Sexta, 24 Abril 2026 14:25

SEM BALANÇO ENERGÉTICO, NÃO HÁ PLANEJAMENTO ENERGÉTICO - Danilo de Souza

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O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, uma imagem sólida no cenário energético internacional. Somos frequentemente citados como um país com elevada participação de fontes renováveis, com uma matriz diversificada e relativamente limpa quando comparada à de outras grandes economias. Essa leitura, embora correta em muitos aspectos, esconde uma fragilidade estrutural que raramente surge no debate público. Ela se apoia em uma visão agregada do sistema energético, mas revela pouco sobre o que, de fato, acontece no território brasileiro. Quando abandonamos a escala nacional e passamos a observar o país a partir dos seus estados, surge uma realidade muito mais desigual, fragmentada e, em muitos casos, preocupante.


O sistema energético não opera como uma abstração chamada "Brasil". Ele se materializa nos territórios, nas cadeias produtivas regionais, nas características locais de oferta e demanda e nas decisões tomadas em nível estadual. Cada estado possui uma lógica energética própria, moldada por sua estrutura econômica, pela disponibilidade de recursos naturais, pela geografia e pelo perfil de consumo da população. Ignorar essa diversidade é, na prática, comprometer a qualidade do planejamento energético. E é justamente nesse ponto que se encontra um dos principais desafios do país: grande parte dos estados brasileiros não possui um retrato estruturado da própria realidade energética.

Os Balanços Energéticos Estaduais (BEEs) foram concebidos especificamente para desempenhar essa função. Eles organizam, de forma sistemática, as informações sobre produção, transformação e consumo de energia, permitindo compreender como a energia entra, circula e é utilizada em um território. São instrumentos que revelam os fluxos energéticos, identificam as cadeias de transformação, quantificam os estoques, apontam perdas e permitem avaliar o comportamento da demanda em diferentes setores econômicos. Em outras palavras, são ferramentas que transformam dados dispersos em conhecimento estruturado, fundamentais para a tomada de decisão.

Apesar dessa importância, observa-se no Brasil uma lacuna significativa na produção desses instrumentos. Mais da metade dos estados não possui um balanço energético disponível, e apenas uma pequena parcela mantém esse documento atualizado de forma contínua. Isso significa que, em grande parte do território nacional, decisões energéticas são tomadas sem uma base de informações consistente, o que limita a capacidade de planejamento, reduz a eficiência das políticas públicas e aumenta o risco de investimentos mal direcionados.

Para tornar essa realidade mais clara, a Figura apresenta um mapa do Brasil, classificando os estados em quatro grupos, de acordo com o nível de atualização de seus balanços energéticos. Essa classificação permite compreender, de forma direta, o grau de maturidade institucional dos estados na gestão de dados energéticos. O grupo G1 reúne aqueles que possuem balanços atualizados, com dados recentes e produção contínua, demonstrando capacidade institucional consolidada e reconhecimento da importância da informação no planejamento. O grupo G2 contempla os estados que possuem balanços com algum atraso, ainda capazes de fornecer uma leitura relativamente útil da realidade, mas que já apresentam perda de precisão ao longo do tempo. O grupo G3 representa uma situação mais crítica, com balanços significativamente defasados, frequentemente com mais de uma década de atraso, o que compromete sua utilidade prática. Por fim, o grupo G4 concentra os estados em situação mais preocupante, em que o balanço energético simplesmente não existe ou está indisponível à consulta pública.


Essa distribuição revela a geografia da informação energética no Brasil. Estados das regiões mais desenvolvidas tendem a apresentar maior regularidade na produção desses documentos, enquanto outras regiões concentram a maior parte dos casos críticos. Essa desigualdade não é apenas uma questão administrativa. Ela reflete diferenças na capacidade de planejamento, na estrutura institucional e na prioridade atribuída à gestão da informação energética.

A implicação mais relevante desse cenário é direta e inevitável. Não é possível planejar adequadamente o que não se conhece. E isso se torna ainda mais crítico quando inserimos essa discussão no contexto da transição energética.

A transição energética é frequentemente tratada como uma mudança de fontes, com substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis. No entanto, essa visão é simplificada. A transição envolve uma transformação estrutural do sistema energético, que inclui mudanças nos padrões de consumo, na organização da oferta, na infraestrutura de redes, nos mecanismos de armazenamento e na integração entre diferentes fontes. Trata-se de um processo complexo, que exige coordenação, planejamento e, acima de tudo, conhecimento detalhado do sistema.

Nesse contexto, a pergunta que precisa ser feita é simples, mas incômoda. Como fazer transição energética sem conhecer os fluxos energéticos? Como planejar a expansão de fontes renováveis sem saber onde estão as demandas, quais setores consomem mais energia e como essa energia é utilizada? Como estruturar políticas de eficiência energética sem identificar onde estão as perdas? Como atrair investimentos sem demonstrar, com dados consistentes, o potencial energético de um território?

Sem essas respostas, a transição energética deixa de ser um processo planejado e passa a ser um conjunto de iniciativas desconectadas. E iniciativas desconectadas tendem a ser menos eficientes, mais caras e menos eficazes no longo prazo.

O Balanço Energético Nacional, coordenado pela Empresa de Pesquisa Energética, desempenha papel fundamental ao organizar a visão macro do sistema energético brasileiro. Ele permite compreender o país como um todo, identificar tendências gerais e orientar políticas de grande escala. No entanto, ele não substitui os balanços estaduais. Pelo contrário, depende deles para alcançar maior precisão. Enquanto o nível nacional apresenta a média, os estados revelam as diferenças. E é nas diferenças que estão os desafios reais e as oportunidades concretas.

Ter um balanço energético estadual significa conhecer os próprios fluxos, entender as centrais de transformação, mapear os estoques, identificar perdas e, principalmente, levantar potenciais. Potenciais de geração, de eficiência, de substituição tecnológica e de desenvolvimento econômico. Esse conhecimento permite que o Estado deixe de ser reativo e passe a atuar de forma estratégica, antecipando problemas e estruturando soluções mais adequadas à sua realidade.
A ausência desses instrumentos compromete o planejamento energético, e a integração com outras políticas públicas. Energia está diretamente relacionada ao desenvolvimento regional, ao uso do solo, à logística, à política industrial e à sustentabilidade ambiental. Sem dados estruturados, essa integração se torna limitada, o que dificulta a construção de estratégias mais amplas e consistentes.

Existe ainda uma dimensão institucional relevante. A produção dos balanços energéticos estaduais não é obrigatória e depende da iniciativa de cada estado. Isso explica a heterogeneidade observada no país. Alguns estados conseguiram institucionalizar o processo, garantindo a continuidade e a qualidade das informações. Em outros casos, a ausência de estrutura ou de prioridade faz com que o balanço simplesmente não exista. Esse cenário revela que o desafio não é técnico, e sim institucional. O Brasil possui capacidade técnica para produzir balanços de alta qualidade. O que falta é transformar essa produção em política de Estado, garantindo continuidade, padronização e transparência.

No fim das contas, a questão central é menos complexa do que parece. O Brasil não precisa apenas de mais energia. Precisa de um melhor entendimento da energia que já possui. Precisa conhecer seus fluxos, suas cadeias de transformação, seus estoques e seus potenciais. Precisa transformar dados em informação e informação em estratégia.

A transição energética não começa nas usinas, nem nas tecnologias, nem nos investimentos. Ela começa pela compreensão do sistema. E essa compreensão, em um país de dimensões continentais, necessariamente passa pelos estados. Sem balanços energéticos estaduais, o Brasil continuará planejando no escuro. Com eles, terá condições de elaborar um planejamento mais preciso, eficiente e alinhado à realidade de cada território.

OBS: O conteúdo apresentado neste artigo deriva de um estudo mais amplo intitulado “Análise da Produção dos Balanços Energéticos Estaduais no Brasil: Lacunas, Desafios e Perspectivas”, desenvolvido por William Carlos da Silva, Leonan Josefer Saldanha Albues da Silva, Ivo Leandro Dorileo, Hédio Tatizawa e Danilo Ferreira de Souza, atualmente em vias de publicação na revista Estudos Avançados.
 OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".


*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente (IEE/USP).

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