Segunda, 14 Setembro 2026 16:39

O MAGISTÉRIO E A VISÃO DE LEÃO XIV SOBRE UMA IGREJA SINODAL, SAMARITANA E PROFÉTICA - Juacy da Silva

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Juacy da Silva*

“A Igreja é realidade humana e divina, sinal da presença de Cristo na história humana. A Igreja não nasce da perfeição ideal dos seus membros, mas do desígnio de amor de Deus para a humanidade”, Papa Leão XIV, pronunciamento na Praça São Pedro, ao refletir sobre a natureza da Igreja à luz da Constituição dogmática Lumen Gentium, documento do Concílio Vaticano II, em 05/03/2026.

O presente artigo sintetiza aspectos fundamentais sobre o pontificado de Leão XIV, iniciado em maio de 2025. Analisa sua eclesiologia a partir da centralidade da opção pelos pobres, da sinodalidade, do clericalismo e do protagonismo do laicato. Fundamentado em suas principais intervenções — Exortação Apostólica Dilexi Te e Encíclica Magnifica Humanitas — e em fontes como Canção Nova, Vatican News e CNBB, demonstra como Leão XIV consolida a Doutrina Social da Igreja em resposta aos desafios contemporâneos.

Palavras-chave: Leão XIV. Sinodalidade. Laicato. Dilexi Te. Reino de Deus. Clericalismo. Cultura da paz e Civilização do amor.

Introdução

A visão eclesial de Leão XIV destaca-se pela continuidade orgânica com o Concílio Vaticano II e com o magistério do Papa Francisco, seu antecessor, sua formação agostiniana e sua experiência como missionário em um país do Sul Global (Peru) e como Superior da Ordem de Santo Agostinho, porém com enfoque próprio na forma como pretende que a Igreja seja diante dos atuais desafios mundiais.

Seu pontificado pode ser entendido e observado a partir de uma tríade inseparável: Igreja sinodal, samaritana e profética, como manifestação histórica do Reino de Deus.

A Natureza da Igreja: Humana e Divina

Leão XIV retoma Lumen Gentium para afirmar que a Igreja possui dupla dimensão: visível e humana, feita de pessoas reais com alegrias, tristezas, esperanças e pesos cotidianos, e força divina, como sinal visível da ação de Deus no mundo. Desta compreensão decorre uma exigência ética: a comunidade eclesial deve ser espaço seguro, acolhedor e livre de todo abuso — sexual, de autoridade e espiritual — com tolerância zero.

É a eclesiologia do “Para vós sou Bispo, convosco sou cristão” (Santo Agostinho).

O Magistério Social: a Exortação Apostólica Dilexi Te

Primeiro grande marco do pontificado, a Dilexi Te (“Eu te amei”), elaborado a partir do esforço do Papa Francisco nos últimos tempos de sua vida, insere o magistério de Leão XIV na reflexão e pensamento teológico latino-americano, com destaque para os seguintes aspectos: a) Pobreza como estrutura excludente: A pobreza não é fatalidade, mas fruto de modelos econômicos e políticos injustos e opressores, especulação financeira, idolatria do lucro e degradação socioambiental; b) Crítica à falsa meritocracia: O Papa classifica as narrativas que culpabilizam os pobres por sua condição como discursos de “cegueira e crueldade”, desmascarando a meritocracia como falácia; c) Critério de justiça: A legitimidade de qualquer modelo econômico e de desenvolvimento é medida pelo seu impacto real, distribuição justa de seus resultados e respeito à dignidade dos mais frágeis.

O Protagonismo dos Leigos e a Superação do Clericalismo

Este é o núcleo teológico central do pontificado, representado pela dignidade igualitária: Leão XIV desconstrói a definição negativa de leigo como “quem não é padre”. Pelo batismo, todos, clero, religiosos/religiosas e leigos possuem a mesma dignidade intrínseca.

Os leigos não são segunda ou terceira categorias, nem acessórios passivos, mas também discípulos missionários e cumprem um papel importante e fundamental na ação evangelizadora da Igreja.

Missão no mundo:

A verdadeira missão do laicato (leigos e leigas) não ocorre apenas dentro da paróquia, mas no trabalho, nas pastorais, na família, na comunidade, na política, na escola, na economia e nas periferias territoriais e existenciais.

Os papéis mais importantes atribuídos ao laicato dividem-se em três dimensões: a) na dimensão Sinodal (Caminhar Juntos); b) dimensão Samaritana (Igreja Servidora) e c) na dimensão Profética (Testemunho e Transformação estrutural). Em sua dimensão de discípulos missionários, leigos e leigas são o rosto da Igreja em saída no mundo e na história, “sal da terra e luz do mundo”.

Combate ao clericalismo

Desde o magistério do Papa Francisco, a Igreja vem combatendo insistentemente o clericalismo, para quem o mesmo é “uma perversão da Igreja”.

Para Leão XIV, no contexto de uma Igreja Sinodal, “o clericalismo é um desvio de função, que pode se manifestar no clero e no comportamento de leigos que o reforça”. Ele considera que os fiéis leigos e os ministros ordenados possuem a mesma dignidade, alertando contra os extremos do clericalismo e reforça que a imensa maioria do povo de Deus é formada por leigos, a cujo serviço estão o clero, religiosos e religiosas.

O Papa afirma: “na Igreja, a hierarquia existe em função do serviço, não do poder”. O clericalismo se manifesta quando clérigos usam a posição para subjugar consciências, exercitar poder ou cometer abusos. Para combatê-lo, propõe: transparência institucional e cultura de prevenção e do cuidado; do serviço, através do diálogo direto com vítimas e sobreviventes de abusos e intolerância.

A importância da formação do laicato

Tendo em vista os papéis e a importância do laicato na vida da Igreja, Leão XIV insiste, exorta e enfatiza a importância da formação continuada do laicato, tanto nos aspectos gerais quanto na dimensão teológica como vocação universal, gerando pensamento crítico para neutralizar a indiferença, evitar tanto a passividade do leigo quanto sua clericalização.

A Igreja Sinodal, Samaritana e Profética como Manifestação do Reino de Deus na história humana

Para Leão XIV, estas três dimensões são fundamentais, interligadas, inseparáveis e, ao mesmo tempo, a forma concreta da presença do Reino de Deus na história humana.

Igreja Sinodal (Caminhar Juntos): Não é método burocrático, mas modo de vida e uma forma concreta de evangelização; implica corresponsabilidade eclesial, exercício do Sensus Fidei pelos leigos nos conselhos pastorais e transformação de tensões em discernimento comum e supera a dependência exclusivista de estruturas centralizadas no clero.

Igreja Samaritana (Servidora e Acolhedora): Inspirada na dimensão de uma Igreja Samaritana, defende ações pastorais solidárias, acolhedoras e sem julgamentos prévios.

Cabe aos leigos, coração das pastorais sociais, estender a mão aos vulneráveis, pobres e excluídos, ir às periferias territoriais e existenciais, como favelas, prisões, hospitais, mundo do trabalho, pessoas e grupos em crises existenciais ou emocionais, onde a estrutura clerical muitas vezes não consegue chegar.

Igreja Profética (Testemunho e Transformação): Exige formação sólida na Doutrina Social, nos Direitos Humanos e na Ecologia Integral, para denunciar as estruturas que geram injustiças, fome, pobreza, miséria e violência e propor soluções estruturais, superando o mero assistencialismo voluntarista.

Uma Igreja profética manifesta-se na coragem de dialogar com novos tempos, inclusive a Inteligência Artificial, como proposto na Encíclica Magnifica Humanitas e na Exortação Apostólica Dilexi Te.

O Reino de Deus na História Humana

Leão XIV rejeita visão espetacular e de poder. Apoiado nas parábolas do grão de mostarda, fermento e trigo e joio, ensina que o Reino de Deus cresce de forma silenciosa, humilde e paciente, a partir de dentro, pelo amor e misericórdia.

A história é campo onde coexistem o bem e o mal. Em Magnifica Humanitas: sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, alerta que a humanidade deve escolher entre erguer uma nova “Torre de Babel” (fechamento autorreferencial, tecnocrático e instrumento de poder e domínio) ou construir a “cidade onde Deus e a humanidade habitem juntos”.

A cultura da Paz e Civilização do Amor

Este é o aspecto central do magistério de Leão XIV, detalhado na Encíclica Magnifica Humanitas, insistindo na necessidade de uma transição de uma cultura do poder, domínio e opressão para uma cultura da paz como resposta à desumanização e automação dos conflitos.

Na sinodalidade, ele insiste na paz desarmada e desarmante, que é tecida pela escuta mútua e pelo diálogo amplo, inclusive ecumênico e inter-religioso, desarmando palavras e superando narrativas amigo-inimigo pelo espírito da fraternidade e da não violência.

A cultura da paz, base para a civilização do amor, deve estar na base de todas as nossas relações: na família, na Igreja, no mundo do trabalho, na escola, na comunidade, na política e nas relações internacionais.

Na dimensão samaritana, Leão XIV insiste na superação da indiferença técnica e da idolatria do lucro, verdadeiros “bezerros de ouro”, assumindo o “olhar das vítimas” da violência e da exclusão econômica, social e política, oferecendo perdão e reconciliação.

Na dimensão profética, insiste na denúncia da indústria bélica (complexo industrial militar) e do comércio da desinformação e violência institucional.

Leão XIV insiste e exorta em relação à necessidade da superação definitiva da teoria da “guerra justa”, pois a paz não é apenas a ausência de guerra, mas “fruto da justiça, do diálogo e do amor”, e isto exige desarmar os corações e responsabilizar quem cria tecnologias destrutivas, a serviço do mal, bases da economia da morte.

Considerações Finais

Leão XIV propõe uma Igreja em saída, rumo às periferias territoriais e existenciais, onde leigos e leigas, engajados/engajadas, formados e com espírito crítico e coragem são os principais agentes de transformação estrutural, na busca de um mundo de fraternidade, justiça e dignidade humana, ligando fé, cidadania, espiritualidade libertadora, justiça social e defesa da Casa Comum, em prol das atuais e futuras gerações.

Sua visão do Reino de Deus na história humana articula ecologia integral, opção preferencial pelos pobres, defesa de todas as formas de vida, inclusive e, principalmente, da vida humana, e sinodalidade, cuidado e profetismo, convocando a Igreja a ser sinal visível e histórico do amor de Deus por todos os seres humanos, no cotidiano da sociedade.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

 

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