Quarta, 15 Abril 2026 15:58

LEÃO XIV O PAPA DA PAZ, DA JUSTIÇA E DOS DIREITOS HUMANOS - Juacy da Silva

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JUACY DA SILVA*

 

Bem antes do início da “Era Cristã”, em torno de 700 anos antes do nascimento de Cristo, o Profeta Isaías (32:17) exortava “que a verdadeira paz é fruto da justiça, fraternidade, tranquilidade e segurança duradouras”, destacando a relação direta entre o agir com justiça e colher a paz, tanto em nível pessoal quanto comunitário, nacional e internacional e, também, fruto de ações de governos justos (e democráticos).

Em sua mensagem por ocasião do Dia Mundial da Paz, em 01 de janeiro deste ano de 2026, o Papa Leão XIV foi bem claro, como se diz, “direto ao ponto”, ao dizer (“urbi et orbi”, ou seja, à cidade de Roma e ao mundo inteiro): “A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”, e, desde então, as críticas às guerras e a todas as formas de violência, principalmente nas relações internacionais, têm sido constantes e bem assertivas por parte do Líder da Igreja Católica, o que não tem agradado diversos chefes de governos e Estados, como nos EUA e outros países, bem como a todos os setores conservadores das Igrejas e da política.

A escolha/eleição de um novo Papa, líder máximo de mais de 1,4 bilhão de cristãos católicos espalhados por todos os continentes e países, sempre gera muitas reflexões e até mesmo algumas “apostas” em relação à sua “linha”, dimensão teológica, pastoral ou, enfim, seu magistério.

A Igreja Católica, como sabemos, acomoda ou inclui diferentes tendências, desde conservadores extremados, identificados política e ideologicamente com a extrema direita mundial, aqueles que “defendem a vida, lutam contra o aborto”, mas defendem a pena de morte e amam fazer as guerras que tanta destruição, sofrimento e mortes têm causado ao longo da história humana, e também alguns setores mais “liberais” ou até mesmo adeptos da Teologia da Libertação, considerada uma heresia pelos conservadores.

O importante é termos presente que, desde o Concílio Vaticano II (1962–1965), a Igreja abriu-se para uma maior participação de leigos e leigas e, também, reforçou sua “opção preferencial pelos pobres”, e isto não tem agradado os setores conservadores da Igreja em diversos países, incluindo o Brasil, os EUA e outros mais.

Ao longo dos pouco mais de 12 anos do magistério do Papa Francisco (2013–2025), “Aquele” que “veio do fim do mundo”, o primeiro Papa da América Latina, adepto da “Teologia dos pobres”, dos “padres das favelas”, a Igreja aprofundou alguns aspectos das conclusões do Concílio Vaticano II, incluindo a dimensão da ecologia integral com a publicação da Encíclica Laudato Si’ e das Exortações Apostólicas “Querida Amazônia”, após o encerramento do Sínodo dos Bispos da Pan-Amazônia, e também da Exortação Apostólica Laudate Deum, endereçada aos participantes da COP 28, em 2023. Sobre a gravidade da crise climática, indicou à Igreja Católica, aos cristãos em geral e aos fiéis de outras religiões a importância de bem cuidarmos de nosso planeta, denominado por Francisco como a Nossa Casa Comum.

Além disso, o Papa Francisco reforçou a importância de a Igreja Católica ser uma Igreja em saída, voltada para os pobres e ao lado dos pobres, ao criar, por exemplo, o Dia Mundial dos Pobres, criado em 2016 e a ser celebrado anualmente no 33º Domingo do Tempo Comum (2026 será em 09 de novembro), ou quando enfatizou os seus três “Ts”: Terra, Teto e Trabalho, considerando, inclusive, que “o gemido da terra é também o gemido, o grito dos pobres, excluídos e injustiçados”.

Além de ser uma Igreja em saída, em direção às periferias físicas e existenciais, a mesma deve ser sinodal, abrindo-se mais à participação de leigos e leigas e, claro, profética, denunciando as injustiças, a opressão, a violência, a exclusão social, política e econômica, psicológica, principalmente em decorrência das guerras e conflitos armados que tanta destruição material, migrações, sofrimento e mortes têm acarretado e continuam acarretando a dezenas e dezenas de milhões de vítimas inocentes.

Neste contexto, a ênfase na defesa dos direitos humanos fundamentais, como, por exemplo, um tratamento digno aos migrantes, trabalhadores, enfim, um combate intransigente a todas as formas de violência ficou mais clara na caminhada da Igreja sob o magistério de Leão XIV.

A escolha/eleição do Papa Leão XIV ocorreu neste contexto de uma grande transformação provocada na Igreja pelo magistério do Papa Francisco, um intransigente crítico de todas as formas perniciosas e nada éticas de ação no seio da Igreja, incluindo o clericalismo, denominado por ele como uma chaga, enfim, uma forma de mundanismo que danifica a Igreja, incluindo, também, a corrupção no Banco Vaticano e os diversos escândalos de pedofilia e abusos sexuais, que tantos males e vergonha estavam causando à imagem da Igreja.

Foi neste contexto que os conservadores imaginaram ou sonharam com a eleição de um novo Papa mais alinhado às suas posturas teológicas e pastorais e, em um primeiro momento, recaindo a escolha sobre o Cardeal Robert Francis Prevost, norte-americano, naturalizado peruano, com passagem como missionário e, depois, bispo da Diocese de Chiclayo, no Peru, poderia representar uma mudança de rumo em relação ao magistério do considerado “esquerdista” Papa Francisco.

Todavia, desde seus primeiros pronunciamentos e exortações apostólicas, tanto no Vaticano quanto em suas viagens apostólicas, Leão XIV tem enfatizado alguns temas considerados de extrema importância para a vida da Igreja Católica, para os cristãos e para o mundo, reafirmando a necessidade de a Igreja Católica ser “o sal da terra e a luz do mundo”, testemunha viva do Cristo Ressuscitado.

O primeiro deles tem sido uma condenação dura, explícita, frequente e bem corajosa às guerras e conflitos armados, principalmente aqueles promovidos por potências e superpotências dominadoras, cujas consequências têm sido devastadoras, principalmente para milhões de vítimas inocentes, como nas guerras da Ucrânia, contra os palestinos e, ultimamente, contra o Irã, Líbano e, também, algumas guerras civis na África e em outras partes do mundo.

Em lugar das guerras, que representam uma grande estupidez humana, Leão XIV propõe mais diálogos, mais diplomacia e a importância de criarmos uma verdadeira “cultura da paz”, embasada na justiça, justiça social, na solidariedade e no respeito pleno aos direitos fundamentais das pessoas (direitos humanos).

Em relação à justiça social e aos direitos humanos, Leão XIV disse claramente que a própria escolha de seu nome papal é a demonstração de que pretende, ao longo de seu magistério, que, esperamos, seja longo, dar continuidade aos princípios estabelecidos na Encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, de 1891, representando a estruturação inicial das preocupações da Igreja com as questões sociais relacionadas com a vida dos trabalhadores, em meio ao confronto entre duas concepções distintas: de um lado o capitalismo selvagem, escravizador, e de outro lado o movimento comunista.

Foi neste contexto que surgiu a Doutrina Social da Igreja e a ênfase na economia solidária, que Leão XIV compromete-se a seguir e aprofundar, como já fez ao publicar a Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), uma exortação iniciada pelo Papa Francisco, complementada e atualizada diante da gravidade da pobreza, da miséria e de outras formas de exclusão que tanto afetam os pobres, uma grande maioria da população, principalmente trabalhadores e trabalhadoras ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

E, por último, mas não sem a devida importância, Leão XIV também tem dado continuidade às preocupações e à luta por uma ecologia integral, com o destino do planeta Terra, Nossa Casa Comum, tendo em vista os desafios da crise climática, da degradação dos biomas e ecossistemas, da perda/destruição da biodiversidade, do desmatamento, com todas as formas de poluição (do ar, das águas e dos solos) que afetam profundamente o planeta e, principalmente, a saúde humana e a qualidade de vida, tanto das atuais quanto, principalmente, das futuras gerações.

Essas preocupações estão presentes, por exemplo, quando Leão XIV define a justiça ambiental como “uma necessidade urgente que ultrapassa a mera proteção imediata do ambiente”, defendendo que ela deve ser parte de uma “conversão ecológica” que transforma estilos de vida pessoais e comunitários. Ele enfatiza que o cuidado da casa comum é indissociável da justiça social, de uma justa distribuição dos frutos do crescimento econômico e do desenvolvimento integral e do cuidado com os pobres e, tudo isso, interliga-se umbilicalmente com a luta por uma paz desarmada e desarmante.

Diante do momento atual, em que o mundo assiste, passivamente, aos horrores de tantas guerras, cabe aos cristãos em geral e aos católicos em particular, da mesma forma que fiéis de outras religiões, verdadeiros amantes da paz, não apenas defenderem o Papa Leão XIV em sua luta e caminhada em defesa da paz desarmada e desarmante, construída sobre os princípios e fundamentos de uma cultura da paz, bem como em sua defesa da justiça social, justiça socioambiental e dos direitos humanos, mas também transformar nossas vozes e nossas ações em instrumentos dessas bandeiras empunhadas por ele.

Este é o lado que deve ser escolhido pelos verdadeiros cristãos neste momento tão crítico e delicado das relações interpessoais, nacionais e também internacionais.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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