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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Por Danilo de Souza*
Durante grande parte da história moderna, os Sapiens passaram a enxergar-se como algo separado da natureza. Essa transformação não ocorreu de forma repentina. Foi resultado de séculos de construção filosófica, religiosa, econômica e “científica” que consolidaram uma ideia poderosa: a de que os Sapiens ocupam uma posição singular no planeta e, por isso, não estariam submetidos às mesmas limitações que condicionam as demais espécies.
Essa visão, que a sociologia ambiental contemporânea passou a denominar excepcionalismo humano, sustenta que a sociedade humana existe de forma independente dos ecossistemas que a sustentam. A natureza seria fornecedora de recursos, absorvedora de resíduos e prestadora de serviços ambientais, mas a trajetória humana seria determinada principalmente pela cultura, pela economia, pela política e pela tecnologia. A biosfera, nesta perspectiva, aparece como um cenário externo à história humana, e não como sua condição fundamental de existência. Assim, esta visão gerou uma consequência profunda: a tendência a enxergar os limites ecológicos como obstáculos temporários que poderão ser superados por novas tecnologias.
No setor energético, esta crença é recorrente. Quando discutimos escassez de recursos, mudanças climáticas ou impactos ambientais, a resposta quase sempre se relaciona a alguma inovação tecnológica futura. Se houver escassez de petróleo, haverá novas fontes de energia. Se as emissões crescerem, haverá captura de carbono. Se a eletrificação aumentar a demanda por minerais críticos, encontraremos substitutos ou novas formas de exploração. Essa confiança na capacidade humana de adaptação é compreensível e, em certa medida, justificada pela própria história do desenvolvimento tecnológico. O problema surge quando ela se transforma na crença de que as leis ecológicas e biofísicas deixaram de existir.
Para compreender melhor essa questão, é útil observar a figura abaixo. Nela, os sistemas naturais e os sistemas humanos aparecem como entidades distintas, cada qual com seus próprios processos internos, conectados por mecanismos de acoplamento e interação. A representação é extremamente útil para demonstrar as influências mútuas entre a sociedade e a natureza. Entretanto, ela também mostra uma das marcas mais profundas do pensamento moderno: a ideia de que há dois sistemas separados que interagem entre si.
A crítica formulada por autores como William Catton, Riley Dunlap, Herman Daly, Carl Folke, Johan Rockström e Vaclav Smil vai além dessa interpretação. Para esses pesquisadores, o problema é que, além da necessidade de compreender as interações entre sociedade e natureza, precisamos reconhecer que a própria separação entre ambas é artificial. O sistema humano não existe fora da natureza. A economia não existe fora da biosfera. A política não existe fora das restrições impostas pela disponibilidade de energia, de materiais e de água, e pela estabilidade climática. A sociedade é, em última instância, um subsistema inserido em um sistema ecológico muito maior.
Essa constatação parece óbvia quando observamos os organismos vivos. Nenhum animal existe fora dos fluxos de energia e de matéria que sustentam os ecossistemas. Nenhuma espécie está desconectada dos ciclos biogeoquímicos que regulam a disponibilidade de nutrientes, de água e de condições ambientais. Entretanto, quando passamos a analisar fenômenos sociais, frequentemente abandonamos essa lógica. A pobreza passa a ser discutida apenas como um problema econômico ao longo de toda a história humana. O crescimento é tratado como uma variável financeira. A urbanização é compreendida como um processo essencialmente social. A segurança energética é reduzida a uma questão tecnológica. Em muitos casos, as bases biofísicas que sustentam todos esses fenômenos desaparecem do debate.
Talvez esse seja um dos aspectos mais curiosos da modernidade. A sociedade desenvolveu uma extraordinária capacidade de compreender sistemas complexos, mas frequentemente analisa os fenômenos humanos como se estivessem parcialmente desvinculados de sua base ecológica. O resultado é a fragmentação do conhecimento. As ciências sociais estudam a sociedade. As ciências naturais estudam a natureza. As engenharias estudam as tecnologias. E, muitas vezes, perde-se a compreensão de que todos esses elementos fazem parte de um mesmo sistema.
Essa desconexão se manifesta em diversos campos. Na economia, a riqueza é medida predominantemente por indicadores monetários, enquanto a degradação dos sistemas naturais costuma ser tratada como uma externalidade. Na política, os debates priorizam legitimamente emprego, renda, inflação e crescimento econômico, mas raramente discutem com a mesma intensidade a estabilidade climática, a disponibilidade hídrica ou a resiliência ecológica que tornam possível a própria atividade econômica. Na educação, a história costuma ser apresentada como uma sucessão de eventos humanos, com pouca atenção ao papel da energia, dos recursos naturais e das transformações ambientais na formação das civilizações, como por exemplo, falar em revolução industrial sem abordar o carvão e o petróleo como elemento possibilitante desta transformação.
As cidades oferecem outro exemplo emblemático. Frequentemente são apresentadas como espaços artificiais, independentes da natureza. Entretanto, nenhuma cidade produz sua própria água, seu próprio alimento, seus próprios materiais ou sua própria estabilidade climática. As áreas urbanas apenas tornam invisíveis os sistemas ecológicos dos quais dependem. Quanto mais sofisticada a infraestrutura, maior tende a ser essa ilusão de autonomia.
No campo energético, essa reflexão ganha especial importância. A energia é, talvez, a manifestação mais evidente da dependência humana em relação aos sistemas naturais. Toda sociedade depende de fluxos energéticos para produzir alimentos, movimentar mercadorias, construir infraestrutura, transportar pessoas e sustentar atividades econômicas. Os recursos energéticos podem mudar ao longo do tempo, mas a dependência física permanece.
A própria transição energética ilustra essa realidade. A substituição dos combustíveis fósseis por fontes de baixo carbono representa uma transformação tecnológica extraordinária e necessária. Contudo, ela não elimina a materialidade dos sistemas energéticos. Painéis fotovoltaicos exigem silício, alumínio, cobre e vidro. Aerogeradores exigem aço, concreto e minerais críticos. Baterias exigem lítio, níquel, grafite e cobalto. Redes elétricas exigem enormes quantidades de materiais, energia e território. Em outras palavras, a transição energética altera os fluxos materiais e energéticos da sociedade, mas não elimina sua dependência da biosfera.
Talvez seja justamente esse o principal avanço teórico construído a partir do debate em torno da sustentabilidade. Durante décadas, o debate energético concentrou-se em garantir a oferta, a confiabilidade e os custos competitivos. Esses objetivos continuam fundamentais. Entretanto, os desafios contemporâneos exigem uma visão mais ampla. Sustentabilidade não significa apenas utilizar tecnologias mais eficientes ou reduzir as emissões. Deveria reconhecer que a economia está inserida na sociedade e que esta é apenas um dos subsistemas da biosfera.
Essa percepção não reduz a importância da tecnologia. Pelo contrário. Ela permite compreender seu verdadeiro papel. A inovação tecnológica pode ampliar os limites, aumentar a eficiência, reduzir os impactos e melhorar a qualidade de vida. O que ela não pode fazer é eliminar a dependência humana dos processos biofísicos que sustentam a vida.
Ao discutir energia, sustentabilidade e desenvolvimento, talvez a pergunta mais importante não seja qual tecnologia desenvolveremos nas próximas décadas. Talvez a questão fundamental seja outra: continuaremos a enxergar a sociedade como algo separado da natureza ou passaremos a reconhecê-la como parte inseparável dela?
Para os leitores interessados em aprofundar essa discussão, recomenda-se a leitura do artigo "Conceptualizing Human–Nature Relationships: Implications of Human Exceptionalist Thinking for Sustainability and Conservation", de Kim et al., publicado na revista Topics in Cognitive Science (2023). O trabalho apresenta uma análise abrangente do conceito de excepcionalismo humano, suas origens cognitivas e culturais, e suas implicações para a sustentabilidade, a conservação ambiental e a formulação de políticas públicas, complementando e aprofundando as reflexões deste texto.
OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".
*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente (IEE/USP).












