dissiparam, simplesmente fugiu do Brasil.
Líder de verdade não foge, não abandona seus seguidores e liderados para salvar a própria pele. O que Flávio Bolsonaro fez assemelha-se ao que faria um general que, diante de inimigos poderosos, simplesmente abandona o campo de batalha, o teatro de operações, deixando seus soldados e comandados entregues à própria sorte, abandonados, sem direção.
A pergunta que não quer calar: por que Flávio Bolsonaro, o “herdeiro” político e ungido pelo chefe do clã Bolsonaro, ao perceber que, a partir de fevereiro de 2027, pela primeira vez em mais de 20 anos, não vai ter mais a proteção do manto da imunidade/impunidade parlamentar, por não ter mais “foro privilegiado”, poderia responder na Justiça, correndo o risco de ser condenado e preso, igual ao pai, diante de alguns processos que investigam práticas de corrupção e outros crimes, simplesmente, na surdina, abandonou o país?
Ao invés de utilizar todas as garantias constitucionais e legais existentes no ordenamento jurídico brasileiro, da “ampla defesa”, da presunção de inocência, e provar sua inocência, acabou passando recibo de culpa antecipada.
Existe um provérbio (sabedoria popular) que diz: “quem não deve não teme”. Assim fizeram líderes verdadeiros, como Mahatma Gandhi, que liderou o movimento da não violência diante da opressão colonialista da Inglaterra e lutou como ninguém pela libertação da Índia, ou Nelson Mandela, que, mesmo tendo sido preso por mais de 28 anos injustamente pelo governo racista e opressor da África do Sul, saiu da prisão para tornar-se presidente e devolver os direitos e a dignidade à população negra daquele país e acabar com um regime racista, desumano e autoritário, implantando uma democracia que reconheceu os direitos humanos e fundamentais de todas as raças e pessoas, ou mesmo o exemplo de Lula, que, mesmo tendo amargado 518 dias de prisão ilegal e injusta, resistiu bravamente, voltando a ocupar pela 3ª vez o cargo de presidente da República e, novamente, sendo consagrado por mais de 64 milhões de votos soberanos para um feito histórico em nosso país: ser reeleito para um quarto mandato à frente dos destinos de nosso país.
Diante de todos esses acontecimentos e da expectativa da posse dos eleitos em primeiro ou no segundo turno das eleições gerais de 2026, incluindo presidente e vice-presidente da República, governadores/governadoras de Estado, deputados federais e estaduais e dois terços dos senadores, o que o Brasil espera e precisa é de paz, de justiça, de diálogo, reconciliação, novas e renovadas políticas públicas, programas de desenvolvimento econômico e socioambientais para construirmos um país justo, inclusivo, solidário, sustentável, onde todos e todas possamos viver com liberdade, segurança e sob a égide da democracia, da harmonia institucional e da soberania nacional.
Que os derrotados, sejam de esquerda, de centro, de direita, de extrema direita, inclusive os bolsonaristas, aceitem e respeitem a decisão dos eleitores que, de forma soberana e democrática, através das urnas eletrônicas, demonstram sua vontade através do voto, o instrumento da democracia.
Neste particular, vale a pena refletir sobre uma parte do pronunciamento de Lula na Avenida Paulista, diante de milhões de apoiadores, ao dizer: “Não fui eu quem elegeu o Congresso, foi o povo e vou governar com este novo Congresso eleito, com muito diálogo e respeito”.
Aos vencedores, que governem para todos. Afinal, é o povo quem paga os impostos que “alimentam” os cofres públicos e a “máquina” governamental, tendo como parâmetros as necessidades, os anseios e as aspirações do povo, principalmente dos pobres e excluídos, com ética, que a corrupção seja banida para sempre do exercício das funções governamentais e empresariais, e que o Estado brasileiro volte ou continue voltando suas atenções e ações principalmente para os pobres, excluídos, famintos, desempregados, cuidando de nossos territórios, combatendo a violência e o domínio do crime organizado, defendendo o meio ambiente e as populações, inclusive os povos originários, e não apenas as elites e os donos do poder!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy











