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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
“O povo do Texas entregou uma mensagem cristalina ao primeiro trilionário do mundo: o Texas não está à venda.” (“The people of Texas delivered a crystal-clear message to the world's first trillionaire: Texas is not for sale.”) E continuou: “Ele quer a nossa terra, quer a nossa água, quer o dinheiro dos nossos impostos e quer o seu próprio senador pessoal dos Estados Unidos”. Senador eleito pelo Texas, em pronunciamento da vitória, em 03/11/2026.
"Estou apoiada em ombros feitos de aço" (“I’m standing on shoulders made of steel”), pronunciamento de Keisha Lance Bottoms, ex-prefeita de Atlanta e governadora eleita da Geórgia, 1ª governadora negra da Geórgia e dos EUA, em referência à sua ancestralidade e às gerações de mulheres que abriram caminho para a conquista.
Enquanto a esperança no Brasil foi representada pela onda vermelha que, com as grandes manifestações de rua e nas redes sociais, principalmente pelo “exército” de Lula, possibilitou uma vitória histórica, em defesa da democracia e da reeleição de Lula para seu 4º mandato, aqui nos EUA (onde estou desde o início de outubro, após ter votado no primeiro turno), uma enorme onda azul está trazendo de volta a esperança para o povo americano, principalmente os eleitores democratas, que impuseram uma derrota, também histórica, ao governo Trump.
Antes das eleições, o Partido Republicano garantia e, até a posse dos novos eleitos, continuará garantindo uma maioria folgada na Câmara Federal (House of Representatives) e uma maioria estreita no Senado. A partir da instalação do novo Congresso, será uma pedra no sapato do governo Trump durante seus restantes dois anos na Casa Branca, abrindo caminho, conforme as análises e projeções a partir da nova realidade política eleitoral, para que os democratas reconquistem a Casa Branca nas próximas eleições presidenciais, em 2028.
Vamos aos resultados que esta ONDA AZUL está trazendo.
Até o momento, faltando os resultados apenas de dois Estados, Mississippi e Alaska, para o Senado, o Partido Democrata conquistou 54 cadeiras e tudo leva a crer que poderá conquistar mais dois assentos, chegando a 56 senadores democratas contra 44 republicanos, uma maioria folgada para a oposição no Senado.
Isto pode dar muita dor de cabeça ao governo Trump, pois o Senado tem um grande poder no que se refere à definição e condução da política externa, inclusive em relação a tratados internacionais e em relação às guerras, no caso, as guerras da Ucrânia, de Israel contra os palestinos e a guerra dos EUA contra o Irã.
Os democratas conseguiram conquistar as 7 cadeiras do Senado que estavam em poder dos republicanos e, nada menos, até agora, faltando ainda 55 vagas para a Câmara Federal a serem definidas, os democratas “tomaram” 27 cadeiras na Câmara antes ocupadas pelos republicanos. Isto foi uma derrota histórica: em alguns lugares, há mais de 40 anos ou, às vezes, quase um século, as vagas de senador e deputado eram ocupadas por republicanos, principalmente homens.
Até o momento, as apurações indicam que os democratas já conquistaram 231 cadeiras na Câmara Federal e as projeções indicam que poderão chegar a 263 cadeiras, nada menos do que 91 a mais do que os republicanos, que nesta legislatura têm uma maioria com mais de 16 cadeiras. Esses números demonstram o tamanho da vitória da onda azul e da derrota do vermelho (esta é a cor dos republicanos aqui nos EUA, sem qualquer referência à onda vermelha no Brasil, onde a direita e, principalmente, a extrema direita tanto abomina a cor vermelha).
Além desses números frios, esta onda azul, que está trazendo esperança principalmente para os pobres, excluídos, imigrantes, principalmente os latinos, e a classe média baixa, que estão sentindo os impactos negativos das políticas do governo Trump, como as medidas repressivas em relação à imigração, as tarifas que contribuem para a elevação do preço dos alimentos, dos combustíveis, da energia e outros produtos importados, principalmente, gerando inflação e outros problemas econômicos, foram os dois principais motivos para esta mudança histórica no panorama eleitoral e político aqui nos EUA.
Apenas para se ter uma ideia, nas eleições de 2024, Trump recebeu em torno de 45% dos votos dos latinos e agora este apoio aos candidatos republicanos ao Senado e à Câmara Federal caiu para aproximadamente, apenas, 20%.
Outros dados interessantes e importantes em termos de futuro. Os candidatos democratas receberam 70% dos votos dos jovens; 61% dos homens, 70% dos latinos e 88% dos negros, demonstrando que a insatisfação dos eleitores com a situação atual está bem clara.
Alguns resultados podem ser considerados emblemáticos, como a vitória da 1ª governadora de origem latina no Texas e também a vitória de Talarico para representar o Texas no Senado, pondo fim à hegemonia dos republicanos naquele estado por mais de 30 anos.
O caso do Texas também representou a derrota de Elon Musk, trilionário influente na política americana, através de seus financiamentos bilionários para as campanhas derrotadas ao governo e ao Senado no Texas. Só naquele estado, este megaempresário “investiu” mais de 274 milhões de dólares e mais de 74 milhões em outros estados.
Tanto Talarico, senador eleito, quanto Gina Hinojosa já disseram publicamente que irão investigar os contratos e benefícios fiscais concedidos pelo governo do Texas às empresas de Musk e também os concedidos pelo governo Trump/governo federal.
Outros fatos emblemáticos foram o aumento de eleitos para o Senado, Câmara Federal e governos estaduais por negros/negras: em cinco estados, sendo que, na Geórgia, foi eleita uma mulher negra para governadora pela primeira vez na história daquele estado. Da mesma forma, também houve aumento de cargos eletivos ocupados por mulheres, jovens e representantes de minorias como LGBTQIA+, indígenas e muçulmanos.
O Novo México elegeu, pela primeira vez, uma governadora indígena. Isto representa um dos maiores feitos para este grupo populacional que, ao longo da história, tem sofrido muito e, aos poucos, tem reconquistado direitos e dignidade.
No Estado de Michigan, por exemplo, foi eleito o primeiro senador muçulmano na história dos EUA. El Sayed lutou primeiro dentro do Partido Democrata e venceu uma candidata que, após ser derrotada no partido, passou a apoiar e a financiar o candidato republicano, mas, mesmo assim, ele saiu-se vencedor, fazendo história.
Como essas, existem inúmeras outras histórias de candidatos e candidatas democratas que estão fazendo história, com uma visão mais democrática e voltada para políticas públicas voltadas para as camadas menos aquinhoadas deste país, onde, diferente do que muitos imaginam, existem desigualdades, injustiças, fome e exclusão e também violência.
Antes das eleições, o Partido Republicano tinha 26 governadores e os democratas, apenas 24. Com as eleições de ontem, o Partido Democrata já elegeu 28, podendo eleger dois outros que ainda estão em apuração, atingindo 30 governadores, restando aos republicanos apenas 20. Aqui cabe uma observação: a maioria, quase absoluta, dos estados “maiores” em peso econômico (PIB etc.) e em população, como Califórnia, Texas, Flórida, Nova York, Geórgia, Ohio e outros mais, nos próximos anos, serão governados pelo Partido Democrata e isto tem um peso, ao lado do Congresso, na disputa presidencial em 2028.
Para termos uma ideia do peso dos Estados, tanto na economia americana quanto na população e os impactos disso nas eleições, a realidade atual é que os dez estados com os maiores PIBs (produto interno bruto), que, em conjunto, somam 17 trilhões de dólares ou 92 trilhões de reais, todos são governados pelo Partido Democrata.
Esses estados são: Califórnia, Texas, Nova York, Flórida, Illinois (o estado de Barack Obama, primeiro e único negro a chegar a presidente do país), Pensilvânia, Ohio, Geórgia, Washington (estado) e Nova Jersey.
Tanto pelas análises de especialistas quanto pelos pronunciamentos de eleitos, um dos impactos desta onda azul de esperança é que diversas investigações sobre o governo Trump poderão “estourar” nos próximos dois anos, inclusive suspeitas de práticas de corrupção e algumas definições políticas e estratégicas consideradas errôneas e contrárias aos interesses nacionais do país.
Finalmente, um outro impacto precisa ser mencionado, em relação à questão do avanço da direita e extrema direita mundial, com destaque para a situação da América Latina, onde os EUA têm apoiado a eleição de governos conservadores, de direita ou extrema direita. Com este novo rumo da correlação de forças entre a Casa Branca, o Congresso e a maioria dos governadores e prefeitos das maiores cidades, com certeza haverá uma redução deste apoio vindo da Casa Branca.
Enfim, novas áreas, novos tempos, novos ventos começam a soprar ao redor dos EUA. Isto representa esperanças renovadas para a democracia, o multilateralismo e o fortalecimento da diplomacia e do diálogo como fundamentos da geopolítica mundial.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy











