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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Por Danilo de Souza*
A história energética do século XX foi marcada por sucessivas transformações. O carvão sustentou a industrialização e a expansão das ferrovias; o petróleo ganhou protagonismo com a difusão do automóvel, da aviação e dos motores de combustão interna; e a eletrificação ampliou o aproveitamento da energia hidrelétrica e dos combustíveis fósseis. Após a Segunda Guerra Mundial, a energia nuclear acrescentou uma nova dimensão a essa trajetória. O programa Atoms for Peace, anunciado pelos Estados Unidos em 1953, impulsionou as aplicações civis da tecnologia atômica. A usina de Obninsk, na então União Soviética, entrou em operação em 1954 e, posteriormente, Reino Unido, Estados Unidos, França, Canadá e Japão desenvolveram programas nacionais. A energia nuclear passou a simbolizar modernização industrial, soberania tecnológica e segurança de suprimento, sobretudo após os choques do petróleo (IAEA, 2009).
Essa trajetória, contudo, não foi linear. Os acidentes de Three Mile Island, em 1979, Chernobyl, em 1986, e Fukushima Daiichi, em 2011, ampliaram as preocupações com a segurança, os resíduos radioativos e a capacidade institucional. O IPCC reconhece que esses eventos reduziram o apoio público à energia nuclear, embora seus efeitos tenham variado conforme a experiência nacional, a confiança nos reguladores e a percepção dos riscos. Não houve, portanto, abandono mundial uniforme: parte da Europa e da América do Norte desacelerou os investimentos ou adotou políticas de saída, enquanto países asiáticos continuaram a expandir seus programas (IPCC, 2022; IAEA, 2009).
Fukushima representou a ruptura mais profunda desse período recente. O Japão suspendeu todos os seus reatores e passou a depender mais de combustíveis fósseis importados. Em outras economias do Atlântico Norte principalmente, grandes projetos nucleares enfrentaram atrasos, custos crescentes e dificuldades de financiamento. Paralelamente, a liderança construtiva deslocou-se para a China e a Rússia: entre os 52 reatores cuja construção começou em 2017, 48 utilizavam projetos de ambos os países. A retração ocidental não significou, neste caso, um declínio energético; significou a redistribuição geográfica das capacidades industriais (IEA, 2025).
A crise energética iniciada em 2022 tornou essa transformação mais visível. O conflito da Ucrânia e as interrupções no comércio de energia expuseram a vulnerabilidade europeia ao gás importado e recolocaram a segurança de suprimento no centro das decisões. No Japão, a dependência de combustíveis importados reforçou o interesse no retorno gradual dos reatores, aprovados conforme os novos requisitos de segurança. Em diferentes países, a discussão passou a considerar, além do custo da eletricidade, a diversidade da matriz, a disponibilidade contínua, a estabilidade de preços e a resiliência a choques externos (IEA, 2022).
Essa mudança tem sido construída sobretudo no cenário europeu, no sentido de que não há contradição entre a ampliação do parque de energia nuclear e as “renováveis” de baixo carbono”. O IPCC projeta participação crescente da energia solar e eólica, mas ressalta que sistemas com elevada presença de fontes variáveis precisam combinar redes ampliadas, armazenamento, gerenciamento da demanda, integração regional e geração firme ou despachável. A eletrificação dos transportes, edifícios, centros de dados e de partes da indústria aumenta simultaneamente o consumo e a importância da confiabilidade. Nesse contexto, a energia nuclear pode complementar as renováveis ao fornecer eletricidade e calor de baixo carbono de forma contínua, além de contribuir para a adequação de capacidade e a estabilidade do sistema (IPCC, 2022; IEA, 2022).
É nesse sentido que a IEA identifica sinais de uma nova era nuclear. Seu relatório de 2025 registrou quase 420 reatores em operação, responsáveis por pouco menos de 10% da eletricidade mundial e pela segunda maior parcela de geração de baixa emissão, depois da hidrelétrica. Havia ainda 63 reatores em construção, totalizando mais de 70 GW, enquanto mais de 40 países planejavam novos projetos ou avaliavam essa possibilidade. Como mostra a Figura, entre 2020 e 2023, os investimentos anuais em novos reatores e em extensões da vida útil das instalações existentes cresceram em quase 50%, atingindo aproximadamente USD 65 bilhões. Os valores são expressos em dólares constantes de 2023 e foram convertidos para a moeda norte-americana com base nas taxas de câmbio de mercado. Segundo a IEA, eventuais sobrecustos responderam por apenas uma parcela marginal desse aumento, impulsionado principalmente pela implantação de nova capacidade nuclear. Apesar dessa retomada, o movimento permanece geograficamente desigual e concentra-se cada vez mais na Ásia (IEA, 2025).

Figura 1 - Investimento global em energia nuclear por tipo, 2000–2023. Fonte: IEA (2025).
Na Europa, a inflexão tornou-se visível nos âmbitos regulatório e industrial. Em 2022, o Ato Delegado Complementar da Taxonomia da União Europeia classificou determinadas atividades nucleares como de transição, sujeitas a critérios rigorosos de segurança, de gestão de resíduos, de financiamento do descomissionamento e de prazos de autorização. A decisão não tornou toda a atividade nuclear automaticamente “sustentável”, mas abriu espaço para seu financiamento no contexto da transição climática. Em 2023, a audaciosa proposta do Net-Zero Industry Act incluiu reatores nucleares modulares pequenos e tecnologias nucleares avançadas entre as tecnologias de impacto zero; o regulamento entrou em vigor em 2024. Nesse mesmo ano, foi criada a European Industrial Alliance on Small Modular Reactors, voltada à preparação de projetos para a década de 2030 (European Commission, 2022, 2023; IEA, 2025).
O movimento também ocorre fora da Europa. Até 2024, o Japão havia religado 14 dos 54 reatores comerciais desligados em 2011, sob requisitos adicionais de segurança contra terremotos, tsunamis, perda de resfriamento e outros riscos. Os Estados Unidos ampliaram o apoio às extensões de vida útil e aos reatores avançados; a Coreia do Sul preservou um papel relevante para a energia nuclear. A China colocou em operação comercial, em 2023, o reator de alta temperatura HTR-PM e mantém a maior carteira mundial de novas construções. Índia, Turquia e Emirados Árabes Unidos também incorporaram projetos nucleares às suas estratégias energéticas (IEA, 2025).
Os Small Modular Reactors ocupam posição central nessa expectativa de renovação. Com menor potência, fabricação modular e maior padronização, eles podem reduzir o investimento de cada projeto, permitir a implantação gradual e atender a redes menores e a instalações industriais. Alguns projetos também incorporam sistemas passivos de segurança e maior capacidade de monitoramento de carga. Alianças europeias, programas de demonstração nos Estados Unidos e iniciativas na China, no Reino Unido, na França, no Canadá e na Índia mostram que esse interesse já se materializou em políticas industriais e projetos concretos (IEA, 2022, 2025).
Entretanto, modularidade não garante eletricidade mais barata. O IPCC observa que o investimento total de um SMR pode ser menor, mas o custo por unidade de potência pode superar o de grandes reatores, sobretudo nos primeiros projetos. Os ganhos esperados dependem de fabricação em série, da padronização, da estabilidade regulatória, de fornecedores maduros e da aprendizagem entre unidades sucessivas. A própria IEA condiciona uma expansão acelerada à redução dos custos de construção, ao controle dos atrasos e à mobilização de financiamento. Os SMRs devem, portanto, ser apresentados como uma possibilidade promissora ainda sujeita à demonstração comercial, e não como solução de custo e prazo já comprovada (IPCC, 2022; IEA, 2025).
A dimensão geopolítica também exige equilíbrio. Tecnologias renováveis, redes, baterias, eletrônica de potência e motores de alto desempenho dependem de cadeias de minerais críticos frequentemente concentradas. A energia nuclear utiliza volumes relativamente menores de material por unidade de energia, mas sua cadeia também apresenta vulnerabilidades. Segundo a IEA, quatro países respondem por mais de três quartos da mineração de urânio, enquanto mais de 99% da capacidade de enriquecimento está concentrada em quatro fornecedores, com a Rússia representando cerca de 40%. A segurança nuclear requer, assim, diversificação da mineração, conversão, enriquecimento, fabricação de combustível e tecnologia de reatores, além de estoques e de cooperação internacional (IPCC, 2022; IEA, 2025).
Até 2040, não haverá uma combinação tecnológica única para todos os países. Recursos naturais, infraestrutura, capacidade financeira, aceitação pública e prioridades nacionais continuarão a definir trajetórias distintas. Entretanto, observa-se um entendimento crescente de que a energia nuclear poderá ampliar sua participação nas estratégias de descarbonização, especialmente nos países que focam em geração firme, contínua e de baixa emissão. Nesse contexto, ela não substitui as fontes de baixo carbono, mas pode atuar de forma complementar à eficiência energética, à eletrificação, às redes, ao armazenamento e à expansão da geração solar, eólica e hidráulica. Essa perspectiva não elimina os desafios relacionados à segurança, aos custos, aos resíduos radioativos e à governança, mas indica que a fonte nuclear voltou a ocupar um espaço relevante no planejamento dos sistemas elétricos de baixo carbono.
REFERÊNCIAS
[1] INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY. Status and Trends of Nuclear Technologies: Report of the International Project on Innovative Nuclear Reactors and Fuel Cycles (INPRO). IAEA-TECDOC-1622. Vienna: IAEA, 2009.
[2] CLARKE, L. et al. Energy Systems. In: IPCC. Climate Change 2022: Mitigation of Climate Change. Contribution of Working Group III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2022. Chapter 6, p. 613–746. DOI: 10.1017/9781009157926.008.
[3] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. The Path to a New Era for Nuclear Energy. Paris: IEA, 2025.
[4] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Nuclear Power and Secure Energy Transitions: From Today’s Challenges to Tomorrow’s Clean Energy Systems. Paris: IEA, 2022.
[5] EUROPEAN COMMISSION. EU Taxonomy: Complementary Climate Delegated Act on Certain Nuclear and Gas Activities: Accelerating Sustainable Investments. Brussels: European Commission, 2022.
[6] COMISSÃO EUROPEIA. Proposta de Regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho que estabelece um quadro de medidas para reforçar o ecossistema europeu de fabrico de produtos com tecnologia de impacto zero (Regulamento Indústria de Impacto Zero). COM(2023) 161 final. Bruxelas, 16 mar. 2023.
OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".
*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente (IEE/USP).











