Sexta, 20 Fevereiro 2026 10:49

“ACABOU O NOSSO CARNAVAL...” - Roberto Boaventura

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Docente aposentado da UFMT
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            Em 2002, semanas antes de Lula ter sido eleito presidente da República pela primeira vez, defendi uma tese na Eca/USP sobre a campanha eleitoral de 89, quando o ex-operário/ex-sindicalista perdera o pleito para Collor, um empresário da comunicação e declarado representante das elites. Assim que os trabalhos da minha defesa foram encerrados, um dos docentes da banca examinadora, que, por coincidência, era assessor de Lula na campanha eleitoral então em curso, me perguntou se, em caso de vitória petista, minha tese teria a mesma aplicabilidade.
            Sim. Respondi.
            O professor, doravante, identificado por K, sem se despedir de ninguém, retirou-se da sala, não me deixando sequer explicar que o meu “sim” tinha como lastro e ponto de partida a “Carta ao Povo Brasileiro”, assinada por Lula, em junho/2002, assegurando que, em caso de sua vitória, os contratos nacionais e internacionais seriam respeitados. Leia-se: submissão às cartas dadas pelo capital.
            Assim, sem nunca atrapalhar interesses das elites e, como contrapartida, para o povão, oferecer políticas compensatórias, como as cotas, p. ex., que jamais mexerão em estruturas sociais, Lula, com as benções e (a)braços do status quo, foi eleito por mais duas vezes; agora, almeja o quarto mandato. Sendo assim, ao invés da esperança, na verdade, foi aquela assinatura – que continua a ter valor de “palavra empenhada”, bem como ter tido como seu vice um empresário (José Alencar) – o que, de fato, venceu o medo. O resto é material pra jingle de campanha ou para algum novo samba-enredo no porvir.
            Mas por que o professor K me fez aquela pergunta, já fora da arguição?
            Penso que esperava por uma resposta negativa que o mantivesse crendo no PT e em seu mito mor, prestes a se tornar, como de fato ocorreu, presidente da República.
            De minha parte, o que defendi que instigou a curiosidade política de K?
            Começo respondendo pelo título de meu trabalho: “A Revista Veja na Campanha Eleitoral de 1989: anúncios publicitários como extensão de textos jornalísticos”.
            Para contextualizar, o motivo desse meu trabalho surgiu por conta de um anúncio da Philips, em Veja de 30/04/86, ano do início da Constituinte/88. Ali, apresentava-se a lâmpada a vapor sódio (Son Phillips). Em seu título, à lá fake news de bolhas hodiernas, sem nenhum dado concreto, lia-se: “O prefeito da esquerda gasta mais que o da direita”.
            No texto explicativo do “produto lâmpada”, havia indução ao voto a candidatos da direita. Detalhe: em 86, o país elegeu, além de governadores, os senadores e deputados federais que elaboraram nossa atual Constituição; logo, o termo “prefeito” foi o despiste às leis para induzir os (e)leitores a votarem em políticos conservadores.
            Em suma, defendi que a mídia brasileira, com destaque à Veja e à Globo, em 89, escolhera Collor de Mello – um falso “caçador de marajás”, envolto ao cinismo moral – para derrotar o lulopetismo. Para isso, esses veículos – com base na recorrente tríade “Deus/Pátria/Família”, essência do conservadorismo, que escalou para o golpismo – serviram como norteadores de ações por parte de praticamente todos da elite.
            De sua parte, a publicidade inaugurava nova forma de atuação discursiva, nutrindo-se das pautas jornalísticas para promover primorosas peças, não publicitárias stricto sensu, mas de propaganda eleitoral, e sem que assim fosse identificada; logo, antes, ou mais do que vender um produto, pretendia-se impor uma ideia, um estilo de vida, uma opção político-partidária, um determinado candidato. O jogo foi pesado. Desonesto.
            Como exemplo disso, destaco o anúncio/propaganda da Biocolor: “Vamos colorir este país”, numa referência direta a Collor. Neste caso, por conta de enunciado inequivocamente explícito, o TSE impediu sua continuidade. Todavia, outros tantos anúncios continuaram a atuar na mesma agenda conservadora, mas com sutilezas discursivas (verbais e não verbais) que só análises muito cuidadosas poderiam auxiliar o (e)leitor a compreender o complexo processo de indução subjetiva. Em suma, a persuasão passou a ser feita de forma sofisticadíssima; e a sofisticação, por ser sutil, é sempre mais eficaz do que o dito de forma explícita.
            E, aqui, “entro” no desfile da Acadêmicos de Niterói, que, ao homenagear Lula, impôs ao país discussões que passariam sem bocas no trombone. Agora, não dá mais, pois, como é materializado num intertexto – à lá Chico Buarque –, já passou “...nessa avenida mais um samba popular”; aliás, este é um dos únicos versos poeticamente bem elaborados no “samba-enredo” daquela escola. Nos demais, salvo uma ou outra alusão pouco mais criativa, tudo se encontra no plano do referencial/denotativo, como nas crônicas históricas, só que tudo disposto em versos, ainda que de rimas tão pobres quanto previsíveis. Claro que para algum “crítico” mais apaixonado, a própria pobreza dos versos e das rimas poderia estar dialogando com a origem do homenageado. De qualquer forma, paradoxalmente, essa fragilidade poética não tirou a beleza da criação do empolgante “samba-enredo”, que, reafirmo, não passa de uma bela e bem elaborada crônica histórica.
            Mas essa beleza, sendo predominantemente denotativa, e não conotativa, como deveria ser, pois letras musicais estão no mesmo balaio de poemas propriamente ditos, levou a escola ao explícito em todos os demais quesitos; assim, metáforas visuais cederam lugar a encenações primárias e apelativas, a começar pela segunda parte da Comissão de Frente: artisticamente, um teatro de segunda linha. O rebaixamento era previsível.
            Indignada, em sua autodefesa, a Acadêmicos está dizendo que “a arte não é para os covardes”.
            Concordo e ainda acrescento: nem para aventureiros, principalmente quando o financiamento tem quinhão do erário. E só para arrematar, não há arte de qualidade que se sustente no plano da denotação, do referencial; e faltou conotação à Acadêmicos; logo, faltou-lhe o essencial: o artístico. E se lhe faltou a essência naquele desfile, ao que, exatamente, assistimos?
            Para manter minha coerência, que tento mantê-la em quaisquer circunstâncias, e me lembrando novamente do questionamento do professor K, respondo dizendo que o desfile da Acadêmicos de Niterói está na mesma lógica do anúncio da Biocolor, acima comentado, mas com muito mais abrangência de público atingido. Assim, em algum momento, por meio de alguma medida, por menor que seja, o TSE terá de se posicionar, até para a manutenção de algum verniz às leis eleitorais vigentes, pois, se esteve ausente o predomínio da subjetividade da arte, sobrando manifestações referenciais, algo foi apresentado para além de uma homenagem artístico-cultural a alguém.
            Mas pasmem!!! Tudo poderia ter sido pior! Não foi porque a direção editorial da Globo, em protocolo especial, solicitou aos profissionais envolvidos na transmissão que evitassem mostrar e/ou comentar qualquer gesto explícito que pudesse ser caracterizado como propaganda política; que os planos abertos, como os de sobrevoos de drones ou da câmera em plongée, prevalecessem sobre os closes e sobre os planos em contra-plongée. Agora, realmente, quem quiser pode dizer: “isso (e também aquilo) a Globo não mostra”.
            No caso, não mostrou mesmo, o que, aliás, é condenável em termos de trabalhar com a realidade. Seja como for, sorte de Lula. Sorte do PT. Sorte de todos aqueles, dentre os quais me incluo, que não gostariam de ver de volta à presidência da República alguém que possa representar o extremismo da direita golpista deste país, afinal, como dizem Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, “acabou o nosso carnaval...// E, no entanto, é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar...”



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