O ANDES-SN disponibilizou o relatório consolidado da Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente. O documento foi apresentado no dia 29 de maio, durante a reunião do Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA), realizada na sede do Sindicato Nacional, em Brasília (DF).
Com a participação de 3.591 docentes da ativa e 256 aposentadas e aposentados de instituições de ensino superior de diferentes regiões do país, a segunda etapa do levantamento foi realizado entre 2024 e 2025. A primeira etapa, aplicada em 2023, contou com a participação de 1.874 docentes.
Inspirada na "Enquete Operária", elaborada por Karl Marx, a iniciativa buscou estimular um processo de reflexão coletiva sobre as condições de trabalho e saúde da categoria, evidenciando o aprofundamento da precarização do trabalho docente, especialmente após a pandemia de Covid-19, além de subsidiar a atuação sindical na defesa de melhores condições de vida e trabalho.
Entre as e os docentes ativos, predominam mulheres cisgêneras (53,9%) e pessoas brancas (65,8%). Além disso, 89,5% possuem doutorado, 96,2% têm vínculo efetivo e 91,8% atuam em regime de dedicação exclusiva. A maioria (63,4%) trabalha em instituições federais e exerce atividades principalmente na graduação, embora mais da metade também atue em outros níveis de ensino. Entre as aposentadas e os aposentados, o perfil é semelhante.
Intensificação do trabalho
Os resultados revelam uma intensificação estrutural do trabalho docente. Cerca de 67,3% das e dos participantes afirmaram que houve aumento das atividades desempenhadas em comparação ao período anterior à pandemia. Além disso, 75,4% relataram trabalhar além da carga horária prevista em seus regimes de trabalho.
A enquete também evidenciou o crescente avanço do trabalho sobre o tempo livre, com atividades profissionais sendo realizadas regularmente aos finais de semana e feriados. Como consequência, 83,1% das e dos docentes ativos afirmaram sentirem-se sobrecarregados, condição associada à pressão por produtividade, ao uso intensivo de tecnologias de comunicação e à dificuldade de estabelecer limites entre a vida profissional e pessoal.
Para Jacqueline Lima, 1ª secretária do ANDES-SN e da coordenação do GTSSA, os resultados apontam uma mudança estrutural no padrão de trabalho docente após a pandemia. “A percepção dos docentes sobre as condições de trabalho após a pandemia indica que houve uma mudança do padrão de trabalho. Coletivamente, os docentes estão submetidos a uma exigência maior de trabalho, inclusive para além do horário, envolvendo finais de semana e feriados”, afirmou.
Hiperconectividade
O relatório apontou que a utilização intensiva de aplicativos de mensagens, e-mails e plataformas digitais para resolver demandas de trabalho fora do expediente se tornou uma característica permanente da atividade docente.
Entre as e os respondentes, 89,3% relataram utilizar diariamente aplicativos de mensagens para fins profissionais, enquanto 81,8% afirmaram resolver demandas de trabalho frequentemente (37,9%) ou sempre (43,9%) fora do horário regular.
Segundo Jacqueline Lima, a enquete identificou uma relação direta entre a hiperconectividade e a piora das condições de saúde. “Os dados mostram que, quanto maior o uso de aplicativos, e-mails e sistemas online para resolver demandas de trabalho, pior tende a ser a avaliação da saúde dos docentes. Esse grupo também relatou menos horas de sono e menor prática de atividades físicas”, destacou.
Saúde e adoecimento
Os impactos das condições de trabalho refletem diretamente na saúde da categoria. Mais da metade das e dos docentes (51,8%) relataram uma piora das condições de saúde no último ano. Cerca de 52,5% afirmaram uma redução das horas de sono e 41% disseram ter diminuído a prática de atividades físicas.
As doenças musculoesqueléticas (36,4%), que afetam ossos, músculos, articulações, tendões, ligamentos e coluna vertebral, e os transtornos de ansiedade (35,4%), como síndrome do pânico e fobia social, apareceram entre os principais problemas de saúde identificados pela enquete.
Para 67,8% das entrevistadas e dos entrevistados, o adoecimento está diretamente relacionado às condições de trabalho enfrentadas nas instituições de ensino.
O levantamento também registrou que raramente, algumas vezes, frequentemente ou sempre as e os participantes sofreram situações assédio moral (60,9%), violência política (54,1%) e machismo (47,4%) no cotidiano institucional.
Descanso comprometido
De acordo com a enquete, 68,6% das e dos docentes trabalham frequentemente ou sempre aos finais de semana, enquanto 57,5% mantêm atividades laborais durante os feriados.
“A intensificação do trabalho docente se tornou um problema coletivo, agravado pela ampliação das demandas para além da jornada regular e pelo uso de ferramentas digitais. Por isso, é necessário construir estratégias de enfrentamento, no âmbito do ANDES-SN e das seções sindicais, incluindo o diálogo com as reitorias, para melhorar as condições de trabalho e conter a sobrecarga da categoria”, afirmou Jacqueline.
Gênero e orientação sexual
O estudo também revelou as desigualdades estruturais dentro da academia. Além de realizarem mais orientações e coorientações de estudantes de graduação, as mulheres acumulam uma carga significativamente maior de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados.
As docentes relataram maior sobrecarga no trabalho, registrando 88,1% frente a 77,2% dos homens. Elas também relataram, com mais frequência, dificuldades para cumprir as demandas de trabalho e que estão mais expostas a diferentes formas de violência no ambiente laboral. O machismo é apontado como uma presença constante ("sempre") por 12,5% das professoras, ao mesmo tempo em que o índice entre os homens é de apenas 1%. Outro dado preocupante é que 22,5% das docentes afirmaram sofrer racismo nas relações de trabalho.
Segundo Jacqueline Lima, o gênero é um aspecto fundamental para compreender as condições de trabalho da categoria e deve ser considerado na formulação de estratégias de enfrentamento e mobilização sindical. “As mulheres docentes enfrentam níveis mais elevados de sobrecarga, trabalham mais fora da jornada regular e relatam maior insuficiência de tempo”, ressaltou.
O levantamento identificou maior incidência de violência no ambiente de trabalho entre docentes LGBTI+. Entre as e os respondentes, 13,9% se identificaram LGBTI+, 2,6% preferiram não responder, 0,2% indicaram não saber.
Os dados revelaram maior exposição da população LGBTI+ a situações de discriminação e violência no ambiente acadêmico. Cerca de 63% das e dos respondentes afirmaram ter sofrido LGBTI+fobia, com predominância de 13% frequentemente e sempre.
Desvalorização Salarial
O levantamento também apontou para dificuldades financeiras enfrentadas por parcela significativa da categoria. Quase 60% das e dos docentes ativos relataram ter recebido reajustes salariais abaixo da inflação nos últimos anos, em paralelo a 23,5% que afirmaram não ter recebido qualquer reajuste.
Além disso, 67,8% possuem algum tipo de dívida, e mais de um terço realiza atividades remuneradas adicionais para complementar a renda, evidenciando os impactos das perdas salariais e da desvalorização da carreira docente. Docentes pretos, pardos e indígenas apresentaram índices mais elevados de endividamento 77,3%.
Aposentadas e aposentados
Entre docentes aposentadas e aposentados, o relatório mostrou que persistem desigualdades de gênero e raça relacionadas à saúde e ao endividamento. As reformas da Previdência e as mudanças na carreira docente contribuíram para o achatamento salarial e para a deterioração das condições de vida de parte significativa deste segmento da categoria.
Cerca de 39,1% das aposentadas e dos aposentados acreditavam que seu quadro de adoecimento possui relação com o trabalho que exerciam. Além disso, 31,3% relataram redução das horas de sono e da prática de atividades físicas no último ano. Por outro lado, o índice de sindicalização entre a categoria aposentada é elevado, alcançando 91,4%. Entre as e os docentes ativos, esse percentual é de 74,6%.
Resultado
Para o GTSSA, os dados reforçaram que o debate sobre saúde docente não pode ser tratado apenas como uma questão individual, mas deve ser compreendido a partir das condições concretas de trabalho e das desigualdades que atravessam a categoria.
“Somos um sindicato classista, mas reconhecemos que existe uma interseccionalidade de gênero, raça e de geração que precisa ser considerada quando planejamos estratégias de luta e enfrentamento. Quando lutamos por aposentadoria com integralidade e paridade, por melhoria salarial e valorização da carreira, estamos também lutando pela promoção da saúde e da qualidade de vida da categoria”, ressaltou Jacqueline Lima.
Conforme a diretora do ANDES-SN, os resultados da enquete devem subsidiar debates nas seções sindicais e fortalecer o diálogo com as administrações das instituições de ensino superior. “É importante ampliar o diálogo das seções sindicais com as administrações das universidades a partir desses resultados, construindo estratégias coletivas de enfrentamento, mobilização, denúncia e transformação das condições de trabalho”, concluiu.
Confira aqui o material
Fonte: Andes-SN
Entre os dias 18 e 21/05, no auditório da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat-Ssind), campus Sinop, mais de uma centena de pessoas se reuniram para debater as questões que envolvem os Territórios Amazônicos. A segunda edição do evento, que teve como tema "Educação, Direitos e Resistência", contou com a participação de diversos movimentos sociais de trabalhadores e também representantes indígenas.
A professora Darlene Yaminalo Taukane, da etnia Kurâ-Bakairi, foi uma das convidadas. Em um dos depoimentos mais emocionantes, ela falou sobre a importância da educação e da UFMT Sinop para a população indígena do estado.
No vídeo abaixo, gravado ainda durante as atividades, ela fala um pouco sobre sua intervenção na mesa, na qual destacou a relação da população indígena com a educação no geral, mas especialmente da necessidade de que a UFMT Sinop se aproxime da luta indígena e seja um dos polos da FAIND, Faculdade Indígena Intercultural, como o que já existe na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Confira:
Assessoria da Adufmat-Ssind
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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
“Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro”. Papa Francisco, discurso aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, promovido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, em colaboração com a Pontifícia Academia das Ciências Sociais, em Roma, 29/10/2014.
“Sustentar uma família de quatro pessoas no Brasil em 2026 exige uma renda muito acima do salário mínimo, segundo estimativas baseadas na cesta básica. Alimentação, aluguel, transporte, saúde, escola, luz, água e pequenos gastos do dia a dia formam uma soma que cresce rapidamente, especialmente quando é necessário atender às necessidades simultâneas de quatro pessoas. De acordo com dados do Dieese divulgados em maio, o salário mínimo necessário para manter uma família desse porte em abril de 2026 seria de R$ 7.612,49, equivalente a 4,7 vezes o salário mínimo oficial de R$ 1.621. O cálculo considera uma família formada por dois adultos e duas crianças, utilizando como referência a Constituição, que determina que o salário mínimo deve cobrir gastos com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência”. Fonte: Revista Fórum, 02/06/2026. Raony Salvador.
"Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que vocês retiveram com fraude, está clamando contra vocês. O lamento dos ceifeiros (trabalhadores e trabalhadoras) chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos." Carta de São Tiago 5:4, sobre a fé e a prática da justiça. Com certeza, este ainda é o mesmo clamor no Brasil de hoje e da grande maioria dos países. É o grito dos pobres e também o grito/gemido da terra, como está na Laudato Si.
Entre os países do G20 (as vinte maiores economias do mundo, entre as quais nosso país ocupa a 10ª posição), o Brasil foi o segundo pior (19º) em desigualdade de renda/salário, riqueza e patrimônio/propriedade, medida através do índice de Gini, onde a África do Sul ocupou a 20ª posição. Isto nos aproxima dos países mais pobres da África, da América Latina e da Ásia, apesar de um certo ufanismo muito próprio de alguns setores econômicos, dos discursos das elites dominantes e dos donos do poder.
Ao longo dos últimos 135 anos, desde a publicação da Encíclica Rerum Novarum pelo Papa Leão XIII, em 15 de maio de 1891, passando pela Quadragesimo Anno, escrita pelo Papa Pio XI em 1931, em meio à grande recessão econômica mundial, seguindo-se a Mater et Magistra, do Papa João XXIII, em 1961, celebrando os 70 anos de publicação daquela Encíclica que representa os fundamentos básicos da Doutrina Social da Igreja, chegando à Centesimus Annus, escrita pelo Papa João Paulo II em 1991, para marcar o centenário da Rerum Novarum e analisar as transformações pós-Guerra Fria, e chegando, finalmente, a Magnifica Humanitas, a primeira Encíclica publicada recentemente, em 15 de maio último (2026), pelo Papa Leão XIV, para celebrar o 135º aniversário da Rerum Novarum, focando nos desafios e impactos da inteligência artificial, a Igreja Católica, através das exortações de seus líderes máximos, que são os Papas, tem se posicionado de forma coerente, firme e corajosamente na defesa dos trabalhadores, exortando a todos e todas de que o trabalho é um direito humano fundamental, como condição de sobrevivência e "progresso" individual e familiar, mas que o trabalho tem que estar embasado na dignidade humana e garantir condições básicas como jornada de trabalho coerente com as necessidades físicas e de descanso, bem como salário justo que possibilite ao trabalhador atender suas necessidades básicas e de sua família.
Assim, a defesa do trabalhador, de condições dignas e salário justo é o único caminho para que os trabalhadores desfrutem de um padrão de vida, de bem-estar e de uma condição necessária para reduzir ou até mesmo eliminar as desigualdades sociais e econômicas existentes em nosso país e ao redor do mundo.
A Igreja no Brasil, através da CNBB, tem se posicionado e orientado em relação a esses desafios através de ações das pastorais sociais inseridas na dimensão sociotransformadora, conforme diversos de seus documentos oficiais.
Por isso, acreditamos que, se tais requisitos não forem cumpridos, mesmo que o trabalho escravo tenha sido eliminado na grande maioria dos países ao longo desses 135 anos, as condições de vida do trabalhador estarão ainda próximas do chamado “trabalho em situação análoga à escravidão”, como ainda existem em um grande número de países.
Outro aspecto importante nesta reflexão sobre a questão central, que é o valor do trabalho e como, em sendo este valor aviltado, o trabalhador jamais deixará sua condição de pobreza, fome, miséria, discriminação e exclusão; razão pela qual a Igreja, ao longo de milênios, tem feito a “opção preferencial pelos pobres” e, através de seu magistério social, apoia a luta dos trabalhadores e trabalhadoras no mundo inteiro e também no Brasil.
Todavia, é importante estarmos cientes de que a maioria das discussões sobre pobreza, fome, miséria e exclusão, que caracterizam mais da metade dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros, parece fugir de uma reflexão que demonstre a origem verdadeira: a maior causa dessas desigualdades são o aviltamento e os baixos salários pagos aos trabalhadores ao longo de décadas ou até mesmo séculos.
A abolição do trabalho escravo, longe de fazer justiça plena e garantir a dignidade aos trabalhadores e trabalhadoras, foi substituída por condições e padrões de vida que estão muito mais próximos das “senzalas”, dos mocambos, do que da “casa grande”. Basta observarmos a precariedade das áreas periféricas de nossas cidades, onde vive a grande maioria da classe trabalhadora.
O trabalho que garanta condições dignas e salário justo é o único caminho que conduz à dignidade humana, à libertação plena e à mobilidade social e econômica; sem isso, os trabalhadores continuarão apenas como o elo mais fraco dos sistemas de produção e de relações de trabalho, contribuindo para gerar renda, riqueza, patrimônio, privilégios e opulência para as “classes abastadas”.
Os trabalhadores que constroem os edifícios, os apartamentos luxuosos, são os mesmos que moram nas favelas, nos cortiços, nas palafitas, enfim, nas periferias urbanas sem as mínimas condições que lhes garantam a dignidade humana.
Ao não identificar a maior causa dessas mazelas, que é o aviltamento dos salários, das aposentadorias e pensões, principalmente o valor do salário mínimo que, legalmente/constitucionalmente, deveria ser “reajustado” tanto em relação aos índices de inflação em geral quanto à manutenção do poder aquisitivo dos salários, cria-se um hiato, um abismo, a longo prazo, entre o valor do salário e seu poder de compra, empurrando o trabalhador para a pobreza, a miséria e a fome.
Desde a sua criação, há quase um século, nos anos quarenta do século passado, por exemplo, o salário mínimo e todas as demais faixas salariais pagas aos trabalhadores foram perdendo poder de compra.
Esta perda de poder de compra do salário mínimo, por exemplo, ao longo de mais de 83 anos, chega em 2026 a 78,2% em relação ao que comprava nos anos quarenta, ou seja, o salário mínimo em 2026 vale apenas 21,8% do valor recebido, em poder de compra, por um trabalhador que ganhava um salário mínimo na década de quarenta.
Costuma-se dizer que a inflação é algo “democrático”, que afeta igualmente todas as classes sociais, mas não é bem assim. A inflação impacta de uma forma mais cruel os trabalhadores, principalmente quem ganha um ou dois salários mínimos, e, neste sentido, ocorre uma transferência de renda dos mais pobres, dos trabalhadores, para a classe alta, a chamada burguesia ou os “donos do poder”. Esta é uma ou a maior fonte da acumulação de capital em poucas mãos, como costuma-se dizer.
Vejamos o caso brasileiro, país que ostenta um dos maiores índices de desigualdades de renda, riqueza e patrimônio do planeta, ocupando a 5ª pior posição entre mais de 200 países e territórios, conforme dados do último relatório da Desigualdade Global, divulgado em dezembro de 2025 pelo WIL (World Inequality Lab), grupo de pesquisadores liderado pelo economista francês Thomas Piketty, conforme matéria publicada pelo site Poder360, enfatizando que os 10% mais ricos no Brasil concentram 59,1% da renda nacional, enquanto a metade mais pobre detém apenas 9,3% dos recursos.
Mais gritante ainda é o fato de que 1% dos mais ricos detém 26,5% da renda nacional, com uma renda média per capita de 332.335 mil euros, equivalente em PPP – paridade de poder de compra –, comparada com uma renda média entre os 50% mais pobres de apenas 1.167 euros, ressaltando que a origem da renda dos 50% mais pobres advém do salário, enquanto a do 1% tem origem na especulação financeira, no chamado rentismo, praticamente não tributado.
Vale a pena examinar com mais atenção e profundidade este relatório sobre a desigualdade em todos os países, onde podemos perceber que esta desigualdade de renda, a partir do salário, tem cor, raça e classe social, ou seja, os índices de desigualdade afetam de uma forma mais intensa pessoas negras/pretas, mulheres, pobres e indígenas.
Dados também recentes do IBGE e de outras instituições de pesquisas e análises, inclusive de fontes governamentais como o IPEA ou não governamentais como a FGV, vêm demonstrando constantemente que, ao longo de mais de um século, os índices de desigualdade praticamente não têm diminuído.
Vejamos, em 2025, por exemplo, 35,3% dos trabalhadores brasileiros recebiam no máximo até um salário mínimo por mês. Este percentual é um dos principais retratos da desigualdade de renda no país, revelado pelo Censo Demográfico e pela PNADs do IBGE.
Além de ocupar mais de um terço da população ocupada, esses dados do IBGE demonstram outras características importantes da base da pirâmide salarial: gênero e raça. O impacto é ainda maior entre pretos e pardos (onde mais de 43% recebem até um salário mínimo) e indígenas (57,3%).
A concentração de renda/salário não para apenas nesses dados; constatamos que aproximadamente 7 em cada 10 trabalhadores, ou seja, 70% da população ocupada, ganham até dois salários mínimos mensais, e 90% dos trabalhadores recebem no máximo até três salários mínimos mensalmente, sendo que apenas 7,6% dos trabalhadores possuem rendimentos superiores a cinco salários mínimos.
Se a situação salarial dos trabalhadores e trabalhadoras os acorrenta na pobreza, não sendo suficiente sequer para cobrir gastos com alimentação e moradia, quando a Constituição Federal, desde a de 1946, fazendo coro com a legislação trabalhista aprovada em meados dos anos quarenta e, novamente, presente na Constituição Federal de 1988, estabelece que o valor ou poder de compra do salário mínimo deve ser suficiente para cobrir, além dessas duas necessidades fundamentais, também despesas/gastos com saúde, lazer, educação e transporte, quando o trabalhador se aposenta a situação às vezes piora, principalmente porque algumas despesas, como saúde, incluindo medicamentos, aumentam.
É importante sabermos que 70% dos pagamentos feitos pelo INSS correspondem a benefícios de até um salário mínimo. Esse contingente representa a grande maioria dos aposentados e pensionistas que dependem do piso nacional para sua renda básica.
Mais de 80% dos aposentados e pensionistas do INSS recebem no máximo até dois salários mínimos, e em torno de 95% dos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recebem até três salários mínimos. Dados históricos da Previdência Social demonstram claramente esta concentração de renda e desigualdade gritante no Brasil.
Cabe ainda ressaltar que os índices de desigualdade, principalmente de renda/salário, no caso do Brasil, vêm persistindo ao longo de mais de um século, e a tendência é continuar ou até mesmo se agravar no futuro, diante de um modelo econômico excludente, concentrador de renda, riqueza e propriedade/patrimônio, graças, inclusive, a políticas públicas que transformam o Estado brasileiro em sócio e alimentador na acumulação do capital, através de subsídios, renúncia fiscal e um sistema tributário regressivo em detrimento do fator trabalho.
Se o trabalhador não recebe salário sequer para cobrir seus gastos básicos e acaba complementando seu salário/renda através de políticas públicas assistencialistas que distribuem migalhas, gerações e gerações de trabalhadores continuarão acorrentadas na pobreza e jamais terão condições de ter um teto, uma moradia digna para morar; um pedaço de terra para morar e trabalhar; e trabalho digno com salário justo que lhes permita “poupar” alguns trocados.
Costuma-se dizer que a única herança que os trabalhadores, a imensa maioria que vive na pobreza, deixam para seus filhos/filhas são as dívidas, contraídas pela manipulação de um marketing comercial que promove verdadeira lavagem cerebral, empurrando milhões de trabalhadores que recebem salários aviltados a caírem na trama ou malha de agentes financeiros ou agiotas que lhes cobram taxas de juros abusivas, acima de 100%, 200% ou até 300%, empobrecendo-os ainda mais para a pobreza e miséria, um sufoco sem fim.
Discutir e lutar pelo fim da escala 6 x 1 é superimportante, mas, de maneira igual, se não houver uma luta muito grande para recuperar o poder de compra dos salários em geral e principalmente do salário mínimo, os níveis de exploração, opressão e exclusão dos trabalhadores em geral, mas especialmente dos negros/pretos, mulheres, moradores das periferias e indígenas, continuarão sendo a principal causa das desigualdades, da fome e da miséria.
Por isso, lutar pelos três “Ts” do Papa Francisco é fundamental. Se a Igreja proclama com frequência que faz a “opção preferencial pelos pobres”, não pode estar alheia a esta luta, defendendo a Casa Comum, mas também a Reforma Agrária, a agricultura familiar e a agroecologia, a economia solidária, a Reforma Urbana, a Moradia Popular digna, contra os despejos em áreas de ocupação e, claro, por condições dignas de trabalho e salário justo.
Alimentação e moradia digna são direitos fundamentais das pessoas. Se o salário não permite ou não é suficiente para atender esses dois direitos básicos, não resta a quem esteja em situação de carência extrema senão as ocupações e o “roubo famélico”. Esses são desafios próprios da Justiça Social e não meros casos de polícia, como temos observado com frequência.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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Em decorrência do feriado de 04/06, informamos que não haverá expediente na Adufmat-Ssind na sexta-feira, dia 05/06. Retomaremos as atividades na segunda-feira, 08/06.
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Juacy da Silva*
“A educação ambiental ampliou seus objetivos. Enquanto no início estava centrada principalmente na informação científica, na conscientização e na prevenção de riscos ambientais, hoje ela tende a incluir uma crítica aos “mitos” de uma modernidade fundamentada em uma mentalidade utilitária (individualismo, progresso ilimitado, competição, consumismo, mercado desregulado). Busca também restaurar os diversos níveis de equilíbrio ecológico, estabelecendo a harmonia dentro de nós mesmos, com os outros, com a natureza e outros seres vivos, e com Deus. A educação ambiental deve facilitar o salto em direção ao transcendente, que confere à ética ecológica o seu significado mais profundo. Ela precisa de educadores capazes de desenvolver uma ética da ecologia integral e de ajudar as pessoas, por meio de uma pedagogia da liberdade eficaz, a crescer em solidariedade, responsabilidade e cuidado compassivo." Papa Francisco, Laudato Si, 2015.
Hoje, 03 de junho, Dia Nacional da Educação Ambiental, não celebramos apenas uma data do calendário ecológico, mas, sim, celebramos os chamados de nosso saudoso Papa Francisco, que nos alertou na Laudato Si' §217 quando disse, textualmente: "Não bastam as normas, sem uma conversão do coração".
Da mesma forma, o Papa Leão XIV, seguindo na mesma direção, insiste que “É preciso passar dos discursos ambientalistas a uma conversão ecológica que transforme o estilo de vida pessoal e comunitário.” Pronunciamento na abertura da Conferência “Espalhando a Esperança”, ressaltando a necessidade de uma conversão ecológica do coração e dos estilos de vida, para atender à urgência das ações diante da crise climática que tanto fustiga o planeta e a humanidade, por ocasião das celebrações dos dez anos da Laudato Si, em 01/10/2025, em Castel Gandolfo.
Neste sentido, a Educação Ambiental é um caminho a ser seguido, um instrumento fundamental na transformação de nossos hábitos de consumo e consumismo, de desperdício, de geração de lixo e tantas outras mazelas que contribuem para a degradação e a poluição do ar, dos solos e das águas e a destruição do planeta.
No Brasil, a Educação Ambiental foi tratada na Lei nº 9.795/99, que instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental. Conforme seu Art. 1º, entendem-se por educação ambiental (EA) os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e à sua sustentabilidade.
O Art. 2º define que “A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não formal”.
Todavia, a educação ambiental direciona-se também para outros públicos, como gestores e trabalhadores dos setores público e privado, para as empresas, para os movimentos sociais, sindicais, comunitários e, também, para os fiéis de todas as Igrejas e religiões.
Cabe enfatizar também que a Educação Ambiental precisa ter uma dimensão crítica, libertadora, indo também às estruturas políticas, sociais, culturais e econômicas, a partir das quais novos paradigmas devem definir as relações de trabalho e de produção, incluindo, é claro, como os sistemas econômicos se relacionam com a natureza, com o consumo e com o mundo do trabalho, principalmente em vista das profundas transformações científicas e tecnológicas, como, por exemplo, a Inteligência Artificial (IA) e seus impactos na ecologia integral e no mundo do trabalho.
Voltando à questão dos valores, é importante indagarmos que valores são esses que são o cerne da educação ambiental?
A Política Nacional de Educação Ambiental insiste, também, que “Art. 3º Como parte do processo educativo mais amplo, todos têm direito à educação ambiental” e, ao definir os princípios que devem moldar a educação ambiental, estabelece, na verdade, os valores que a fundamentam.
Vejamos então: Art. 4º São princípios básicos da educação ambiental: I - o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; II - a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; III - o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade; IV - a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais; V - a garantia de continuidade e permanência do processo educativo; VI - a permanente avaliação crítica do processo educativo; VII - a abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais; VIII - o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural”.
Ao definir os objetivos da Política Nacional de Educação Ambiental, a dimensão crítica está explicitamente estabelecida. Vejamos os três primeiros desses objetivos: “Art. 5º São objetivos fundamentais da educação ambiental: I - o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; II - a garantia de democratização das informações ambientais; III - o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social”.
De forma semelhante, a Igreja, através das Encíclicas e das Exortações de diferentes Papas, tem contribuído para uma melhor compreensão da educação ambiental, no contexto da Ecologia Integral, para a solidificação de valores referentes às relações da humanidade com a natureza (as obras da criação) e também das relações humanas, sociais, econômicas e políticas, insistindo, por exemplo, “que não existem duas crises separadas, de um lado uma crise ambiental e de outro uma crise socioeconômica e política; mas apenas uma única e complexa crise socioambiental”, conforme consta da Laudato Si. A solução passa, necessariamente, pelo cuidado com a natureza, mas também pelo cuidado com os pobres e excluídos, as maiores vítimas deste processo que culmina na crise climática e suas consequências. Neste sentido, não podemos nos referir à educação ambiental sem considerar as dimensões da justiça social, da justiça climática e da justiça intergeracional.
O Papa Francisco resumiu em Roma, em 2014, falando aos Movimentos Populares, que "Terra, teto e trabalho" (frequentemente chamados de "os três Ts") formam um tripé de direitos sagrados e fundamentais para garantir a dignidade humana. Esse conceito tem forte raiz na Doutrina Social da Igreja Católica, tendo sido difundido de forma marcante pelo Papa Francisco e reafirmado por seu sucessor, como em diversos pronunciamentos recentes do Papa Leão XIV em encontros com movimentos populares.
Esta trilogia dos três “Ts” não é slogan de partidos ou movimentos de esquerda ou de movimento sindical. É parte integrante da Ecologia Integral e da Doutrina Social da Igreja e deve ser tratada também como base para uma educação ambiental crítica e libertadora dentro e fora da Igreja.
Por isso, neste dia dedicado à Educação Ambiental no Brasil, a pergunta que nos move é uma só: sobre qual Educação Ambiental estamos falando? A que enfeita relatórios de ESG ou advoga apenas uma maquiagem, como na chamada “economia verde”, ou a que muda hábitos, estilo de vida, estruturas sociais, econômicas e políticas que geram degradação ecológica, exclui os pobres, alimenta a pobreza e estimula o consumismo e o desperdício?
A educação ambiental crítica estimula atitudes que reduzem o consumismo e o desperdício, que estimulam a partilha, a economia solidária, a agroecologia e o respeito aos limites da natureza e aos direitos das gerações futuras. E, neste sentido, seu foco passa do individualismo para a dimensão comunitária, coletiva.
Precisamos refletir que este é um convite para a Igreja, para a escola, para o poder público, para os empresários e para o chão da fábrica, para os camponeses, para os povos indígenas, para passarmos da mera reflexão para ações sociotransformadoras, como recentemente se manifestou o Papa Leão XIV ao dizer, em sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, que o conhecimento deve servir ao bem comum. O saber precisa ser democratizado e usado para "desarmar" as estruturas de desigualdade e exclusão, em vez de se tornar um monopólio de poucos.
Esta exortação do Papa Leão XIV está em perfeita sintonia com a proposta de Francisco, na Laudato Si, ao vincular educação ambiental com espiritualidade ecológica e com o propósito da EA, no contexto de uma proposta mais ampla, que é o Pacto Global pela Educação, ao escrever no Capítulo 6 ("Educação e Espiritualidade Ecológica") sobre a educação ambiental, definindo-a não apenas como conscientização científica, voltada apenas para o intelecto, mas como uma verdadeira mudança de paradigma que deve moldar um estilo de vida sustentável.
Por esta razão, insistimos que a Educação Ambiental deve ser também e, principalmente, objeto das ações evangelizadoras da Igreja, dos cristãos, enfim, dos fiéis de todas as religiões, na dimensão sociotransformadora de nossas relações com a natureza e também de nossas relações econômicas, sociais e políticas em todos os países, inclusive no Brasil.
Como a Igreja no Brasil trabalha as questões socioambientais? A resposta pode ser encontrada nos diversos documentos, como as Encíclicas Laudato Si, Fratelli Tutti, Magnifica Humanitas e as Exortações Apostólicas Laudate Deum, Querida Amazônia, Dilexi Te, além de diversos documentos, como os de Aparecida e outros mais do CELAM.
Mas é importante também mencionar o Diretório da Pastoral Social da CNBB, Doc. 85, 2007; o "manual" que orienta toda a ação social da Igreja no Brasil, onde aparece a Educação Ambiental, no Cap. III, nº 89-92 - "Dimensão ecológica da caridade". A CNBB afirma: "A caridade cristã, hoje, inclui necessariamente o cuidado com a casa comum. A Educação Ambiental é instrumento privilegiado da evangelização social, pois forma sujeitos capazes de novos hábitos e de transformação das estruturas".
Se a educação ambiental é caridade, a mesma não pode ser considerada apenas uma dimensão assistencialista, como muitas pessoas imaginam. Por exemplo, como conjugar distribuição de cesta básica para famílias que não têm moradia digna e moram ao lado de esgoto e de lixões, sem a mínima dignidade? Será que, neste contexto, educação ambiental, no sentido de mudar hábitos, funciona?
A Igreja reconhece na EA uma dimensão pedagógica da fé e que deve integrar a formação do cristão e a evangelização. Formar novos hábitos e estilos de vida, como preceitua a Encíclica Laudato Si, faz parte das ações pastorais da Igreja e passa a ser um tema transversal que une ciência e religião, fé engajada e caridade libertadora, teologia, sociologia e antropologia.
Outro exemplo: o texto-base da Campanha da Fraternidade de 2025, cujo tema foi a Ecologia Integral, esclarece que a “conversão ecológica (o caminho para mudanças de hábitos e de estilos de vida) deve refletir-se no âmbito comunitário, por meio da promoção da educação ambiental”.
O artigo 13-A da Política Nacional de Educação Ambiental instituiu o Junho Verde, vinculando-o à educação ambiental não formal, ou seja, de difusão ampla e geral, com o objetivo de atingir o público em geral e despertar ou estimular a consciência ecológica/ambiental.
Vejamos: “Art. 13-A. Fica instituída a Campanha Junho Verde, a ser celebrada anualmente como parte das atividades da educação ambiental não formal” - § 1º O objetivo da Campanha Junho Verde é desenvolver o entendimento da população acerca da importância da conservação dos ecossistemas naturais e de todos os seres vivos e do controle da poluição e da degradação dos recursos naturais, para as presentes e futuras gerações. (incluído pela Lei 14.393/2022); § 2º A Campanha Junho Verde será promovida pelo poder público federal, estadual, distrital e municipal em parceria com escolas, universidades, empresas públicas e privadas, igrejas, comércio, entidades da sociedade civil, comunidades tradicionais e populações indígenas, e incluirá ações direcionadas para diversos setores, agentes e assuntos.
Diante dos desafios socioambientais que se agravam a cada dia, desprezar a Educação Ambiental Crítica é reduzir sua importância enquanto instrumento do despertar da consciência ecológica e, ao mesmo tempo, um mecanismo de transformação de hábitos e de estilos de vida, aspectos fundamentais para reduzirmos esta marcha irracional rumo a uma degradação ambiental e destruição dos biomas e ecossistemas.
Como sempre tem dito o Secretário-Geral da ONU, a janela para impedirmos as catástrofes ambientais está se fechando e o tempo para agirmos está ficando mais curto. A hora de agir é agora, e a educação ambiental é fundamental neste processo.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) anunciou a prorrogação, em caráter excepcional, do prazo para a realização da Validação Cadastral 2026. Com a mudança, os servidores públicos federais ativos, aposentados e pensionistas têm, agora, até o dia 12/06/2026 para concluir o procedimento - que é obrigatório.
Segundo a instituição, a decisão de estender o prazo ocorreu devido a uma indisponibilidade técnica nas funcionalidades do sistema registrada no dia 31/05/2026, assim, os servidores que eventualmente encontraram dificuldades podem regularizar sua situação dentro do novo cronograma estabelecido.
O MGI reforçou, no entanto, que não haverá uma nova prorrogação após essa data. Então, é preciso realizar a validação impreterivelmente até o dia 12/06. Os servidores que não o fizerem serão notificados e poderão sofrer medidas administrativas e até apuração disciplinar, no caso de servidores ativos.
A validação deve ser realizada por meio da plataforma SouGov. Caso o servidor já tenha efetuado o procedimento e seu status esteja regular, as novas orientações de urgência podem ser desconsideradas. Mais informações e suporte podem ser obtidos no portal oficial de serviços do Governo Federal.
Fonte: Divulgação institucional (com edição da Adufmat-Ssind)
Nos dias 10 e 11/06, quarta e quinta-feira da próxima semana, o auditório da Associação dos Docentes da UFMT (Adufmat-Ssind) será o centro de um debate urgente e necessário para o futuro do estado e do país. O seminário "Minerais Estratégicos, Energia e Sustentabilidade" propõe uma reflexão provocativa: o que estamos vivendo hoje é uma verdadeira transição energética ou apenas uma "transação", que prioriza lucros em detrimento do meio ambiente e das comunidades?
O evento, organizado pelo Grupo de Trabalho de Política Agrária, Urbana e Ambiental (GTPAUA) da Adufmat-Ssind, sob a mediação do professor José Domingues de Godoi Filho (Departamento de Geologia/UFMT), busca integrar a academia com as vozes que sentem na pele os impactos da exploração mineral.
A programação começa às 08h30 da quarta-feira, dia 10/06, com exposição da Adufmat-Ssind sobre a relação do sindicato com a questão socioambiental. Em seguida, o integrante da coordenação nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), professor Charles Trocate, discorre sobre a luta pelo território e o controle do subsolo e, por fim, o representante da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (FEPOIMT) falará sobre como a mineração tem afetado os povos indígenas do estado.
Agroecologia e o papel da Universidade
Na quinta-feira, 11/06, o foco será a crítica aos modelos globais de desenvolvimento. Às 8h30, o professor José Gilberto de Souza (UNESP) discutirá a "falsa sustentabilidade" dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e como a agroecologia e os saberes territoriais podem oferecer caminhos reais para o futuro. A partir das 10h, o representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) iniciará sua intervenção, debatendo o papel das universidades públicas na construção de uma sustentabilidade autêntica.
Além de ser um espaço de construção de consciência crítica, essencial para estudantes e trabalhadores de modo geral, o seminário oferecerá certificação de 8h para os participantes. As inscrições poderão ser feitas a partir do preenchimento do formulário disponível aqui.
O evento será gratuito e aberto a qualquer pessoa interessada em entender as complexas relações entre energia e o destino dos nossos territórios.
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
Em votação relâmpago e esvaziada, o Senado Federal aprovou em dois minutos, nesta terça-feira (2), o Projeto de Decreto Legislativo (PDL 3/2025), que cancela a Resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e dificulta a realização de abortos em crianças e adolescentes vítimas de estupro. Chamado de PDL da Pedofilia e do Estupro por movimentos sociais, o texto segue para promulgação do Congresso Federal.
Conforme dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, divulgados no último mês de maio, de 2011 a 2024, em média, 64 meninas foram vítimas de violência sexual, por dia, no Brasil. Neste período, 308.077 mil meninas até os 17 anos de idade sofreram esse tipo de violência no país.Se considerado somente o ano de 2024, foram registrados 45.435 casos, uma média de 3,78 mil notificações por mês.
O ANDES-SN repudia a aprovação do PDL 3/2025 e destaca que, no Brasil, mais de 68% dos responsáveis por estupros de crianças são familiares. O Censo do IBGE de 2022 registrou que existem 34 mil crianças e adolescentes de até 14 anos vivendo em uniões conjugais no Brasil.
Embora o aborto seja reconhecido, no Brasil, para casos de risco à vida da gestante, estupro e anencefalia do feto, meninas e adolescentes têm sido vítimas de uma dupla violência com exposição e estabelecimento de dificuldades institucionais para terem acesso à interrupção da gestão. Caroline Lima, 1ª vice-presidenta do ANDES-SN, ressaltou que a votação representa um ataque brutal ao direito de crianças e adolescentes.
“Hoje, o Brasil teve um retrocesso gigantesco, a partir da movimentação da extrema direita no Senado, na figura da ex-ministra Damares (PL-DF), que, quando foi ministra [da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos] desestruturou todas as políticas relacionadas à defesa da criança e de adolescentes, dos direitos sexuais e reprodutivos, que colocou meninas e menines em situações de vulnerabilidade. Esta mesma senhora foi responsável por pautar, no Senado, o PDL da Pedofilia, que foi aprovado de forma aligeirada na Comissão de Direitos Humanos do Senado e depois no Plenário, com o apoio do presidente da Casa, Alcolumbre”, afirmou a diretora do Sindicato Nacional
Caroline reforçou que, para o ANDES-SN, a votação do PDL 3/2025 é uma afronta e um ataque à democracia, ao direito das mulheres, das crianças e de adolescentes. “É um ataque direto ao Estatuto da Criança e do Adolescente e, principalmente, representa um ataque da extrema direita contra o movimento da classe trabalhadora pelo fim da escala 6x1, pois, agora, a extrema direita usa uma pauta sensível e delicada para tentar mostrar alguma força depois da derrota em relação à redução de jornada para 40 horas semanais e ao direito de dois dias de folga para a classe trabalhadora no Brasil”, acrescentou.
PDL da Pedofilia e do Estupro
O PDL 3/2025, de autoria da deputada Chris Tonietto (PL/RJ), já havia sido aprovado na Câmara de Deputados em novembro do ano passado. O projeto susta integralmente a Resolução 258, de 2024, do Conanda, que trata do atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual e da garantia de seus direitos. A resolução regula procedimentos já previstos no ordenamento jurídico brasileiro para casos específicos, como gravidez resultante de estupro, risco à vida da pessoa gestante e anencefalia fetal.
Entre as ações previstas na norma, destacam-se o treinamento de profissionais para identificar situações de violência sexual e a garantia de um atendimento rápido, sigiloso e livre de preconceitos. De acordo com o Conanda, a medida reforça a prioridade absoluta do interesse da vítima, garantindo-lhe sigilo, autonomia e o direito de ser ouvida sem sofrer novas violências pelas instituições.
Além disso, define protocolos para a escuta especializada e a notificação dos casos, buscando evitar a revitimização no sistema judicial e hospitalar. O texto proíbe a violência institucional e exige que os profissionais atuem de forma humanizada, respeitando os direitos reprodutivos e o desenvolvimento dos jovens. Também assegura que divergências familiares não devem anular a vontade da criança, garantindo assistência jurídica gratuita para a proteção de seus direitos fundamentais.
“Precisamos denunciar e lutar contra esse absurdo. Nós, do ANDES-SN, repudiamos o PDL 3 de 2025 e, principalmente, repudiamos as ações da extrema direita, que insiste em transformar estuprador em pai e crianças em mãe”, conclamou a 1ª vice-presidenta do Sindicato Nacional.
Fonte: Andes-SN
O ANDES-SN encaminhou, nessa segunda-feira (1º), a Circular nº 225/2026 solicitando às seções sindicais informações sobre arrecadação, quadro de sindicalização, despesas e custos eleitorais. O levantamento integra os estudos da Tesouraria Nacional e atende a uma das indicações apontadas durante o II Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas do ANDES-SN, realizado entre os dias 22 e 24 de maio, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
II Seminário Nacional tratou do Fundo Único, entre outras pautas. Foto: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
De acordo com a circular, os dados irão subsidiar a Tesouraria Nacional a aprofundar os estudos em curso, especialmente aqueles relacionados aos Textos de Resolução (TRs) que propõem ao ANDES-SN formas de apoio financeiro às seções sindicais, aos eventos deliberativos e ao processo eleitoral. A implementação dessas medidas depende da análise de sua viabilidade financeira.
Para isso, foi disponibilizado um formulário com perguntas sobre número de sindicalizadas e sindicalizados, formas de arrecadação, despesas com manutenção de sede, pessoal e eleições. As respostas deverão ser enviadas até o dia 15 de julho.
Acesse o formulário aqui.
Leia a Circular nº 225/2026
Fonte: Andes-SN
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Alair Silveira
Professora e Pesquisadora SOCIP e PPGPS/ICHS/UFMT
Membro GTPFS/ADUFMAT/ANDES-SN
O II Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas ocorreu no período de 22 a 24 de maio/2026, no campus da Unicamp, em Campinas/SP. Este Seminário – sequência daquele realizado em novembro/2025 – teve como objetivo debater os TRs aprovados sobre o tema nos Grupos Mistos do 44º Congresso Nacional do ANDES-SN (março/2026, Salvador), de forma a subsidiar o 69º CONAD, que ocorrerá entre 02 e 05 de julho/2026, em São Luís/MA.
O II Seminário, entretanto, não cumpriu integralmente as deliberações congressuais, na medida em que – seletivamente – excluiu o TR 92 do direito de participar da exposição e discussão assegurado aos demais TRs na mesma condição. Organizado sobre cinco Mesas dedicadas às questões organizativas, administrativas, financeiras e políticas, em nenhuma delas os signatários do TR 92 foram convidados a expor o conteúdo do seu Texto-Resolução e, tampouco, a debatê-lo. Questionada sobre as razões pelas quais descumpriu deliberação congressual e subtraiu direito assegurado, a Diretoria Nacional do ANDES-SN silenciou, ignorando os dois pedidos de esclarecimentos feitos por uma das signatárias do TR 92. Ironicamente, o II Seminário foi generoso com a utilização da palavra democracia como ‘princípio’ sindical inarredável!
Também o estudo detalhado sobre as finanças do ANDES-SN, com projeções sobre o impacto de algumas das proposições aprovadas nos Grupos Mistos do 44º Congresso, não foi feito pela Diretoria, apesar da determinação congressual. Em seu favor, justificou-se pelo excesso de atividades e o curto espaço de tempo entre o Congresso e o II Seminário. Contudo, apesar das justificativas e diante da insatisfação manifesta dos presentes, no transcurso do dia 22 e o dia 24, foi apresentado um estudo preliminar, com algumas projeções de impacto.
Nestas circunstâncias – e apesar delas – o II Seminário não foi somente prejudicado pela ausência de uma radiografia quanto às seções sindicais (número de filiados, critérios e percentuais de contribuição, arrecadação etc.), mas, também, por projeções agrupadas, que impediram uma análise qualificada e profícua.
Conforme relatos foram sendo feitos, foi se descortinando um quadro de enormes disparidades entre as seções sindicais, comprometendo qualquer política uniforme que desconsidere as particularidades. Consequentemente, a aprovação do número de 350 filiados como critério para garantir uma política de apoio às pequenas seções sindicais (para participação em eventos nacionais) já se mostrou inadequada.
Além disto, muitas propostas sugeridas pela Diretoria e/ou apresentadas pelos participantes, evidenciaram um processo de naturalização da cultura empresarial por dentro do Sindicato. Assim, sob a lógica da “otimização” do tempo, ouviu-se intervenções que, há alguns anos, seria impensável: a) “excesso” de TRs que impedem a deliberação nos eventos nacionais (Congressos e CONADs); b) inconveniência política de dividir tempo de intervenção com observadores (que não votam) e o custo que representam (impacto sobre o rateio); c) necessidade de limitar o número de intervenções (talvez a um único bloco); d) avaliar a possibilidade de reduzir tempo para discussão reservado à Análise de Conjuntura; e) aprofundamento da fragmentação política, com existência de muitos Coletivos (em torno de 10), em oposição ao ANDES-SN que, anteriormente, se aglutinava em torno da ANDES-AD; f) aumentar a exigência de 40% de aprovação nos Grupos Mistos para diminuir o número de TRs para Plenária; g) aumentar o número de exigências para apresentação de TR etc.
Com relação à proporcionalidade eleitoral para composição da Diretoria, percebeu-se um aumento nas intervenções favoráveis ou mais sensíveis à proposição. A proposta com maior número de posições contrárias foi apresentada pelo Coletivo POR, defendendo que a eleição das Regionais tenha como colégio eleitoral os filiados das seções sindicais da Regional.
No mesmo tópico, a eleição virtual foi defendida a partir de uma concepção cindida de democracia, na qual as discussões, debates e campanha seriam presenciais, mas, a eleição seria virtual, como um ‘momento’ separado do processo. Nesta perspectiva, a eleição estimularia a participação de muitos docentes que não querem participar... afinal, segundo seus proponentes, não somente as seções sindicais conhecem melhor sua base sindical, senão que o ANDES-SN não pode manter uma atitude tecnofóbica, recusando-se a incorporar a conveniência das eleições virtuais. Ainda de acordo com seus defensores, as eleições presenciais representam “gastos mal-feitos”.
Ao final, sob a métrica da otimização do tempo, a política sindical e a democracia interna parecem cada vez mais incompatíveis pelo tempo que demandam para ouvir, debater e deliberar. Desta maneira, vamos progressivamente nos afastando do Sindicato que construímos para nos aproximar da política que condenávamos. Realmente, são tempos sombrios estes!












