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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
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Mesmo já acostumado a ver, pela imprensa, a Polícia Federal agindo sem parar em nosso país, a operação do último dia 15 – “Unha e Carne” – teve algo difícil de ser adjetivado.
Por uma reportagem do G1, fiquei sabendo que “Márcio Canella, 2º deputado estadual mais votado do RJ, e Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil...” haviam sido presos pela PF.
Pois bem. Os dois apostos explicativos acima são complexos para a compreensão, mas o primeiro deles, ou seja, o que destaca que o “2º deputado estadual mais votado do RJ” fora um dos alvos da PF, é desconcertante. Tanto que, para entender como isso pôde acontecer, recorri a outras matérias do jornalismo profissional; dentre elas, uma do UOL:
“Preso pela PF, Canella (União Brasil) recebeu 83% dos votos em áreas de facção ou milícia” (https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/15/preso-pela-pf-canella-recebeu-83-dos-votos-em-areas-de-faccao-ou-milicia.htm?shem=dsdf,sharefoc,agadiscoversdl,,sh/x/discover/m1/4).
Para a exposição desse e de outros dados, os jornalistas da matéria recorreram a um levantamento de Bruno Pantaleão, pesquisador do Centro de Segurança Pública e Analytic e do Centro de Economia e Política do Setor Público, ambos da FGV.
Resumidamente, o UOL destaca que, “Entre os votos de Canella, 32,7% vieram de regiões dominadas por milicianos, 32,7% de áreas controladas pelo CV (Comando Vermelho) e 17,6% em localidades do TCP (Terceiro Comando Puro)”.
Como não tenho experiência de como seja conviver em espaços explicitamente dominados pelo crime organizado, a primeira pergunta que me fiz foi se as urnas eletrônicas, confiáveis e recomendáveis a qualquer país democrático, não seriam dispositivos suficientes para proteger o voto e a vida de quem se opusesse a esse tipo de domínio territorial. Antes delas, o voto era manual/papel; logo, era facilmente controlado.
Quem nunca conheceu ou ouviu falar de “curral eleitoral”? Aliás, não nos esqueçamos de que, não sem interesses do retorno dos currais, há políticos que ainda peçam pela volta do processo manual de voto, sempre sujeito a fraudes e coações.
A outra pergunta que me fiz foi: afinal, quem é esse político?
Na mesma matéria, li a resposta: “Canella foi preso pela segunda vez em três meses”. Sua base eleitoral: “Belford Roxo, onde fora prefeito entre 2025/26”. Em 2024, apoiou Jair Bolsonaro (PL). Ah!!! O clã não estaria longe disso e desse também, tanto que “Canella foi cotado ao posto de sucessor de Cláudio Castro (PL) para o governo do Rio. Depois, se tornou pré-candidato ao Senado, apoiado por Flávio Bolsonaro (PL). A suplente dele seria a mãe de Flávio, Rogéria Bolsonaro (PL)”.
Na mesma matéria, é dito que, após a junção de Canella com Cláudio Castro, “...ações letais começaram a ocorrer no Complexo do Roseiral [em Belford Roxo]”. De sua parte, o professor José Cláudio Souza Alves, da Universidade Federal Rural do Rio, afirma que esses políticos ‘transformaram o conflito do CV com a milícia num grande projeto de pacificação".
Sobre a primeira prisão de Canella, a matéria do UOL registra que “Em julho deste ano, ele fora detido em flagrante pela PF. Havia contra ele um mandado de busca, momento em que foi encontrado um fuzil Colt, de calibre 5.56, de uso restrito, em seu carro”. O fornecedor da arma seria Jorge Canella (União), “um coronel da reserva da PM e vereador do Rio”. Vejam que interessante: esse coronel usaria o mesmo sobrenome do outro, não por parentesco, mas para identificar proximidade política e outras mais.
Detalhe: nada disso era surpresa para ninguém que fosse do Rio de Janeiro, tampouco aos eleitores que deram sua “canellada” nas urnas, pois, diz o UOL:
“Para tentar barrar o registro da candidatura de Canella, neste ano, a PRE apontou que existe "vinculação político-administrativa eleitoral" entre ele e dois chefes de organizações paramilitares e milícias privadas. Também apontou que Canella já era investigado no STF (Supremo Tribunal Federal).
Agora, pasmem. Isso que ocorreu no Rio pode ser reproduzido no país inteiro, caso o candidato da extrema direita seja eleito. Se o compreensível ódio ao lulopetismo for maior do que racionalidade demanda neste momento, ninguém poderá alegar ignorância de tudo que já foi divulgado pela parte séria do nosso jornalismo profissional.
Pelo noticiário nosso de cada dia, vimos, p. ex,, que, numa ligação de celular a seu “irmão” Vorccaro, o candidato do PL pediu, em dólar, o equivalente a 134 milhões de reais para o filme “Dark Horse” sobre a vida de seu pai. Todavia, a PF está checando se, na verdade, muito dessa montanha de dinheiro não teria sido para bancar o irmão, agora de sangue mesmo, que fugiu para os EUA por conta de crimes cometidos no Brasil.
Esse mesmo candidato, que se faz passar pelo exemplo da honestidade, imita seu pai, que homenageou o coronel Ustra, um dos mais cruéis dos ditadores brasileiros, condecorando criaturas que são irrefutáveis erros da natureza, como, p. ex., aqueles dois policiais que foram apontados pelo MP-RJ como chefes e integrantes de milícias e grupos de extermínio, e que estiveram envolvidos também no assassinato de Marielle Franco. Intrigantemente, um deles foi morto dentro de um presídio da Bahia. Filme conhecido.
Em linha próxima disso, recursos de emendas parlamentares indicados pelo candidato do PL foram direcionados a entidades investigadas por irregularidades, fraudes fiscais e ligações com milícia, conforme destemidas apurações jornalísticas divulgadas recentemente. Dúvida minha: como investir contra facções criminosas, como é proposto pelo candidato da extrema direita, se o crime organizado trabalha, há anos, na lógica co-existencial da “narcomilícia”, ou seja, de tudo e todos juntos e misturados?
E há outras questiúnculas, do tipo “chocolate pequeno”, como a prática das rachadinhas, o nebuloso mundo contábil de uma loja de... chocolate, e, é claro, a aquisição de uma mansão de aproximadamente 6 milhões: uma bagatela três vezes o valor de um famoso triplex no Guarujá.
Diante desse quadro resumido de crimes de colarinho branco, me inquieta, p. ex., a pequenez do eleitor que replica o ódio ao ladrão pé-de-chinelo de celular. Me impressiona o descaramento do candidato em falar de pena de oito anos a esses crimes, que devem ser coibidos, mas que são, aí, sim, “chocolate” pequeno perto do tamanho da corrupção já exposta contra esse candidato.
Termino, esperando que meu país não chancele o arcabouço político daquilo que mundialmente se tem chamado de projeto neonazifascismo, ou seja, a adaptação contemporânea das ideologias fascista (de Mussolini, na Itália) e nazista (de Hitler, na Alemanha), ambas do século passado.
Aqui, vale dizer que, nessa linhagem ideológica, que olha para trás e não para frente, está a força do ultranacionalismo radical, do autoritarismo generalizado, da violência multifacetada, principalmente, contra a classe trabalhadora, e da intolerância; em suma, da negação da humanidade, que deveria fazer parte ontológica de todos nós que ajudamos a compor a nossa complexa e desafiante espécie.
Todavia, esse atraso político e existencial da humanidade se modernizou, como, aliás, fazem as variações do crime organizado, de mãos dadas com as milícias, para atuar por dentro das democracias liberais, assim como no ambiente digital, quase sempre tóxico, principalmente aos incautos, que abundam alhures, vivendo e inflando a vida das bolhas das redes sociais, verdadeiras pragas deste tempo já bastante e, por si, sombrio.
Que o tipo de voto inconsequente no Rio não se repita nas eleições presidenciais.











