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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
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“Me engana que eu gosto”.
Quem nunca ouviu a frase feita acima, que expressa, ou pelo menos expressava, antes de tudo, e de forma subjacente, um tom de ironia, diante de algo sabidamente falso? Em tese, e dentro de qualquer espaço da lógica, ninguém gosta de ser enganado.
Dentro do arcabouço da ironia, em relação ao engano, à mentira, os compositores Marquinhos Satã, Nivaldo Duarte e Serginho do Cavaco, em 1986, compuseram o samba “Me engana que eu gosto”. Nele, dentre diversos relatos, praticamente todos impensáveis, é dito que “...Quem é carioca está satisfeito...// Se é bom o governo, é bom o prefeito// Cidade tranquila como essa não há// O meu capital está sempre sobrando...”. Com ironia, “me engana que eu gosto”, diria qualquer ouvinte que descarta, de chofre, a mentira vista a olhos nus.
Todavia, com o passar do tempo, tenho percebido que a ironia desse enunciado possa estar perdendo a força que jamais deveria perder, pelo menos para um grande contingente de pessoas de nosso país, para as quais, a mentira pode ter perna longa, e não curta, como ouvíamos de nossos pais. Um exemplo dessa vertente, também na esfera musical, vem de Eduardo Costa que, em “Me engana” (2006), lembrando práticas de bolhas das redes sociais, suplica à amada que “...Diga simplesmente aquilo que eu (o eu-poético da canção) preciso ouvir... Me ama, me engana, que eu gosto”.
Se minha observação intuitiva estiver correta, e acredito que esteja, a ausência da inerente ironia do enunciado em pauta pode estar cedendo espaço a outra figura, quiçá, ao paradoxo, que não requer a ironia como um de seus pilares no processo de juntar ideias que possam se contradizer diretamente na intencionalidade do que se está a, ou mesmo do que se quer ouvir; assim, podemos – por meio da aceitação real do que é irreal, ou seja, da mentira/fake – estar aprofundando o labirinto de nossas existências, também por esse viés, que pode mudar rumos inclusive no plano de uma coletividade. Detalhe: não tomem a metáfora do “labirinto” como recorte da hipérbole, ou seja, do exagero, pois pode não ser.
Mas por que estou fazendo essas reflexões neste momento?
Porque estamos a um passo de votar para a presidência da República, ou seja, da “res publica”, termo latino que significa “coisa pública”, “coisa do povo”.
Que haja compatriotas que queiram se enganar em decisões que lhes sejam restritamente individuais, como, p. ex., tomar cloroquina para curar a Covid, ou dar três pulinhos para trás, como solução a um soluço, pouco me importa. Que sejam felizes, quando sobrevivem. Todavia, quando decidem, por estupidez deliberada, viver fechados em bolhas das redes sociais, aceitar mentiras descaradas de candidato que outra coisa não faz além de mentir, aí, sim, me importa, pois me atingirão, assim como atingirão a tantos outros brasileiros, por conta desse gostinho de ser completa e vergonhosamente enganado.
Mas a quem tinha alguma dúvida, o debate da Band (18/10) desnudou um dos maiores mentirosos de nosso quadro de políticos. Lula, que também mentiu pelo menos em uma vez, e em outras duas ou três, não teve a devida precisão de alguma fala, afirmou que Flávio havia mentido 43 vezes só no conjunto do caso Vorcaro. Duvidei. Fui à busca. Achei. Creiam: era verdadeira a fala de Lula sobre as mentiras de Flávio!!!
Aliás, em minha busca, encontrei a importante matéria “Estadão Verifica” que, junto com a própria Band, fez checagem de todas as referências daquele debate. É impressionante como Flávio consegue mentir em comparação direta com Lula. Logo, em dizer mentiras, Lula, mesmo que não seja o pai da verdade, já perdeu feio para Flávio, que se ganhar, derrotará um país inteiro, pois comete uma mentira atrás da outra. É impressionante. É inacreditável. A quem estiver duvidando de minhas palavras, leia a matéria que citei. Ou outra sobre o debate, como a do Portal Aos Fatos. Leia, leitor. Veja você mesmo. Se estiver, pule fora da bolha. Vamos! Atitude!
Assim, como cidadão, espero estar contribuindo para a chamada de atenção que todos devemos ter neste momento muito significativo de nossa história tão arduamente construída até aqui. Mais: aos que colocam a Família naquela tríade junto com Deus e Pátria, que pelo menos saibam respeitar os seus próprios pais, quando diziam que a mentira tem pernas curtas. Não deixem, pois, que as pernas da mentira continuem se alongando tanto, até porque tomaremos, juntos, uma passada de pernas sem precedentes em nossa história.
O preço de uma única mentira/corrupção pode ser grande, mas pode ser quantificada, como, p. ex. os 134 milhões recebidos e não explicados de um banqueiro absolutamente canalha. As rachadinhas e outras práticas de corrupção também podem ser quantificadas. Já o preço de um conjunto de mentiras que se sucedem sem fim no horizonte pode ser a tragédia de uma nação inteira, que poderá se atolar no mais profundo labirinto que um país contemporâneo estará experimentando. Aqui, novamente, a metáfora do “labirinto” não é um recorte da “hipérbole”.











