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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

“Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas, antes de tudo, é a humanidade que precisa mudar. Falta a consciência duma origem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos. Esta consciência basilar permitiria o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração”. Papa Francisco, Encíclica Laudato Si', Vaticano, 2015.

“Já se passaram oito anos desde a publicação da carta encíclica Laudato Si, quando quis partilhar com todos vós, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa casa comum. Mas, com o passar do tempo, dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe está-se esboroando e talvez aproximando-se dum ponto de ruptura. Independentemente desta possibilidade, não há dúvida de que o impacto da mudança climática prejudicará cada vez mais a vida de muitas pessoas e famílias. Sentiremos os seus efeitos em termos de saúde, emprego, acesso aos recursos, habitação, migrações forçadas e noutros âmbitos”. Papa Francisco, 04/10/2023, na Exortação Laudate Deum, mensagem endereçada aos participantes da COP 28.

Promover uma educação ambiental radical envolve ir além de ações superficiais de reciclagem ou outras práticas de natureza mitigadora, mas sim ações com o objetivo de uma transformação mais profunda, focando nos comportamentos, nas atitudes, na mentalidade, nos valores, nos estilos de vida e, também ou principalmente, nas estruturas culturais, sociais, econômicas e políticas para enfrentar a crise ecológica, a cada dia mais grave, com consequências mais trágicas.

Por isso, também o Papa Leão XIV tem insistido que é preciso mudar as estruturas que geram a pobreza e a degradação ecológica e tem condenado o que seu antecessor (Papa Francisco) insistia dizendo tanto na “economia que mata”.

Neste sentido, a educação ambiental radical aproxima-se ou até mesmo passa a ser instrumento de “Conversão Ecológica”, mencionada e enfatizada pelo Papa Francisco na Encíclica Laudato Si'.

A conversão ecológica na Encíclica “Laudato Si”, prestes a completar onze anos de publicação no dia 24 deste mês de maio de 2026, é um chamado para uma transformação profunda nos corações, mentes, atitudes, comportamentos, enfim, no estilo de vida e nos sistemas econômicos que não respeitam a natureza, reconhecendo nossa contribuição para a crise socioambiental.

Não é apenas uma mudança técnica ou tecnológica, o chamado paradigma tecnocrático, mas um compromisso cristão mais profundo, de amor e da cidadania ecológica para um melhor cuidado com a “casa comum”, superando o consumismo, o desperdício, a degradação do planeta e a nossa indiferença diante da crise socioambiental e climática que estamos presenciando e sofrendo suas consequências.

Isso implica uma abordagem pedagógica, social, cultural, econômica, política e ética que questione os modelos, modos de produção e as relações de trabalho e de consumo/consumismo atuais.

Neste contexto, tanto os conceitos de conversão ecológica quanto os de educação ambiental/ecológica radical ou libertadora aproximam-se de dois outros conceitos tão enfatizados pelo Papa Francisco: economia da morte e economia da vida (Economia de Francisco e Clara).

Antes, porém, é fundamental identificarmos alguns aspectos importantes do conceito de conversão ecológica, entre os quais podemos mencionar: integração espiritual e ética, pois a conversão ecológica exige uma revisão profunda do estilo de vida, entendendo que o cuidado com o meio ambiente, com a natureza, é inseparável da dignidade humana, da justiça social, da justiça climática e dos direitos humanos e dos direitos das futuras gerações (justiça intergeracional).

Da mesma forma, é importante e fundamental termos em mente a dimensão da interconexão ou interligação entre todas as dimensões do viver humano e das relações entre natureza e humanidade, daí a ênfase de que “tudo está interligado”: fatores físicos, químicos, biológicos, sociais, políticos, econômicos e culturais. A degradação ambiental reflete também a degradação humana e as estruturas do pecado ecológico.

Outro aspecto a ser considerado é que precisamos, de fato, de uma grande mudança de paradigmas e, neste sentido, é imperioso rejeitar o paradigma tecnocrático e antropocêntrico, adotando uma “ecologia integral” que valoriza cada criatura e prioriza os mais frágeis, tendo sempre presente que “o gemido da terra” é também o gemido e grito dos pobres, excluídos e injustiçados.

Além disso, as ações concretas decorrentes de uma conversão ecológica precisam reconhecer a “dívida ecológica” de gerações e países e adotar comportamentos e ações solidárias, reparadoras, de responsabilidades coletivas nacionais e internacionais.

Feito isto, estaremos em condições de promover uma educação ambiental ou ecológica radical e libertadora, tanto nas residências e escolas, nas Igrejas, quanto em outros espaços, como nas comunidades, nos locais de trabalho, nas organizações públicas, privadas e não governamentais.

Os países ricos não podem continuar poluindo e destruindo o planeta impunemente e, em todos os países, é preciso definir responsabilidades em relação aos crimes ambientais/pecados ecológicos.

É neste contexto que emerge/surge a educação ambiental crítica e libertadora, ampliando e aprofundando o diálogo em relação...

Vejamos, por exemplo, algumas formas de promovermos uma educação ambiental/ecológica radical e libertadora em relação ao que está acontecendo com o planeta, a partir de cada território concretamente definido.

A primeira delas é a ênfase na importância e necessidade de uma transformação profunda, radical, de estilos de vida responsáveis pela degradação ambiental, pela destruição da natureza, da biodiversidade, combatendo os sistemas econômicos que não respeitam os “limites do planeta”, nem “nosso futuro comum”, e são orientados apenas por um imediatismo visando o lucro fácil, pouco se importando com a herança socioambiental a ser deixada para as futuras gerações, além das consequências já presentes na atualidade.

Esta é uma ação que visa despertar a consciência ambiental/ecológica em diferentes públicos e motivar as pessoas a promoverem mobilizações em busca da definição de políticas públicas tanto nas dimensões reparadoras quanto mitigadoras e também para a conservação e proteção dos biomas e ecossistemas.

Paralelamente a este despertar ecológico, através de um processo de mobilização coletiva, não podemos também ignorar a importância e o papel de ações de adaptação mitigadoras, tanto individuais quanto coletivas.

Essas são ações e mobilizações para combater o consumismo, os plásticos, o desperdício, todas as formas de degradação ambiental, a geração de lixo/resíduos sólidos, enfim, as diferentes formas de poluição do solo, das águas e do ar.

Despertar as pessoas, em todas as faixas etárias, para a necessidade de incentivarmos a economia circular, a reciclagem, a agroecologia, a arborização urbana, a importância das florestas, inclusive das florestas urbanas, a agricultura urbana, hortas domésticas, escolares e comunitárias para a produção orgânica; o incentivo às práticas de economia solidária; o uso de fontes renováveis de energia (incluindo sistemas cooperativos); a importância da moradia digna e o combate ao uso de combustíveis fósseis, responsáveis por 80% das emissões de gases de efeito estufa e que contribuem para a crise climática e suas consequências.

A educação ambiental radical, libertadora, neste sentido, é uma prática revolucionária, mas fundamentalmente de natureza pacífica, porque busca criar novas formas e estilos de vida baseados no respeito à natureza, em defesa da dignidade e dos direitos humanos, na valorização dos saberes tradicionais e ancestrais e na sustentabilidade plena, diferente dos atuais sistemas produtivos que ignoram a importância de uma mudança profunda dos paradigmas que os sustentam, distantes do bem comum e de uma espiritualidade ecológica que reconhece tudo como obras da criação.

Os conflitos que porventura surgem relacionados às questões socioambientais só existem devido à resistência de alguns setores políticos, econômicos e sociais que não reconhecem que só existe um planeta e que os chamados “recursos naturais” não são inesgotáveis e que todas as obras da criação, enfim, o planeta é um bem comum, ou seja, de todos, e não podem estar apenas sujeitos à lógica mercadológica e do lucro a ser acumulado “nas mãos” ou nas contas bancárias de uma minoria privilegiada, em detrimento do direito de todos/todas usufruírem desses bens e serviços produzidos.

A educação ambiental radical e libertadora é o único caminho que nos leva a uma cidadania ecológica plena e transformadora; por isso, vale a pena caminhar nesta direção.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*

 

Quando Presidente da República, dentro de suas atribuições constitucionais, Bolsonaro indicou dois ministros para o Supremo Tribunal Federal, um deles por ser “terrivelmente evangélico”, e ambos foram aprovados pelo Senado, sem problemas, diferente do que aconteceu com uma indicação recente do Presidente Lula.

Um deles, o “terrivelmente evangélico”, atual ministro do STF André Mendonça, acabou de autorizar medidas policiais de busca, apreensão e prisão de gente graúda, até ex-ministro do próprio governo Bolsonaro, ex-colega da Esplanada dos Ministérios do ministro do STF.

As investigações apontam ou estão apontando que o início da corrupção bilionária teve início e fortaleceu seus tentáculos exatamente no Governo Bolsonaro, daí a razão de que o Presidente do Senado, com apoio dos partidos de direita e do Centrão, tem impedido a instalação da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito — Senado e Câmara Federal), para investigar este, que tudo leva a crer e tem apontado como o maior escândalo de corrupção da história do Brasil, quem viver verá, dezenas ou centenas de milhões de reais ou muito mais, talvez.

No entanto, essas tentativas de encobrir os meandros da corrupção não têm adiantado, pois Vorcaro, o “master mind” deste escândalo, preso em um hangar particular no Aeroporto Internacional de Guarulhos, prestes a voar com seu jatinho para a ilha de Malta, no Mediterrâneo, quando percebeu o destino que o aguardava na Papuda, onde estão algumas figuras ilustres da República, resolveu colaborar e “abrir o bico”, aceitando fazer a famosa “delação premiada” ou colaboração com as investigações, contando tudo o que sabe, oferecendo provas, como celulares, computadores, pen drives, anotações, gravações de conversas, enfim, está entregando e vai entregar tudo, para salvar a pele, como costumam fazer corruptos e bandidos quando o braço da Justiça aperta.

Aí é que a “porca torce o rabo”, como dizem os matutos, a partir de agora tem muita gente importante no Brasil inteiro, principalmente figuras de destaque na política nacional e em alguns estados, que já estão perdendo o sono e com crises de pânico, alguns que são candidatos já estão preocupados com tudo isso e temem serem impedidos de disputar as próximas eleições.

Sem cargos importantes para blindá-los, com certeza o “caldo” pode entornar.

Nada como um dia depois do outro, por muito tempo a narrativa era de que apenas políticos de esquerda, principalmente do PT, eram corruptos, mesmo que a nossa história, desde o descobrimento, passando pelo Brasil Colônia, Império, República Velha, República Nova e República atual, a corrupção exista, muito antes e depois da criação do PT.

Jânio Quadros fez uma carreira política meteórica usando como símbolo a vassoura e o alvo a corrupção, principalmente de Ademar de Barros, político paulista influente nas décadas de 1950 e 1960, muito antes do PT ser organizado.

O então Presidente Collor de Mello, o “caçador de marajás” das Alagoas, terra de Renan Calheiros e Arthur Lira, acabou cassado por corrupção.

No Rio de Janeiro, que é um caso emblemático, diversos governadores e parlamentares, gestores de alta envergadura, já estiveram e outros ainda estão na cadeia, e a maioria ou quase totalidade nunca foram de esquerda ou do PT.

Em Mato Grosso, da mesma forma, ao longo de décadas, antes mesmo dos governos militares, as estórias de corrupção são pródigas, basta fazer uma busca em jornais de épocas antigas ou em anais do sistema judiciário.

E, ainda em Mato Grosso, há poucos anos, diversas figuras do mundo político, como parlamentares e governadores, e até mesmo integrantes do sistema judiciário, foram alvos de investigações e diversos foram investigados, condenados, presos, usaram tornozeleiras eletrônicas e nenhum desses corruptos pertencia à esquerda ou ao PT.

Enfim, se alguém tiver interesse, basta dedicar um tempo analisando a vida política de todos os estados e milhares de municípios e irá encontrar centenas ou milhares de casos de corrupção, a grande maioria, diga-se de passagem, que “terminaram” na impunidade. Afinal, como diz o jargão popular, uma verdade absoluta até bem pouco tempo: “cadeia foi feita para pobre, preto e bandido pé de chinelo”, gente importante, gente grande, gente graúda, “amigos do Rei”, jamais irão para a prisão.

Só que esta estória parece estar mudando ultimamente e há quem diga ser esta a razão de tantos conflitos institucionais em nossa República, principalmente contra integrantes de Tribunais Superiores.

Compartilho o link de uma notícia de 07 de maio de 2026 (hoje), onde está estampada a matéria sobre o envolvimento de um ex-ministro e presidente nacional de um partido do Centrão que foi alvo dessas medidas judiciais e policiais. Fonte: site MSN/Área Vip.

Após delação de Vorcaro, ex-ministro de Bolsonaro é alvo da PF com mandado de prisão.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*

 

 

“Um dos motivos pelos quais escolhi o nome “Leão XIV” é a Encíclica Rerum Novarum, escrita por Leão XIII durante a Revolução Industrial. O título Rerum Novarum significa “coisas novas”. Certamente há “coisas novas” no mundo, mas, quando dizemos isso, geralmente adotamos uma “visão a partir do centro” e nos referimos a coisas como inteligência artificial ou robótica. No entanto, hoje, gostaria de olhar para as “coisas novas” com vocês, começando pela periferia. A terra, o teto e o trabalho são direitos sagrados pelos quais vale a pena lutar” Papa Leão XIV, no 5º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na Sala Paulo VI, no Vaticano, em 23/10/2025.

Para entendermos o significado do Magistério Papal, é fundamental termos em mente que o Papa é a autoridade máxima da Igreja Católica no mundo, igreja esta que está presente, praticamente, no mundo inteiro e conta com mais de 1,422 bilhão de fiéis que, se viverem o evangelho em toda a sua plenitude e radicalidade, podem transformar a realidade, sendo o sal da terra e a luz do mundo, enquanto aguardamos o “novo céu e a nova terra”.

Neste sentido, é fundamental que o Papa, qualquer que ele seja, promova orientações relacionadas com a doutrina católica, mantendo a unidade da fé; mas também se preocupe e se posicione sobre os grandes desafios que afetam tanto católicos quanto a população mundial como um todo. Temas econômicos, sociais, políticos e geopolíticos, religiosos e culturais não podem estar ausentes das preocupações e exortações papais, jamais!

Daí a importância de, como cristãos, católicos e cidadãos de todos os países, inclusive do Brasil, acompanharmos, de perto, as “pegadas”, a caminhada, as exortações do Papa Leão XIV que, em 08 de maio de 2026, estará celebrando/comemorando seu primeiro ano na “Cátedra de São Pedro”.

No dia 21 de abril de 2025, falecia, em Roma, o Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio) e, 17 dias depois, em 08 de maio do mesmo ano (2025), o Colégio dos Cardeais elegia Robert Francis Prevost como o novo Papa, que escolheu o nome de Leão XIV, pelas razões já expostas.

Enquanto São Francisco de Assis foi a fonte inspiradora do Papa Francisco, principalmente em relação ao cuidado com a ecologia integral e com os pobres, Leão XIV inspira-se na figura de Leão XIII, um Papa que, diante do embate entre comunistas/socialistas, de um lado, e capitalistas selvagens, exploradores dos trabalhadores, de outro, em relação à situação do trabalho no final do século 19, não titubeou e escreveu/publicou a Encíclica Rerum Novarum, o marco inicial da Doutrina Social da Igreja, ainda atual na Igreja e no mundo contemporâneo.

Para muita gente, tanto dentro quanto fora da Igreja, a escolha de Leão XIV, um norte-americano de nascimento e naturalizado peruano, com formação agostiniana, enquanto Francisco era jesuíta da Argentina/América Latina, foi uma surpresa.

Mas, quando do início de um “novo” papado, tudo é novidade e, ao mesmo tempo, especulação, principalmente em relação aos rumos que cada Papa imprime à vida da Igreja, e isto gera muita expectativa e, às vezes, certa “angústia” e tensões internas na Igreja, principalmente quando consideramos a existência de alguns grupos, uns que se dizem mais conservadores e outros que se dizem e agem como mais “progressistas”, resgatando, inclusive, as conclusões do Concílio Vaticano II e as reformas decorrentes das conclusões do mesmo, encerrado em 08 de dezembro de 1965, portanto há mais de seis décadas, mas ainda totalmente válidas.

Ao longo deste seu primeiro ano de pontificado, o Papa Leão XIV demonstrou um grande respeito e amizade em relação ao legado do Papa Francisco e deu prosseguimento a aspectos fundamentais que marcaram o magistério de Francisco e “avançou” ou aprofundou outros aos quais Francisco não teve tempo de dedicar-se como era seu desejo.

Neste primeiro ano de magistério, o Papa Leão XIV tem exortado tanto a Igreja (tanto sua hierarquia eclesiástica, sacerdotes, religiosos, religiosas quanto os fiéis) a continuar no caminho da SINODALIDADE, uma igreja em saída em direção às periferias materiais, espirituais e existenciais, fiel à opção preferencial pelos pobres, razão de ser da Igreja, tão enfatizada no Concílio Vaticano II, que tanto Francisco pretendeu quanto Leão XIV pretende resgatar, como tem sido bem claro em seus pronunciamentos e exortações.

Outro aspecto fundamental abraçado por Leão XIV é o cuidado e defesa da Casa Comum, a ECOLOGIA INTEGRAL, seu compromisso com a continuidade da caminhada iniciada com a publicação da Laudato Si e das exortações Querida Amazônia e Laudate Deum, e os três “Ts” de Francisco: Terra, Teto e Trabalho.

Outro aspecto importante neste seu primeiro ano de caminhada tem sido o compromisso em defesa e acolhida dos pobres. Primeiro, de forma humilde, mencionada ao publicar a Exortação Dilexit Nos (Eu te amei), deu continuidade ao que o Papa Francisco estava escrevendo sobre os pobres, ampliando a abordagem e imprimindo a sua marca diante deste desafio mundial que são a pobreza, a exclusão e as injustiças.

Tanto é verdade que, ao definir sua intenção de oração do mês de maio deste ano (2026), escolheu como tema da exortação o combate ao desperdício de alimentos e enfatizou a importância de uma alimentação saudável, à qual os pobres têm direito.

A proposta vai além das orações e visa também ao despertar da solidariedade, da fraternidade, transformando a lógica do consumo egoísta que gera exclusão, pobreza e fome.

Lamentando o desperdício de tantos alimentos em nossas mesas, o Papa Leão XIV rezou para que o Senhor “desperte em nós uma nova consciência: que aprendamos a dar graças por cada alimento, a consumir com simplicidade, a partilhar com alegria e a cuidar dos frutos da terra como um dom de Vós, destinado a todos, e não apenas a alguns”.

Um outro tema que tem estado presente nas reflexões, nos pronunciamentos e nas atitudes e tentativas de mediação de Leão XIV são as guerras, os conflitos armados, a violência em geral e todas as suas formas particulares, incluindo a violência doméstica e de gênero.

Em lugar da violência como forma de “resolução” de conflitos, o Papa Leão XIV tem apresentado a proposta do diálogo e, no contexto dos conflitos e guerras entre países, tem insistido que o caminho é a diplomacia.

Em decorrência, tem sofrido ataques por parte de alguns governantes que promovem guerra em lugar da paz, mas isto não o tem demovido de suas convicções e atitudes.

Ele tem também condenado as guerras de conquista de territórios, os genocídios, as migrações em massa, em consequência da destruição tanto material quanto de vidas humanas inocentes. Sendo que uma de suas propostas é o desenvolvimento de uma cultura da paz, onde, ou em que, a Igreja, melhor, as Igrejas e religiões têm um papel preponderante.

Neste mesmo contexto, o Papa Leão XIV tem insistido também em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso como caminhos em busca da paz e da construção de um mundo justo, sustentável, mais humano e mais tolerante.

Este empenho fica bastante claro em seu primeiro pronunciamento a representantes de diversas religiões, em 19 de maio de 2025, no Vaticano, quando afirma aos presentes que “a sinodalidade e o ecumenismo estão intimamente relacionados” e afirmou mais sua intenção de continuar o compromisso do Papa Francisco em promover “o caráter sinodal da Igreja Católica e em desenvolver formas novas e concretas para uma sinodalidade cada vez mais intensa na esfera ecumênica”.

Esses são alguns dos aspectos, além de diversos outros que não são abordados nesta oportunidade, que marcam este primeiro ano do magistério do Papa Leão XIV. Vida longa, para que sua jornada produza frutos que fortaleçam a Igreja ao redor do mundo, em sua caminhada evangelizadora, em defesa dos direitos humanos em sua plenitude, da justiça social, justiça ambiental, justiça intergeracional.

Mas, para tanto, o Papa Leão também tem insistido na necessidade de reformas mais profundas na Igreja, como podemos ver na Audiência Geral de hoje (06/05/2026), quando disse claramente: “Nenhuma instituição eclesial pode ser absolutizada; antes, já que vivem na história e no tempo, são chamadas à conversão contínua, à renovação das formas e à reforma das estruturas, à regeneração constante das relações, para que possam verdadeiramente corresponder à sua missão”.

Essas são as marcas deste primeiro ano de pontificado de Leão XIV, mas que apontam novos rumos para a Igreja, inserida na história e na realidade, diante do compromisso em busca do “Reino”.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*

 

“Todos os dias, ataques cibernéticos fraudam famílias, interrompem serviços essenciais, drenam economias e disseminam materiais horríveis de abuso infantil.
A Convenção das Nações Unidas sobre os Crimes Cibernéticos oferece aos países uma nova ferramenta poderosa para prevenir e combater o crime cibernético — ao mesmo tempo em que protege os direitos humanos online. Que nenhum país — independentemente do tamanho ou nível de desenvolvimento — ficará indefeso contra o crime cibernético. Que a privacidade, a dignidade e a segurança devem ser respeitadas tanto offline quanto online. E que o multilateralismo ainda pode oferecer soluções, mesmo para os desafios mais complexos”. Parte do pronunciamento do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em Hanói, por ocasião da assinatura da Convenção das Nações Unidas sobre o Crime Cibernético, em 25 de outubro de 2025.

As questões relacionadas com o mundo virtual, o mundo digital, o avanço da inteligência artificial e o poder das grandes corporações da área da tecnologia têm despertado a atenção tanto de governantes nacionais, universidades e centros de pesquisas, quanto de autoridades civis, militares e eclesiásticas mundiais e da opinião pública em geral.

O Papa Leão XIV, por exemplo, tem tornado a regulação das grandes empresas de tecnologia (big techs) e o impacto da inteligência artificial (IA) uma questão central do seu pontificado. Ele enxerga a tecnologia atual não apenas como ferramenta, mas como uma potência ética que pode ameaçar a dignidade humana, se não for controlada.

Para o líder máximo da Igreja Católica, com mais de 1,422 bilhão de fiéis ao redor do mundo e 182 milhões no Brasil, que, corajosamente, não tem se furtado ao debate de vários temas importantes e sensíveis, como a estupidez das guerras, a fome, a degradação ecológica, as migrações e a violência, entre outros, a tecnologia deve ser moldada para promover a dignidade humana, a paz e a segurança, não para substituir o ser humano ou gerar exclusão.

A falta de controle e regulamentação do mundo digital e as ações do crime organizado em dimensão global, onde os Estados nacionais (países soberanos) estão limitados em seus territórios, fazem com que a cooperação e os tratados internacionais sejam as únicas ferramentas tanto para combater a criminalidade cibernética, potencializada ainda mais com o advento da inteligência artificial, quanto para o enfrentamento ao poder e à influência dessas gigantes da tecnologia.

Sabemos como agem as chamadas “big techs”, grandes empresas de tecnologia, cujos patrimônio, lucro e poder são maiores do que o PIB (Produto Interno Bruto) de vários países.

Conforme dados recentes (2026), o valor do patrimônio das “big techs” em 2025 era de US$ 21,1 trilhões de dólares (18,9% do PIB mundial), valor superior ao PIB da China, o segundo maior PIB do mundo em 2025 (US$ 20,8 trilhões), e várias vezes o tamanho do PIB de países de renda média ou de baixa renda.

Só para termos ideia, o PIB do Brasil em 2025, classificado como a 11ª maior economia do mundo, foi de apenas US$ 2,7 trilhões de dólares, ou seja, o PIB do Brasil representa apenas 12,8% do patrimônio dessas grandes companhias de tecnologia, conforme dados oficiais do FMI, em relatório bem recente.

O poder e, muitas vezes, a prepotência com que agem essas gigantes da tecnologia, muitas vezes — ou quase sempre — também a serviço dos países onde estão localizadas ou sediadas, extrapolam em muito os limites meramente comerciais, colocando em risco não apenas os direitos dos consumidores nos países e no mundo, mas também a própria soberania nacional, principalmente em momentos críticos, de conflitos e guerras.

A vulnerabilidade tecnológica é um dos — ou talvez o maior — fatores de risco para a soberania e a defesa nacional em qualquer país, principalmente os dependentes dessas tecnologias, representando, na verdade, uma nova face da dependência do colonialismo moderno e da hegemonia absoluta das grandes potências.

De pouco adianta esse ufanismo, como às vezes é demonstrado ingenuamente por determinados setores em nosso país, de que o Brasil é uma “potência alimentar”, somos os maiores produtores de “commodities” do mundo, temos grandes reservas de minérios, um grande potencial de petróleo e gás natural, um imenso território, a maior floresta tropical do mundo (ao longo de décadas vítima de um desmatamento desenfreado), esquecendo que exportamos produtos in natura, matéria-prima barata, que não agrega valor nem gera emprego e, no “verso da moeda”, somos um grande importador de tecnologia. Pouco diferimos em relação ao período colonial antigo.

Somos um dos maiores importadores e usuários de tecnologia e ocupamos a 52ª posição entre as 139 economias analisadas na edição 2025 do Índice Global de Inovação (IGI), lançado recentemente pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).

O Brasil, por exemplo, é extremamente dependente do suporte tecnológico e do uso dessas plataformas e corre um grande risco de colapso nacional em caso de embates ou conflitos com países em que essas “big techs” estão localizadas, como, por exemplo, nos Estados Unidos, na Europa, na China ou em outros países asiáticos, podendo entrar em colapso em vários setores, como nas telecomunicações, energia, trânsito e transportes, no sistema econômico em geral, na própria gestão pública e também na gestão das empresas privadas em geral.

Diariamente, as pessoas se deparam com notícias sobre verdadeiros embates e conflitos de interesses entre países “soberanos” e essas gigantes da tecnologia, como foi o caso ocorrido em 2024/2025 entre o governo brasileiro e Elon Musk, magnata, proprietário de uma rede de empresas de tecnologia.

O referido magnata é dono da SpaceX, empresa que opera a Starlink, a maior constelação de satélites do mundo, e de outras mais, inclusive no ramo da inteligência artificial, que atuam nesta área e em plataformas, com destaque para a “X”, antigo Twitter.

Conforme matéria publicada pela Agenda Estado de Derecho, em 13 de novembro de 2024: “O embate recente entre Elon Musk e o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil evidencia a urgência de regulamentar redes sociais, ressaltando a tensão entre a soberania nacional e o poder das grandes empresas de tecnologia. Este artigo aborda a legislação brasileira sobre internet, seus pontos cegos e os impactos políticos envolvidos”.

A celeuma ou embate, um verdadeiro conflito de interesses que extrapola o mero campo comercial e tem implicações de política externa e internacional, entre uma empresa transnacional, uma das gigantes big techs, que teimava em não respeitar uma decisão da mais alta Corte do país (Brasil), tornou-se pública e durou meses.

A Agência Estado de Derecho sintetiza, em matéria de autoria de Caio Machado, da seguinte forma: “A disputa teve início em resposta da empresa de Musk a ordens que o STF expediu com relação aos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, o STF intensificou investigações sobre a disseminação de desinformação e o possível financiamento de grupos extremistas nas redes sociais. No âmbito dos Inquéritos 4781 (inquérito das fake news) e 4874, que investigam os atos antidemocráticos, Moraes emitiu ordens judiciais determinando o bloqueio de perfis nas redes sociais, incluindo contas no Twitter. Essas decisões basearam-se na Lei 12.965 (o Marco Civil da Internet). A ‘big tech’ se recusou, inicialmente, a cumprir uma decisão do STF, um precedente perigoso em relação à soberania nacional.”

Diante dos constantes conflitos de interesse, tanto em relação aos usuários dessas plataformas quanto em relação ao poder que os países têm em disciplinar questões nesta área, surgem iniciativas privadas, particulares, buscando a defesa dos consumidores.

Este é o caso de uma ONG, recém-criada no Brasil com este propósito, de apoiar e defender os consumidores em decorrência dos conflitos que surgem diariamente nesta área. O lema desta ONG é bem significativo: “Sua voz importa. Seus direitos também”.

Em matéria publicada no portal G1 (Rede Globo) de hoje, 05 de maio, Dia das Comunicações e do nascimento de seu patrono, o Marechal Rondon — figura lendária e de alta relevância tanto para as Forças Armadas quanto para Mato Grosso (nascido em Mimoso, Santo Antônio do Leverger, no Pantanal) e para a causa indígena —, uma ex-servidora de uma dessas big techs no Brasil acaba de criar uma ONG para dar apoio gratuito a quem tiver seus direitos de usuário dos serviços das plataformas dessas gigantes da tecnologia violados, possibilitando a realização de denúncias (sigilosas e gratuitas), buscando garantir seus direitos de usuário e consumidor.

De acordo com a mesma, sua razão de ser, enfim, de existir, indica como esta luta é importante: “A CTRL+Z é uma organização social brasileira que enfrenta o modelo de operação das big techs. Nossas estratégias incluem investigar e expor abusos, mover ações judiciais estratégicas e mobilizar pessoas — transformando indignação em ação organizada e efetiva pela responsabilização das gigantes de tecnologia e pela transformação do setor de tecnologia visando o bem-estar coletivo”.

Compartilho aqui o link do site desta ONG https://ctrlz.org.br/add/, ressaltando que os serviços de apoio desta ONG são totalmente gratuitos, contando, inclusive, com parcerias com escritórios de advocacia especializada.

Vale a pena conferir. Esta é uma forma, também, de defendermos a democracia, o Estado de Direito, a soberania nacional e os direitos humanos em sua plenitude!

 

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Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

“A era dos combustíveis fósseis está chegando ao fim. O Sol está nascendo para uma nova era de energias limpas; o fim da era dos combustíveis fósseis está chegando; é imparável; os países que se agarram aos combustíveis fósseis não estão a proteger suas economias, estão a sabotá-las, aumentando os custos, enfraquecendo a energia renovável, que já é mais rentável”. A era do aquecimento global acabou, a era da ebulição global chegou. Basta de queimar nosso futuro”. António Guterres, Secretário-Geral da ONU, em diversos momentos 2024-2025.

A transição energética mundial é um desafio urgente, que não pode ser postergado, tendo em vista o agravamento da crise climática decorrente do aumento da produção e uso de combustíveis fósseis, responsáveis pela emissão de mais de 80% das emissões de gases de efeito estufa, a principal causa da crise climática.

Sem abandonar o uso dos combustíveis fósseis, todas as demais providências ou ações para reduzir o aquecimento global, que provoca a crise climática e suas consequências, tornam-se praticamente de efeitos reduzidos, pois estaríamos agindo apenas sobre os 20% das demais origens/causas, deixando de lado o que, de fato, está destruindo o planeta.

Embora o tema dos combustíveis fósseis fosse abordado timidamente em COPs anteriores, a primeira vez que uma proposta clara e robusta para o fim do uso de todos os combustíveis fósseis ("phase-out") foi colocada em pauta e rejeitada no documento final, gerando grande controvérsia, foi na COP27, em Sharm el-Sheikh, Egito (2022).

Na COP30, em novembro de 2025, em Belém, novamente este assunto foi rejeitado, principalmente pelos países que mais poluem o planeta, que mais emitem gases de efeito estufa decorrentes do uso de combustíveis fósseis, inclusive o Brasil.

A posição do Brasil tem sido extremamente contraditória: de um lado tem um discurso oficial de sustentabilidade e, de outro, tenta “cacifar” a Petrobras, cujo objetivo estratégico é tornar-se a 4ª maior empresa produtora de petróleo e gás natural do planeta.

Para tentar minimizar esta postura contraditória, buscando um equilíbrio entre um discurso de sustentabilidade em relação à Amazônia e a sua matriz energética escudada em fontes de energia sustentável, de outro lado continua explorando e produzindo petróleo a partir do pré-sal e também na exploração na área setentrional da foz do Amazonas.

A chamada “derrota” em Belém, na COP30, deu-se quando, ao final daquela Conferência, o documento final que foi aprovado em 22 de novembro de 2025 omitiu qualquer menção explícita à "eliminação gradual" (phase-out) ou ao "fim dos combustíveis fósseis" (petróleo, carvão e gás natural).

Esta resistência é uma demonstração clara e cabal de que os países que mais poluem e destroem o planeta, principalmente os integrantes do G20, com destaque para os cinco maiores — China, Estados Unidos, Índia, Rússia e União Europeia — e, com exceção da União Europeia, são os que mais resistem e boicotam uma transição energética justa e longe do uso de combustíveis fósseis.

Os relatórios mais recentes de monitoramento de emissões indicam que China, Estados Unidos, Índia, Rússia e União Europeia (UE), juntos, continuam a ser os maiores emissores mundiais, representando coletivamente mais de 60% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE).

Com base em dados preliminares de 2025, os países do G20 continuam a ser os maiores emissores globais de gases de efeito estufa, sendo, portanto, os grandes responsáveis por cerca de 75% a 80% das emissões globais de gases de efeito estufa.

De acordo com dados estatísticos recentes (2025), entre os anos de 2000 até 2025, as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera aumentaram em mais de 50%, passando de 25,5 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente para 38,6 bilhões de toneladas.

Em 1972, por ocasião da 1ª Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, o volume mundial de emissões de gases de efeito estufa foi de 16,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente; em 1992, quando da ECO-92, no Rio de Janeiro, passou para 22,7 bilhões de toneladas; em 2015, quando foi aprovado o Acordo de Paris, foi de 35,2 bilhões de toneladas.

A proeminência da presença dos combustíveis fósseis ao longo dos últimos 75 anos pode ser constatada pela participação percentual dos mesmos nas matrizes energética e elétrica mundial. Em 1970, essas fontes representavam em torno de 85% a 90% da matriz energética mundial e, em 2025, continuavam representando 81% da mesma, ou seja, em 75 anos a redução foi de apenas poucos pontos percentuais. Se esta mesma tendência se mantiver, vamos precisar de mais de um século para esta transição e, neste contexto, a temperatura média da Terra deverá exceder 3º ou 4º graus centígrados, inviabilizando todas as formas de vida no planeta, inclusive a vida humana.

O uso das fontes renováveis, como energia solar, eólica, biocombustíveis, hidrelétrica, marés, nuclear e outras, representava apenas 19% da matriz energética mundial em 2025, indicando que, longe de romper com a dependência dos combustíveis fósseis, as energias renováveis ainda não conseguiram representar uma alternativa concreta.

Em torno e em defesa do uso dos combustíveis fósseis existem grandes e poderosos interesses econômicos e grandes “lobbies” que interferem nas estruturas do poder e nas políticas públicas nos diversos países, como é o caso dos subsídios aos combustíveis fósseis.

Com base nos dados mais recentes disponíveis para o início de 2026, os subsídios aos combustíveis fósseis no mundo continuam a atingir níveis recordes globais, superando significativamente os investimentos em energias limpas.

As estimativas indicam que os subsídios globais (incluindo custos ambientais não cobrados) ultrapassaram US$ 7 trilhões em 2024 e mantêm-se nessa escala ou podem superar significativamente este montante em 2026, podendo atingir US$ 7,6 trilhões.

O Brasil também não foge à regra e continua subsidiando o uso de combustíveis fósseis. Em 2023 foram concedidos nada menos do que R$ 80 bilhões como subsídios a este setor, caindo para R$ 47 bilhões em 2024, tendo passado para R$ 49,2 bilhões em 2025.

Em consequência das guerras na Ucrânia e das ações dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, promovendo instabilidade no Oriente Médio, para evitar repercussões econômicas, fiscais e inflacionárias, o governo federal e os estados estão reduzindo impostos sobre combustíveis fósseis, na verdade subsídios diretos e indiretos; o custo dos mesmos em 2026 poderá superar o montante dos subsídios concedidos a este setor em 2015, podendo chegar a mais de R$ 60 bilhões.

Apesar dos sucessivos fracassos de diversos países e organizações não governamentais em “pautarem” uma data limite a partir da qual o mundo abandonaria o uso de combustíveis fósseis, isso não impede que este objetivo seja mantido, principalmente para efeito de mobilização da opinião pública mundial.

Ao longo de vários anos, tendo sido intensificado ultimamente, diversos movimentos ambientalistas, alguns governos e até mesmo organizações internacionais, com apoio da ONU e suas agências, têm realizado fóruns de debates, seminários e outros eventos para despertar a opinião pública mundial em relação à importância e à necessidade de continuar esta luta pelo fim dos combustíveis fósseis, como a maneira mais eficiente, efetiva e eficaz de promovermos uma transição energética justa, segura e necessária.

A transição energética, com a substituição total dos combustíveis fósseis por uma nova matriz energética e também uma nova matriz elétrica mundial, em todos os países, é o único caminho que podemos construir se realmente desejamos cumprir o Acordo de Paris, evitando que a temperatura média do planeta exceda 1,5º ou, no máximo, 2º graus centígrados, acima dos quais os impactos econômicos, sociais, políticos, ecológicos e humanos serão catastróficos.

Há poucos dias (24–29 de abril de 2026) foi realizado um grande evento em Santa Marta, na Colômbia, a “1ª Conferência da Transição pelo Fim dos Combustíveis Fósseis”, com apoio dos governos da Colômbia e da Holanda, outros países e diversas organizações não governamentais que lutam por uma transição energética justa, colocando um ponto final no uso dos combustíveis fósseis.

Apesar do fracasso da COP30 em relação ao fim do uso de combustíveis fósseis, esta histórica conferência, que pela primeira vez consegue reunir os principais atores que propugnam por uma transição energética sem combustíveis fósseis, reconhece a necessidade de implementar uma transição energética nesta dimensão e direção e, ao mesmo tempo, estimular mudanças significativas e mais urgentes.

A transição energética, com abandono total do uso dos combustíveis fósseis, de uma maneira justa, ordenada e planejada, é o único caminho para que todos os países possam entrar em um novo patamar de desenvolvimento, garantindo sustentabilidade, sistemas produtivos baseados em “carbono zero”, respeito ao meio ambiente e, também, garantindo soberania energética, desenvolvimento integral e integrado, justiça climática e justiça intergeracional.

Não existe sustentabilidade ecológica, nem redução das consequências da crise climática enquanto o mundo estiver dependente dos combustíveis fósseis, cuja produção e uso atendem apenas aos interesses de uma minoria e alimentam a chamada “Economia da Morte”, mencionada pelo Papa Francisco ao longo de seu magistério.

Concluindo, gostaria de mencionar que o Papa Leão XIV, seguindo as exortações do Papa Francisco, tem exortado os cristãos em geral, os católicos em particular e fiéis de outras religiões quanto à necessidade de refletirmos mais criticamente em relação aos males causados pelos combustíveis fósseis.

Vejamos o que nos tem exortado Leão XIV: “Os combustíveis fósseis pertencem ao passado; o futuro deve ser alimentado por energia limpa e renovável. A criação está clamando em inundações, secas, tempestades e calor insuportável; somos guardiões da criação, não rivais pelos seus despojos. Já é evidente que a nossa Terra está a cair na ruína, enquanto alguns governos atendem demasiadamente às temerárias e enganosas empresas de combustíveis fósseis”.

Se o mundo continuar extremamente dependente dos combustíveis fósseis como principal fonte de energia, como tem acontecido ao longo dos últimos cem anos, subjugado pelos grandes interesses econômicos nacionais e internacionais, ditando as regras da “economia da morte”, ignorando os “gemidos” da Terra, dos pobres e das futuras gerações, o planeta Terra, “Nossa Casa Comum”, corre um sério risco de não haver um amanhã de sustentabilidade, de paz e justiça.

Este é o sentido, o significado e a esperança da luta pelo fim imediato dos combustíveis fósseis. Cabe a nós este enfrentamento, aqui, agora, a partir de cada território e cada iniciativa!

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Terça, 28 Abril 2026 14:24

ONZE ANOS DA LAUDATO SI - Juacy da Silva

 

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Juacy da Silva* 

 

“Nunca esqueçamos de que o ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos”. Papa Francisco, via Twitter (05/06/2017)

“Unamo-nos aos nossos irmãos e irmãs cristãos no compromisso de cuidar da Criação como dom sagrado do Criador. É necessário estar ao lado das vítimas da injustiça ambiental e climática, esforçando-nos para pôr fim à insensata guerra contra a nossa Casa Comum, que é uma terrível guerra mundial. Exorto a todos a trabalharem para que ela (a Terra) abunde novamente”. Papa Francisco, pronunciamento na Sala Paulo VI, celebração da abertura da solenidade do Tempo da Criação, 2023.

Estamos nos aproximando do mês de maio, um tempo voltado para diversos eventos ecológicos e socioambientais; a partir do dia 16 até o dia 24 será a SEMANA LAUDATO SI, com ênfase no dia 24, quando será a celebração dos ONZE ANOS da publicação da Encíclica Laudato Si pelo Papa Francisco.

A Encíclica LAUDATO SI, publicada em 24 de maio de 2015, antecedendo tanto ao Acordo de Paris (COP21) quanto à aprovação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável pela ONU, é um marco importante e significativo na caminhada ecológica tanto para a Igreja Católica quanto para as demais Igrejas Cristãs e, também, as demais religiões, demonstrando a importância da responsabilidade das Igrejas e religiões em um melhor cuidado com o planeta, tão agredido e em processo de degradação voraz que coloca em risco todos os tipos de vida, inclusive a vida humana.

A Laudato Si é, sem dúvida, um marco fundamental que une fé e ecologia, fé e a opção preferencial pelos pobres pela Igreja, fé e política, fé e sinodalidade, fé e Igreja em saída, fé e Igreja profética, clamando pelo cuidado urgente da "casa comum" e a proteção dos vulneráveis, pobres, oprimidos e injustiçados.

Ela introduz o conceito de "ecologia integral", conectando crise ambiental e social, criticando o consumismo, o desperdício, a busca do lucro a qualquer preço, a economia da morte e a urgente necessidade de substituição desses modelos predatórios, imediatistas e irracionais por uma ECONOMIA DA VIDA (a Economia de Francisco e Clara), demonstrando a falácia do paradigma tecnológico/tecnocrático, a importância e a necessidade de um Pacto Global pela Educação, bem como uma nova dimensão para a Educação Ambiental, enfim, propondo uma mudança de estilo de vida, de conversão ecológica para salvarmos o planeta.

Em sua mensagem aos participantes da COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025, o Papa Leão XIV exortou e defendeu enfaticamente uma conversão ecológica, como uma mudança profunda no coração, passando dos discursos para ações concretas, respeito à natureza e às pessoas, enfim, novos estilos de vida, enfatizando que “cuidar da criação é inseparável da fé cristã; é preciso uma espiritualidade ecológica que combata o CONSUMISMO e a lógica extrativista”.

Pergunto: o que podemos e devemos realizar para marcar a importância desta Encíclica em seu 11º aniversário de publicação? Em que e como ela já tem contribuído em termos de realizações, inclusive no despertar da consciência socioambiental, principalmente dentro da Igreja Católica, entre fiéis e corpo eclesiástico, de quem o Papa Francisco foi seu líder e Pastor por mais de uma década? E o Papa Leão XIV tem demonstrado continuidade tanto de pensamento, exortações e a necessidade de passarmos das palavras às ações sociotransformadoras.

Qual a relação da Laudato Si e, indiretamente, outras Exortações Apostólicas e pronunciamentos do Papa Francisco, como “Querida Amazônia”, “Laudate Deum” e os seus três “Ts”: Terra, Teto e Trabalho, tanto no pensamento socioambiental da Igreja quanto também em um novo rumo a partir da ênfase de seu magistério, incluindo a LAUDATO SI no pensamento social da Igreja (DSI), enfatizando a profunda ligação entre as obras da Criação, a degradação dos biomas, as futuras gerações e o próprio destino da humanidade, enfim, a destruição do planeta e os pobres?

Essas celebrações são importantes, principalmente à luz das reflexões e decisões da recente 62ª Assembleia Geral da CNBB, quando os bispos, arcebispos e cardeais, que são os pastores de nossa Igreja no Brasil, aprovaram as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil para o período de 2026 a 2032, bem como o conteúdo da Carta ao Povo Brasileiro, tornada pública pela CNBB, que nos questiona a aprofundar nossa caminhada em defesa da Ecologia Integral em um contexto de grandes desafios socioambientais, econômicos e políticos, inclusive as eleições gerais em outubro deste ano.

De acordo com a REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e mencionado em sua página, “a Assembleia reafirma a importância de uma Igreja comprometida com a ECOLOGIA INTEGRAL, a defesa dos territórios e dos povos, especialmente na Amazônia, onde os desafios socioambientais exigem presença profética, articulação em rede e ações concretas”.

Fica a indagação e a sugestão para pensarmos algo à altura da importância desta Encíclica que marca profundamente o pensamento e as ações da Igreja, em seu compromisso em defesa do planeta, nossa Casa Comum.

Portanto, não podemos, como Igreja, nos dar “ao luxo” de continuarmos nos omitindo diante da realidade e da gravidade desses desafios que estão diante de nós. Com certeza podemos, ao promover tais celebrações por esses onze anos da publicação da Laudato Si, contribuir para um despertar na Igreja, tanto entre fiéis quanto também na hierarquia eclesiástica, que, apesar desta Encíclica já estar completando ONZE ANOS, ainda continua pouco conhecida, ignorada, sofrendo um certo arredio ao chamado do nosso saudoso Papa Francisco e também aos apelos e exortações neste mesmo sentido pelo Papa Leão XIV.

Para bem entender a importância da Laudato Si, podemos mencionar uma pergunta feita pelo Apóstolo Paulo na Carta aos Romanos 10:14, quando ele diz: “Como haverão de crer se não há quem lhes anuncie?” e, logo a seguir, dá a resposta (Carta aos Romanos 10:15): “Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas”.

Com certeza a Laudato Si tem conseguido “anunciar coisas boas”, mas, para que isso possa acontecer, precisamos compartilhar amplamente o conteúdo e as propostas sociotransformadoras desta que, em minha opinião, é uma das mais importantes Encíclicas dos últimos tempos. Por tudo isso, precisamos celebrar esses onze anos de sua publicação.

Quem desejar conhecer e ler na íntegra a Encíclica Laudato Si, basta clicar no link e “baixar” gratuitamente.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, uma imagem sólida no cenário energético internacional. Somos frequentemente citados como um país com elevada participação de fontes renováveis, com uma matriz diversificada e relativamente limpa quando comparada à de outras grandes economias. Essa leitura, embora correta em muitos aspectos, esconde uma fragilidade estrutural que raramente surge no debate público. Ela se apoia em uma visão agregada do sistema energético, mas revela pouco sobre o que, de fato, acontece no território brasileiro. Quando abandonamos a escala nacional e passamos a observar o país a partir dos seus estados, surge uma realidade muito mais desigual, fragmentada e, em muitos casos, preocupante.


O sistema energético não opera como uma abstração chamada "Brasil". Ele se materializa nos territórios, nas cadeias produtivas regionais, nas características locais de oferta e demanda e nas decisões tomadas em nível estadual. Cada estado possui uma lógica energética própria, moldada por sua estrutura econômica, pela disponibilidade de recursos naturais, pela geografia e pelo perfil de consumo da população. Ignorar essa diversidade é, na prática, comprometer a qualidade do planejamento energético. E é justamente nesse ponto que se encontra um dos principais desafios do país: grande parte dos estados brasileiros não possui um retrato estruturado da própria realidade energética.

Os Balanços Energéticos Estaduais (BEEs) foram concebidos especificamente para desempenhar essa função. Eles organizam, de forma sistemática, as informações sobre produção, transformação e consumo de energia, permitindo compreender como a energia entra, circula e é utilizada em um território. São instrumentos que revelam os fluxos energéticos, identificam as cadeias de transformação, quantificam os estoques, apontam perdas e permitem avaliar o comportamento da demanda em diferentes setores econômicos. Em outras palavras, são ferramentas que transformam dados dispersos em conhecimento estruturado, fundamentais para a tomada de decisão.

Apesar dessa importância, observa-se no Brasil uma lacuna significativa na produção desses instrumentos. Mais da metade dos estados não possui um balanço energético disponível, e apenas uma pequena parcela mantém esse documento atualizado de forma contínua. Isso significa que, em grande parte do território nacional, decisões energéticas são tomadas sem uma base de informações consistente, o que limita a capacidade de planejamento, reduz a eficiência das políticas públicas e aumenta o risco de investimentos mal direcionados.

Para tornar essa realidade mais clara, a Figura apresenta um mapa do Brasil, classificando os estados em quatro grupos, de acordo com o nível de atualização de seus balanços energéticos. Essa classificação permite compreender, de forma direta, o grau de maturidade institucional dos estados na gestão de dados energéticos. O grupo G1 reúne aqueles que possuem balanços atualizados, com dados recentes e produção contínua, demonstrando capacidade institucional consolidada e reconhecimento da importância da informação no planejamento. O grupo G2 contempla os estados que possuem balanços com algum atraso, ainda capazes de fornecer uma leitura relativamente útil da realidade, mas que já apresentam perda de precisão ao longo do tempo. O grupo G3 representa uma situação mais crítica, com balanços significativamente defasados, frequentemente com mais de uma década de atraso, o que compromete sua utilidade prática. Por fim, o grupo G4 concentra os estados em situação mais preocupante, em que o balanço energético simplesmente não existe ou está indisponível à consulta pública.


Essa distribuição revela a geografia da informação energética no Brasil. Estados das regiões mais desenvolvidas tendem a apresentar maior regularidade na produção desses documentos, enquanto outras regiões concentram a maior parte dos casos críticos. Essa desigualdade não é apenas uma questão administrativa. Ela reflete diferenças na capacidade de planejamento, na estrutura institucional e na prioridade atribuída à gestão da informação energética.

A implicação mais relevante desse cenário é direta e inevitável. Não é possível planejar adequadamente o que não se conhece. E isso se torna ainda mais crítico quando inserimos essa discussão no contexto da transição energética.

A transição energética é frequentemente tratada como uma mudança de fontes, com substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis. No entanto, essa visão é simplificada. A transição envolve uma transformação estrutural do sistema energético, que inclui mudanças nos padrões de consumo, na organização da oferta, na infraestrutura de redes, nos mecanismos de armazenamento e na integração entre diferentes fontes. Trata-se de um processo complexo, que exige coordenação, planejamento e, acima de tudo, conhecimento detalhado do sistema.

Nesse contexto, a pergunta que precisa ser feita é simples, mas incômoda. Como fazer transição energética sem conhecer os fluxos energéticos? Como planejar a expansão de fontes renováveis sem saber onde estão as demandas, quais setores consomem mais energia e como essa energia é utilizada? Como estruturar políticas de eficiência energética sem identificar onde estão as perdas? Como atrair investimentos sem demonstrar, com dados consistentes, o potencial energético de um território?

Sem essas respostas, a transição energética deixa de ser um processo planejado e passa a ser um conjunto de iniciativas desconectadas. E iniciativas desconectadas tendem a ser menos eficientes, mais caras e menos eficazes no longo prazo.

O Balanço Energético Nacional, coordenado pela Empresa de Pesquisa Energética, desempenha papel fundamental ao organizar a visão macro do sistema energético brasileiro. Ele permite compreender o país como um todo, identificar tendências gerais e orientar políticas de grande escala. No entanto, ele não substitui os balanços estaduais. Pelo contrário, depende deles para alcançar maior precisão. Enquanto o nível nacional apresenta a média, os estados revelam as diferenças. E é nas diferenças que estão os desafios reais e as oportunidades concretas.

Ter um balanço energético estadual significa conhecer os próprios fluxos, entender as centrais de transformação, mapear os estoques, identificar perdas e, principalmente, levantar potenciais. Potenciais de geração, de eficiência, de substituição tecnológica e de desenvolvimento econômico. Esse conhecimento permite que o Estado deixe de ser reativo e passe a atuar de forma estratégica, antecipando problemas e estruturando soluções mais adequadas à sua realidade.
A ausência desses instrumentos compromete o planejamento energético, e a integração com outras políticas públicas. Energia está diretamente relacionada ao desenvolvimento regional, ao uso do solo, à logística, à política industrial e à sustentabilidade ambiental. Sem dados estruturados, essa integração se torna limitada, o que dificulta a construção de estratégias mais amplas e consistentes.

Existe ainda uma dimensão institucional relevante. A produção dos balanços energéticos estaduais não é obrigatória e depende da iniciativa de cada estado. Isso explica a heterogeneidade observada no país. Alguns estados conseguiram institucionalizar o processo, garantindo a continuidade e a qualidade das informações. Em outros casos, a ausência de estrutura ou de prioridade faz com que o balanço simplesmente não exista. Esse cenário revela que o desafio não é técnico, e sim institucional. O Brasil possui capacidade técnica para produzir balanços de alta qualidade. O que falta é transformar essa produção em política de Estado, garantindo continuidade, padronização e transparência.

No fim das contas, a questão central é menos complexa do que parece. O Brasil não precisa apenas de mais energia. Precisa de um melhor entendimento da energia que já possui. Precisa conhecer seus fluxos, suas cadeias de transformação, seus estoques e seus potenciais. Precisa transformar dados em informação e informação em estratégia.

A transição energética não começa nas usinas, nem nas tecnologias, nem nos investimentos. Ela começa pela compreensão do sistema. E essa compreensão, em um país de dimensões continentais, necessariamente passa pelos estados. Sem balanços energéticos estaduais, o Brasil continuará planejando no escuro. Com eles, terá condições de elaborar um planejamento mais preciso, eficiente e alinhado à realidade de cada território.

OBS: O conteúdo apresentado neste artigo deriva de um estudo mais amplo intitulado “Análise da Produção dos Balanços Energéticos Estaduais no Brasil: Lacunas, Desafios e Perspectivas”, desenvolvido por William Carlos da Silva, Leonan Josefer Saldanha Albues da Silva, Ivo Leandro Dorileo, Hédio Tatizawa e Danilo Ferreira de Souza, atualmente em vias de publicação na revista Estudos Avançados.
 OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".


*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente (IEE/USP).

 

 

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Juacy da Silva *  

 

Em 22 de abril, anualmente, há mais de 55 anos, celebramos o Dia da Terra, um chamado ao despertar da consciência ecológica sobre a importância de melhor cuidarmos de nosso planeta, nossa Casa Comum.
Desde a realização da Conferência de Estocolmo, em 1972, quando a ONU, pela primeira vez, conseguiu reunir centenas de chefes de Governo e de Estado para dialogar sobre os desafios relacionados com a degradação do meio ambiente, uma série de reuniões internacionais, convenções, acordos, protocolos e outras conferências sobre o clima, a biodiversidade, a questão dos oceanos, das florestas e dos plásticos, da desertificação, entre outras, tem enfatizado a necessidade de um melhor cuidado com a “saúde” do planeta Terra.

Antes mesmo desse primeiro grande evento convocado pela ONU, outra organização, o Clube de Roma, encomendou, em 1971, um grande estudo, transformado em livro com o nome de “Os Limites do Crescimento”.
Neste estudo, a hipótese era de que, se cinco variáveis continuassem com crescimento exponencial, como estava — e, em certo sentido, ainda está —, sem alteração, qual seria o impacto dessa volúpia de crescimento sem limites sobre o nosso planeta, ou seja, até quando o planeta Terra conseguiria aguentar, “sobreviver”, adotando um ou vários modelos predatórios?

No modelo original do relatório “Limites do Crescimento”, cinco variáveis críticas foram analisadas, todas assumidas para crescer de forma exponencial por décadas, séculos indefinidamente, refletindo seus padrões históricos de expansão: população mundial, industrialização, produção de alimentos e o esgotamento dos recursos naturais.

Antes da publicação do relatório na forma de livro, “Os Limites do Crescimento”, que ocorreu em 1972, alguns meses após a Conferência de Estocolmo, o mesmo foi apresentado de forma preliminar, com suas conclusões e “descobertas”, em dois encontros internacionais, no Rio de Janeiro e em Moscou, em 1971.

A partir de 1971 e 1972, contando com um grande acervo de dados científicos e validados por diversas instituições de pesquisa e universidades, as reflexões sobre as questões ambientais e suas interações com diversas outras variáveis econômicas, sociais, políticas e culturais passaram a formar um corpo de conhecimento importante na busca de alternativas e soluções para reduzir, barrar ou mitigar os efeitos negativos da falta de cuidado com o planeta Terra.

Foi nessa época também que se constatou que só existe um planeta Terra e que o mesmo tem limites, daí o surgimento dos conceitos do “ponto do não retorno” e do “limite da sobrecarga da Terra”, indicando que os recursos naturais e outros fatores importantes para todos os sistemas de produção, de trabalho e consumo são limitados e que expor o planeta a uma superexploração pode levar a catástrofes ambientais com impactos e consequências extremamente negativas em relação ao “nosso futuro comum”, título do Relatório Brundtland, um documento oficial publicado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, em 1987, outro marco significativo para o movimento ambientalista mundial.

Nesse mesmo contexto, diante de uma tragédia mundial de natureza ambiental que aconteceu nos EUA, sob a liderança do senador Gaylord Nelson, do Partido Democrata, de forma pioneira, antes de todos esses eventos mencionados aqui nesta reflexão, no dia 22 de abril de 1970 promoveu uma grande manifestação que reuniu/mobilizou em torno de 20 milhões de pessoas, em protesto, em diversas cidades americanas, contra a degradação ambiental, principalmente contra a degradação das águas e a poluição do ar.

Em 1970, os Estados Unidos eram governados pelo então presidente Richard Nixon e, graças a essa grande manifestação e outras que se seguiram, o governo americano criou, em 1970, a Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês, “Environmental Protection Agency”), que, desde então, principalmente nos governos do Partido Democrata, teve sua agenda e legislação ambientais bastante ampliadas naquele país.

Apesar de a ONU organizar, coordenar e liderar uma série de eventos como as COPs – Conferências do Clima, desde 1995; as conferências sobre biodiversidade; a organização do Painel Intergovernamental do Clima (IPCC); diversas décadas e anos especiais sobre temas ambientais; apoiar e incentivar diversos tratados e acordos internacionais; e apresentar os Objetivos do Milênio, somente 40 anos depois, em 2009, é que a ONU, através de resolução aprovada em sua Assembleia Geral, aprovou oficialmente a criação do Dia da Terra, a ser celebrado, como já vinha acontecendo desde 1970, no dia 22 de abril de cada ano, escolhendo um tema para servir de bússola às celebrações e ações relativas aos cuidados que precisamos — que o mundo precisa — ter em relação ao nosso planeta.

O tema do Dia da Terra de 2026 é o seguinte: “Nosso Poder, Nosso Planeta”, sendo que o foco este ano está na mobilização das pessoas, governantes, lideranças políticas, religiosas, estudantes, professores e lideranças comunitárias sobre a crise climática e suas consequências.

As mobilizações e ações têm como objetivos combater efetivamente a produção e o uso de combustíveis fósseis (petróleo e seus derivados; carvão e gás natural), responsáveis por 70% a 75% das emissões de gases de efeito estufa, pelo aquecimento global e pela já mencionada crise climática.

Essas mobilizações têm como meta triplicar o uso de energias renováveis na matriz energética mundial até 2030, quando será o marco ou horizonte temporal para a Agenda 2030 da ONU, consubstanciada na efetivação dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e suas 167 metas, aprovadas pela ONU em 2015, mesmo ano da publicação da Encíclica Laudato Si e da aprovação do Acordo de Paris, na COP 21, homologado por 196 países e que entrou em vigor no ano seguinte (2016).

Dentre os 17 ODS e suas 167 metas, inúmeros objetivos, metas e indicadores estão relacionados diretamente com questões ambientais e o cuidado que se requer tenhamos com o nosso planeta para garantir nossa sobrevivência e todas as formas de vida existentes.

Na verdade, o grande desafio, ou o chamado “nó górdio”, quando falamos em Dia da Terra, se chama transição energética e eficiência energética, e suas relações com inúmeras outras variáveis, como uso de recursos naturais (mineração, exploração madeireira, uso do solo para fins de produção de alimentos e outras matérias-primas, uso da água para abastecimento humano, produção agropastoril, desmatamento, degradação dos solos, poluição urbana — principalmente sistemas de transportes —, poluição das águas e do ar, entre outras).

Na concepção dos sistemas tradicionais e modernos de produção, sempre aprendemos que os três fatores fundamentais são: terra (recursos naturais), trabalho e capital. Atualmente, a energia é, talvez, o mais importante fator de produção, ao lado da tecnologia, razão mais do que suficiente para nos preocuparmos com os problemas decorrentes do uso de combustíveis fósseis, que representam 84% da matriz energética mundial em 2025, enquanto as fontes renováveis representam apenas 11%, razão desta meta estabelecida: triplicar essa participação até 2030.

Para atingir a meta de triplicar a presença da energia renovável na matriz energética, o mundo necessita adicionar, em média, cerca de 1.000 GW por ano entre 2025 e 2030.

Relatórios indicam que é necessário triplicar o investimento atual, chegando a pelo menos US$ 1,4 trilhão por ano entre 2025 e 2030, ou seja, pelo menos US$ 7,0 trilhões de dólares.

Este é um grande desafio, principalmente em decorrência da oposição dos principais países produtores e usuários de combustíveis fósseis que, sistematicamente, como tem acontecido em todas as COPs, como nas três últimas (COPs 30, 29 e 28) e em outros fóruns internacionais, se recusam a abandonar o uso de combustíveis fósseis.

Esses países contam com o apoio dos poderosos grupos econômicos mundiais ligados aos combustíveis fósseis, à indústria automobilística e ao rodoviarismo como política pública de transporte e logística, contribuindo sobremaneira para o aumento da poluição e degradação socioambiental.

Existem inúmeras ações, principalmente de natureza mitigatória, que contribuem para um melhor cuidado com o nosso planeta, incluindo diversas ações locais, estaduais e nacionais, como a redução do consumismo, do desperdício, a implementação da economia circular, a reciclagem, a agricultura de baixo carbono, a agricultura regenerativa, a redução do desmatamento, o uso mais racional dos solos, a economia solidária, a agroecologia e, também, o uso de energia solar e eólica como uma nova matriz limpa.

Todavia, o impacto de todas essas ações, quando confrontadas com os impactos produzidos pelo uso de combustíveis fósseis, tem efeito tênue, principalmente se considerarmos também os aspectos e fatores geopolíticos e estratégicos existentes no planeta.

Ao longo das cinco ou seis últimas décadas, conforme inúmeros dados científicos têm demonstrado, com exceção de poucos países e continentes (como alguns países europeus), todos os demais países têm aumentado o consumo de combustíveis fósseis e têm aumentado rapidamente o volume de emissão de gases de efeito estufa.

Entre os anos de 1970 até 2025, ano após ano, com exceção do período da pandemia da COVID-19, houve um aumento significativo da emissão dos gases de efeito estufa, principalmente pelos países com os maiores PIBs, tanto os que participam do G7 quanto do G20, impondo uma quota de sacrifício a centenas de outros países de renda média e baixa, que emitem um percentual marginal desses gases que contribuem para o agravamento da crise climática e suas consequências sobre todos os países, mas que afetam, como já comprovadamente demonstrado, as pessoas e países mais pobres.

Essa foi a razão pela qual o Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si (Ecologia Integral), reforçou duas ideias fundamentais: a primeira, “tudo está interligado” neste planeta, ou seja, os danos e a degradação ambiental não reconhecem nem seguem/obedecem limites geográficos e fronteiras nacionais; e, segundo, “o grito, o gemido da Terra é também o grito dos pobres, oprimidos, excluídos e injustiçados”, no mundo todo e em todos os países.

Por exemplo, em relação aos dez países que mais poluíram o planeta em 2025 — China, EUA, Índia, Rússia, Indonésia, Brasil, Japão, Irã, Arábia Saudita e Canadá —, os mesmos, em conjunto, são responsáveis por 66% das emissões de gases de efeito estufa; se adicionarmos a União Europeia, esse percentual chega a 77%.

Diante desses números e dados estatísticos confiáveis e atuais, não podemos deixar, neste Dia Mundial do Planeta Terra, de refletirmos sobre dois conceitos fundamentais, que, bem de perto, estão relacionados com um desastre já sobejamente anunciado: o “ponto do não retorno”, ou seja, já atingimos, em 2023, em alguns lugares do planeta, uma situação de degradação ambiental em que nem a mitigação, e muito menos a recuperação do que já foi destruído, pode acontecer.

O outro conceito é sobre “os limites do planeta” ou a “sobrecarga da Terra”.

O Dia de Sobrecarga da Terra (24 de julho), também conhecido como Dia do Excesso de Capacidade da Terra, marca a “data em que a demanda da humanidade por recursos e serviços ecológicos, em um determinado ano, excede o que a Terra pode regenerar nesse mesmo período de tempo”, explica a Global Footprint Network, uma organização internacional de pesquisa que calcula e organiza essas métricas.

Já os limites do planeta, ou limites planetários, também conhecidos como fronteiras planetárias, são um conceito que define os limites dentro dos quais a humanidade e seus sistemas produtivos, de trabalho e de consumo, e as expectativas das novas gerações, podem coexistir, para garantir que o planeta Terra continue a ser um sistema universal seguro, habitável e que garanta todas as formas de vida vegetal, animal e, principalmente, a vida humana.

Esses são aspectos que precisamos refletir, utilizando tanto o conhecimento científico quanto os saberes tradicionais, ancestrais, dentro de um quadro amplo de respeito aos direitos fundamentais das pessoas, à dignidade humana e aos direitos das futuras gerações, onde a ética, a justiça, o diálogo e a solidariedade não podem ser deixados de lado, em nome de interesses econômicos de poucos, do lucro e de uma visão imediatista.

Tudo isso precisa estar presente quando celebramos o Dia Mundial do Planeta Terra, neste 22 de abril de 2026, no Brasil e pelo mundo afora!

Finalizando, apesar de o dia 22 de abril ser um dia especial, na verdade, todos os dias, em todos os anos, precisamos cuidar melhor do planeta Terra, e não apenas em um dia.

 

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

 

 

 

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Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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JUACY DA SILVA* e PRISCILLA ALYNE SUMAIO**

No dia 19 de abril, “celebramos” o Dia dos Povos Indígenas e, no dia 22 do mesmo mês, o Dia da Terra — datas que também coincidem com o chamado “Descobrimento do Brasil”. Na verdade dias de luta em defesa desses povos e também em defesa da ecologia integral em nosso país, sujeitos a inúmeras formas de agressões, violência e muitos crimes que continuam impunes.

O destino dos povos originários, indígenas e o futuro do planeta estão umbilicalmente interligados, razão pela qual não podemos separá-los sob pena de perdermos o rumo do futuro, isto é sustentado por evidências científicas, cada vez mais claras e, por práticas de sustentabilidade comprovadas, como verdadeiros guardiões das florestas, das águas, da biodiversidade, tornando a proteção dos seus direitos e territórios uma questão central para a sobrevivência global. 


Povos indígenas e comunidades tradicionais, enfim, os povos originários são reconhecidos como os guardiões mais eficazes da natureza, responsáveis por proteger cerca de 80% da biodiversidade remanescente na Terra, apesar de representarem apenas 5% da população mundial. 

Além dessas dimensões antropológicas, não podemos que os povos indígenas e originários são seres humanos, apenas vivendo em um tempo cultural e antropológico distinto, mas que, nem por isso,  suas culturas, seus estilos de vida e seus territórios devem ser destruidos em nome de um falso progresso que nãoa respeita esses povos, nem o meio ambiente e nem as diferenças sociais, políticas e econômicas.

Neste sentido, O Papa Leão XIV, em pronunciamento recente enfatizou que a evangelização não pode significar apagamento cultural. Em sua mensagem para o Jubileu dos Povos Originários, reconheceu-os como uma "voz insubstituível”, afirmou ainda que preccisamos agir contra o abuso e a exploração na Amazônia, enviando mensagens aos bispos amazônicos sobre a proteção dos povos e do território.


Essas declarações refletem uma postura de valorização da identidade indígena, busca por justiça social e ambiental, marcada também por gestos de reparação histórica.


Esses marcos  são   profundamente   significativos,   pois   evidenciam   não apenas  a história de luta dos povos indígenas, mas também a crescente ameaça ao planeta Terra, submetido a um processo contínuo de destruição, degradação ambiental e extinção de espécies.


Estima-se que mais de 95% das espécies que já habitaram o planeta ao longo da história tenham desaparecido, e essa tragédia continua em curso, colocando em risco todas as formas de vida — inclusive a humana, que, paradoxalmente, é ao mesmo tempo a mais vulnerável e a principal agente desse processo destrutivo.


Nesse contexto, há uma relação indissociável — quase umbilical — entre o planeta Terra e os povos indígenas. Como afirma Ailton Krenak, “a ideia de que somos os donos da Terra é uma ideia muito equivocada. Nós somos parte dela”.  Essa compreensão rompe com a visão dominante de separação entre humanidade e natureza e nos convida a repensar profundamente nossos modos de vida.


Assim, a luta em defesa do planeta é também a luta pela sobrevivência, pela identidade e pelo respeito ao direito de existência dos povos indígenas em todos os continentes, inclusive no Brasil.


Nesse debate, é fundamental incluir também a dimensão linguística, frequentemente invisibilizada: as línguas indígenas de sinais. Em diferentes comunidades indígenas no Brasil, pessoas surdas desenvolvem sistemas próprios de comunicação visual- gestual, profundamente enraizados em suas culturas e territórios. Essas línguas não são   meras   adaptações   da   Libras,   mas   sistemas   linguísticos   autônomos,   que expressam  formas   específicas  de   organização  do   espaço,  da   experiência  e   das  relações sociais. Como aponta Sumaio, ao analisar a língua terena de sinais, essas  línguas evidenciam que “a diversidade linguística indígena também se manifesta no  campo visual-gestual, revelando sistemas complexos e culturalmente situados de  significação”. Assim como as línguas orais indígenas, essas línguas de sinais também  estão ameaçadas — seja pela perda de territórios, seja pela imposição de modelos  educacionais   e   linguísticos   externos.   Sua   preservação   e   reconhecimento   são  essenciais   não   apenas   para   as   comunidades   surdas   indígenas,   mas   para   a compreensão mais ampla da diversidade linguística  e das múltiplas formas de  existência humana.


A destruição ambiental afeta diretamente esses povos. O desmatamento, as queimadas, a degradação dos solos, garimpos ilegais e mineração, a  contaminação das águas e a perda da biodiversidade comprometem suas formas de vida.  Como destaca Davi Kopenawa, “os brancos pensam que a floresta é muda. Mas ela fala”


Essa afirmação expressa uma outra concepção de mundo, na qual a natureza não é  um recurso, mas um sujeito de relações e significados.

Há, portanto, uma negação sistemática da existência desses povos, manifestada em  diferentes formas de violência, especialmente na restrição de seus territórios — muitas  vezes transformados em espaços reduzidos e insuficientes para a reprodução de seus  modos de vida.
Por isso, os povos indígenas são frequentemente reconhecidos como os verdadeiros  guardiões da Terra, das florestas, dos biomas e das águas.  Em contraste, o modelo  dominante de desenvolvimento tem promovido a exploração predatória da natureza, agravando a crise climática e seus impactos globais.

Diante desse cenário, é fundamental reconhecer que a crise ambiental não é apenas  ecológica, mas também social, política , cultural e ética, enfim, uma crise existencial, diante da qual a humanidade não pode se esquivar. Como já alertava Darcy Ribeiro, “os índios  não são o passado do Brasil. São parte do seu futuro”.


Assim, o  Dia  dos Povos  Indígenas  e o  Dia  da Terra não devem ser apenas datas comemorativas, celebrativas, mas, fundamentalmente, momentos de reflexão crítica, de mobilização e de luta por um futuro sustentável, de respeito `a vida e respeito `as diferenças.  Mais do que isso, devem representar um chamado à ação: a transformação dos discursos em práticas  concretas, capazes de redefinir nossos modelos de desenvolvimento e nossas relações sociais, econômicas, políticas e também nossas relações com o planeta.

É neste sentido que o Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si, em defesa da Ecologia Integral, enfatiza que “o grito, o gemido da terra é também o gemido e grito dos pobres, excluidos e injustiçados” e, na atualidade, os povos indígenas representam parte dos excluidos e injustiçados em nosso país.
Como nos lembra novamente Ailton Krenak, talvez seja preciso “adiar o fim do mundo” — e isso só será possível se formos capazes de aprender com aqueles que, há séculos, milênios, já  sabem que viver é coexistir e lutar!

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso,   sociólogo,   mestre   em   Sociologia,   ambientalista,   ativista   social,  articulador   da Pastoral  da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail  O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ; Instagram @profjuacy 

**Priscilla   Alyne   Sumaio  é   linguista,   doutora   em   Linguística   pela  Universidade  Estadual Paulista e professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de  Goiás. É especialista em Libras e uma das primeiras pesquisadoras brasileiras a  descrever linguisticamente uma língua indígena de sinais, com pesquisas voltadas à  documentação,   análise   e   ensino   da   Língua  Brasileira  de   Sinais   e   das   línguas indígenas de sinais no Brasil.

 

 

 

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Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

Nunca é tarde para sonhar. Insistir sempre, desistir jamais. Este é o lema, o mantra de quem, como a Pastoral da Ecologia Integral, a Associação Cuiabá Mais Verde e tantas outras iniciativas, pessoas e entidades, como, por exemplo, o Projeto Plantar, articulado há anos pelo Vereador Mário Nadaf, lutam em defesa da ecologia integral, em todas as dimensões, incluindo a arborização urbana de nossas cidades, como em Cuiabá, que já há muitas décadas perdeu a condição de CIDADE VERDE.

Graças à decisão do Governo Federal, na atual gestão, através do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, em 13 de março último (2026), através da Portaria GM/MMA nº 1.639, foi aprovado o “marco regulatório” da arborização urbana no Brasil, um passo significativo nesta luta quase que inglória, diante das resistências de inúmeros setores e da omissão generalizada dos poderes públicos estaduais e municipais.

“O Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), instituído pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), tem como objetivos aumentar a cobertura vegetal nas cidades brasileiras até 2045, reduzir as ilhas de calor, melhorar a qualidade do ar, a qualidade de vida da população das cidades, gerenciar águas pluviais, reduzir os riscos de desastres socioambientais, promover e incrementar a biodiversidade e adaptar os centros urbanos às consequências das mudanças climáticas.”

Após a publicação do PlaNAU pelo Governo Federal, em 16 de março último, a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), em matéria publicada em seu “site”, esclarece que “o governo federal instituiu o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), criando o primeiro instrumento nacional dedicado exclusivamente à expansão e qualificação da arborização nas cidades brasileiras. O PlaNAU estabelece diretrizes federais voltadas à ampliação e qualificação da cobertura arbórea no meio urbano, com 3 metas, 20 diretrizes e 6 estratégias de implementação”.

Diante disso, a Confederação Nacional de Municípios (CNM) esclarece e alerta aos gestores municipais que o plano representa uma mudança relevante ao reconhecer a arborização urbana como parte da infraestrutura essencial das cidades.

Nesse sentido, o PlaNAU tem um grande potencial para influenciar diretamente o modo como os Municípios irão planejar o desenvolvimento urbano de seus territórios, ao incentivar a integração da cobertura arbórea em diferentes instrumentos das políticas públicas.

Neste mesmo contexto, também o TCE/MT despertou para seu papel como organismo de controle e orientação das ações públicas de âmbito estadual e municipal, principalmente quanto às competências e responsabilidades dos governantes e gestores estaduais e municipais.

Assim, hoje podemos tomar conhecimento de uma notícia/matéria divulgada pelo TCE/MT, ótima, desde que das intenções, boa vontade e discursos possamos ver tudo isso transformado em realidade, dando um prazo de 180 dias (seis meses), ou seja, até meados de julho próximo (2026), tanto o Estado quanto todos os municípios a elaborarem seus PDAUs – Planos Diretores de Arborização Urbana, enviando-os às Câmaras Municipais e, creio eu, em relação ao Estado, sendo aprovado pela Assembleia Legislativa.

Muita gente ignora ou não percebe que a arborização urbana, nos espaços públicos (ruas, avenidas, parques, áreas de proteção ambiental (APAs) ou áreas de proteção permanente (as APPs), é de responsabilidade dos poderes públicos, no caso, estaduais e municipais.

É dever dos Estados e Municípios “alinharem” os planos estaduais e municipais ao PlaNAU – Plano Nacional de Arborização Urbana, aprovado e transformado em lei e política nacional de arborização urbana, devendo, então, serem incluídos nos respectivos orçamentos públicos, como os PPAs – Planos Plurianuais, a serem aprovados no primeiro ano de cada gestão (municipal e estadual), para vigorarem até o final do primeiro ano da próxima gestão; e também serem incluídos na LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias e na LOA – Lei Orçamentária Anual dos Estados e Municípios.

Só assim tais planos terão suporte orçamentário e financeiro para que as ações necessárias sejam programadas e executadas. Costuma-se dizer que as propostas de ações que não estejam contempladas nas “peças” orçamentárias são promessas vazias ou mentiras oficiais.

Sem que isto seja feito, arborização e tantas outras ações públicas importantes só existem nas conversas fiadas de gestores incompetentes e demagogos.

Para que os PDAUs sejam incluídos nas políticas, programas, projetos e ações governamentais, é imperioso que constem das peças orçamentárias, o que vem sendo tentado em Mato Grosso, principalmente em Cuiabá, há mais de 20 anos, diante de ouvidos moucos e desinteresse de sucessivas administrações municipais e estaduais, para tristeza e decepção da população.

Mais detalhes podem ser obtidos lendo a matéria do TCE/MT ou procurando conhecer em detalhes o que os nobres conselheiros aprovaram e decidiram.

O TCE é um dos órgãos de controle, ao lado do Ministério Público Estadual, mas, por incrível que pareça, demoraram décadas para perceberem que arborização deve fazer, ou faz, parte das políticas públicas de enfrentamento da crise climática e um dos suportes fundamentais para a sustentabilidade ambiental e melhor qualidade de vida da população, principalmente da população urbana, que já representa em torno de 80% da população de Mato Grosso.

Vale a pena refletirmos sobre esta decisão e o empenho demonstrado pelo Presidente do TCE/MT, Conselheiro Sérgio Ricardo, que desde seus tempos de vereador em Cuiabá já lutava por questões ambientais, como, por exemplo, combatendo a degradação do Rio Cuiabá e a questão dos recursos pesqueiros do Pantanal.

Vejamos o que ele diz em relação a esta decisão recente do TCE/MT:

“Estamos atuando de forma preventiva e pedagógica, estimulando soluções estruturantes para os municípios. Cidades mais arborizadas são cidades mais saudáveis, resilientes e preparadas para o futuro”.

Segue o link da matéria/notícia referente à decisão do TCE/MT:

https://odocumento.com.br/tce-da-prazo-para-estado-e-municipios-estruturarem-politica-de-arborizacao-urbana/

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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