Quinta, 15 Outubro 2026 16:34

 

O Senado Federal aprovou, na noite dessa quarta-feira (14), em dois turnos, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que acaba com a escala de trabalho 6x1, na qual a trabalhadora e o trabalhador cumprem seis dias de trabalho com apenas um de descanso. A PEC também limita a jornada de trabalho semanal a 40 horas, sem redução salarial.


A proposta recebeu 75 votos favoráveis e um contrário, em ambas as votações, e segue para promulgação pelo Congresso Nacional. A aprovação ocorreu após ampla mobilização popular em defesa da redução da escala e da jornada de trabalho e às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais.


Com a mudança, além da jornada máxima semanal passar de 44 para 40 horas, sem redução salarial, e serão garantidos dois dias de descanso remunerado por semana, um deles preferencialmente aos domingos. A implementação será gradual: dois meses após a publicação da emenda, a jornada máxima passará a 42 horas semanais. Após um ano e dois meses da publicação, o limite chegará a 40 horas semanais, com jornada diária de até oito horas.


A PEC permite que acordos e convenções coletivas estabeleçam formas diferentes de distribuição dos dias de descanso, desde que respeitados os limites previstos no texto. A PEC também prevê regulamentações específicas para determinadas categorias e situações, além de disposições diferenciadas para trabalhadores e trabalhadoras com nível superior e remuneração elevada.


A proposta teve como primeiro signatário o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG) e foi relatada no Senado pelo senador Omar Aziz (PSD-AM). Após aprovação na Câmara dos Deputados, em maio, e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, em setembro, o texto foi levado ao Plenário com calendário especial. Como não houve alteração de mérito em relação à versão aprovada pela Câmara, a matéria segue para promulgação.


O único voto contrário foi do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS). Entre os parlamentares que não registraram voto estão Ciro Nogueira (PP-PI), Marcio Bittar (PL-AC), Rogério Marinho (PL-RN) e Sergio Moro (PL-PR).


Pressão popular e disputa política


A aprovação da PEC ocorre após meses de mobilização de movimentos sociais, organizações sindicais e parlamentares em defesa do fim da escala 6x1. A pressão popular também pesou na posição de setores da oposição, que passaram a apoiar a proposta diante da ampla adesão à pauta entre a população.


A discussão no Senado durou mais de cinco horas. Parlamentares de diferentes partidos declararam apoio à proposta, embora representantes da direita e extrema direita tenham defendido mudanças posteriores.


Apesar do voto remoto favorável de Flávio Bolsonaro, há sinais de que a disputa em torno da jornada de trabalho continuará. O senador não participou presencialmente da sessão, pois estava no Rio Grande do Sul.


O candidato à Presidência da República já afirmou que pretende rever pontos da proposta caso seja eleito. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha, também defende uma alternativa que prevê maior flexibilidade na relação entre jornada e remuneração.


A PEC 12/2026, apresentada por Marinho, propõe um regime flexível baseado em horas trabalhadas. Na prática, a redução da jornada poderá resultar em redução proporcional da remuneração, diferentemente da PEC 221/2019, que assegura a manutenção dos salários.


Para Cláudio Mendonça, presidente do ANDES-SN, a aprovação do texto no Senado representa um avanço histórico, em um cenário internacional marcado por décadas de retirada de direitos sociais, trabalhistas e previdenciários. “Trata-se de uma conquista que resulta, em grande medida, da capacidade de mobilização de diversos setores da sociedade, movimentos sociais, sindicatos e partidos, que pautaram a urgência dessa reivindicação. Também é fruto da decisão acertada do governo Lula de acolher essa bandeira e colocar todo o governo a serviço dessa reivindicação civilizatória. Nosso sindicato esteve presente nessa luta desde o primeiro momento, com resoluções aprovadas em nossas instâncias, com o documentário “Vida Além do Trabalho”, com participação importante no Plebiscito Popular do ano passado e com a mobilização de nossa base”, afirma.


O presidente do Sindicato Nacional ressalta, contudo, que a aprovação não encerra a disputa em torno do tema e que será necessário acompanhar os próximos passos para garantir a efetivação do direito. “Agora, é hora de comemorar, mas também de manter o estado de alerta máximo, pois a bancada reacionária da extrema direita já se mobiliza para, caso seu candidato, Flávio Bolsonaro, seja eleito, reverter essa conquista em favor dos patrões”, alerta.

 

Fonte: Andes-SN 

Quinta, 15 Outubro 2026 15:02

 

 

A Adufmat-Ssind convida os e as docentes para um café da manhã de reencontros, conversa e fortalecimento dos nossos laços de luta e solidariedade em referência ao Dia dos Professores e das Professoras - 15 de Outubro. Será nesta sexta-feira, 16/10, às 8h30.


As professoras Lélica Lacerda e Alair Silveira são as convidadas para fomentar o diálogo sobre nossa história e as perspectivas com relação à carreira, saúde e fortalecimento da categoria.

Sua presença é muito importante! Vamos compartilhar esse momento e reafirmar que a unidade na luta sindical nos trouxe até aqui e deve ser fortalecida para que consigamos preservar nossos direitos à vida, trabalhistas, sociais, além da autonomia universitária. Em defesa da universidade pública!

 

Esperamos vocês!

Quarta, 14 Outubro 2026 16:18

 

 
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Vanessa Clementino Furtado
Profa. Departamento de Saúde Coletiva - UFMT
Militante Antimanicomial


            A eugenia foi um tema que voltou a ser debatido criticamente no processo da pandemia no Brasil. Afinal, os processos de ausência de políticas de enfrentamento e os recortes entre aqueles mais atingindos pela mortalidade descortinaram questões de classe, raça/etnia, gênero/sexo e regionalidade. 
           As ideias eugênicas, sejam tais e quais foram  explicitadas nessa conjuntura pela primeira vez em rede nacional por Arnaldo Lichtenstein, continuam sendo cruciais para desvendar características fundamentais do movimento bolsonarista e seu ódio aos processos democráticos. Assim, é preciso chamar as coisas pelo nome que elas têm para se entender o processo evidenciado no Brasil com as eleições 
           A Eugénia, que por sua etimologia significa “bem-nascido” é uma pseudociência que tem um conjunto de práticas e teorias que visa o suposto melhoramento genético da humanidade. Apoiada na ideia mendeliana e na noção de que seres humanas são separadas por raça e que há uma raça humana superior à demais por constituir características mais próximas ao ethos burguês.  Assim, revestida como práticas de saúde, promovia a separação da a pessoas por raça, incentivava a esterilização de pessoas com deficiência e/ou sofrimento psíquico dentre outras.
           A eugenia teve até a década de 60, no Brasil, um representante de sua lógica, Renato Kehl, ,médico e farmacêutico coordenou o primeiro congresso de eugenia do Brasil.  Kehl defendia as práticas eugênicas como questão de saúde pública, tecia comentários elogiosos ao nazismo alemão e defendia a política de Estado de branqueamento da população brasileira que trouxe imigrantes europeus para cá no início do século XX. 
           A eugenia passou a ser considerada uma pseudociência, mas nos anos 2000 teve seus ideais requentado pelos estudos do genoma humano. A ideia de decodificação do nosso genoma fez  surgir, no senso comum, a falsa ideia de que a gené tica explicaria todas as características humana, apesar da ciência estar mais cética quanto a isso. Ocorre que a noção de “bem-nascido”, “ter berço” passou a estar em voga novamente e genética virou sinônimo de hereditariedade. 
           A noção eugênica da origem das pessoas segue pulsante até hoje, de braços dados com a unidade exploração-opressão, segue sendo a métrica para precificar a força de trabalho a partir da raça, gênero, classe e localização geográfica no globo terrestre. Subjetivando valores e crenças, de forma implícita, de que as elites são formadas por herança não apenas financeira, mas também genética.
           Entre tantas formas de expressão do elitismo e do ódio de classe, muitas das formas do autoritarismo moderno se utilizam dos ideais eugenista e higienista como uma das características mobilizadoras, aglutinadoras e operativas da sua violência, constituindo com o belicismo, o pseudonacionalismo e o discurso anti-comunista a fim de desenvolver meios de higienização social, pressionando parcelas exploradas e oprimidas para às margens da sociedade, eliminando, patologizando e vilipendiado corpos, identidades e grupos.
           O que se reflete nas eleições presidenciais brasileiras tem raizes nessa ideologia burguesa da eugenia que até hoje não engoliu o fato de que “pobre tem condições de andar de avião e transformou o aeroporto em rodoviária”. E por pobres são entendidas todas as pessoas que trabalham e portanto não nasceram ricas. Ou seja, classe média e classe média alta, ainda assim são classe trabalhadora. Quando falamos de burguesia e elite estamos falando de outro lugar, daquele de quem efetivamente detém riqueza e poder político, são os 1%. E não nós, docentes assalariadas. 
           Portabto, devo repetir, as elites econômicas, a burguesia, não engoliu o fato de pessoas pobres terem acesso a espaços que antes eram destinados, no máximo, para classe média alta, como era a universidade pública. Com ênfases diferenciadas, mas se deu desde o primeiro mandato de Lula, em 2003. Naquela época muitos dos que se opunham a ele alegavam que ele era "um analfabeto" e por este rótulo muitos outros estigmas apareciam: era pobre; sem modos ou educação para se portar em espaços de tanta cerimônia e protocolos; não sabia falar outros idiomas (como o sociólogo, ex-presidente a quem o sucedera) e por aí seguiu em seus 8 anos de mandatos. 
           Contudo, e fundamentalmente o ser "um analfabeto" o colocava no lugar de alguém do povo. E como povo, nordestino, operário, sindicalista ascendeu ao cargo máximo da administração pública. Não apenas isso, promoveu um desenvolvi e um avanço d e políticas públicas que permitiram uma série de mudanças significativas em nosso país, possibilitando que pessoas mais pobres pudessem melhorar suas condições de vida e acessar espaços que antes lhes eram praticamente impossíveis, como a universidade.
           Mas, aos olhos de uma sociedade elitista como a nossa, o incômodo pairava: como é possível alguém do povo (e não da elite) ocupar este cargo? Pois a culpa recaiu sobre o regime político: a Democracia! Por isso, vira e mexe os discursos da extrema-direita vem atacar a democracia, como vemos agora o ataque à Constituição Federal.
           Curiosamente, mas não por acaso, este mesmo debate tomou conta das pautas políticas na Alemanha do início do século XX (pré-Hitler), na onda de protestos populares e proletários pela queda do império (Reich) e a instauração de um regime democrático, muitos intelectuais eminentes da época se levantaram contra o povo. Sob o discurso empolado e científico das recentes descobertas das ciências naturais, mais precisamente a teoria da evolução de Darwin (ou o que fizeram dela com o darwinismo social) e a genética mendeliana, bem como a biometria de Galton ergueu-se um coro de cientistas contra o regime democrático e contra o proletariado. 
           Um desses homens da ciência que se levantou veementemente contra o regime democrático foi Emil Kraepelin, médico, pesquisador que fundou, a partir da Psicologia Experimental de Wundt, as bases do que hoje conhecemos por psiquiatria. Considerado o pai da psiquiatria moderna, Kraepelin criou um sistema de classificação de doenças psiquiátricas e tratou de relacionar os comportamentos criminais com psicopatologias, orientando a área da psiquiatria forense até os dias atuais. Desconsiderando as questões sociais, para ele o comportamento criminoso, bem como, o desenvolvimento de alguma psicopatologia era algo da ordem da biologia, ou seja, era herdado biologicamente por meio da lei da hereditariedade. 
           Nesse sentido, então, Kraepelin defendia que traços de comportamentos eram herdados desde os mais remotos ancestrais e que qualidades ou "degenerações", inclusive de caráter, eram também fruto dessa herança. Por este motivo, ele compreendia que a Democracia era algo ruim, pois por meio dela, pessoas da classe operária (gente do povo) poderia ascender ao poder. Em suas palavras: 

                                 A ascensão de certas classes a posições confortáveis e importantes na vida deve ter dependido desde o início de que elas provassem sua coragem na luta por existência (Dasein Kampf. A luta garantiu-lhes uma posição superior em seu ambiente. Além disso, pode-se supor que seus traços positivos foram herdados e, portanto, que as gerações posteriores de uma antiga linhagem familiar que defendeu sua posição ao longo dos séculos manteve, até certo ponto, aquelas características que uma vez facilitaram sua existência Por outro lado, parece óbvio que os ancestrais daqueles pertencentes às classes mais baixas não possuíam, em geral, características que os equipassem para realizações extraordinárias e, portanto, não poderiam transmitir tais características. (Kraepelin, 1919 p. 181 apud Engstrom, 1991 p. 131)

           Foi, portanto, que em minhas pesquisas na área de Saúde Mental pude, então, fortalecer a constatação de que os movimentos antidemocráticos que se instauram no país têm uma característica EUGÊNICA!. Tal qual como Kraepelin (e outros cientistas da época) acreditavam que não era possível ao povo ascender ao poder, o movimento bolsonarista expressa, em termos de ideais e de representatividade, as mesmas ideologias e se enraivece com a ideia de que o povo brasileiro é majoritariamente o povo preto, os povos indígenas, as mulheres trabalhadoras, as pessoas nordestinas, é, sobretudo, um povo plural muito distante da ideia da branquitude sudestina com descendência europeia. 
           A escalada violenta e golpista não é resultado de uma patologia. Não há um diagnóstico para o que está acontecendo, não é loucura ou demência, diferentemente do que muitos têm alegado por entenderem erroneamente que a loucura é a quebra com a realidade. O processo anti-democrático é, sobretudo, EUGÊNICO! E, se guarda qualquer semelhança com a psiquiatria hegemônica, a semelhança é esta: ambas são compostas por ideias e ideais eugênicos! 
           Em tempos de crise, não foi incomum que a violência e o moralismo se mascarassem de rigor científico para conjugar uma ideologia de classe supremacista sob o argumento de enfrentar "problemas sociais" e melhorar a sociedade.  Foi neste sentido que, segundo de Souza (2012): 

                                 O cientista britânico Francis Galton empregou a palavra eugenia, em 1883, para definir a ciência da humana. Suas sobre o aperfeiçoamento das características raciais se associariam intimamente às discussões sobre evolução e degeneração, progresso e civilização, conceitos fundamentais na formulação de concepções científicas e sociais na passagem do século XIX para o XX. De maneira geral, pode-se dizer que a eugenia foi um movimento científico e social que se relacionava ao debate sobre raça, gênero, saúde, sexualidade e nacionalismo, apresentando-se frequentemente como um projeto biológico de regeneração racial. (p. 01-02)

           Já no Brasil, do início do século XX, as ideias eugênicas amplamente propagadas por Renato Kehl (1935) que enfatiza: "(...) a eugenia esforça-se pelo constante e progressivo multiplicar de indivíduos 'bem dotados' ou eugenizados." (p. 46 apud Boarini e Yamamoto, 2004 p. 05). 
           Isto porque, como já dissemos antes, os eugenistas entendiam que diversos traços de comportamento humano eram/são herdáveis a partir do aparato biológico, o que hoje chamamos de herança genética. Assim, seria possível produzir indivíduos geneticamente melhores para que se pudesse regenerar a sociedade de suas mazelas como o alcoolismo, por exemplo. Esta é a idéia que Kraepelin também defendeu, que a melhoria genética iria paulatinamente eliminar as mazelas sociais, que as pessoas pertencem a determinada classe social não por questões de desigualdade, racismo, misoginia, etc. mas sim porque nasceram com aparato biológico que as colocam nessa condição. 
           As descobertas das ciências naturais de fato revolucionaram a forma de se pensar a própria criação dos seres humanos, os estudos de Darwin e Mendel, ajudaram a derrubar os mitos das vocações divinas atribuídas a determinados sujeitos privilegiados que eram os escolhidos de Deus para fazer parte da monarquia, dos altos cargos da administração do Estado, ou da "high society". Contudo, a imperativa escolha divina de outrora, fora substituída pelas heranças biológicas, genéticas de agora e a eugenia tomou posse dessas ideias para justificar, então, as diferenças entre as raças/etnias, os gêneros e as classes sociais. 
           Então, se não era mais a providência divina que nos dava atributos, na quadra histórica moderna, o argumento passa a ser a herança biológica como o determinante de nosso comportamento, de nossas habilidades e sobretudo capacidades intelectuais e comportamentais. A partir do império da biologia, outra ciência passa a ser fundamental para as ideias eugênicas da biometria de Galton que fundamentará, na psicologia, a área da psicometria, ou seja da avaliação psicológica para produção de laudos. Em essência, as habilidades ou o desenvolvimento das funções psicológicas estariam sujeitas, também, à herança genética e seria possível medir quanto de capacidade psicológica ou, como queiram, intelectual uma pessoa seria capaz de possuir ou possui a partir de sua herança genética. Daí que se deriva a ideia dos testes de Q.I., por exemplo. Assim, se fortalece convicções cientificistas como se a genética estivesse na base de todo desenvolvimento psicológico, onde  a partir do momento que se herda tais caracteres, todo ser humano estaria fadado àquela condição ad aeternum.  
           E como a ciência é também política, mesmo as ciências naturais e ou exatas, e mesmo na medição galtoniana há ideais políticos, a eugenia também serve de argumento para o movimento fascista pois, em sua essência está "(...) o desprezo pela democracia eleitoral e pela liberdade política e econômica, a crença numa hierarquia social natural e no domínio das elites (...) (Bruinjé e Oliveira, 2021 p. 39 - grifo nosso). 
           Por este motivo, entre tantos outros, para os fascistas bolsonarista a Democracia é também ruim, pois se os gestores são escolhidos a partir do voto e não por meio de sua suposta superioridade, as chances de se eleger alguém inábil para o cargo seriam grandes. Esta é justamente a ideia que se expressou na base do movimento anti-democrático na Alemanha após o II Reich e que culminou, ao final da I Guerra Mundial na ascenção do partido nazista ao poder e o resto da história todos nós já sabemos, a perseguição a população preta, lgbtqia+, povos judeus, povos ciganos, etc. 
           As ideias eugênicas foram bases para diversas atrocidades e seguem vivas em nossa sociedade atual, seguem vivas na base do movimento anti-democrático financiado e executado por pessoas que se julgam superiores, mas que no fundo repetem uma ideologia que se expressa em preconceito, racismo, xenofobia, misoginia e lgbtqia+fobia.  Mais ainda, se expressa na forma da Necropolítica que como afirma Mbembe (2018) está para além do "deixar morrer" é a efetiva ação do Estado em matar/exterminar determinados corpos. 
           Foi a despeito da eugenia que Hitler perseguiu e matou diversas pessoas que por ele não eram consideradas superiores, foram as ideias eugênicas de melhoria da raça humana que o fizeram acreditar na possibilidade de uma raça humana superior - a ariana, foram as ideias eugênicas incutidas em toda a população que, sobretudo, sustentaram o governo narzista no poder por tantos anos, além do providencial financiamento do capital. 
            A Ditadura cívico-militar em toda América Latina, que não perseguiu apenas pessoas ligadas aos partidos de esquerda, mas matou muitos jovens nas periferias das grandes cidades fora das mobilizações políticas organizadas, que ao conceder terras a agricultores concedeu também o direito a invasão territorial e massacre dos povos indígenas que nessas terras habitavam, também têm em sua base os ideais eugênicos. 
           Para além do negacionismo evidente, das bravatas aparentes, dos escândalos mascarados de delírio, das mentiras  que surgem nas ruas e calçadas dos quartéis e redes sociais, é preciso aprofundar as questões onde imperam os fundamentos da intolerância, do autoritarismo, do preconceito. Não é só a caricatura moralista e irracionalista que busca a realização golpista, mas toda racionalidade que não rompeu com o conservadorismo e permanece distante da luta contra as desigualdades, mantém fundamentos que não se dissociam de lógicas opressoras como aquelas que abraçam a eugenia e os princípios antidemocráticos.
           Por isso, é preciso defender a Democracia Sempre, para que ela esteja viva entre nós, é preciso lembrar e relembrar sempre que a despeito da ideologia eugênica nas ciências se ergueram regimes como o Nazismo, o Fascismo e as Ditaduras da América Latina que subjugaram pessoas, povos, etnias à condições subumanas. Portanto, é preciso chamar as coisas por seu nome o movimento antidemocrático é eugênico e por isso fascista, racista, xenofóbico, misógino, violento e opressor.  E para conter esse horror é importante seguirmos atentas, fortes e em luta nas ruas e nas urnas pela democracia brasileira, contra a mudança da constituição federal e contra a extrema-direita! 



           Referências Bibliográficas
BOARINI, M. L. e YAMAMOTO, O. H. Higienismo e Eugenia: discussões que não envelhecem. In: Psicol. rev ; 13(1): 59-71, maio 2004.

BRUINJÉ, A. T. e OLIVEIRA, R. Classe Trabalhadora E Racismo Durante A Pandemia: Eugenia E Fascismo No Governo Bolsonaro. In: Revista Resistência Litoral (Matinhos PR), Vol. 1 N. 1 p. 29 – 44, jan/jun de 2022. ISSN: 2764-3174 DOI: http://dx.doi.org/10.5380/rrl.v1i1.79294

De SOUZA, V. S. AS IDEIAS EUGÊNICAS NO BRASIL: ciência, raça e projeto nacional no entre-guerras. In:Revista Eletrônica História em Reflexão: Vol. 6 n. 11 – UFGD - Dourados jan/jun 2012

ENGSTROM, E. Emil Kraepelin: psychiatry and public affairs in Wilhelmine Germany.In:Hist. Psychiatry. 1991 Jun;2(6):111-32. doi: 10.1177/0957154X9100200601. PMID: 11613214.

FRANCO, A. Discurso de Posse Ministerial: Ministério da Igualdade Racial. Brasil, 2023.
MBEMBE, A. Necropolítica. 3. ed. São Paulo: n-1 edições, 2018. 




Quarta, 14 Outubro 2026 16:08

 

Imagem de capa: reprodução do @estudantesninja / foto de @bichocidadao

 

O Ministério Público Federal (MPF) acolheu uma representação do ANDES-SN que denuncia ameaças, intimidações e episódios de violência contra estudantes, docentes, técnicos e técnicas e comunidades acadêmicas em instituições de ensino superior brasileiras. Em despacho nesta quarta-feira (14), o procurador da República Julio José Araujo Junior determinou que universidades e institutos federais do Rio de Janeiro prestem informações sobre as medidas adotadas para proteger a comunidade acadêmica e assegurar a liberdade de expressão nos campi.

 

A representação foi protocolada na última sexta-feira (9) pelo Sindicato Nacional junto à Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do MPF. O documento reúne relatos de ameaças atribuídas a grupos de extrema direita, invasões de espaços universitários e intervenções de forças de segurança, como integrantes da Polícia Militar, em atividades estudantis.

 

No despacho, o procurador destaca a importância da liberdade de expressão, do pluralismo de ideias e da autonomia universitária, garantidos pela Constituição Federal e pela legislação educacional. Também chama a atenção para o chamado efeito inibidor (chilling effect), quando ameaças e intimidações levam estudantes, docentes e demais integrantes da comunidade acadêmica a evitar manifestações e debates por medo de represálias.

 

A medida busca verificar como as instituições têm enfrentado essas situações e quais providências foram adotadas para impedir que a violência e o temor de retaliações restrinjam a participação política e o debate democrático nas universidades.

 

Ameaças e violência em instituições de ensino

 

Entre os episódios relatados pelo ANDES-SN estão ameaças contra estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) e lideranças estudantis ligadas ao Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo a representação, mensagens compartilhadas em grupos privados, incluindo um denominado “Juntos com Bolsonaro”, mencionavam incêndios a prédios da UFF e ameaçavam estudantes com agressões físicas e esfaqueamentos, após atos em defesa da democracia.

 

Crédito: reprodução do @estudantesninja

 

No campus do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), em Angra dos Reis (RJ), a entidade relata a entrada de um homem em um veículo adesivado com propaganda político-partidária, que teria proferido ofensas e ameaças contra estudantes.

 

A representação também cita um incêndio de grandes proporções em um prédio de pesquisas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), precedido, segundo o documento, por mensagens extremistas que ameaçavam explodir o departamento. O caso é apresentado no contexto das preocupações com a segurança da comunidade acadêmica e a escalada de intimidações.

 

Outras ocorrências relatadas envolvem a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (Uems), onde agentes da Polícia Militar teriam ingressado em uma assembleia estudantil, e a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Nesta última, a representação menciona a retirada de cartazes por pessoas identificadas como extremistas, seguida de agressão verbal com conteúdo racista e detenção de uma estudante pela Polícia Militar.

 

Os episódios, reunidos pelo Sindicato Nacional, apontam para diferentes formas de pressão sobre a comunidade universitária, desde ameaças disseminadas em ambientes digitais até intervenções presenciais. Segundo Fernanda Maria Vieira, secretária-geral do ANDES-SN, a atuação das instituições de Justiça é fundamental para garantir a proteção das universidades públicas diante do avanço das ameaças e dos ataques promovidos pela extrema direita.

 

“Temos acompanhado como a extrema direita elegeu a educação pública e as educadoras e os educadores como inimigos e busca monetizar essas ações, tanto econômica quanto politicamente. Impedir o avanço da extrema direita na educação e defender o ensino público é defender a própria democracia”, afirma.

 

A secretária-geral ressalta que a defesa da educação pública também significa proteger o trabalho de quem contribui para a formação de novas gerações e para o enfrentamento dos problemas estruturais do país.

 

“É defender quem vem atuando para garantir uma geração futura, atenta aos problemas mais fundamentais do nosso país, como a desigualdade crescente e a falta de perspectivas diante do avanço da precarização da vida da classe trabalhadora. O ANDES-SN não se calará diante das ameaças e da violência. As universidades, os institutos federais e os Cefets não serão palco para as ações grotescas da extrema direita. Fascistas não passarão!”, conclui.

 

Fonte: Andes-SN 

Quarta, 14 Outubro 2026 15:40

 

 

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que o Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais (Fonasefe) retire, em até 24 horas, publicações de seu perfil oficial no Instagram (@fonasefe.oficial) que criticam o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL). A decisão liminar, assinada pelo ministro Marco Aurélio Bellizze em 12 de outubro, atendeu parcialmente a um pedido da campanha do candidato e reacendeu o debate sobre liberdade de expressão, atuação sindical e os limites da manifestação política durante o período eleitoral.

 

Entre os conteúdos questionados estão publicações com os títulos “Lembrar para não esquecer – 5 ataques de Bolsonaro aos serviços e servidores públicos”, acompanhada da frase “Servidor(a) não pode votar em quem vota contra servidor(a)!”, além de postagens com expressões como “A extrema direita odeia você, servidor(a)!” e “Tal pai, tal filho”. A campanha de Flávio Bolsonaro alegou que as publicações configurariam propaganda eleitoral negativa irregular e conteriam informações falsas ou descontextualizadas.

 

Na decisão, Bellizze argumentou que a legislação eleitoral proíbe a veiculação de propaganda eleitoral na internet por pessoas jurídicas, mesmo sem fins lucrativos. O ministro considerou que o perfil do Fonasefe funciona como canal institucional das entidades sindicais e associativas que integram o Fórum.

 

A determinação prevê a retirada das publicações indicadas no processo e proíbe a republicação dos mesmos conteúdos. Conforme o Fonasefe, a Meta já removeu 13 conteúdos do perfil do instagram do Fórum.

 

Em nota, o Fonasefe denunciou a retirada de publicações de seu perfil oficial no Instagram por determinação da Justiça Eleitoral, após representação apresentada por Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PL. Segundo o Fórum, a medida é uma censura e representa um grave cerceamento do debate público sobre o histórico de ataques aos serviços públicos e aos direitos dos servidores federais.

 

Para o Fonasefe, é preocupante que conteúdos destinados a informar os trabalhadores sobre decisões políticas e seus impactos sobre o funcionalismo sejam alvo de medidas de retirada justamente em um período decisivo como as eleições. O Fórum considera que o histórico de medidas governamentais e as posições assumidas por candidatos em relação ao serviço público são assuntos de interesse coletivo e devem poder ser discutidos pela sociedade e, certamente, pelas entidades representativas dos servidores.

 

O Fórum representa uma articulação de entidades sindicais e associativas comprometidas com a defesa dos servidores públicos federais e dos serviços prestados à população. Informar os trabalhadores e as trabalhadoras sobre políticas que afetaram seus direitos, as condições de trabalho e a estrutura do Estado faz parte do debate democrático sobre o futuro do país.

 

Na avaliação da entidade, restringir a circulação dessas informações pode limitar o acesso de servidores e servidoras a elementos importantes para a formação de sua opinião política. O Fonasefe reafirma que os servidores públicos não podem ser privados do debate sobre as políticas que atingiram suas carreiras, seus direitos e a capacidade do Estado de atender à população. Conhecer as decisões tomadas por governos anteriores e as posições defendidas pelos candidatos é parte essencial do exercício da Democracia.

 

O Fórum seguirá defendendo o serviço público, os direitos dos trabalhadores e a liberdade de manifestação das entidades representativas. A democracia exige eleições livres para que a sociedade tenha acesso à informação e possa questionar, criticar e cobrar aqueles que disputam o poder.

 

“A medida do TSE contra o Fonasefe, atendendo ao pedido da candidatura de Flávio Bolsonaro, exorbita da legislação eleitoral. Nenhuma das peças publicadas pelo Fonasefe fazia pedido de voto. Nenhuma das peças publicadas pelo Fonasefe trazia informações inverídicas. O Fonasef é um fórum e não uma personalidade jurídica formal. Não está, portanto, vedado pela legislação eleitoral de publicar esse tipo de manifestação. Isso é cerceamento de opinião e demonstra o caráter parcial com que a justiça eleitoral está conduzindo o processo neste segundo turno”, critica Diego Marques, 2º tesoureiro do ANDES-SN.

 

Jornal sindical tem circulação suspensa

 

A decisão contra o Fonasefe ocorre em meio a outras medidas judiciais que atingiram conteúdos de campanha e manifestações políticas. Na semana passada, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão da circulação de um jornal do Sindicato dos Petroleiros de São Paulo (Sindipetro Unificado), atendendo a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro.

 

Cerca de 30 mil exemplares foram impressos. A publicação apresentava argumentos do sindicato sobre por que uma eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seria mais favorável às trabalhadoras e aos trabalhadores da Petrobras.

 

Nunes Marques ordenou a suspensão da distribuição das versões impressa e digital e o recolhimento dos exemplares ainda não distribuídos. Em caso de descumprimento, estabeleceu multa de R$ 10 mil.

 

Em nota, o Sindipetro Unificado classificou a medida como censura e ataque à liberdade de expressão. Para a entidade, impedir a circulação de uma publicação que discute os rumos da Petrobras representa cerceamento do direito à informação.

 

Canal com milhões de participantes foi retirado do ar e reativado

 

No domingo (11), Kassio Nunes Marques também determinou a suspensão do canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, coordenado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). A ferramenta reunia mais de 3 milhões de participantes e era utilizada para compartilhar mensagens, vídeos e orientações de apoio ao presidente Lula. A decisão atendeu a um pedido da campanha de Bolsonaro, que acusou o canal de disseminar conteúdos falsos já questionados pela Justiça Eleitoral.

 

Horas depois, porém, o corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, suspendeu a ordem e determinou a reativação do canal até que o plenário do TSE examine o caso. Cueva entendeu que não havia elementos suficientes para justificar a suspensão integral de toda a ferramenta e que eventuais conteúdos irregulares poderiam ser tratados de forma específica.

 

O corregedor também apontou preocupação com a interferência da Presidência do Tribunal em um processo sob sua relatoria. A reativação não autoriza a republicação de conteúdos cuja ilicitude já tenha sido reconhecida pela Corte.

 

Um relatório da área técnica de combate à desinformação do TSE, solicitado após as decisões conflitantes, informou que não foram encontradas, nas publicações examinadas entre 2 e 11 de outubro, reproduções das afirmações específicas analisadas no processo.

 

Anúncios sobre a escala 6x1 também são barrados

 

Outra decisão, tomada pelo ministro André Mendonça no domingo (11), proibiu a campanha de Lula de contratar novos anúncios pagos que afirmavam que Flávio Bolsonaro é contrário ao fim da escala 6x1. O pedido foi apresentado pela campanha do candidato do PL após a divulgação de um vídeo no Facebook que associava Flávio à oposição à proposta de redução da jornada de trabalho. Flávio Bolsonaro tem defendido a possibilidade de negociação entre empregados e empregadores.

 

Propaganda na televisão também foi suspensa

 

No mesmo domingo, Kassio Nunes Marques determinou a suspensão de um vídeo da campanha de Lula exibido no horário eleitoral na televisão. A peça mencionava a relação de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e uma investigação relacionada à acusação de estupro contra Alfredo Gaspar, candidato a vice-presidente na chapa do PL.

A medida integrou a sequência de decisões tomadas a partir de representações apresentadas pela campanha de Flávio Bolsonaro contra conteúdos divulgados por seus adversários.

 

Liberdade de expressão em debate

 

As decisões colocam em discussão os limites da legislação eleitoral sobre a atuação de entidades sindicais, a divulgação de críticas políticas e o uso de redes sociais durante as eleições. A legislação estabelece restrições à propaganda eleitoral realizada por pessoas jurídicas, mas a aplicação dessas regras também exige considerar o direito à informação e à liberdade de expressão.

 

As medidas ocorrem durante a disputa do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, entre Lula e Flávio Bolsonaro. O conjunto de decisões amplia o debate sobre a atuação da Justiça Eleitoral e a necessidade de garantir, simultaneamente, o cumprimento das regras do pleito, a liberdade de expressão e a participação política da sociedade.

 

Fonte: Andes-SN (com informações e arte do Fonasefe)

Terça, 13 Outubro 2026 09:29

 

Clique no Arquivo Anexo abaixo para ler o documento. 

Terça, 13 Outubro 2026 09:26

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
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              E cá estamos nós novamente diante das urnas, tão eletrônicas e confiáveis como sempre. E cá estamos nós, mais polarizados do que nunca antes em nossa história. Cada um de nós, com nossas individualidades, tem ajudado a formar dois blocos de tipos divergentes de seres humanos, politicamente falando, posto sermos social e historicamente construídos.
              Com o resultado do 1º turno das eleições (em 04/10), toda nossa divergência ficou mais visível diante de dois projetos antagônicos para nosso país. Sim. Mais do que dois candidatos, temos, na verdade, dois projetos políticos em acirrada disputa: 1º) o que busca dar continuidade ao cambaleante, mas indispensável, Estado Democrático de Direito, em declínio mundial; 2º) o que se insere na linhagem neonazifascista, em ascensão planetária, hoje, capitaneada pelo líder mor dos EUA. Mas antes de falar do significado e abrangências políticas disso, falarei de semelhanças que vi no dia e no local em que votei.
              Começo registrando um generalizado silêncio. Com quem falei sobre isso, a descrição das cenas foi parecida em diversos lugares: o silêncio só era quebrado por conta de uma impertinente tosse, um incontido espirro, um cumprimento meio sem graça, aqui e acolá, uma briga... de alguns cães que perambulam sem noção e rumo.
              Aliás, esse comportamento já se notava no percurso do caminho às urnas e arredores dos locais de votação. Aquela colorida alegria das festas democráticas parecia estar macambúzia, sorumbática. Excetuando um ou outro eleitor mais apaixonado, talvez, sem a devida percepção da dura realidade, a maioria de nós estava descaracterizada, trajando roupas que nem de longe poderiam sugerir aproximação com signos visuais de partidos e candidatos, fossem quais fossem. Ironicamente, parecíamos iguais.
              Mas não éramos e não somos iguais; quando muito, iguais aos "nossos pais”, como trata Belchior em uma de suas canções. As cizânias que ocorrem em grupos de colegas de trabalho, de amigos, de famílias... são provas desse antagonismo político/existencial. Todavia, pontualmente, parece que algumas coisas, antigas e recentes, acabaram nos jogando nesse estado de espírito mais circunspecto. Mas quais coisas, afinal, teriam provocado esse sentimento de semelhança entre dessemelhantes?
              Tentando a síntese, avalio que, muito disso, pode estar na corporificando dos dois projetos. De um lado, um candidato à reeleição que teve a audácia de não ir ao debate mais aguardado e importante da campanha; pior: que ainda acionou uma juíza eleitoral, de sua própria indicação ao TSE, para melar as regras antes acordadas. Mais: pelo menos dois políticos, de absoluta confiança, além de uma criatura de sua descendência genética, apareceram em denúncias que os aproximaram de um “máster” banqueiro golpista, mas paparicado como “irmão” por meio mundo da elite de nossa República, incluindo alguns sujeitos togados do STF, e, até mesmo, o outro candidato da polarização; este, sem dó e nem piedade, escarniou os seus seguidores.
              Numa ligação de celular, ao mesmo e tal “irmão” banqueiro “máster”, o representante da extrema direita brasileira pediu, em dólar, o equivalente a 134 milhões de reais para financiar um filme – “Dark Horse” (cavalo escuro ou, metaforicamente, o azarão) – sobre a vida de seu genitor; ou seja, o “mito”, que hoje se encontra em prisão domiciliar e com o uso de uma “electronic ankle monitor”. Todavia, investigações da PF estão em curso para checar se, na verdade, muito dessa montanha de dinheiro, que faz até Hollywood olhar espantado, não teria sido para bancar o irmão, agora de sangue mesmo, que fugiu para os EUA por conta de crimes aqui cometidos. 
              A família desse mesmo candidato idolatra cegamente os mitos estadunidenses. Ao que tudo indica, antes do atual líder de cabelos alaranjados de lá, parece que o clã político brasileiro em pauta já adorava o Tio Sam, aquele senhor grisalho que, desde a 1ª Guerra Mundial, aponta o indicador a quem o olha e diz: "I Want You for U.S. Army" ("Eu quero você para o Exército dos EUA"). Tem-nos, “of course, Sir”, diria qualquer um da família, sequiosa e já com contatos estabelecidos para entregar nossas terras raras e “others things, of course”, que o poderio dos EUA possa desejar.
              Mas tem mais complexidades sobre esse candidato, que se faz passar pelo mocinho exemplar da honestidade: assim como o seu pai-mito, que homenageou o coronel Ustra, um dos mais cruéis dos ditadores brasileiros, ele adora condecorar criaturas que são irrefutáveis erros da natureza, como, p. ex., aqueles dois policiais que foram apontados pelo MP-RJ como chefes e integrantes de milícias e grupos de extermínio, e que estiveram envolvidos também no assassinato de Marielle Franco. Intrigantemente, um deles foi morto dentro de um presídio da Bahia. Filme conhecido. 
              Em linha próxima disso, recursos de emendas parlamentares indicados pelo mesmo candidato foram direcionados a entidades investigadas por irregularidades, fraudes fiscais e ligações com milícia, conforme destemidas apurações jornalísticas divulgadas recentemente. Dúvida minha: como investir contra facções criminosas, como é proposto pelo candidato da extrema direita, se o crime organizado trabalha, há anos, na lógica co-existencial da “narcomilícia”, ou seja, de tudo e todos juntos e misturados?
              E há outras questiúnculas, do tipo “chocolate pequeno”, como a prática das rachadinhas, o nebuloso mundo contábil de uma loja de... chocolate, e, é claro, a aquisição de uma mansão, em Brasília, de aproximadamente 6 milhões: uma bagatela três vezes o valor de um famoso triplex no Guarujá.
              Diante desse quadro, quem não queria votar em corrupto, e queria ver todos os ladrões do país na cadeia, deve alguma explicação, pelo menos a si próprio. Muito por conta desse panorama em nada exemplar, a maioria votou, no 1º turno, nos dois candidatos mais rejeitados do que aceitos.
              Assim, quem votou no candidato progressista, confundido como de esquerda, optou pelo projeto de manutenção do Estado Democrático de Direito: um modelo de organização política e jurídica em que, via Constituição, o poder emana do povo e as leis valem para todos, inclusive a governantes; e toda imperfeição que há, e há muitas, pode ser denunciada/investigada por conta da liberdade de expressão e da atuação da imprensa; aliás, sob a égide da imprensa livre, alguns dos grandes veículos nacionais vêm difundindo, há anos, um verdadeiro pânico em nosso povo. Em outras palavras, vêm construindo diariamente um conjunto criminoso de discurso de ódio, alguns sob o manto do humor. Poucos entendem a profundidade e a extensão desse tipo de jornalismo jocoso.
              Em contrapartida, quem votou no outro candidato, conscientemente ou não, chancelou o arcabouço político daquilo que mundialmente se tem chamado de projeto neonazifascismo, ou seja, a adaptação contemporânea das ideologias fascista (de Mussolini, na Itália) e nazista (de Hitler, na Alemanha), ambas do século passado.
              Nessa linhagem ideológica, que olha para trás e não para frente, está a força do ultranacionalismo radical, do autoritarismo generalizado, da violência multifacetada, principalmente, contra a classe trabalhadora, e da intolerância; em suma, da negação da humanidade, que deveria fazer parte ontológica de todos nós que ajudamos a compor a nossa complexa e desafiante espécie. 
              Todavia, esse atraso político e existencial da humanidade se modernizou, como, aliás, fazem as variações do crime organizado, de mãos dadas com as milícias, para atuar por dentro das democracias liberais, assim como no ambiente digital, quase sempre tóxico, principalmente aos incautos, que abundam alhures, vivendo e inflando a vida das bolhas das redes sociais, verdadeiras pragas deste tempo já bastante e, por si, sombrio.

 

Sexta, 09 Outubro 2026 17:28

 

 

Assembleia geral realizada nesta sexta-feira, 09/10, pela Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat-Ssind) debateu e encaminhou ações, em âmbito local, voltadas à derrota da extrema-direita, nas ruas e nas urnas, conforme deliberação congressual do Andes-Sindicato Nacional.

Diante do resultado do primeiro turno das eleições 2026, para além dos informes, a plenária foi convocada com ponto de pauta único: análise de conjuntura e ações para derrotar a extrema direita. O posicionamento do sindicato se baseia no fato de, historicamente, o projeto de sociedade defendido pela extrema-direita em todo o mundo ser de destruição dos direitos públicos pela via autoritária e também pela experiência recente com o Governo Bolsonaro, cujos prejuízos à Educação ainda não foram superados  

 

Durante os informes, Diretoria e docentes falaram as atividades realizadas recentemente em âmbito nacional e local, como a elaboração da Política de Atenção às e aos Servidores Públicos Aposentados da UFMT, avanço do debate sobre a Resolução 158/2010, debate sobre as Eleições 2026 (Programas de Governo e políticas voltadas às mulheres), atividades do GTMultiFront e algumas novidades do Arquivo da Adufmat-Ssind.

 

Conjuntura

 

O diretor geral da Adufmat-Ssind, professor Breno Santos, iniciou o debate de conjuntura afirmando que o resultado do primeiro turno assusta, mas não é uma surpresa, porque há anos o imperialismo se esforça, internacionalmente, para ganhar cada vez mais espaço em diferentes países. Segundo Santos, é o futuro e as condições de vida dos trabalhadores que estão em disputa, e há resistência e mobilizações contra o avanço do imperialismo por todo o mundo neste momento.


Para o docente, a disputa é mais do que civilizatória, mas existencial, e a campanha para derrotar a extrema direita está em movimento, mas a unidade é fundamental para vencer.

 

A professora Raquel de Brito falou sobre ações necessárias, e lembrou que uma das primeiras ações do Governo Bolsonaro para Educação foi o Projeto Future-se, barrado pela ampla maioria das universidades (relembre aqui).

 

Em sua análise, a docente Lélica Lacerda destacou que parte dos eleitores de Bolsonaro votam justamente como forma de protesto ao status quo, e que há uma espécie de desconexão com a realidade, que o próprio Partido dos Trabalhadores fomentou, que faz um trabalhador do transporte por aplicativo, por exemplo, pensar como o trilionário Elon Musk. “Mesmo assim, o PT é um partido neoliberal com traços democráticos. Precisa melhorar, sim, as pessoas têm razão de criticar o atual Governo, nós mesmos nos distanciamos das críticas, mas elas são muito necessárias. Precisamos melhorar, mas enquanto o Lula está repassando recursos insuficientes para as universidades, Bolsonaro propõe privatizar; enquanto o Lula está defendendo o fim da escala 6X1 para 5X2 apenas, Bolsonaro defende 7X0, é isso que nós precisamos avaliar”, disse.

 

Os professores José Domingues de Godoi Filho e Maelison Neves lembraram que o Congresso Nacional já está tomado pela extrema-direita, isso significa que têm muito poder para fazer o que estão ameaçando, mesmo que Flávio Bolsonaro não ganhe o segundo turno. Dessa forma, a classe trabalhadora deve estar organizada e ocupar amplamente as ruas nos próximos anos.


A professora Maria Salete Ribeiro, também diretora da Adufmat-Ssind, defendeu que a mobilização deve incluir atividades de arte e cultura nas ruas, voltada para a formação política, para mostrar, em suas palavras, que o projeto dos trabalhadores organizados é de vida, enquanto o projeto encabeçado pelos Bolsonaro é de morte.

 

Encaminhamentos

 

Após o debate de mais de três horas, foi encaminhado que o sindicato organize e realize uma lista extensa de ações, conforme segue:

 

  1. Produzir materiais próprios da Adufmat-Ssind sobre a educação pública, com prazo até o meio da próxima semana.
  2. Produzir um conjunto de materiais para difusão, incluindo material informativo sobre saúde e educação para dialogar com os eleitores indecisos.
  3. Produzir material específico para as mães trabalhadoras.
  4. Incluir a questão do PIX na comunicação.
  5. Reproduzir a camiseta de 2022, com as mensagens “votar em Lula para derrotar Bolsonaro” e em defesa da educação.
  6. Convidar artistas críticos para contribuir com a agitação e com a elaboração dos materiais.
  7. Ocupar as redes e as ruas.
  8. Priorizar a atuação nas redes sociais, com foco no convencimento de quem se absteve no 1º turno e não se identifica com a extrema direita.
  9. Impulsionar as redes do sindicato na campanha digital.
  10. Agilizar as ações de comunicação, com foco na juventude e na comunidade em geral.
  11. Divulgar diariamente para a categoria o calendário de atividades.
  12. Realizar visitas domiciliares nos bairros com maior índice de abstenção.
  13. Organizar panfletagem de professores e estudantes nos ônibus, divulgando as propostas e lembrando os cortes na saúde e na educação.
  14. Mobilizar os colegas docentes e realizar trabalho de base, dialogando nos locais onde os trabalhadores estão.
  15. Organizar a atuação junto aos estudantes.
  16. Realizar atividades de formação política junto aos trabalhadores.
  17. Atuar também no HUJM, com ato na porta do hospital.
  18. Realizar mobilização na porta, das 18h às 18h30.
  19. Realizar o “Café com Paulo Freire” na feirinha.
  20. Intensificar o trabalho de sindicalização para fortalecer o sindicato.
  21. Convocar a categoria e somar-se a todas as atividades da campanha.
  22. Chamar um ato massivo em unidade com as demais entidades.
  23. Ir para as ruas de modo organizado, para levar muita gente e fazer o debate.
  24. Participar da Plenária Antifascista no domingo, em Cuiabá e em Sinop, e da construção do Comitê Antifascista.
  25. Alinhar as agendas com os movimentos e entidades do norte de MT.
  26. Diretoria organizar mais debates como este, com análises de médio e longo prazo.
  27. Legitimar o sindicato para incidir nas ações políticas, inclusive com uso de recursos financeiros.
  28. Garantir apoio financeiro e jurídico às ações em Barra do Garças e Sinop.
  29. Garantir apoio político, financeiro e material da ADUFMAT às ações em Sinop, que será solicitado formalmente.
  30. Disponibilizar assessoria jurídica para todos os atos.
  31. Organizar uma vaquinha para apoiar os estudantes que não conseguiram votar.
  32. Disponibilizar o caixa da Secretaria Regional do ANDES-SN para as ações políticas, inclusive dos estudantes.
  33. Que o ANDES-SN se posicione para garantir a derrota eleitoral da direita e da extrema direita, chamando a categoria à participação não apenas por meio do voto, mas também da mobilização contra os ataques fascistas aos direitos da classe trabalhadora e contra as políticas de austeridade e de restrição de direitos.
  34. Que o ANDES-SN promova ações permanentes e campanhas em defesa das universidades, CEFETs e IFEs, para enfrentar e desconstruir as narrativas falsas difundidas principalmente pela extrema direita contra a educação pública e a comunidade universitária, e combater a disseminação de desinformação, discursos de ódio e outras formas de violência política dirigida às instituições de ensino.
  35. Que as visitas domiciliares sejam assumidas como estratégia do ANDES-SN.

 

A Comissão de organização das ações será formada pelos professores Breno Santos, Leonardo Santos, Raquel e Brito, Lélica Lacerda, Maelison Neves, Gustavo Canale, Gleyva Sales e Clarianna Silva.


Calendário: 

Data

Atividade

09/10

Ato

13/10

Ato

 

 

 

Luana Soutos

Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

Sexta, 09 Outubro 2026 15:19

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

“Precisamos de uma verdadeira e sólida era de reconciliação, que ponha fim à opressão, às demonstrações de força e à indiferença à justiça. Chega de guerras, com seu doloroso tributo de morte, destruição e exílio!... Espírito Santo, faz de nós construtores fiéis e criativos de paz quotidiana: no nosso coração, nas nossas famílias, nas nossas comunidades e nas nossas cidades. Que cada palavra amável, cada gesto de reconciliação e cada decisão de diálogo sejam sementes de um mundo novo.” Papa Leão XIV

Precisamos, de forma urgente, quebrar o círculo vicioso e cruel da cultura da violência, da intolerância, do ódio, da exclusão, enfim, dos conflitos armados e das guerras, uma cultura da morte, por uma cultura da paz, da tolerância, do diálogo, da inclusão, da fraternidade, enfim, pela cultura da vida e do amor.

Quando a Família, a Igreja e a Educação, como instituições de base e universais, falham, o preço é alto demais: violência, abandono, sofrimento, destruição, morte e um futuro perdido e sem sentido e significado. Precisamos resgatar as novas gerações enquanto é tempo; amanhã pode ser tarde demais!

Na verdade, ninguém nasce bandido ou senhor das guerras e conflitos armados, verdadeiros “líderes sanguinários”, mas tudo isso é fruto de uma sociedade, de uma humanidade envolta em violência, destruição e morte, que “molda” a forma de pensar, sentir e agir das pessoas ao se tornarem adultas, fruto de muitas experiências trágicas acumuladas, principalmente a partir da primeira infância, da adolescência e da juventude, incluindo famílias desestruturadas, territórios dominados pelo crime organizado, onde a violência faz parte do cotidiano das pessoas.

O ponto de partida desta reflexão é a Encíclica Magnifica Humanitas e o grito de alerta e exortação do Papa Leão XIV, em sua primeira Encíclica, publicada em 2025, quando retoma com força o fio condutor da história humana denunciado por todos os Papas: a violência que gera sofrimento, mortes e destruição, a imensa maioria das vítimas inocentes, sobretudo nas guerras e conflitos armados.

Sabemos que a violência não é um acidente; é fruto de estruturas políticas, econômicas, sociais e religiosas injustas. Está na família, na comunidade, no trabalho, na escola, nas igrejas e, de forma mais cruel, na política internacional.

Sua Santidade propõe o diálogo e a busca de entendimento como substitutos da violência, tendo como horizonte a Cultura da Paz e a Civilização do Amor, conceito tão caro a São Paulo VI e também ao Papa Francisco.

Mas, penso eu, não basta combater a violência concreta já instalada; se não agirmos preventivamente, é como “enxugar gelo”. É preciso ir às raízes e impedir que as novas gerações, crianças, adolescentes e jovens, banalizem os comportamentos e as atitudes violentas e enveredem pela senda da violência generalizada, como atualmente está acontecendo em todos os países, inclusive em nosso Brasil. É preciso, fundamentalmente, realizarmos, coletivamente, institucionalmente, um trabalho preventivo, a partir do presente, para salvar o futuro e as novas gerações, enfim, rompermos este círculo vicioso da violência da história humana.

Para termos uma ideia aproximada do significado e do tamanho da violência, “apenas” das guerras e conflitos armados no mundo, a partir de 1900 até 2025, estima-se que entre 140 milhões e 190 milhões de pessoas tenham morrido no período de 1900 a 2025.

Além disso, conforme o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e estudos históricos e demográficos, estima-se que entre 50 milhões e mais de 200 milhões de pessoas foram assassinadas neste período, indicando que estamos vivendo há mais de um século uma verdadeira epidemia de violência sem tréguas.

É aqui que nasce a tese central desta reflexão: a urgente necessidade de uma articulação entre Família, Igreja/Religião e Educação, a partir da educação infantil até o final do ensino médio, por estarem aí as bases do período de formação e socialização das crianças, adolescentes e jovens.

Este desafio, no cotidiano, deixa de ser conceito abstrato e vira uma proposta educacional, de catequese e de cidadania, estimulando empatia, diálogo, verdade, tolerância e respeito.

A denúncia crítica: a falência das três instituições na origem

Por que a violência explodiu? Porque as três instituições que estão na base do processo de socialização das novas gerações e que deveriam ser as “vacinas” contra o surgimento da violência tornaram-se, muitas vezes, vetores. E isto é preciso dizer com coragem: a) a Família falida: quando troca escuta ativa por grito, diálogo por punição violenta, exemplo de respeito por autoritarismo e machismo. Quando naturaliza o castigo físico, a humilhação, a divisão injusta de tarefas por gênero, a criança aprende que conflito se resolve na força, com violência.

E, neste aspecto, quebra-se o apego seguro (0 a 6 anos) e contribui-se para a formação de adolescentes inseguros e violentos, que buscarão apoio e “status” no pertencimento a facções, na delinquência, em gangs digitais de ódio, em atitudes antissociais ou no isolamento depressivo.

As Igrejas/Religiões também, em certo sentido, estão falidas, alienadas, perdidas neste aspecto fundamental no período de formação das novas gerações: quando abandonam seu papel de farol ético e viram palanque de intolerância, fundamentalismo, julgamento e fanatismo. Ou quando pregam amor no altar e praticam desvios éticos e sexuais, exclusão, racismo religioso e condenação na comunidade. Quando se omitem diante da injustiça social. Em vez de acolhimento e cura, geram trauma espiritual e humano.

A Educação também está falida, principalmente quando a escola, que deveria ser espaço de pluralismo, de amor, de fraternidade, vira fábrica de competição destrutiva, bullying institucionalizado, violência institucionalizada, conteúdo sem vida, autoritarismo. Quando suspende e expulsa em vez de mediar e restaurar. Quando fecha os olhos ao cyberbullying, ao discurso de ódio nas redes sociais digitais.

Quando essas três instituições que estão na base da formação humana falham juntas, o resultado é o que vemos: medo, ameaças de leis mais “pesadas”, penas mais longas, incluindo propostas de pena de morte, prisão perpétua, prisões de segurança máxima com cercas de arame farpado eletrificadas, espadas, ódio. Neste momento, o vazio é ocupado pela violência.

A boa-nova: são as mesmas três a salvação da humanidade

Mas, e aqui está o giro profético desta reflexão, são exatamente essas três instituições, quando convertidas, voltadas para suas verdadeiras finalidades, que podem representar a salvação. Nenhuma polícia, nenhum presídio, nenhum algoritmo vai construir paz sozinho se as famílias, as Igrejas, as religiões e a Educação continuarem falidas e não cumprirem os papéis para os quais elas existem ou deveriam existir.

Tabela da articulação prática: Pilar — Papel no Cotidiano — Prática de Não Violência e Amor

FAMÍLIA — Primeiro laboratório afetivo e social. Berço da afetividade. Escuta ativa, diálogo em vez de punição violenta. Exemplo prático de respeito mútuo. Inteligência emocional. Quebra de ciclos de violência intergeracional.

IGREJA/RELIGIÃO — Farol ético e espiritual da comunidade. Mensagens de acolhimento superando as intolerâncias. Ecumenismo e diálogo inter-religioso. Ações sociais concretas de solidariedade, empatia, serviço e voluntariado.

EDUCAÇÃO — Espaço de formação cidadã e plural. Mediação de conflitos através de muito diálogo e paciência, Círculos de Paz, Justiça Restaurativa, projetos de cidadania, valorização da diversidade, justiça social e Direitos Humanos.

Como articular no cotidiano? O chão da vida (0 a 17 anos)

A transformação acontece quando há coerência e projetos integrados. O que a Igreja prega tem que ser vivido em casa e na escola. O que a escola ensina sobre respeito à diversidade e combate ao bullying tem que ser reforçado pela família e também pela catequese e por outras práticas religiosas.

Caminhos práticos:

a) Coerência entre discurso, ação e Comunicação Não Violenta (CNV) como linguagem comum na família, na Igreja e na escola. Aprender e saber ouvir antes de reagir. Validar sentimentos. Ensinar crianças a expressarem frustrações com palavras amorosas, nunca com agressão física ou verbal. Em casa, na sala de aula ou no templo, substituir julgamentos apressados por empatia, escuta e tolerância. É a mensagem dos Evangelhos e também a linguagem de Marshall Rosenberg para serem vividas.

b) Engajamento em ações comunitárias conjuntas. Parcerias locais: escolas, igrejas e famílias criando hortas comunitárias, campanhas de doação, mutirões de limpeza. Família em movimento: quando pais e filhos participam juntos de projeto social da Igreja ou da escola, a Civilização do Amor ganha forma concreta e memória afetiva. É o que a arte mostra: crianças regando mudas sobre escombros de espadas quebradas.

c) Uso consciente das redes. Cultura da Paz e da importância da não violência no ambiente digital: na família, na escola e com líderes religiosos orientando jovens a não espalhar discurso de ódio, fake news ou divisão. Combater o ódio em todos os espaços.

d) Currículo por faixa etária:

Educação Infantil (0 a 6 anos): partilha, empatia, regulação emocional. Aprender a dizer o que sente com palavras em vez de mordidas e empurrões. Participação na construção dos combinados.

Ensino Fundamental (1º ao 9º ano): alfabetização emocional, Círculos de Construção de Paz, mediação feita pelos próprios alunos, foco na restauração e não na punição, integração com História (Gandhi, Martin Luther King, Mandela, Madre Teresa de Calcutá, Santa Dulce dos Pobres e tantos mártires conhecidos), combate sistemático ao bullying.

Ensino Médio (15 a 17 anos): pensamento crítico, Projetos de Vida, protagonismo juvenil, aprendizagem em serviço para resolver problemas reais do bairro, liderança ética, combate ao discurso de ódio, cidadania global, acolhimento emocional.

Conclusão: Grito pela Paz — A sinergia que blinda

Nenhum pilar sozinho salva. Sem família, falta base afetiva. Sem religião/espiritualidade, falta senso de transcendência e propósito. Sem escola, faltam ferramentas intelectuais, profissionais e de cidadania.

Quando a Igreja inspira o espírito de justiça social, de fraternidade, de partilha, do cuidado e do amor universal, a família protege o coração e a escola treina a mente e as emoções, criamos cidadãos integrais amantes da paz e da não violência, enfim, da possibilidade da construção da Civilização do Amor, ou seja, um mundo diferente do que temos é possível.

Creio que a Igreja Católica, que representa mais de 1,4 bilhão de pessoas no mundo todo e que tem a maior rede privada de educação, desde a educação infantil, passando pelos ensinos fundamental, médio e superior, com mais de 71,7 milhões de alunos em 2025, representa uma integração “perfeita” entre as famílias, a Igreja e a Educação e, neste sentido, pode representar um enorme instrumento para combater a cultura da violência e substituí-la pela cultura da paz.

Isto decorre dos princípios da interação profunda entre essas três dimensões, ampliando muitíssimo o raio de ação de cada uma dessas instituições, caso as mesmas continuem agindo de forma isolada, como atualmente acontece.

Além da Igreja Católica, não podemos deixar de mencionar os mesmos princípios, independentemente dos aspectos transcendentais e doutrinários, quando todas as demais igrejas cristãs (evangélicas e), bem como as de outras religiões e filosofias, como o islamismo, o budismo, as religiões de matriz afro e as de povos primitivos, também possuem larga experiência nesta dinâmica de integração entre família, religião e educação. A soma de todas essas igrejas e religiões representa mais de 2,0 bilhões de pessoas e mais de 50 milhões de alunos.

Resultado prático desta integração: menos violência, menos intolerância, menos criminalidade, menos conflitos armados e menos guerras, além de ambientes familiares, educacionais, religiosos e de trabalho mais saudáveis, saúde mental coletiva forte. Em vez de prisões, cadeias, campos de concentração, vamos construir moradias dignas, escolas de melhor qualidade, inclusivas e integradoras, templos acolhedores e famílias mais felizes.

Portanto, a denúncia é dura: sim, há falência institucional na origem da violência; sem considerar isto, será impossível construirmos a cultura da paz. Mas o anúncio é mais forte: a aliança entre Família, Igreja/Religião e Educação, no cotidiano do diálogo, do perdão, da justiça restaurativa e do cuidado com a Casa Comum, é o único caminho que pode gerar a Cultura da Paz e a Civilização do Amor, como sonhou São Paulo VI, como gritou o Papa Francisco e como agora reafirma com sua voz profética o Papa Leão XIV na Magnifica Humanitas, na Dilexi Te e em seus pronunciamentos.

Sem luta não há vitória, mas sem amor não há futuro. Vamos à luta pela cultura da paz e pela Civilização do Amor, com ternura e diálogo sempre!

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

 

Sexta, 09 Outubro 2026 13:47

 

Movimento estudantil aponta risco iminente de desmonte da educação pública e convoca a sociedade para barrar o avanço da extrema direita no segundo turno


A juventude brasileira iniciou uma ampla mobilização de rua e de base em defesa da democracia, da educação pública e pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A reação estudantil ganhou força imediatamente após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, motivada pela compreensão de que a candidatura da extrema direita representa ameaça direta de retorno aos cortes orçamentários, ao sufocamento e descrédito da pesquisa científica e ao desmonte das universidades públicas e das políticas sociais no país.

Crédito: reprodução do @estudantesninja


A primeira reação ocorreu já na segunda-feira (5), na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), onde estudantes organizados pelo Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV), da Faculdade de Direito, e por outras entidades acadêmicas realizaram passeatas consecutivas pelas ruas da cidade. Sob a palavra de ordem de que "o abalo e o espanto com o resultado de domingo precisam se transformar em movimento", manifestantes estenderam a faixa "UFF Antifascista" e marcharam em defesa da universidade e contra qualquer proposta de anistia a golpistas.


A mobilização surtiu efeito e, em poucos dias, a agenda de lutas estudantis já somava mais de 40 assembleias, plenárias e protestos de rua em diversos estados e no Distrito Federal, abrangendo instituições como Universidade de São Paulo (USP), Federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de Minas Gerais (UFMG), do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Bahia (UFBA), de Pernambuco (UFPE), do Pará (UFPA), do Amazonas (UFAM) e Brasília (UnB). No Rio de Janeiro, milhares de estudantes de diversas universidades, institutos federais e do Colégio Pedro II ocuparam o trajeto entre a Candelária e a Cinelândia, afirmando que a ocupação das ruas continuará antes e depois do pleito para barrar o fascismo.

Crédito: reprodução do @estudantesninja / foto de @bichocidadao


Em outras regiões, o movimento estudantil articula ações diretas de convencimento e apoio logístico. Na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a plenária "Vira Voto" tomou o campus de Goiabeiras com trabalho de base de sala em sala. Em Minas Gerais, estudantes da UFMG organizam tendas permanentes e comitês de mobilização. No Paraná, estudantes da UFPR e UTFPR convocaram o ato "Nem o pai, nem o filho: em defesa do Brasil e contra o avanço da extrema direita", enfrentando inclusive a suspensão arbitrária de suas contas institucionais em redes sociais em meio à convocação das assembleias. Em Pernambuco, assembleias gerais na UFPE contaram com o engajamento unificado das entidades estudantis e de apoio docente.


As lideranças estudantis enfatizam que derrotar a eleição do candidato bolsonarista no segundo turno é condição indispensável para garantir a permanência estudantil, a autonomia universitária, a ciência nacional e os direitos da classe trabalhadora. Diversos atos estão previstos para os próximos dias. Confira algumas das mobilizações, já divulgadas, no final da matéria.

Crédito: reprodução do @estudantesninja / foto de @bichocidadao


ANDES-SN conclama docentes


Em consonância com a mobilização que toma o país, a diretoria do ANDES-SN divulgou a Circular nº 407/2026, conclamando a categoria docente de todas as universidades públicas, institutos federais e cefets a se engajar ativamente na campanha para reeleger Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno.


A orientação cumpre a deliberação do 69º Conad, que definiu como tarefa central da categoria a derrota eleitoral da direita e da extrema direita. O documento do Sindicato Nacional alerta que o projeto político representado pela candidatura bolsonarista significa uma ameaça real à soberania nacional, aos serviços públicos, ao meio ambiente, à ciência e aos direitos sociais.


"Não há escolha possível a não ser rechaçar o projeto político de barbárie social representado pela extrema direita e pelo candidato bolsonarista", destaca trecho da Circular emitida pela entidade. O ANDES-SN reafirma o seu compromisso histórico com a defesa da universidade pública, gratuita, laica e de qualidade, a valorização da carreira docente e a preservação das conquistas democráticas da classe trabalhadora. Leia mais aqui.

Crédito: reprodução do @estudantesninja / foto de @thompsongriffo


Agenda de atos confirmados (Fonte: Estudantes Ninja)

AMAZONAS

  • Universidade Federal do Amazonas - Dia 8, 8h, no FCA 

  • Universidade Estadual do Amazonas - Dia 10, 16h

BAHIA

  • Universidade Estadual de Feira de Santana - Dia 13, 16h, em frente ao Colégio Gastão

CEARÁ

  • Universidade Regional do Cariri - Dia 7, 19h, no Pátio da Pedagogia

ESPÍRITO SANTO

  • Universidade Federal do Espírito Santos, campus Goiabeiras - Dia 13, 16h30, Teatro Ufes Goiabeiras

GOIÁS

  • Universidade Federal do Goiás - Dia 7, 18h30, na Praça Universitária

MARANHÃO

  • Universidade Federal do Maranhão - Dia 17, 16h, Praça João Lisboa - Centro

MINAS GERAIS

  • Universidade Federal de Ouro Preto - Dia 9, 17h, em frente ao R.U. UFOP do Campus e Morro do Cruzeiro às 19h na Assufop

  • Universidade Federal de São João del-Rei - Dia 7, 12H, em frente ao campus Dom Bosco

  • Universidade Federal de Minas Gerais - Dia 9, 17h, Praça Afonso Arinos

  • Universidade Federal de Uberlândia - Dia 8, 18h, entrada da UFU

  • Universidade Federal de Juiz de Fora - Dia 8, 19h, Agora da UFJF 

PARÁ

  • Universidade Federal do Pará - Dia 7, 14h30, Portão 2

PARAIBA

  • Universidade Federal de Campo Grande - Dia 8, 15h, Praça da Morgação

PARANÁ

  • Universidade Federal do Paraná - Dia 8, 18h, em frente ao Prédio Histórico

PIAUÍ

  • Universidade Federal do Delta do Parnaíba - Dia 6, 17h, UFDPAR

  • Universidade Federal do Piauí - Dia 8, 7h30, Pórtico da UFPI 

RIO DE JANEIRO 

  • UFRJ, UERJ, UFRRJ - Dia 7, 12h, Candelária

  • UERJ Campus Petrópolis - Dia 8, 17h, Campus Petrópolis

  • Universidade Federal Fluminense- Dia 6, 19h

  • Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna - Dia 7, 12h, Colégio Pedro II

RIO GRANDE DO NORTE

  • Universidade Estadual do Rio Grande do Norte - Dia 13, 9h, em frente à UERN Pau dos Ferros

RIO GRANDE DO SUL

  • Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense Campus Pelotas - Dia 13, 12h, Campus Pelotas

  • Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Dia 8, 18h30, Sede do DCE UNISINOS Campus, São Leopoldo

SERGIPE

  • Universidade Federal de Sergipe - Dia 8, 18h, Porta da UFS 

SÃO PAULO

  • Universidade Estadual de Campinas - Dia 11, 11h, Largo do Pará

  • Universidade Presbiteriana Mackenzie - Dia 8, 19h, em frente ao TUSP

Com informações de Mídia Ninja, Estudantes Ninja e Brasil de Fato.

 

Fonte: Andes-SN