O LIXO NOSSO DE CADA DIA - Juacy da Silva
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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JUACY DA SILVA*
Lixo Zero deve ser uma bandeira da verdadeira cidadania ecológica e a chave para uma economia da vida em substituição à Economia da Morte, como atualmente acontece, para dar lugar à Economia de Francisco e Clara, como tanto nos recomendou o Papa Francisco ao longo de seu magistério.
“A terra, nossa Casa Comum, parece transformar-se, cada vez mais, num imenso depósito de lixo. Os resíduos industriais, como os produtos químicos utilizados nas cidades e nos campos, produzem um efeito de bioacumulação nos organismos dos moradores nas áreas limítrofes... Muitas vezes só se adotam medidas corretivas quando já se produziram efeitos irreversíveis na saúde (e na vida) das pessoas.” Papa Francisco, Laudato Si, 24 de maio de 2015.
“O mundo está sendo inundado por lixo plástico. Se as tendências atuais continuarem, em 2050 nossos oceanos terão mais plástico do que peixes, por isso é urgente o combate a todas as formas de poluição. O mundo deve se unir para vencer a poluição por plásticos.” António Guterres, Secretário-Geral da ONU, pronunciamento por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, junho de 2018.
Tendo em vista a gravidade da poluição e da degradação ambiental produzidas pela geração de resíduos sólidos/lixo em todos os países e os impactos econômicos, sociais e políticos, com índices muito superiores ao crescimento demográfico, à urbanização e ao crescimento do PIB mundial, a ONU, em sua Assembleia Geral de 14 de dezembro de 2022, proclamou que, anualmente, 30 de março passaria a ser considerado o DIA INTERNACIONAL DO LIXO ZERO.
A primeira celebração com o aval da ONU e de inúmeros países ao redor do mundo aconteceu em 2023, abordando os impactos do aumento acelerado da geração de lixo e a falta de um cuidado melhor tanto na economia quanto na saúde humana.
Em 2025, o tema que serviu de base ou foco das celebrações foi "Rumo ao desperdício zero na moda e nos têxteis", destacando a necessidade de sustentabilidade na indústria têxtil.
Em 2026, o tema do Dia Internacional do Lixo Zero é “Reduzindo o desperdício de alimentos”, para combater a degradação ambiental, as mudanças climáticas e aumentar a segurança alimentar, tendo como slogan “Lixo zero começa em seu prato”.
Todavia, o movimento pela redução da geração de resíduos sólidos e os vários tipos de lixo teve início nos Estados Unidos bem antes de a ONU criar oficialmente um dia especial para conscientizar a população mundial e também os vários níveis de governo e as empresas a investirem mais em reciclagem e na economia circular, dando mais “vida” aos produtos através do reaproveitamento do que aparentemente não tem mais utilidade, mas que, no contexto da economia circular, onde a reciclagem é um passo importante, torna-se matéria-prima para novos produtos, reduzindo, assim, os impactos negativos que o aumento da geração de lixo impõe ao planeta e à vida humana principalmente.
O movimento Lixo Zero teve início na década de 1970, na Califórnia, EUA, mas só ganhou força a partir dos anos 90, quando se espalhou pelo mundo. No Brasil, a iniciativa começou a se popularizar na década de 2000, com a publicação do livro “Lixo Zero: a Revolução da Reciclagem”, de Bea Johnson.
Em 2010 foi fundado o Instituto Lixo Zero Brasil, uma organização sem fins lucrativos que promove a disseminação do conceito no país através de cursos, workshops, seminários, palestras e consultorias.
Outro marco significativo ocorreu em 2015, quando a ONU estabeleceu os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a Agenda 2030, para orientar a definição de políticas públicas nos diversos países, visando a sustentabilidade como fundamento básico dos sistemas econômicos que respeitem a natureza (“recursos naturais” finitos), respeitem os consumidores (reduzindo o marketing que estimula um consumismo desenfreado e um desperdício sem limites), respeitem os trabalhadores e também respeitem as futuras gerações, considerando que o planeta Terra tem um limite e não “aguenta” uma exploração irracional como acontece com os atuais sistemas econômicos. Este limite é denominado “ponto do não retorno”.
A economia circular, da mesma forma que a economia solidária e a agroecologia, combatem essas distorções dos atuais sistemas produtivos e de consumo. Esses foram os fundamentos dos ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), principalmente o número 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis, buscando tornar as cidades seguras e sustentáveis, em que a questão da geração, tratamento e gestão dos resíduos sólidos é uma dimensão super importante, e também o ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis, buscando garantir padrões de consumo e produção sustentáveis, principalmente ao estimular uma redução do consumismo e do desperdício, que são os fatores determinantes na produção de lixo e, também, uma ênfase na economia circular.
A economia circular, além de reaproveitar o que é descartado pelas empresas e pelas famílias, transformando “lixo” em matéria-prima para novos produtos, também estimula uma mudança dos hábitos de consumo e estilo de vida perdulários e do desperdício.
Anualmente o mundo perde em torno de 200 bilhões de euros, ou R$ 1,2 trilhão, por não reciclar e reaproveitar produtos e materiais que podem ser reciclados, e no Brasil, conforme matéria do site Sustentabilidade Brasil de 12/08/2024, este “prejuízo”, por deixar de reciclar, é de R$ 120,0 bilhões anualmente, um volume superior, quase o dobro do destinado, por exemplo, para a agricultura familiar pelo Governo Federal em 2024, que foi de R$ 64,9 bilhões.
Todo este movimento decorre da gravidade da situação do “lixo”, resíduos sólidos no mundo, em que os padrões de consumo, principalmente nos países desenvolvidos, estão colocando em risco a vida do e no planeta.
Só para termos uma ideia, em 1970, a geração de lixo foi de 0,64 bilhão de tonelada (ou seja, “apenas” 640 milhões de toneladas/ano), passou para dois bilhões de toneladas em 2020, com previsão de chegar a 3,8 bilhões de toneladas em 2050, ou seja, um crescimento de 212,5% entre 1970 e 2020, e 90% entre 2020 e 2050.
Entre 1970 e 2050, ou seja, em menos de um século, o aumento do volume da geração/produção de lixo deverá ser de 493,75%. Neste mesmo período, o crescimento da população mundial foi de “apenas” 164,9%, ou seja, menos da metade do aumento da geração de lixo.
Em termos de produção de lixo per capita ao ano, também podemos observar este crescimento “exponencial”. Em 1970 cada habitante do planeta, em média, produzia 172 kg, ou seja, 0,47 kg (menos de meio quilo por dia), passou para 256 kg ao ano em 2020 (0,70 kg/dia) e a previsão é de que em 2050 a produção per capita ao ano seja de 388 kg, um pouco mais de 1,06 kg/dia, um crescimento de 225,5% entre 1970 e 2050.
No entanto, esses indicadores representam uma “média” mundial e não refletem a diferença quanto à produção de lixo entre países desenvolvidos, principalmente da Europa, América do Norte e alguns países asiáticos, e países de outros continentes, de menor renda per capita e de PIB nacional, como na África, a maior parte da Ásia e América Latina e Caribe.
Os dez países que mais produzem lixo são os seguintes: Estados Unidos, que lideram em volume total e lixo plástico; China, que é o maior produtor de lixo plástico e eletrônico; Índia, que ostenta um alto volume devido à população, a maior do mundo atualmente; Brasil, que é o 4º maior produtor mundial de lixo em geral e em lixo plástico em particular, apesar de ser a 10ª maior economia do planeta; e depois vêm a Indonésia, a Rússia, a Alemanha, o Reino Unido, o Japão, que também é um dos líderes mundiais na produção de plásticos, e a Arábia Saudita, que também tem uma grande produção de lixo e de resinas plásticas.
Os dez países que mais produzem lixo são responsáveis por mais de 70% de todo o lixo gerado no mundo em 2025, com média de mais de 1,3 kg per capita/dia, bem acima da média mundial, demonstrando que, da mesma forma que são os maiores poluidores em geral, também são os maiores geradores de lixo, principalmente lixo plástico e, mais recentemente, lixo eletrônico.
Apesar da gravidade da situação do lixo na grande maioria dos países, a presença da economia circular e os índices médios de reciclagem são bastante variáveis. Por exemplo, a Europa Ocidental apresenta um índice de 56% de reciclagem; a América do Norte (que inclui Canadá, Estados Unidos e México) a reciclagem fica em apenas 37%; a América do Sul recicla apenas 6% do lixo produzido; e o Brasil, apesar de ser o quarto maior produtor de lixo, só recicla 4%, bem abaixo da média dos países desenvolvidos e até mesmo da média mundial de reciclagem, que em 2025 foi de 6,9%. Isto demonstra que ainda estamos muito aquém de uma gestão correta e recomendável dos resíduos sólidos, principalmente de plásticos.
De acordo com dados recentes do Ministério das Cidades (SINISA, 2024), apenas 1.300 cidades, ou seja, 36,7% dos municípios brasileiros, tinham coleta seletiva e reciclagem. Em termos de população, apenas 22% dos habitantes do país são atendidos por reciclagem e coleta seletiva.
O panorama é bem variável e distinto entre as regiões. Na Região Norte, apenas 23 cidades têm reciclagem, ou seja, 5,9% das cidades e 4,8% da população; na região Nordeste, 124 cidades, apenas 9,4% dos municípios e 4,4% da população; já na Região Sul, 516 cidades, 46,1% dos municípios têm reciclagem; na Região Sudeste, são 543 cidades, 36% dos municípios e 44,6% da população; finalmente, na Região Centro-Oeste, apenas 94 cidades têm reciclagem, o que representa 22,3% dos municípios e 45,5% da população.
Mais da metade das cidades com 100 mil habitantes ou mais, incluindo diversas capitais, como Manaus, Belém, Cuiabá, Porto Velho e outras, ainda continuam destinando o lixo para lixões a céu aberto ou incinerando, apesar da lei que regulamenta a questão dos resíduos sólidos ter sido aprovada em 2010.
O marco dos resíduos sólidos no Brasil, conhecido como Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), foi aprovado e sancionado em 02 de agosto de 2010. Instituída pela Lei 12.305, essa legislação define diretrizes, obrigações e metas para a gestão de lixo no país, incluindo a responsabilidade compartilhada.
Diante desses números e indicadores, percebemos a importância de um Dia Internacional do Lixo Zero, para possibilitar uma reflexão mais crítica e construtiva em relação a esta questão e, ao mesmo tempo, pressionar os governantes para que definam e implementem políticas públicas voltadas para os problemas e desafios socioambientais, inclusive em relação aos resíduos sólidos/lixo, envolvendo poderes públicos, empresariado, as diversas organizações não governamentais e a população em geral.
De leis, regulamentos, estudos e discursos sobre questões ambientais e em relação ao lixo, o Brasil e diversos países já estão “cheios”; faltam, na verdade, ações concretas, pois somente as ações transformam a realidade!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram: @profjuacy
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Juacy da Silva*
“Conhecereis a verdade e ela (a verdade) vos libertará”. Evangelho de São João 8:32.
“Recordemos sempre: a espiritualidade precisa desse olhar para o qual o estudo da teologia, da filosofia e de outras disciplinas contribui de modo especial. Tornamo-nos hoje especialistas em detalhes infinitesimais da realidade, mas incapazes de alcançar uma visão de conjunto, uma visão que una as coisas por meio de um significado maior e mais profundo. A experiência cristã, ao contrário, quer nos ensinar a olhar a vida e a realidade com um olhar integrador, capaz de abarcar tudo e rejeitar qualquer lógica parcial”. Papa Leão XIV, Encontro com Alunos e Dirigentes de Universidades Católicas, Vaticano, 28/10/2025.
O Papa Leão XIV enfatiza também o papel central dos leigos e leigas, fundamentado no "sacerdócio batismal", destacando a importância da sua formação e conhecimento para a missão da Igreja. Ele incentiva a qualificação dos fiéis, especialmente na liturgia, e o engajamento na doutrina social da Igreja e na transformação do mundo.
Pontos-chave sobre o conhecimento para leigos segundo Leão XIV:
Sacerdócio Batismal: Todos os batizados têm um papel ativo na Igreja, não sendo apenas espectadores, mas continuadores da missão e da doutrina social da Igreja.
Formação Litúrgica: Leão XIV encorajou institutos, como o Pontifício Instituto Litúrgico, a qualificar ministros e fiéis, pois a liturgia forma o coração da Igreja.
Conscientização Social: O conhecimento deve ser voltado para a ação, incluindo o cuidado com a criação, desenvolvimento sustentável (ecologia integral) e a justiça social.
Diálogo e Missão: O Papa incentiva os leigos a serem construtores de pontes por meio do diálogo e da vivência da fé no cotidiano.
A ênfase de Leão XIV está em uma Igreja sinodal, profética, onde a formação dos leigos é essencial para a evangelização e a presença ativa na sociedade.
O conhecimento é muito importante em todas as atividades humanas e não é diferente quando se trata da formação de agentes de todas as pastorais, movimentos e organismos da Igreja, leigos e leigas engajados em uma caminhada sociotransformadora.
O papel do laicato na Igreja, principalmente a partir do Concílio Vaticano II, tem sido cada vez mais importante, principalmente na dimensão sociotransformadora, capacitando os e as agentes de pastoral nas três dimensões fundamentais de todas as ações pastorais: a espiritualidade libertadora; as ações sociotransformadoras, propriamente ditas; e a mobilização profética, tendo em vista que, além de sermos cristãos, católicos ou de outras religiões, também somos cidadãos e cidadãs e contribuintes e, como tais, temos o direito e o dever de propugnarmos por políticas públicas voltadas para um melhor cuidado da Casa Comum, a ecologia integral e também os princípios da dignidade humana e da justiça social.
Diante disso, elaboramos, pela segunda vez, uma relação de sugestões de leitura, enfim, uma bibliografia, para que sirva como fundamento de nossas ações e também no aprofundamento individual e coletivo, facilitando, assim, a caminhada da Pastoral da Ecologia Integral, tanto em nossa Arquidiocese de Cuiabá quanto em outras dioceses, tanto onde a PEI – Pastoral da Ecologia Integral esteja organizada quanto em outras arquidioceses, dioceses, prelazias e paróquias onde a nossa pastoral ainda não esteja presente, mas que, imaginamos, deva também inserir-se na dinâmica da vida da Igreja.
Finalizando, gostaria de relembrar as palavras do nosso saudoso Papa Francisco quando disse: “A Igreja precisa dos leigos e leigas, por isso é importante formar leigos para que eles desempenhem seu papel com seriedade e competência na Igreja, além de também promoverem ações pastorais”. Assembleia Plenária do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Vaticano, 08/02/2024.
Atenciosamente, um grande e afetuoso abraço,
Cuiabá, 24 de março de 2026
Prof. Juacy da Silva, Articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. e WhatsApp: 65 9 9272-0052.
Bibliografia sugerida para uma melhor formação dos agentes da Pastoral da Ecologia Integral – PEI e de outras pastorais sociais, movimentos e organismos da Igreja.
Segue-se o elenco das referências bibliográficas sugeridas:
- Encíclica Laudato Si, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2015.
- Exortação Apostólica Querida Amazônia, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2020.
- Exortação Apostólica Laudate Deum, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2023.
- Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para a Ecologia Integral – Instrumentum Laboris, Edições Paulinas, 2019.
- Ecologia Integral: o sagrado e o bem viver dos povos, Caderno 5 – 6ª Semana Social Brasileira, CNBB.
- Mutirão por Terra, Teto e Trabalho: Território, direitos sociais e cidadania, Caderno 4 – 6ª Semana Social Brasileira – CNBB.
- Todos somos discípulos e missionários – Papa Francisco e o Laicato, Edições Paulinas, 2017.
- Ecologia: Vida ou morte?, J. B. Libanio, Paulus Editora, 2010.
- Cuidar da Casa Comum – Chaves de leitura teológicas e pastorais Laudato Si, Afonso Murad e Sinivaldo Silva Tavares (org.), Edições Paulinas, 2016.
- Ecologia e Decolonialidade: implicações mútuas – Senivaldo Tavares, Edições Paulinas, 2022.
- Evangelização nas Cidades: Raízes na Teologia do povo, Dom Edson Oriolo, Paulus Editora, 2019.
- O Solo Urbano e a urgência da Paz, Doc. 109, Estudos da CNBB, 2016.
- Doutrina Social da Igreja: Economia, trabalho e política – Teologia do Papa Francisco, Elio Estanislau Gasda, Edições Paulinas, 2018.
- O Evangelho Social – Manual Básico da Doutrina Social da Igreja, Elvis Rezende Messias e Dom Pedro Cunha Cruz, Paulus Editora, 2020.
- Doutrina Social da Igreja – Outro Mundo possível, Altierez dos Santos, Luiz Alexandre Solano Rossi, Paulus Editora, 2024.
- Por uma Igreja Sinodal – Comunhão, Participação e Missão. Papa Francisco, XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Edições Paulinas e Paulus Editora, 2025.
- Direitos Humanos e Doutrina Social da Igreja – Da Globalização da indiferença à Globalização da Solidariedade, Rosana Manzini e Ronaldo Zacharias (orgs.), Paulus Editora, 2022.
- Doutrina Social da Igreja – Um Guia Prático para Estudo, Pe. Antonio Aparecido Alves, Editora Vozes, 2014.
- Magistério e Doutrina Social da Igreja – Continuidade e desafios, Ronaldo Zacharias e Rosana Manzini, Edições Paulinas, 2016.
- Catequese e Ecologia – Espiritualidade ecológica e catequese responsável, Luiz Alexandre Solano Rossi e Érica Daiane Mauri, Paulus Editora, 2019.
- Catequese Socioambiental – Itinerário de formação com catequistas para a consciência do cuidado com a Casa Comum, Ivanilde Sampaio et al., Paulus Editora, 2025.
- Laudato Si no pensamento social da Igreja: da ecologia ambiental à ecologia integral, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2018.
- Casa Comum ou globalização da indiferença? Ensaios sobre ecologia integral, fraternidade, política e paz, Paulo César Nodari, Paulus Editora, 2022.
- Ecologia e Democracia – Múltiplos olhares, Afonso Murad et al. (orgs.), Edições Paulinas, 2022.
- Pensamento Ecológico – Reflexões críticas sobre meio ambiente, desenvolvimento sustentável e responsabilidade social, Vilmar S. Demamam Berna, Edições Paulinas, 2005.
- Ecos Ecológicos – Uma jornada em defesa do meio ambiente, Luizinho Bastos, Edições Paulinas, 2007.
- Sustentar a Vida, Renato Ribeiro, Edições Paulinas, 2011.
- Nosso Planeta, Nossa Vida – Ecologia e Teologia, Luiz Carlos Susin e Joe Marçal G. dos Santos (orgs.), Edições Paulinas, 2011.
- Realmar a Economia – A economia de Francisco e Clara, Eduardo Brasileiro (org.), Paulus Editora, 2023.
- O Método Ver–Julgar–Agir: Da ação católica à Teologia da Libertação, Agenor Brighenti, Editora Vozes, 2022.
- A Igreja em transformação: razões atuais e perspectivas futuras, Mario de França Miranda, Edições Paulinas, 2019.
- Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas, Cesar Kuzma et al. (orgs.), Edições Paulinas, 2022.
- Igreja dos Pobres – Teologia do Papa Francisco, Francisco de Aquino Júnior, Edições Paulinas, 2018.
- Igreja Sinodal – Teologia do Papa Francisco, Mário de França Miranda, Edições Paulinas, 2018.
- Igreja em Diálogo – Teologia do Papa Francisco, Elias Wolff, Edições Paulinas, 2018.
- Pobres para os Pobres: A missão da Igreja, Gerhard Ludwig Muller, Edições Paulinas, 2014.
- Ao Lado dos Pobres – Teologia da Libertação, Gerhard Ludwig Muller e Gustavo Gutiérrez, Edições Paulinas, 2014.
- Leigos e Leigas: força e esperança da Igreja no mundo, César Kuzma, Paulus Editora, 2009.
- Organizações populares – Teologia do Papa Francisco, Francisco de Aquino Júnior, Edições Paulinas, 2009.
- Encíclica Dilexit Nos, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2025.
- Exortação Apostólica Dilexi Te, Papa Leão XIV, Paulus Editora, 2025.
- Utopias do Vaticano II: Que sociedade queremos?, União Marista do Brasil, Edições Paulinas, 2013.
- Em que o Vaticano II mudou na Igreja, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2016.
- Revisitar o Concílio Vaticano II, Dom Demétrio Valentin, Edições Paulinas, 2011.
- O Laicato na Igreja e no mundo: um gigante adormecido e domesticado, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2019.
- Laicato: Vocação e Missão, Dom Orlando Brandes, Paulus Editora, 2018.
- Encíclica Fratelli Tutti, Papa Francisco, Edições Paulinas, 2020.
- IV Encontro da Igreja na Amazônia Legal – 50 anos do Encontro de Santarém (1972–2022), Edições CNBB, 2022.
- A desafiante proposta de Aparecida, Agenor Brighenti, Edições Paulinas, 2008.
- Pastoral da Ecologia Integral: Por uma Igreja sustentável, comprometida com a defesa da vida e da Casa Comum, Pe. José Carlos Pereira e Rodrigo Cerqueira do Nascimento Borba, Edições CNBB, 2016.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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ÁGUAS E FLORESTAS 2026 - Juacy da Silva
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Juacy da Silva*
Ao publicar a Encíclica Laudato Si, em maio de 2015, o Papa Francisco, um verdadeiro apóstolo da Ecologia Integral, enfatizava que “tudo está estreitamente interligado no mundo”, em nossa Casa Comum, o Planeta Terra.
Neste final de semana celebramos dois momentos significativos que é o DIA INTERNACIONAL DAS FLORESTAS, criado por Resolução da Assembleia Geral da ONU em 28 de novembro de 2013, e celebrado anualmente, desde então, em 21 de março, com o objetivo de despertar a consciência das pessoas e podermos refletir sobre a importância das florestas no equilíbrio socioambiental, principalmente em relação ao clima e, também, a estreita relação que existe entre as florestas e a questão da água, duas dimensões fundamentais para o bem-estar e a qualidade de vida das atuais e futuras gerações.
Sem florestas, os rios secam, as nascentes morrem, as pessoas e animais não sobrevivem e, o pior, o regime de chuvas é alterado, provocando secas intensas em alguns lugares e chuvas torrenciais em outros, ou seja, o equilíbrio ambiental cede lugar aos desastres “naturais”, com impactos devastadores, como temos observado com maior frequência década após década, ano após ano no Brasil e em tantos outros países.
As árvores e as florestas desempenham um grande papel também como mecanismo de sequestro dos gases de efeito estufa que são produzidos por diversos fatores, como a queima de combustíveis fósseis, estocando no solo e subsolo esses gases.
Com a destruição das florestas, seja pelo desmatamento ou por queimadas, inclusive as de natureza criminosa, além de perderem esta capacidade/função de sequestrar os gases de efeito estufa, também bilhões de toneladas desses gases que foram sequestrados e “armazenados” embaixo das florestas são liberados, contribuindo ainda mais para o aquecimento global e as temíveis mudanças climáticas.
Por isso é que o Brasil, apesar de ter uma matriz energética considerada razoavelmente limpa, pelo uso de fonte hídrica, devido à destruição de suas florestas, principalmente dos biomas Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Caatinga e, mais ainda, a Amazônia, ocupa um lugar de destaque nas emissões de gases de efeito estufa.
No Brasil, ao longo dos últimos 40 anos, entre 1985 e 2025, foram desmatados/destruídos mais de 120 milhões de hectares de florestas nativas. Demorou e ainda está demorando muito para que nossos governantes, nossos empresários, principalmente do setor agropecuário, percebessem que o desmatamento, as queimadas e a degradação dos solos, erosão, têm um impacto profundo não apenas na economia, mas também no equilíbrio ambiental e na saúde humana.
De acordo com matéria divulgada pela Agência Brasil, utilizando dados de diversas fontes, inclusive do MapBiomas, em 05 de julho de 2024, a estimativa em relação ao tamanho das áreas degradadas em nosso país até aquele ano variava entre 60 milhões de hectares e 135 milhões de hectares, ou seja, uma média de aproximadamente 100 milhões de hectares de áreas outrora ocupadas por florestas e que atualmente não têm mais fertilidade e causam impactos extremamente negativos tanto ao meio ambiente quanto à economia nacional.
Outras fontes destacam que o tamanho das áreas de florestas que hoje são terras degradadas pode ser superior a 140 milhões de hectares, área maior do que a ocupada tanto por agricultura quanto por pastagens.
O desmatamento, queimadas, áreas degradadas causam um grande impacto não apenas no Brasil, mas na quase totalidade dos países, principalmente aqueles que têm florestas tropicais, como a Amazônia, as florestas do Congo e também de diversos países asiáticos.
Nas décadas de 1980 até o ano 2000, a média anual de destruição das florestas ao redor do mundo era de 17,6 milhões de hectares, ou seja, em 20 anos o mundo “perdeu” em torno de 352 milhões de hectares de florestas nativas.
Mesmo que este processo de destruição tenha sido “reduzido bastante”, a destruição anual das florestas mundiais entre 2000 e 2015 foi de 11 milhões de hectares, “caindo” para 10,9 milhões de hectares entre 2015 e 2025. Isto significa que nos últimos 25 anos mais de 273 milhões de hectares foram desmatados mundo afora.
O impacto deste processo de destruição de florestas tem afetado todos os países, tanto no aspecto da degradação dos solos, na destruição das nascentes, na evapotranspiração das florestas que alimentam os chamados “rios voadores” e no regime de chuvas, como já mencionamos, ou seja, sem florestas as fontes de água doce e inclusive as águas subterrâneas, como os aquíferos, são afetadas drasticamente, contribuindo para a crise hídrica já presente em mais de uma centena de países, inclusive no Brasil, que tanto se ufana de ter a “maior reserva” de água doce do planeta, mas que pouco tem feito para reduzir os impactos da crise hídrica nas regiões mais populosas do país, como as regiões metropolitanas de São Paulo e outras mais, que já enfrentam sérios problemas de abastecimento urbano.
De forma semelhante, a questão da água ou das águas tem sido objeto de reflexão, debate e preocupação desde a realização da 1ª Conferência Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em Estocolmo em 1972.
Todavia, só na Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992, a chamada ECO 92, quando foi aprovada a Carta da Terra, é que, por resolução da ONU, foi criado o Dia Mundial da Água, a ser celebrado anualmente em 22 de março. A primeira celebração ocorreu em 1993 e, desde então, a cada ano um tema é escolhido para orientar essas celebrações.
Em 2025 o tema foi “Preservação das geleiras” e neste ano de 2026 o tema é “Água e Gênero”, com destaque para a luta por justiça climática e justiça de gênero, tendo em vista o papel da mulher em relação à questão da água, por ser a mulher quem mais de perto assume os cuidados com a moradia.
Tendo em vista tanto o desmatamento quanto as queimadas e a degradação dos solos que afetam profundamente a questão da água, ainda temos mais outro fator que também afeta tanto os sistemas de abastecimento quanto a qualidade da água, que é o acelerado processo de urbanização, que aumenta o volume de resíduos sólidos/lixo e a falta/precariedade do sistema de esgotamento sanitário, contribuindo para a degradação da qualidade da água a ser utilizada no abastecimento urbano.
Quando refletimos sobre a questão da água, não podemos deixar de mencionar também o impacto causado pelos agrotóxicos, pelo mercúrio e pelos rejeitos de garimpos ilegais e mineração em todos os biomas, principalmente no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia, afetando a qualidade de todas as fontes de água.
Apesar do crescimento também acelerado da economia mundial (PIB) ao longo dos últimos 50 anos, no mundo atualmente mais de 2,1 bilhões de pessoas (25% da população mundial) não tinham acesso à água potável e mais de 3,4 bilhões de pessoas não tinham acesso a saneamento básico (Fonte Agência France Presse, 26 agosto 2025).
Em alguns países da África, da América Latina e na Ásia mais de 50% da população desses países não tem acesso à água potável e mais de 90% não tem acesso ao saneamento básico, afetando profundamente a qualidade de vida dessas populações.
Mesmo o Brasil, que não é um país pobre, estando entre as 8, 10 ou 12 maiores economias do mundo, mas cujos governantes têm considerado moradia, água, saneamento básico e meio ambiente (florestas, por exemplo) apenas como mercadorias, sujeitos apenas às leis do mercado e não como direitos humanos fundamentais à dignidade das pessoas, também ostenta índices vergonhosos nesses aspectos.
Conforme matéria amplamente divulgada nesta semana (18 março de 2026), quase 90 milhões de brasileiros não possuem acesso a redes de coleta de esgoto. Isso representa mais de 40% da população. O dado faz parte do Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil.
Cabe ressaltar que percentualmente esses índices são muito mais precários nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para as cidades maiores, o que nos permite deduzir que a situação nas demais cidades (menores) e na área rural, o Brasil ostente índices e indicadores semelhantes a diversos países extremamente pobres da América Latina, Ásia e África.
Em relação à água tratada, potável e de qualidade, a situação no Brasil ainda deixa muito a desejar, tendo em vista que mais de 32 milhões de pessoas continuam sem acesso à água tratada no meio urbano e dificilmente este “déficit” será solucionado a curto e médio prazo, tendo em vista tanto o crescimento das cidades quanto o uso da água para atividades econômicas rurais e urbanas pelos respectivos setores econômicos/produtivos, que demandam muito mais água do que o abastecimento para fins de consumo humano/familiar.
A falta de acesso à água potável, tratada, tem causado a morte de 1,4 milhão de pessoas todos os anos, ao redor do mundo, ou seja, desde a criação do Dia Mundial da Água em 1992, em torno de 35 milhões de pessoas já morreram de diarreia, cólera, febre tifoide e outras doenças relacionadas com a questão da água, tragédia muito maior e muito pior do que a recente pandemia de COVID-19, que tanto sofrimento e vidas ceifou.
De forma semelhante, também o impacto da falta de saneamento na vida e na saúde das pessoas tem contribuído para milhões de mortes desnecessárias e “evitáveis” no Brasil e no mundo.
Em 2024, no Brasil, por exemplo, mais de 340 mil pessoas foram hospitalizadas em decorrência de problemas relacionados à falta de saneamento, à falta de água tratada, causando um impacto significativo na saúde pública e também para o orçamento das famílias.
Tanto em relação ao desmatamento quanto às queimadas, à destruição das nascentes, à erosão, considerando o ritmo atual da implementação de políticas públicas nesta área, o Brasil ainda vai precisar de várias décadas para ostentar índices compatíveis com os cuidados necessários, fruto inclusive de acordos internacionais firmados pelo nosso país, como no Acordo de Paris.
Em relação às questões da água e do saneamento básico, a situação também não é nada animadora. Alguns estudos indicam que, se apenas os atuais níveis de investimento nessas áreas forem mantidos como atualmente acontece, ainda levaremos pelo menos mais 3 ou 4 décadas para universalizar o acesso à água tratada e ao saneamento básico. Até lá, centenas de milhares de pessoas, principalmente crianças e idosos, vão morrer de causas plenamente evitáveis, ou seja, mortes prematuras que poderiam ser eliminadas em nosso país e também ao redor do mundo.
Concluindo, quem mais sofre com o desmatamento, com as queimadas, com a degradação socioambiental, com a falta de acesso ao saneamento básico e à água potável/tratada e com os “desastres” ecológicos são os pobres, excluídos, oprimidos e injustiçados, como sempre enfatizou o Papa Francisco e também tem enfatizado o Papa Leão XIV, quando afirmam que “o clamor/grito da terra é também o clamor dos pobres e excluídos”.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
A cada dia presenciamos o aumento de “desastres naturais”, como mais furacões, tornados, chuvas torrenciais, maremotos, secas prolongadas, ondas de calor extremo e também de frio extremo, impactando milhões e bilhões de pessoas ao redor do mundo, com enormes prejuízos materiais, sofrimento e mortes que poderiam ser evitadas, se cuidássemos melhor do planeta.
Instituições nacionais e internacionais têm produzido estudos e pesquisas com dados e informações científicas sobre o aquecimento global, sobre as mudanças climáticas que dentro de poucos anos poderão superar a meta aprovada no Acordo de Paris, de 1,5º graus acima da média histórica, quando do início do período da industrialização, e até mesmo os temíveis 2,0º acima daquele limite, considerado o chamado “ponto do não retorno”, que poderá inviabilizar todas as formas de vida no planeta, principalmente a vida humana, afetando vários bilhões de pessoas.
O despertar da conscientização mundial sobre as mudanças climáticas é o único caminho a seguir, é uma urgência crítica, focada não apenas em mitigar os impactos de gases de efeito estufa (GEE): petróleo, gás natural e carvão, componentes principais da matriz energética e elétrica da maior parte dos países, gerados por atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento, o aumento da produção de lixo, a elevação da temperatura média das águas dos oceanos e, finalmente, a tão temível crise climática que já está entre nós.
Por isso foi criado o DIA NACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS, a ser celebrado no dia 16 de março no Brasil, inspirado no Acordo de Paris e nos ODS, aprovados em 2015 pela ONU.
O Dia Nacional de Conscientização sobre as mudanças climáticas foi instituído pela Lei Federal 12.533/2011, durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, em uma referência direta ao Protocolo de Kyoto, aprovado durante a COP 3, em 1997, no Japão, ou seja, há quase 30 anos, sendo um dos primeiros tratados internacionais que demonstrou a urgente necessidade da redução das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis diretos pelo aumento do aquecimento global e pela crise climática e seus impactos.
A ONU também “celebra” o Dia Mundial da Conscientização sobre as mudanças climáticas por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente em 05 de junho e também em 23 de março, Dia Mundial da Meteorologia, e através do estímulo à implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, principalmente o ODS 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima, aprovados também em 2015 e que fazem parte da Agenda 2030, tendo como objetivo combater as alterações climáticas e seus impactos e como foco a resiliência, a adaptação e a redução das emissões desses gases de efeito estufa e, também, uma mudança radical, uma transformação profunda em nossos hábitos e estilos de vida, enfim, mudanças essas que contribuem para o surgimento de um novo modelo de economia, como a Economia de Francisco e Clara.
Diante disso, os cristãos em geral e a Igreja Católica em particular, dando seguimento às exortações apostólicas e à Encíclica Laudato Si, publicada também em 2015 pelo Papa Francisco, que oferecem subsídios e novas bases de conhecimento e inspiração, através da Espiritualidade Ecológica, e, assim, contribuirmos para este despertar da consciência ecológica, individual e, também ou principalmente, coletiva, comunitária.
Por isso, cuidar da Casa Comum, do planeta e lutar pela Ecologia Integral não é algo opcional aos cristãos, principalmente aos católicos; para tanto, precisamos mudar radicalmente nossos hábitos que impactam negativamente o meio ambiente e substituirmos a omissão (que é um pecado pela doutrina católica) pela conscientização e por ações sociotransformadoras.
Como bem disse e escreveu o Papa Francisco: “O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos (governantes, empresários, consumidores, trabalhadores, enfim, a população em geral)”.
Além disso, ele (Papa Francisco, que também tem sido seguido pelo Papa Leão XIV) insistia que “A Igreja, com sua ação, como por exemplo através da Pastoral da Ecologia Integral, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza, mas também proteger o ser humano de sua própria destruição, pois, afinal, ‘o clamor/grito da terra é também o clamor, gemido e grito dos pobres, excluídos e injustiçados’, pois são esses as maiores vítimas das mudanças climáticas e das tragédias ambientais”.
A partir do Magistério do Papa Francisco, a Ecologia Integral passou a fazer parte da Doutrina Social da Igreja e, neste contexto, está umbilicalmente ligada à opção preferencial pelos pobres que a Igreja tem feito ao longo de milênios, mas de uma forma mais enfática e clara nas conclusões do Concílio Vaticano II, que precisa ser resgatado por fiéis e também pela hierarquia eclesiástica.
Diante disso, podemos afirmar com certeza que você, como cristão, católico, cidadão, contribuinte e também pertencente a outras religiões, pode fazer a diferença, mudando seus hábitos de consumismo, de desperdício e de destruição da natureza, que contribuem para a degradação do meio ambiente e fazem parte da CRISE CLIMÁTICA, que a cada ano está se tornando mais grave e mais recorrente, com impactos cada vez mais terríveis.
Este despertar da consciência ecológica também abrange o que denominamos de mobilização profética e a luta por políticas públicas que cuidem melhor do meio ambiente e de nosso sofrido planeta.
Por isso, diga NÃO ao consumismo, ao desperdício, à geração de mais lixo, aos agrotóxicos, ao desmatamento, às queimadas, às invasões dos territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos, à destruição da biodiversidade, à poluição das águas e do ar, à degradação promovida pela mineração e garimpos ilegais e à maior causa do aquecimento global, que são os combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão). Isto tem um nome: A LUTA PELA SUSTENTABILIDADE.
Tudo isso está ao seu alcance, basta despertar a sua consciência ambiental, ecológica e juntar-se a outras pessoas de sua comunidade, sua cidade, sua paróquia, sua Igreja e aí, juntos, podemos fazer uma grande diferença.
Além disso, precisamos nos unir para uma grande MOBILIZAÇÃO PROFÉTICA PLANETÁRIA e lutar contra os modelos econômicos que não respeitam a natureza, nem os trabalhadores e muito menos os consumidores e as futuras gerações.
Esses modelos foram condenados pelo Papa Francisco, que os denominava de Economia da Morte, que precisam ser substituídos pela ECONOMIA DA VIDA, fundada na Economia Solidária, na agroecologia e na produção orgânica, garantindo uma qualidade de vida digna para as atuais gerações e também para as gerações futuras.
A conscientização sobre os riscos e impactos das mudanças climáticas é o primeiro passo para as ações sociotransformadoras e, neste contexto, cabe um destaque ao papel da Educação Ambiental, Educação Ecológica Libertadora, tanto na escola, em todos os níveis, da educação infantil até a universidade, bem como componente dos movimentos sociais, populares, ONGs e, também, nas igrejas.
Vale a pena destacar qual deveria ou deve ser o papel da educação ambiental libertadora para o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si: “A educação ambiental (libertadora) deveria predispor-nos a darmos um salto para o mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo”.
Assim, uma educação ambiental libertadora, juntamente com ações sociotransformadoras, abre caminho para a plenitude da sustentabilidade e novas formas de organização da sociedade e dos sistemas econômicos.
Isto é o que podemos denominar de uma verdadeira cidadania ecológica, onde existe um profundo respeito pelo meio ambiente, pelas obras da criação e também o respeito à dignidade dos trabalhadores, dos empresários e consumidores, com os olhos postos nas futuras gerações, ao respondermos à indagação: “que planeta queremos ou vamos deixar para as próximas e futuras gerações?”
Pense nisso. Esta deve ser a essência da mensagem neste Dia Nacional e Mundial de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, neste 16 de março de 2026.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
MARÇO CHEGOU: É TEMPO DE REFLEXÃO E LUTA - Juacy da Silva e Priscilla Alyne Sumaio
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Juacy da Silva* e Priscilla Alyne Sumaio**
O mês de março se aproxima e, com ele, uma data que ultrapassa simbolismos superficiais e exige reflexão profunda: 08 de março, o Dia Internacional da Mulher.
Não se trata de um dia para homenagens vazias, flores ou discursos protocolares. Trata-se de um marco histórico de luta, resistência e reivindicação por direitos, dignidade e vida.
O Dia Internacional da Mulher nasce das mobilizações de trabalhadoras que, no início do século XX, enfrentaram jornadas exaustivas, salários injustos e condições degradantes de trabalho. Desde então, tornou-se símbolo mundial da busca por igualdade de gênero e dignidade humana.
Apesar de avanços jurídicos e institucionais ao longo das últimas décadas, a realidade demonstra que a igualdade formal ainda não se converteu em igualdade concreta. As mulheres continuam enfrentando violência física, psicológica, sexual, patrimonial e simbólica. O feminicídio, os estupros, o assédio moral e sexual e a desigualdade salarial revelam que a cultura patriarcal permanece estruturando relações sociais, políticas, econômicas e culturais.
A filósofa Simone de Beauvoir já alertava que a condição feminina não é determinada biologicamente, mas construída socialmente. Ao afirmar que “não se nasce mulher, torna-se”, evidencia-se que os papéis impostos às mulheres são frutos de estruturas históricas que limitam sua autonomia e sua plena participação social.
De modo semelhante, a pensadora Bell Hooks ampliou o debate ao afirmar que o feminismo não é uma guerra entre homens e mulheres, mas um movimento para eliminar o sexismo, o machismo e todas as formas de opressão. Isso significa reconhecer que as desigualdades atingem mulheres de maneira diversa, mais profundas, atravessadas por fatores como raça, classe social, território e acesso à educação.
Os números são alarmantes. Em 2024, mais de 840 milhões de mulheres no mundo relataram já ter sofrido algum tipo de violência ao longo da vida, segundo dados divulgados pela ONU. Mais de 50 mil mulheres foram vítimas de feminicídio no mesmo ano. No Brasil, aproximadamente 3 mil mulheres foram assassinadas por parceiros ou ex-parceiros.
Os dados sobre estupro também revelam um cenário preocupante. Em 2024, o Brasil registrou cerca de 80 mil casos de estupro. Nos últimos dez anos, quase um milhão de mulheres e meninas foram vítimas desse crime no país. Em escala global, os registros apontam aproximadamente 739 mil casos de estupro apenas em 2024, totalizando quase 7,5 milhões nos últimos dez anos.
Esses números não representam estatísticas frias. Representam vidas interrompidas, histórias silenciadas e direitos negados, enfim, um conjunto imenso de muita violência.
O tema definido pela ONU Mulheres para 2026 — “Direitos, Justiça e Ação para todas as mulheres e meninas” — reforça que não basta reconhecer a desigualdade; é preciso enfrentá-la com políticas públicas eficazes, investimentos em educação, proteção real às vítimas e responsabilização dos agressores.
É igualmente urgente combater a impunidade, que enfraquece a confiança nas instituições e perpetua ciclos de violência. A existência de leis como a Lei Maria da Penha representa um avanço importante, mas sua efetividade depende de aplicação rigorosa, estrutura adequada e compromisso político.
O 08 de março, portanto, não é apenas uma data comemorativa. É um chamado à ação coletiva. A luta por igualdade de gênero não deve ser responsabilidade exclusiva das mulheres. Trata-se de um compromisso ético e civilizatório que envolve toda a sociedade, especialmente aqueles que defendem um país mais justo, sustentável e democrático.
Refletir é necessário. Lutar é preciso e indispensável. Só assim, teremos um mundo melhor com igualdade plena de gênero!
SOBRE OS AUTORES
*Juacy da Silva – Professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista e articulador da Pastoral da Ecologia Integral da Região Centro-Oeste.
**Priscilla Alyne Sumaio – Professora doutora em Linguística, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG), com atuação nas áreas de Libras, Línguas Indígenas de Sinais e Ensino. Pesquisadora no campo das línguas indígenas de sinais, com trabalhos voltados à documentação, descrição e valorização das línguas e culturas de povos indígenas surdos. Atua na formação de professores, na defesa dos direitos linguísticos e na promoção de uma educação intercultural.
FORMAÇÃO EM ECOLOGIAINTEGRAL E DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA - Juacy da Silva
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JUACY DA SILVA*
Quando falamos em crise ambiental, climática e nas várias formas de degradação ecológica, de acordo com o Papa Francisco, “não existem duas crises separadas, de um lado uma crise ambiental e de outro uma crise social e econômica, mas apenas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza... entendendo que o GRITO DA TERRA É TAMBÉM O GRITO DOS POBRES E EXCLUÍDOS”.
Em sua primeira Exortação Apostólica “Dilexi Te”, o Papa Leão XIV diz, textualmente, que “A condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e econômicos e, sobretudo, a Igreja. No rosto ferido dos pobres, encontramos impresso o sofrimento dos inocentes e, portanto, o próprio sofrimento de Cristo”.
Portanto, nem a Igreja e muito menos os cristãos em geral e os católicos em particular podem se omitir diante da degradação socioambiental do planeta e muito menos diante do sofrimento dos pobres e excluídos.
Formar agentes de pastoral, leigos e leigas é a forma concreta, eficiente e correta de a Igreja, enfim, de os cristãos assumirem o compromisso de defender a ecologia integral, no contexto do cuidado com os pobres e com a natureza, embasados na Doutrina Social da Igreja, através de ações sociotransformadoras, de uma espiritualidade ecológica e de mobilização profética, considerando que em todas as crises ambientais, como as que atualmente estão ocorrendo no Brasil e em diversos países, os pobres e excluídos são sempre as maiores vítimas.
Esses são os objetivos das formações de agentes de pastoral para que, através de ações em cada território eclesial, possam, de fato, ser “sal da terra e luz do mundo”.
A Pastoral da Ecologia Integral da Arquidiocese de Cuiabá vai realizar duas formações em Ecologia Integral e Doutrina Social da Igreja.
A primeira será na Paróquia Nossa Sra. da Guia (Igreja Nossa Sra. do Carmo), no CEPAC, no Centro de Várzea Grande, no dia 22 de março próximo, das 7h30 até as 16h30, para participantes de todas as Paróquias de Várzea Grande, N. Sra. do Livramento, Poconé e Jangada.
A segunda formação será em Cuiabá, no segundo andar da Catedral Senhor Bom Jesus de Cuiabá, no dia 29 de março próximo, das 8h até as 17h30, para participantes das Paróquias de Cuiabá, Nobres, Rosário Oeste, Acorizal, Santo Antônio do Leverger, Barão de Melgaço e Sta. Cruz das Palmeiras.
Cada paróquia, Escolas Católicas, Pastorais, organismos e movimentos da Arquidiocese poderá inscrever entre 3 e 5 participantes que, após essas formações, irão organizar os Núcleos Ecológicos Paroquiais ou de Comunidades Eclesiais.
A programação abordará temas como: História da Pastoral da Ecologia, princípios fundamentais e áreas de atuação da pastoral; síntese da Encíclica Laudato Si’ e Laudate Deum do Papa Francisco; síntese da Doutrina Social da Igreja; síntese da Exortação Apostólica Dilexi Te; Método da Igreja: VER, JULGAR E AGIR.
A metodologia constará de exposições e momentos para reflexão em grupo, diálogo entre os participantes.
Informações pelo WhatsApp: Celso (65) 99287-5592; Juacy (65) 99272-0052; Ágada (65) 99998-2000; João Roberto (65) 99981-9234; Luiz Eduardo (65) 99253-5209 ou nas diversas Paróquias da Arquidiocese de Cuiabá.
Inscrições “online” pelo link:
https://docs.google.com/forms/d/1UfCl8p6CT_S4pVpzBOHM55h70m9nW3wLMSaSEL7nI6I/edit
*Juacy da Silva, professor titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; instagram @profjuacy
JUSTIÇA SOCIAL: ÚNICO CAMINHO PARA UM MUNDO MELHOR - Juacy da Silva e Priscilla Alyne Sumaio
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Juacy da Silva* e Priscilla Alyne Sumaio**
"A justiça social é um direito de todos e todas. Vamos construir um presente e um futuro mais inclusivo e justo." – António Guterres, Secretário-Geral da ONU.
Justiça social não é uma dádiva concedida pelos poderosos, mas o resultado das lutas populares ao longo da história humana. É o princípio que busca garantir equidade, igualdade de direitos e oportunidades, além de uma distribuição justa de recursos, renda, riqueza, trabalho, terra, moradia, saúde e educação para todas as pessoas, independentemente de origem, raça, gênero, classe social, religião, cor da pele ou condição econômica ou social. Ela visa combater as desigualdades, todas as formas de violência e promover a dignidade humana por meio de políticas públicas que garantam a cidadania e a inclusão social, econômica, política e cultural.
A justiça social combate a exploração das pessoas, especialmente de trabalhadores e trabalhadoras, os privilégios das elites e dos detentores do poder, todas as formas de discriminação, racismo e xenofobia, e propugna por uma sociedade e um mundo que tenham como fundamentos a equidade, a liberdade e a plenitude humana.
A luta pela justiça social tem atravessado séculos e milênios, sempre enfrentando todas as formas de injustiças, opressão, violência e estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais que geram preconceitos, discriminação, exclusão, pobreza, conflitos e muito sofrimento, principalmente para as pessoas e grupos mais vulneráveis em todas as sociedades e tempos.
Para ressaltar a importância dessa luta, a ONU – Organização das Nações Unidas – instituiu o Dia Mundial da Justiça Social, aprovado pela Assembleia Geral em 26 de novembro de 2007, através da Resolução 62/10, estabelecendo que este dia especial seja celebrado anualmente em 20 de fevereiro.
A primeira celebração do Dia Mundial da Justiça Social ocorreu em 2009 e, desde então, a ONU, bem como suas agências especializadas, principalmente a OIT – Organização Internacional do Trabalho – promovem inúmeros eventos em diversos países.
A cada ano, é escolhido um tema especial em torno do qual as celebrações são organizadas, destacando tanto os progressos alcançados nessa luta quanto apontando caminhos para que a justiça social seja o centro das políticas públicas em todos os países, especialmente naqueles onde a opressão, a exploração dos trabalhadores, formas aviltantes de discriminação e práticas culturais reforçam os mecanismos de exclusão de grupos minoritários ou de segmentos demográficos, como mulheres, meninas, crianças, idosos, pessoas com deficiência ou grupos religiosos.
Em 2025, o tema definido pela ONU para o Dia Mundial da Justiça Social foi "potenciar e preencher as lacunas para a justiça social", destacando a necessidade de eliminar as barreiras sociais, econômicas, políticas e culturais que impedem o acesso a oportunidades justas para todas as pessoas, classes sociais e grupos.
Também no ano passado, foi enfatizado que, para alcançar a justiça social, é fundamental defender a ecologia integral, enfrentar as mudanças climáticas e combater as diversas formas de degradação ambiental, que impactam desproporcionalmente os pobres e excluídos.
Vale destacar a exortação do Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si, ao afirmar que "o grito da terra é também o grito dos pobres, dos excluídos e dos injustiçados" em todos os países. São eles que mais sofrem com os desastres naturais, que na verdade são provocados pela exploração desenfreada e pela falta de respeito aos direitos dos trabalhadores, consumidores e das futuras gerações.
O tema central para as celebrações do Dia Mundial da Justiça Social em 2026, a ser celebrado em 20 de fevereiro, é "Reforçar uma transição justa para um futuro sustentável". Este ano, as celebrações abordarão desafios contemporâneos como as mudanças climáticas, transições econômicas, desigualdades sociais, conflitos armados e guerras que destroem não apenas bens materiais, mas também milhões de vidas humanas, principalmente entre populações civis, forçando deslocamentos demográficos, provocando desemprego, fome e deixando imensas massas humanas sem moradia.
Em 2015, a ONU aprovou 17 Objetivos Globais e 169 metas concretas para nortear as políticas públicas dos países e que também deveriam servir de base para ações públicas e privadas em níveis subnacionais (regionais e locais). Esses são os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – e foi estabelecido o ano de 2030 como marco referencial, a chamada Agenda 2030.
Diversos desses objetivos estão diretamente relacionados com a luta por justiça social, e sua implementação faz parte de práticas que podem reduzir as injustiças sociais e econômicas, avançando para um patamar onde a justiça social seja o farol a ser seguido.
A grande maioria dos ODS aponta para a busca e concretização da justiça social, tais como: erradicação da pobreza; acabar com a fome; garantir o acesso universal à saúde de qualidade e promover o bem-estar das famílias excluídas; garantir educação pública de qualidade, socialmente referenciada; promover a igualdade de gênero; garantir acesso à água potável e saneamento básico (incluindo coleta de lixo) a todas as famílias; garantir acesso a fontes de energia renováveis e acessíveis; promover o crescimento econômico com emprego decente e salário justo aos trabalhadores; reduzir as desigualdades sociais e econômicas dentro dos países e entre os países; tornar as cidades inclusivas e sustentáveis, com mobilidade e qualidade de vida para toda a população; e garantir padrões de consumo sustentáveis.
A garantia de que esses objetivos possam e devam ser atingidos depende tanto das lutas populares quanto de mudanças profundas nos sistemas políticos e econômicos, reduzindo o domínio do capital sobre o trabalho e garantindo que os sistemas políticos sejam democráticos, permitindo a plena participação do povo, que deve definir os parâmetros das políticas públicas fundamentadas na justiça social.
Para finalizar, gostaríamos de destacar o posicionamento do Papa Francisco sobre a questão da justiça social, quando ele afirma: "O empenho contra a pobreza, a fome e as desigualdades é uma prática da justiça social. Os recursos devem ir para hospitais e escolas, não para as armas, como está acontecendo... Terra, teto e trabalho são direitos sagrados, pelos quais vale a pena lutar."
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro-Oeste. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Instagram: @profjuacy
**Priscilla Alyne Sumaio, Professora doutora em Linguística, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG), com atuação nas áreas de Libras, Línguas Indígenas de Sinais e Ensino. Pesquisadora no campo das línguas indígenas de sinais, com trabalhos voltados à documentação, descrição e valorização das línguas e culturas de povos indígenas surdos. Atua na formação de professores, na defesa dos direitos linguísticos e na promoção de uma educação intercultural. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
POVOS INDÍGENAS: UMA LUTA DE SÉCULOS - Juacy da Silva e Priscilla Alyne Sumaio
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“Os direitos individuais e coletivos dos povos indígenas são inegociáveis. Nem hoje e nem nunca.” (GUTERRES, António. Secretário-Geral da ONU, discurso de abertura da 24ª Sessão do Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, 18 abr. 2023).
Em homenagem e lembrança do assassinato do líder indígena guarani Sepé Tiarajú, ocorrido em 1756 na região das antigas Missões, no atual estado do Rio Grande do Sul, foi instituído, por meio da Lei Federal nº 11.696, de 2 de junho de 2008, o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, celebrado em 7 de fevereiro. Trata-se de uma data que simboliza resistência, memória e a denúncia histórica das violências sofridas pelos povos originários no Brasil.
A luta dos povos indígenas no Brasil, ao longo de mais de 525 anos desde a chegada dos colonizadores, tem sido marcada por um processo contínuo de expropriação territorial, violência sistemática e extermínio de diversos povos originários. Esse processo envolve a invasão e grilagem de terras, a destruição de territórios, a contaminação de rios por mercúrio e a perseguição de lideranças indígenas, podendo ser compreendido como um genocídio contínuo, que se manifesta em dimensões físicas, culturais e simbólicas.
Segundo registros históricos, estima-se que, à época da chegada dos colonizadores europeus, a população indígena no território brasileiro era de aproximadamente cinco milhões de pessoas. Atualmente, esse número é de cerca de 1,7 milhão. Esses dados evidenciam a magnitude do impacto demográfico, social e cultural da colonização, bem como das políticas de extermínio e assimilação forçada implementadas ao longo da história.
Embora a chamada “questão indígena” esteja presente em diferentes Constituições e legislações nacionais, a atuação dos governantes e dos poderes públicos, com raras exceções, tem sido marcada por práticas autoritárias, desrespeitosas ou por políticas assistencialistas e paternalistas. Tais práticas negam aos povos indígenas o reconhecimento de sua autonomia, de seu protagonismo político e de seu direito à autodeterminação.
Adicionalmente, a ideologia dominante amplamente disseminada, inclusive pelos meios de comunicação, contribuiu para a construção de estereótipos que retratam os povos indígenas como preguiçosos, privilegiados ou como entraves ao progresso nacional. Essas representações desumanizantes ignoram as formas próprias de organização social, os sistemas de conhecimento tradicionais e a relação sustentável que os povos indígenas mantêm com seus territórios ancestrais.
A partir da década de 1960, com a expansão das fronteiras agrícolas e a ocupação intensiva das regiões Centro-Oeste e Norte do país — especialmente após a transferência da capital federal para Brasília e a abertura de grandes rodovias — os conflitos fundiários envolvendo povos indígenas passaram a ocorrer de forma sistemática. Grandes projetos econômicos, latifúndios financiados pelo Estado, bem como o avanço do garimpo, da exploração madeireira e da grilagem de terras, aprofundaram esse cenário de violência estrutural.
Outro elemento central desses conflitos foi a titulação de terras classificadas como “devolutas”, desconsiderando a presença histórica de povos indígenas nesses territórios. Essa prática resultou em expulsões forçadas, assassinatos, destruição cultural e inúmeras violações de direitos humanos.
Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, especialmente por meio do artigo 231, foram reconhecidos aos povos indígenas seus direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, bem como o direito à preservação de suas línguas, culturas, crenças e formas de organização social. Esses direitos são anteriores à própria formação do Estado brasileiro e, portanto, devem ser plenamente respeitados.
Apesar desse avanço constitucional, surgiram ataques recentes aos direitos indígenas, como a tese do Marco Temporal, posteriormente convertida na Lei nº 14.701, de 20 de outubro de 2023. Essa tese desconsidera expulsões, massacres e deslocamentos forçados ocorridos antes de 1988, aprofundando a insegurança jurídica nos territórios indígenas.
A luta dos povos indígenas constitui, portanto, uma luta pela vida, pela memória, pela diversidade cultural e pela justiça histórica. Defender os direitos indígenas é, simultaneamente, defender o meio ambiente, a democracia e o futuro do Brasil.
SOBRE OS AUTORES
*Juacy da Silva – Professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista e articulador da Pastoral da Ecologia Integral da Região Centro-Oeste.
**Priscilla Alyne Sumaio – Professora doutora em Linguística, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG), com atuação nas áreas de Libras, Línguas Indígenas de Sinais e Ensino. Pesquisadora no campo das línguas indígenas de sinais, com trabalhos voltados à documentação, descrição e valorização das línguas e culturas de povos indígenas surdos. Atua na formação de professores, na defesa dos direitos linguísticos e na promoção de uma educação intercultural.
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Juacy da Silva*
“Não podemos mais tolerar injustiças estruturais pelas quais quem tem mais tem sempre mais, e, vice-versa, quem tem menos empobrece cada vez mais; a esperança e a justiça são possíveis quando nos reconhecemos como parte de uma mesma humanidade, unida na busca por um futuro mais justo e fraterno”, escreve o Papa Leão XIV na introdução inédita do seu novo livro A força do Evangelho. A fé cristã em 10 palavras, publicado em 20 de novembro de 2026, em língua italiana, pela Livraria Editora Vaticana.
Há poucos meses, quando da publicação de sua primeira Exortação Apostólica, podemos dizer que, “em parceria com o Papa Francisco”, Leão XIV não titubeou em dizer, de forma clara e objetiva, que não se combate a pobreza e as injustiças com ações e políticas públicas assistencialistas e paternalistas, mas que precisamos ir mais a fundo, combater as estruturas sociais, econômicas e políticas que geram a pobreza, a exclusão e as injustiças sociais.
Neste ano em curso de 2026, a CNBB houve por bem escolher o tema Fraternidade e Moradia (popular e digna) para a Campanha da Fraternidade, tendo ainda como lema “Ele (Cristo ressuscitado e libertador) veio morar entre nós”, retirando este lema do Evangelho de São João 1,14, enfatizando que, ao encarnar-se como ser humano, Cristo não escolheu os palácios dos poderosos de sua época e que nem mesmo lugar digno encontrou, razão pela qual encarnou-se como pobre e excluído, migrante, nascendo em uma estrebaria.
Hoje, no Brasil e mundo afora, milhões de crianças, muitas das quais sequer completam um mês ou um ano de vida, nascem, “vêm ao mundo”, nessas mesmas condições de pobreza e miséria absoluta. Nessas crianças e em seus pais pobres, refugiados e excluídos, podemos, com certeza, também ver o rosto do “menino Jesus”.
Tanto no Velho Testamento, principalmente nos livros dos diversos profetas, podemos ver e ler como eles condenavam as práticas gananciosas e injustas, como os pobres de então, da mesma forma que os pobres de hoje, eram maltratados, injustiçados e excluídos.
Da mesma forma, também no Novo Testamento, principalmente nos Evangelhos, podemos observar, tanto nas palavras de Jesus, especialmente em suas parábolas, como também em suas exortações e milagres, que a preocupação com os pobres, doentes, deficientes, marginalizados, excluídos e sofredores fica bem patente.
Ao condenar a ganância, a usura, a violência e tantas formas de exclusão e injustiças sociais, o Novo Testamento, não apenas nos Evangelhos, mas também nas Cartas Paulinas e nos escritos de outros apóstolos, nos exorta quanto às formas antigas e também atuais de ganância e apego aos bens materiais, à acumulação de bens, renda, riqueza e propriedade, que também são tácita e explicitamente condenadas.
Existe uma passagem no Evangelho de São Mateus, capítulo 19, versículos 16 a 24, que ilustra muito bem a dialética entre riqueza e pobreza e como os ricos de então, inclusive os cristãos ricos de hoje, se relacionavam e ainda se relacionam com os pobres, com a pobreza, a exclusão e com as injustiças.
Esta passagem e os diálogos de Jesus com o “jovem rico” e também, depois, o diálogo de Jesus com seus discípulos, que presenciaram aquela cena, falam por si, não precisando de maiores comentários e interpretações teológicas.
Vejamos o que diz o Santo Evangelho: “¹⁶ Eis que alguém se aproximou de Jesus e lhe perguntou: ‘Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?’ ¹⁷ Respondeu-lhe Jesus: ‘Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom. Se você quer entrar no Reino dos céus, obedeça aos mandamentos’. ¹⁸ ‘Quais?’, perguntou ele. Jesus respondeu: ‘Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, ¹⁹ honra teu pai e tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo’. ²⁰ Disse-lhe o jovem: ‘A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda?’ ²¹ Jesus respondeu: ‘Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me’. ²² Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas. ²³ Então Jesus disse aos discípulos: ‘Digo-lhes a verdade: dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. ²⁴ E lhes digo ainda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus’.”
Isto porque os ricos amam mais a riqueza e seus privilégios do que aos seus irmãos pobres, e este apego aos bens materiais distancia as pessoas dos mandamentos e dos ensinamentos de Cristo.
Voltemos à Campanha da Fraternidade e à realidade da moradia popular no Brasil, um dos problemas mais sérios e angustiantes para mais da metade da população brasileira, que não possui moradia popular digna, cuja luta tem sido muito difícil.
Quando falamos em MORADIA POPULAR DIGNA, não estamos falando apenas em quatro paredes, às vezes feitas com resto de material, e um teto, também às vezes feito com resto de material ou apenas coberto com uma lona preta; mas sim em um lar que ofereça condições dignas em sua essência, tanto para o abrigo quanto para o conforto e a possibilidade de progresso material, cultural e humano, tanto pelas dimensões quanto pelos critérios de “habitabilidade” e também pelo seu entorno.
Um casebre, onde oito ou até dez pessoas se amontoam em espaços exíguos, milhões que não têm sequer instalações sanitárias, localizado em uma favela, uma palafita, na beira de algum morro prestes a desabar, um córrego que, na verdade, é mais um esgoto a céu aberto, onde o lixo se acumula por toda a parte, por onde transitam as pessoas e também os animais, “porcos, ratos e urubus”, como dizia o enredo de uma escola de samba há alguns anos.
Onde não existe unidade de saúde, onde falta água tratada e potável, onde não existe escola pública de qualidade, onde não existe arborização para mitigar o calor, onde não existe pavimentação, onde a grande maioria é de desempregados ou subempregados, explorados e, o pior ainda, onde as pessoas sofrem todas as formas de violência, são escravizadas e prisioneiras do crime organizado, traficantes e milícias.
Estar, morar ou habitar em áreas com essas características, como acontece com mais de 150 milhões de pessoas que não têm moradia digna no Brasil, contrasta muito com os bairros ricos e de classe média alta, geralmente cercados com muros altos, cercas eletrificadas, com guarda privada armada, com todo o conforto, mas que são verdadeiros “guetos” ou “apartheids” sociais, culturais e econômicos.
Diante da triste realidade habitacional existente no Brasil, cujo diagnóstico, como estampado no Texto-Base da Campanha da Fraternidade de 2026, na parte relativa ao VER, ou seja, o diagnóstico desta triste realidade em que vivem milhões de famílias na pobreza e insegurança habitacional, insegurança alimentar e insegurança econômica e social, é fundamental que esta realidade seja “iluminada” com as luzes do Evangelho, das Encíclicas e Exortações dos Papas e da Doutrina Social da Igreja, cujos fundamentos estão na Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, que no dia 15 de maio próximo estará completando 135 anos, sendo sempre atualizada para atender aos reclamos e desafios da atualidade.
Cabe ressaltar e relembrar que, da mesma forma que o Papa Francisco inspirou-se em São Francisco de Assis ao adotar seu nome, indicando suas preocupações com a Ecologia Integral e com os pobres, também o Cardeal Prevost, ao escolher o nome de Leão XIV, indicou claramente que pretende seguir os passos de Leão XIII e seu compromisso com o aprofundamento da Doutrina Social da Igreja.
Os cristãos em geral e, particularmente, os católicos, aos quais todos os Papas são seus pastores universais, como ocupantes da “Cátedra” de São Pedro, Bispos de Roma, em torno dos quais se mantém a unidade da Igreja, tendo Cristo como seu guia maior, devem estar atentos para os preceitos evangélicos e doutrinários em relação aos pobres.
É fundamental também, como tem insistido o Papa Leão XIV, que precisamos revisitar as conclusões e preceitos doutrinários aprovados no Concílio Vaticano II (1962–1965), que promoveu uma profunda reforma na Igreja Católica, principalmente quando a Igreja, voltando aos primórdios dos Evangelhos e aos ensinamentos de Jesus, faz a opção preferencial pelos pobres.
Uma Igreja ou uma religião que faz a opção preferencial pelos pobres não pode estar ao lado e abraçada com os ricos, os poderosos, com os donos do poder, com os barões da economia que oprimem os pobres e volta as costas aos oprimidos, injustiçados e violentados; com certeza, está muito distante dos ensinamentos dos Evangelhos. Vide a parábola do Bom Samaritano.
Por isso é que, no caso da Campanha da Fraternidade, um gesto concreto, sem dúvida, é a Coleta Nacional da Solidariedade, que deverá acontecer no dia 29 de março próximo, o Domingo de Ramos. Esta Coleta Nacional da Solidariedade destina-se a contribuir e apoiar financeiramente os projetos sociais de economia solidária da Cáritas Brasileira e das Cáritas Arquidiocesanas ou Diocesanas.
Mas o mais importante é que estejamos ao lado e com os pobres, despertando a consciência de cidadania, embasada na espiritualidade profética e que possibilite a organização da Pastoral da Moradia e Favela em todas as Arquidioceses, Dioceses e Prelazias, como sugere o mesmo Texto-Base, na parte dedicada ao AGIR, onde ainda não esteja presente, como na Arquidiocese de Cuiabá e em todas as Dioceses e Prelazias no Estado de Mato Grosso e nos demais estados do Centro-Oeste, por exemplo.
Somente por meio da Pastoral da Moradia e Favela é que podemos concretizar as lutas, as ações sociotransformadoras e a mobilização profética, de forma contínua, ao longo de todo o ano e de todos os anos, visando políticas públicas que atendam às demandas e desafios da grande maioria da população urbana em nosso Estado e no Brasil.
A moradia digna é a “porta de entrada” para que todos os direitos humanos, sociais, constitucionais e legais sejam conquistados plenamente. Sem moradia digna, não pode haver família vivendo com qualidade de vida e com esperanças renovadas no futuro, principalmente para as próximas gerações.
O Papa Leão XIV, ao escrever seu livro A força do Evangelho: a fé cristã em dez palavras, destaca essas dez palavras fundamentais na caminhada da Igreja e dos cristãos/católicos e, com certeza, também evangélicos e fiéis de outras religiões: 1) a centralidade de Cristo; 2) o coração (o amor) como centro da fé; 3) a Igreja (sinodal, samaritana e profética); 4) a missão da Igreja e dos cristãos como ingrediente fundado na 5) comunhão; 6) a paz, desarmada e desarmante, para romper com o ódio e os conflitos/guerras; 7) os pobres, por quem a Igreja e os Evangelhos fazem a opção preferencial; 8) a fragilidade dos pobres, excluídos e injustiçados; 9) a justiça social (a Doutrina Social da Igreja) como porta de entrada para um mundo melhor, justo e sustentável para todos e todas; e 10) a esperança (que não decepciona) e que nutre as lutas e a caminhada ao lado e com os pobres.
Este livro está sendo considerado o “catecismo” do Papa Leão XIV, que, ao lado da Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), ao tratar em maior profundidade a questão dos pobres, fortalece o embasamento para que a Pastoral da Moradia e Favela seja um instrumento de luta e de inclusão de milhões de famílias que estão à margem da sociedade, condenando milhões e milhões de crianças, adolescentes e jovens a uma vida em que a esperança permanece muito longínqua.
Concluindo, vejamos um recado, enfim, uma exortação oportuna, importante e atual de Leão XIV. Diante da polarização e da prepotência de alguns países, ele adverte que “o ódio e a violência podem expandir-se como um transbordamento contínuo, alimentado por situações de miséria que ferem povos inteiros”.
Diante deste risco, Leão XIV sublinha que “a fraternidade é um caminho realista e necessário: reconhecermo-nos como irmãos constitui um verdadeiro antídoto contra toda forma de extremismo e permite construir vínculos capazes de sarar feridas sociais profundas”.
Diante dessas reflexões é que nós, cristãos, católicos e também, claro, fiéis e adeptos de outras religiões, crenças e filosofias, podemos responder como iremos reagir e agir diante das injustiças, da pobreza e da exclusão tão presentes em nosso país, principalmente para quem luta por moradia popular digna, tendo a Pastoral da Moradia e Favela como um instrumento autêntico de luta e de esperança em cada território onde esta realidade está muito bem presente.
* Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral, ex-secretário de Planejamento e Gestao e ex-ouvidor Geral e ex-diretor Executivo do IPDU da Prefeitura de Cuiabá. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
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Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
Quando falamos de fé, sempre é bom mencionar que existem, pelo menos, dois tipos de fé (religiosa): de um lado, a chamada fé engajada e libertadora e, de outro, a fé “intimista”, subjetiva, alienada e alienadora.
Uma fé libertadora é uma vivência religiosa engajada, comprometida com mudanças sociotransformadoras que, baseada na reflexão e no amor verdadeiro ao próximo, principalmente aos excluídos e pobres, promove, por meio da mobilização profética, de forma coletiva, a emancipação das opressões internas (medo, insegurança, abandono, pecado) e externas (violência, exclusão, preconceitos, exploração, enfim, injustiça social).
Enquanto isso, uma fé alienada, alienadora, intimista e subjetiva é caracterizada por uma crença religiosa ou espiritual que desconecta o indivíduo da realidade social, crítica e prática, gerando passividade, falta de pensamento próprio e, muitas vezes, indiferença diante do sofrimento alheio. É uma fé que foca apenas no ritualismo e no “outro mundo”, na dimensão transcendental, ignorando o compromisso com o próximo; pode também gerar fanatismo e formas nefastas de exploração e até “escravidão” de seus adeptos, sujeitos inclusive à lavagem cerebral, como inúmeros exemplos que podem ser identificados ao longo da história (vide, por exemplo, os casos de Jim Jones, na Guiana, e de David Koresh, no Texas, e tantos outros mundo afora, inclusive no Brasil).
Existe uma grande polêmica permeando as discussões sobre fé e política e/ou fé e cidadania, diante da qual precisamos aprofundar nossas reflexões, principalmente em um ano eleitoral como este de 2026, quando, em outubro/novembro próximo, iremos eleger deputados estaduais, federais, dois terços dos senadores, governadores e o Presidente da República.
Muita gente condena que, nas Igrejas (tanto cristãs quanto não cristãs), as questões políticas sejam objeto de reflexão, de discussões e debates, principalmente por ocasião dos períodos eleitorais. Todavia, é importante lembrar que, independentemente de nossas crenças, nossas religiões e nossas “filosofias” e ideologias, somos cidadãos e cidadãs e, acima de tudo, contribuintes e, como tais, precisamos dialogar profundamente sobre a importância da política e o significado das eleições livres, soberanas e democráticas, relembrando que o “voto de cabresto” faz parte de um passado histórico muito triste em nosso país (vide a obra Coronelismo, enxada e voto, de autoria de Victor Nunes Leal, publicada em 1948).
Como cidadãos, cidadãs e contribuintes, podemos e devemos nos preocupar com os rumos que a política e a gestão pública podem tomar, às vezes — e muitas vezes — para bem longe do bem comum, da ética, da moralidade, do cuidado com quem vive na exclusão, sem desfrutar da dignidade que todas as pessoas devem ter, pelo simples fato de que todos e todas somos criaturas, filhos e filhas de um mesmo Deus, pouco importam nossas crenças.
Daí a importância de refletirmos, tanto individual quanto, principalmente, coletivamente e, neste caso (coletivamente), essas reflexões devem ser feitas em todos os espaços em que as pessoas se agregam, inclusive nas Igrejas, nos sindicatos, nas comunidades, nos bairros e assim por diante.
O exercício da política como ações voltadas para o bem comum exige que, ao exercer cargos e funções públicas, todos os representantes eleitos ou “nomeados” prestem contas de suas ações a quem lhes delegou o mandato, lembrando que a Constituição Federal de 1988 estabelece de forma clara que “todo o poder emana do povo...” e é a este povo, que elege e paga impostos, que os políticos e gestores públicos devem prestar contas de seus mandatos e do exercício de seus cargos e funções. A transparência, a moralidade, a ética, a eficiência, a eficácia e a efetividade não são favor, mas mandamento constitucional e legal, como se diz, “ponto final”.
Os políticos e gestores públicos, em última instância, são “procuradores” do povo, ou seja, empregados do povo (muito bem pagos, não precisando roubar dinheiro público via corrupção), nem buscar um ou mais mandatos para se locupletarem, mas enriquecerem pessoalmente ou por meio de seus familiares e “amigos/amigas” (os asseclas) mais chegados, que, em alguns momentos, se tornam os famosos “laranjas”, em nome de quem os políticos corruptos escondem o produto de seus roubos.
Por isso é que não podemos considerar o voto como uma mercadoria sujeita à compra e venda; mas, sim, como uma arma do povo, um instrumento da cidadania, que tem como compromisso maior não apenas a escolha de futuros mandatários, mas, sobretudo, o fundamento mais importante da democracia, de um Estado Democrático de Direito.
O voto vendido, mesmo que possa beneficiar imediata e diretamente o eleitor corrupto e alienado, a longo prazo favorece o surgimento e a perpetuação do político velhaco e corrupto, que favorece o “orçamento secreto”, as emendas “pix”, a familiocracia e tantos outros esquemas que os veículos de comunicação e os órgãos de controle denunciam diuturnamente, mas que, lamentavelmente, acabam sob o manto da impunidade.
Assim, quando falamos de Estado Democrático de Direito, não estamos falando do “Estado mínimo” para os pobres e excluídos, alheio às necessidades e aspirações dos pobres, mas, sendo mínimo para os pobres, este é o “Estado máximo” para os ricos e para os poderosos, e que contribui para a acumulação de renda, riqueza, propriedade e privilégios em poucas mãos, via políticas públicas de renúncia fiscal e subsídios para os grandes grupos econômicos, de complacência com os grandes sonegadores (contumazes e protegidos), enquanto “faltam recursos” para as políticas públicas destinadas a reduzir as desigualdades sociais, regionais e econômicas, e para promover condições que representem qualidade de vida para a população como um todo, principalmente para as camadas pobres e excluídas.
Recentemente, dando continuidade às reflexões iniciadas pelo Papa Francisco antes de seu falecimento, o Papa Leão XIV, ao publicar sua primeira Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), sobre a questão dos pobres e da pobreza, enfatizou, na forma de um apelo, sugerindo “um empenho que não se limite apenas a aliviar momentaneamente a pobreza, mas que busque eliminar suas causas. Por isso, nos passos do Papa Francisco, ele convida a delinear uma política com os pobres e para os pobres, que seja concebida a partir deles; com realismo, ele observa que isso requer uma escuta real das pessoas que conhecem a precariedade por parte dos políticos e dos profissionais da assistência social — e das instituições eclesiais. ‘Se políticos e profissionais não os ouvirem (os pobres), a democracia se atrofia, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade e vai se desencantando de seu destino’”.
É nesse sentido e contexto que as reflexões sobre Fé e Política, Fé e Cidadania precisam ser exercitadas diuturnamente e não apenas às vésperas das eleições. Isso só pode ser feito por meio de uma fé engajada que promova a dignidade e a libertação do povo, muitas vezes escravizado por uma economia da morte (nas palavras do Papa Francisco), pela exploração dos trabalhadores, pela institucionalização de todas as formas de violência, pela mentira, pelas “fake news”, pelo ódio de um radicalismo sem limites, de muita demagogia, da manipulação da pobreza e dos pobres por meio de políticas públicas ancoradas no paternalismo e no assistencialismo, que apenas perpetuam a pobreza e exploram os pobres.
Gostaria de finalizar esta reflexão transcrevendo um parágrafo do artigo “O amor aos pobres: caminho de compaixão e libertação”, de autoria de Marcos Aurélio, assessor da Escola Fé e Política Padre Sabino e membro do CEBI-RN, publicado no site do CEBI em 31/12/2020, mas que guarda uma atualidade incrível nos dias atuais, quando ele diz: “Hoje não é diferente. Assim como no tempo de Jesus, os pobres vivem debaixo de múltiplas opressões. Sofrem com os baixos salários, desemprego, doenças, preconceito e exclusões, por muitas vezes apenas pelo fato de serem pobres, sobretudo os marginalizados que vivem nas regiões periféricas dos centros urbanos ou nas regiões rurais e ribeirinhas. Os pobres vivem um outro mundo; a sociedade dominante os empurrou para um lugar onde não fossem capazes de se misturar com os que se denominam uma ‘classe superior’. Por isso, os pobres construíram um mundo paralelo com outra cultura, diferente, nos lugares baixos, onde, com poucos recursos, lutam diariamente para sobreviver em meio às maléficas investidas do capitalismo que gera injustiças e desigualdades. As famílias periféricas vivem a luta diária pela sobrevivência, com arranjos para moradia e esforços gigantescos para comprar comida, remédio, como também para suprir outras necessidades básicas”.
Em minha opinião, este é o retrato da falta de dignidade humana, a começar pelo drama da falta e precariedade das moradias populares na atualidade brasileira e que é, novamente, objeto da Campanha da Fraternidade da CNBB — Conferência Nacional dos Bispos do Brasil — em 2026: Fraternidade e Moradia, cujo lema é “Ele (Cristo) veio morar entre nós”, demonstrando que os desafios sociotransformadores, de natureza política, precisam ser iluminados pela luz do Evangelho, onde se conectam Fé e Política e Fé e Cidadania.
Esta deve ser a tônica quando falamos em Fé e Política ou Fé e Cidadania em nossas Igrejas cristãs e não cristãs também.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy












