Terça, 18 Novembro 2025 11:25

A QUINTA REVOLUÇÃO ENERGÉTICA DOS SAPIENS - O DOMÍNIO DOS ESTOQUES - Danilo de Souza

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Por Danilo de Souza*



 

            Se o domínio dos fluxos naturais (vento e água) representou a consolidação de uma civilização capaz de domesticar para mover a produção com as forças da natureza, a quinta revolução energética dos Sapiens marcou uma ruptura ainda mais profunda. Trata-se da passagem do uso de fontes renováveis de fluxo para a apropriação de estoques de energia acumulados ao longo de milhões de anos. Foi o momento em que a humanidade aprendeu a extrair da crosta terrestre as reservas concentradas de energia fóssil, como carvão, petróleo e gás natural, e, com elas, inaugurou a era industrial e o paradigma do crescimento acelerado.
            Vale lembrar que, até o limiar do século XVIII, a trajetória civilizatória dos Sapiens esteve ancorada em fontes derivadas direta ou indiretamente do sol: biomassa vegetal, tração animal e forças hidráulicas e eólicas. Toda a produção de bens, alimentos e meios de transporte dependia de ciclos naturais de reposição contínua. Essa matriz de fluxos impunha limites físicos claros ao ritmo de expansão das sociedades. A descoberta e a exploração sistemática de estoques subterrâneos, como produtos fossilizados da fotossíntese pretérita, romperam esses limites.

 

MENZEL, Adolph. The Iron Rolling Mill (Modern Cyclopes). 1875. Óleo sobre tela, 158 × 254 cm. Alte Nationalgalerie, Berlim. Disponível em: https://www.smb.museum/en/museums-institutions/alte-nationalgalerie/home/. Acesso em: 8 nov. 2025.

 

            A história da metalurgia sintetiza esse salto. Durante milênios, o trabalho do ferro, do cobre e do bronze esteve restrito à disponibilidade de carvão vegetal, combustível escasso e de difícil transporte. Entretanto, as florestas não conseguiam mais sustentar o apetite das forjas. O carvão mineral e depois o coque permitiram atingir as temperaturas necessárias para alimentar os altos-fornos e multiplicar a produção de ferro e aço. Sem ele, a Revolução Industrial não teria passado de um esboço.
            Nesse sentido, o domínio dos estoques substituiu fontes sazonais e dispersas por uma energia densa, concentrada, contínua e armazenável. Com o carvão vieram as máquinas a vapor, as locomotivas, as minas profundas e as fundições. A termodinâmica emergiu como ciência e tornou-se a linguagem da civilização moderna.
            A alta densidade energética do carvão mineral, sendo de 25 a 30 MJ por quilograma, dez vezes superior à da madeira, proporcionou um salto civilizatório sem precedentes, libertando o trabalho humano dos ritmos naturais e permitindo a produção contínua, independente do sol, do vento ou da água. Na Inglaterra do final do século XVIII, onde se reuniam abundância de carvão, portos acessíveis, capital e inovações técnicas, consolidou-se um novo sistema produtivo que transformou profundamente a sociedade: a industrialização, que não se resume à revolução técnica, marcou o início de uma era em que a energia se tornou autônoma dos ciclos naturais, possibilitando um brutal aumento da produtividade do trabalho.
            De se notar que, durante quase 300 mil anos, a população dos Sapiens manteve-se em níveis reduzidos, crescendo lentamente de algumas dezenas de milhares de indivíduos até alcançar o primeiro bilhão por volta de 1800. Foram centenas de milênios até esse marco inicial. No entanto, em apenas dois séculos, precisamente o período em que a humanidade passou a explorar de forma intensiva os estoques de carvão, petróleo e gás, essa cifra se multiplicou por oito, chegando aos atuais oito bilhões de habitantes. Obviamente, esse salto demográfico não pode ser explicado apenas por avanços médicos, sanitários ou tecnológicos, mas, sobretudo, pela expansão energética proporcionada pelos estoques fósseis. Foi o acesso a essa energia densa e concentrada que permitiu a produção em massa de alimentos, a mecanização da agricultura, o transporte de grandes volumes e a industrialização global. A energia dos estoques ampliou a capacidade humana de transformar matéria, sustentar aglomerações urbanas e organizar sociedades cada vez mais complexas, redefinindo o metabolismo social e biológico dos Sapiens.
            Importa destacar que o século XX ampliou o domínio dos estoques. O petróleo, combustível líquido e versátil, substituiu o carvão e tornou-se a base da civilização moderna. Navios, automóveis e aviões redefiniram o espaço e o tempo, conectando o planeta. A petroquímica, por sua vez, abriu fronteiras na produção de plásticos, fertilizantes e fármacos.
            A energia dos estoques transformou o próprio conceito de riqueza e poder. O capital passou a ser medido por toneladas de carvão e barris de petróleo, enquanto o capitalismo industrial nascia do casamento entre motor e combustível. Como analisa Alfred Crosby (2006), em Children of the Sun: A History of Humanity’s Unappeasable Appetite for Energy, a industrialização representou o momento em que os Sapiens expandiram de forma sem precedentes sua “fome energética”, um impulso civilizatório que, a cada novo estoque explorado, exigia outro ainda maior, tornando o crescimento econômico e populacional dependente da exploração contínua das reservas fósseis do planeta.
            Essa abundância, contudo, teve um preço. Se nas revoluções anteriores a energia era limitada pela natureza, na era dos estoques o limite passou a ser o planeta. A queima massiva de combustíveis fósseis alterou o equilíbrio termodinâmico da atmosfera, elevando a concentração de dióxido de carbono e modificando o clima global. 
            Do ponto de vista social, a quinta revolução energética produziu ambivalências. Libertou parte da humanidade do trabalho físico e multiplicou o conforto, mas também ampliou desigualdades e consolidou economias baseadas na exaustão de recursos finitos. A era que pode ser denominada de capitalismo industrial nasceu ancorada no controle global de energia e matéria. O acesso aos estoques passou a definir o poder das nações e o destino das guerras.
            A industrialização baseada em estoques alterou a relação simbólica dos Sapiens com a natureza. Se antes predominava a ideia de convivência, cultivar, aproveitar, direcionar, agora se consolidou a lógica da extração e do domínio. O subsolo converteu-se em horizonte energético e em metáfora de poder. Extrair passou a significar progresso. 
            Nessa perspectiva, o domínio dos estoques, assim, foi simultaneamente libertador e aprisionante: libertador por romper os limites impostos pelos fluxos naturais; aprisionante por criar uma dependência estrutural de fontes não renováveis, cujas consequências ambientais e sociais são desafiadoras. 
            Hoje, compreendemos que essa revolução inaugurou tanto a era do crescimento exponencial quanto a do risco existencial. A abundância de energia fóssil permitiu avanços científicos e tecnológicos sem precedentes, mas trouxe consigo o desafio de reconstruir o elo entre energia, economia e ecossistema.
 
 
 
OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".



*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT e pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente IEE/USP.

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