****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
JUACY DA SILVA*
A “eleição”, enfim, a escolha do Cardeal Robert Prevost, norte-americano de nascimento e peruano por naturalização, para suceder o Papa Francisco, que não era bem aceito, “engolido” pelos conservadores católicos, foi, sem dúvida, uma surpresa diante das apostas que todos os “vaticanistas” e a mídia católica ou secular do mundo inteiro faziam.
Tão logo eleito, a primeira surpresa foi a escolha do nome do novo Papa, Leão XIV, demonstrando de forma clara o seu desejo de dar continuidade ao magistério de Leão XIII, o Papa que “revolucionou” a Igreja ao colocar no centro do magistério a questão das injustiças que eram cometidas contra os trabalhadores no final do século XIX, com a publicação da Encíclica Rerum Novarum, em 15 de maio de 1891, colocando a Igreja entre as duas grandes correntes de pensamento, de ideologias e de organização dos sistemas produtivos e de relações de trabalho: de um lado o capitalismo e, de outro, o marxismo.
Ao publicar a Rerum Novarum, Leão XIII estabelecia as bases para o magistério social da Igreja, o que, desde então, passou a ser a DSI – Doutrina Social da Igreja, que vem sendo aperfeiçoada até os dias de hoje, como, por exemplo, quando o Papa Francisco inseriu a Laudato Si’ no contexto da DSI.
Assim, há mais de 130 anos a Igreja vem “navegando” entre o capitalismo desumano que se iniciava e, em boa parte, ainda permanece até hoje, e o marxismo/comunismo, ideologia que se fortalecia na Europa até sua chegada ao poder pela Revolução Bolchevique, na Rússia, em 25 de outubro de 1917.
Desde então até a atualidade, a Igreja Católica, sob a liderança de diferentes Papas, alguns mais conservadores e outros mais “liberais” ou quase revolucionários, tem “transitado” neste caminho do meio, o que, em termos políticos, tem sido considerado a “terceira via”, bem complicada de equilibrar-se sem sofrer ataques de ambos os lados.
Cada Papa, por diferentes razões, procura deixar sua marca, seu legado ou suas “pegadas” na história milenar da Igreja Católica, sempre atentos aos desafios tanto teológicos, filosóficos, éticos e morais quanto premidos pela dureza da realidade econômica, social, política e ideológica do mundo, onde a Igreja está inserida e precisa sempre ser “o sal da terra e a luz do mundo”, conforme os Evangelhos e a mensagem do Cristo Ressuscitado.
O Papa Francisco marcou seu magistério por ter abraçado a causa da ecologia integral, a misericórdia, a amizade social, a defesa intransigente dos pobres e a necessidade de a Igreja ter uma nova cara, através da sinodalidade, do profetismo e da caridade, voltada para praticar de fato a opção que a mesma fez, principalmente pelas reformas aprovadas pelo Concílio Vaticano II, que, diga-se de passagem, jamais foram engolidas pelos setores conservadores da Igreja, incluindo um dos subprodutos do mesmo, que foi a Teologia da Libertação e a ênfase na “opção preferencial pelos pobres”.
Assim, a escolha/eleição de Leão XIV, em um certo momento, animou os setores conservadores, que expressaram a esperança de que o mesmo iria “abolir” ou deixar de lado as linhas mestras do magistério de Francisco, considerado muito liberal, esquerdista ou até quase comunista, segundo alguns setores extremamente conservadores da Igreja que, volta e meia, flertam com o pensamento e as ações da extrema-direita política e ideológica.
Mas isso não aconteceu. Leão XIV tem demonstrado seu grande apreço pela figura, pelo legado e pelo magistério do Papa Francisco, tanto em relação às questões da ecologia integral, quanto no que concerne à figura dos pobres e excluídos, e também o compromisso de conduzir a Igreja pelos caminhos da sinodalidade, de uma Igreja pobre, sem opulência, ao lado dos pobres; e também uma Igreja profética, que não comunga com a violência, com as guerras, com formas de discriminação e racismo.
Logo ao ser escolhido Papa, Leão XIV começou a “dar” pistas de como será o seu magistério, como, por exemplo, em diversas homilias, em pronunciamentos públicos ao receber diferentes pessoas, inclusive chefes de Estado e pessoas simples, ou gente da própria Igreja, pertencentes à hierarquia eclesiástica e também leigos e leigas, engajados ativamente em pastorais, organismos e movimentos da Igreja.
Em matéria publicada pela Agência Ecclesia em 18 de maio de 2025, poucos dias após a eleição do novo Papa, a mesma assim afirmava: “O Papa Leão XIV disse hoje desejar uma Igreja ‘unida’ para responder aos desafios colocados pelas desigualdades e os conflitos que marcam a humanidade.”
E aí transcreve as palavras de Leão XIV: “No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, pela violência, pelos preconceitos, pelo medo do diferente, por um paradigma econômico que explora os recursos da terra e marginaliza os mais pobres”, disse, na homilia da Missa que marca o início oficial do seu ministério petrino. E continua: “Nós queremos ser, dentro desta massa, um pequeno fermento de unidade, comunhão e fraternidade.”
Em diferentes momentos, Leão XIV tem deixado bem claro seu pensamento e suas exortações tanto aos católicos quanto aos demais cristãos, a todos os fiéis de outras religiões e também aos donos do poder (governantes), bem como aos empresários, de que devemos lutar por “uma paz desarmada”, por uma cultura da paz, pelo fim das guerras, dos conflitos armados, pelo respeito à ecologia integral e pela dignidade dos pobres, marginalizados e excluídos.
Apenas para clarear esta “linha” de argumentação, podemos nos referir, por exemplo, à sua carta aos Reitores de Universidades Católicas da América Latina sobre a importância do compromisso da Igreja e das instituições de ensino católicas com a defesa da ecologia integral.
Outro exemplo: no recente encontro ocorrido há poucos dias em Castel Gandolfo, em 1º deste mês de outubro de 2025, na celebração dos dez anos da publicação da Encíclica Laudato Si’, diante de representantes da Igreja e de autoridades públicas, incluindo o ex-governador da Califórnia e a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e das Mudanças Climáticas do Brasil, denominado Elevando/Espalhando Esperança (em inglês Rising Hope), Leão XIV foi claro ao afirmar que “É preciso passar dos discursos ambientalistas a uma conversão ecológica”, enfatizando que esta conversão ecológica precisa ser não apenas individual, mas, fundamentalmente, seguindo o pensamento e palavras do Papa Francisco, “ser uma conversão comunitária/coletiva”, a começar dentro da própria Igreja, o que, infelizmente, ainda não tem acontecido, apesar dos dez anos da publicação da Laudato Si’.
Em seu discurso perante os participantes do evento, Leão XIV foi claro ao recordar a herança espiritual e pastoral deixada por Francisco e convidou todos a redescobrir a ecologia integral como caminho de unidade, paz e esperança.
E, no último dia 04 deste outubro de 2025, ou seja, há poucos dias, Leão XIV publicou sua primeira Exortação Apostólica “Dilexi Te” – Sobre o Amor para com os Pobres, aprofundando seu pensamento sobre este tema importante e transcendental para a vida e o magistério da Igreja.
Esta é uma Exortação razoavelmente longa, enfatizando os fundamentos bíblicos, dos santos e doutores da Igreja e também enfatizando as causas estruturais da pobreza e como a Igreja precisa estar ao lado dos pobres.
Em outra ocasião, pretendo refletir melhor e com maior profundidade sobre o sentido e o significado desta Exortação Apostólica de Leão XIV, principalmente para o agir pastoral da Igreja, com ênfase na dimensão sociotransformadora que a mesma nos estimula a refletir e a agir.
Transcrevo aqui um trecho da referida Exortação Apostólica, para aquilatarmos o que Leão XIV nos exorta, nos orienta e nos estimula a agirmos, como cristãos em geral e como católicos em particular:
“A condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e econômicos e, sobretudo, a Igreja. No rosto ferido dos pobres encontramos impresso o sofrimento dos inocentes e, portanto, o próprio sofrimento de Cristo. Ao mesmo tempo, deveríamos falar, e talvez de modo mais acertado, dos inúmeros rostos dos pobres e da pobreza, uma vez que se trata de um fenômeno multifacetado; na verdade, existem muitas formas de pobreza: a daqueles que não têm meios de subsistência material; a pobreza de quem é marginalizado socialmente e não possui instrumentos para dar voz à sua dignidade e capacidades; a pobreza moral e espiritual; a pobreza cultural; aquela de quem se encontra em condições de fraqueza ou fragilidade, seja pessoal, seja social; a pobreza de quem não tem direitos, nem lugar, nem liberdade”.
Ao aprofundar a reflexão sobre os pobres e a pobreza, Leão XIV foge das propostas e sugestões assistencialistas, paternalistas e manipuladoras, porquanto deixa clara a natureza estrutural da pobreza, demonstrando que tanto a pobreza quanto os pobres e suas formas de vida, longe da dignidade humana, têm causas, raízes nas estruturas sociais, políticas e econômicas e, assim, para combatermos a pobreza e a exclusão, a Igreja precisa estar, realmente, de fato, e não apenas por palavras, ao lado e com os pobres, promovendo e advogando ações sociotransformadoras profundas, pois este é ou deve ser o caminho que a Igreja deve trilhar.
Vejamos, nas palavras de Leão XIV, esta exortação a todos nós, aqui e agora:
“Devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza. É uma urgência que ‘não pode esperar’; e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para curá-la de uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias. A falta de equidade é a raiz dos males sociais. Com efeito, muitas vezes constata-se que, realmente, os direitos humanos não são iguais para todos”.
Para finalizar esta reflexão, não poderia deixar de transcrever o rumo que Leão XIV nos indica em termos de nossa religiosidade engajada, pavimentando o caminho, principalmente para as ações das pastorais sociais, dos movimentos e organismos da Igreja que propugnam por um agir profético e não apenas uma religiosidade intimista ou subjetiva.
Assim, enfatiza Leão XIV:
“Portanto, mesmo correndo o risco de parecer ‘estúpidos’, é tarefa de todos os membros do Povo de Deus fazer ouvir, ainda que de maneiras diferentes, uma voz que desperte, denuncie e se exponha. As estruturas de injustiça devem ser reconhecidas e destruídas com a força do bem, através da mudança de mentalidades e também, com a ajuda da ciência e da técnica, através do desenvolvimento de políticas eficazes na transformação da sociedade. É preciso recordar sempre que a proposta do Evangelho não é apenas a de uma relação individual e íntima com o Senhor. Ela é mais ampla: ‘é o Reino de Deus’ (cf. Lc 4,43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais. Procuremos o seu Reino”.
Fica bem claro, pois, nas palavras deste “novo” Papa, que a Igreja, além de sinodal, deve ser também uma Igreja em saída, rumo às periferias materiais e existenciais, onde estão os pobres e excluídos, que dialoga com o mundo, com as demais instituições nacionais e internacionais, com a academia, com as universidades – locus do desenvolvimento da ciência e da tecnologia –, com as demais religiões e movimentos que lutam por um mundo melhor, com justiça, em “paz desarmada”, ao lado dos pobres, oprimidos e injustiçados.
Esta é a Igreja que Leão XIV deseja: sinodal, em saída, samaritana e, também, profética.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
A ESTUPIDEZ DAS GUERRAS - Juacy da Silva
****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
Juacy da Silva*
“Precisamos de uma paz desarmada” Papa Leão XIV
A mensagem "Precisamos de uma paz desarmada" foi um tema central do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz de 2026, enfatizando que a paz deve ser baseada na confiança e na dignidade humana, e não no medo ou na acumulação de poder militar. Essa paz, descrita como "desarmada e desarmante", requer que as pessoas e as nações rejeitem a violência, cultivem o diálogo, desarmem os espíritos, a comunicação de ódio e se comprometam com a justiça e a dignidade para todos.
Todas as guerras e conflitos armados representam a essência da estupidez humana, são a falência do diálogo e o uso da violência armada como forma ou tentativa de solução dos conflitos — enfim, são a essência da irracionalidade humana.
Neste 07 de outubro de 2025, o conflito, a guerra ou, enfim, o genocídio na Faixa de Gaza completa dois anos com mais de 67 mil mortos, mais de 22 mil crianças mortas, quase 80% de Gaza, com uma população de mais de 2,3 milhões de pessoas, destruída, mais de 160 mil feridos e 90% da população sem condições de vida, inclusive com o uso da fome como arma de guerra.
O custo humano é alto: além dos mais de 67 mil mortos, incluindo mais de 22 mil crianças, há cerca de 170 mil feridos — incluindo 4,8 mil amputações e 1,2 mil casos de paralisia total, vítimas inocentes de uma verdadeira bestialidade humana. Conforme dados de diversas fontes, estima-se que 2,7 mil famílias foram inteiramente dizimadas, e mais de 12 mil abortos espontâneos são atribuídos à desnutrição e à falta de assistência médica e hospitalar, além de dezenas de milhares de pessoas que estão morrendo por falta de alimentos e de água.
Em outra região, no Centro da Europa, em 22 de fevereiro de 2022, a Rússia, alegando o direito de garantir sua soberania e integridade territorial, apesar de não estar sendo ameaçada pela Ucrânia naquela ocasião, decidiu invadir militarmente aquele país, iniciando uma guerra que já dura mais de três anos e meio.
Ao longo desse tempo, a destruição da Ucrânia tem provocado não apenas danos materiais na infraestrutura — como estradas, pontes, viadutos, redes de energia elétrica, de gás, edifícios residenciais e também comerciais e administrativos —, desorganizando completamente a economia daquele país, com reflexos tanto na economia da União Europeia quanto no resto do mundo.
Todavia, o maior impacto desta e de todas as guerras sempre recai sobre a população civil, provocando dezenas ou centenas de milhares de mortes, e muito mais — talvez o dobro ou o triplo — de pessoas feridas e também, no caso da Ucrânia, mais de 10,3 milhões de pessoas em deslocamentos/imigrações forçadas pela violência generalizada da guerra.
Ao longo desses três anos e meio de guerra, o total de militares e civis russos mortos é estimado em 790 mil, além de mais de 50 mil desaparecidos, enquanto, do lado da Ucrânia, estima-se que o total de mortos entre militares e civis seja em torno de 400 mil, com mais de 35 mil pessoas também desaparecidas.
Ou seja, esta guerra insana já provocou a morte de pelo menos 1,190 milhão de pessoas, entre civis e militares, mais de 85 mil desaparecidos e, estima-se, mais de 2,5 milhões de feridos, cujos impactos humanos e econômicos são imensuráveis e afetarão tanto a Ucrânia quanto a Rússia por várias décadas no futuro.
Outro impacto terrível tem sido os deslocamentos/migrações forçadas, atingindo, até outubro de 2025, aproximadamente 10,6 milhões de ucranianos que foram deslocados pela guerra, incluindo 3,7 milhões que foram forçados a deixar suas casas dentro da própria Ucrânia e 6,8 milhões que buscaram refúgio em outros países, de acordo com dados do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados).
Já que estamos falando, refletindo sobre guerras e seus impactos nos diversos países — e que afetam muito mais pessoas inocentes, principalmente crianças, adolescentes, mulheres e também pessoas idosas — não podemos esquecer das chamadas “guerras invisíveis”, que ocorrem em diversos países do Oriente Médio, da Ásia e da África, principalmente a guerra entre o Sudão e o Sudão do Sul, iniciada em 2023, que deixou pelo menos 40 mil mortos, enquanto a guerra civil no Sudão do Sul ceifou a vida de pelo menos 400 mil pessoas, contribuindo para uma violência generalizada e agravando a pobreza e a fome em um país já extremamente pobre.
No último relatório do PNUD, divulgado em maio de 2025 e com dados referentes a 2024, o Sudão do Sul foi o último país no ranking de IDH, ocupando a 192ª posição com um IDH de 0,381. Ele está entre os três piores, junto com a Somália (193ª com 0,380) e a República Centro-Africana (191ª com 0,387), que fecham os países com os piores índices de desenvolvimento humano.
Enquanto isso, a tragédia que se abate sobre a Palestina como um todo e a Faixa de Gaza em particular, tem grande impacto no IDH daquele território, como enfatiza a manchete da matéria estampada no site Monitor do Oriente Médio de 29 de dezembro de 2024:
“Guerra contra Gaza faz desenvolvimento humano da Palestina retroceder 69 anos.”
Há 416 dias que Gaza vive uma situação alarmante. A guerra de “Israel” contra Gaza provoca uma devastação de proporções históricas, revertendo décadas de progresso no desenvolvimento humano e acentuando a crise humanitária na região. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para a Ásia Ocidental (ESCWA) destacaram, em relatório recente, que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em Gaza retrocedeu 69 anos, atingindo níveis comparáveis aos de 1955. Essa situação alarmante reflete não apenas os impactos diretos da guerra, mas também as condições de longo prazo que já vinham enfraquecendo a infraestrutura e o tecido social da região.
No caso dos conflitos envolvendo Israel e os palestinos, mais de 150 países e decisão da ONU já reconheceram a Palestina como Estado soberano, com território e governos democraticamente instituídos. A própria Assembleia Geral da ONU já reconhece que a única alternativa para colocar um fim nesta guerra que já dura décadas é a chamada solução dos dois Estados. Sem isso, o que existe é a falência da diplomacia e das decisões de foros internacionais, e a conclusão de que a
guerra também não tem sido o caminho para uma “paz desarmada”, como enfatiza o Papa Leão XIV, e a convivência pacífica entre os povos.
O mesmo pode ser dito em relação à guerra na Ucrânia, em que a Rússia, uma superpotência, nega à Ucrânia seu direito à autodeterminação, soberania e integridade territorial, principalmente quando anexou a Crimeia e boa parte do que restou de território ucraniano, e teima em ditar regras em relação à autodeterminação de um outro país.
Finalmente, é importante refletir sobre os impactos e custos econômicos e financeiros das guerras, que consomem bilhões ou trilhões de dólares apenas para matar, destruir e impor sofrimento a centenas de milhões de pessoas, quando tais recursos poderiam estar sendo utilizados para combater a fome, as doenças, cuidar do meio ambiente e combater a crise climática.
No caso da guerra Rússia x Ucrânia, esses gastos são imensos, como podemos perceber. O custo econômico e financeiro tanto para a Ucrânia quanto para a Rússia e para a OCDE é de aproximadamente US$ 2,8 trilhões.
No caso da guerra entre Israel e o Hamas, conforme matéria no jornal O Globo de 29 de janeiro de 2024, só para Israel este custo era de US$ 240 milhões por dia. Ou seja, como esta guerra já dura dois anos, são 720 dias, e este custo representa US$ 172,8 bilhões (ou R$ 950,4 bilhões), sendo mais do que o dobro desse valor para os palestinos, ou seja, mais de US$ 2,5 trilhões no total.
Enfim, todas as guerras representam elevados custos econômicos e financeiros para os países envolvidos, além da destruição da infraestrutura e desorganização de seus sistemas produtivos, impactando diretamente as pessoas — principalmente as que já são pobres e excluídas nos respectivos países.
Diante da insanidade, da estupidez e da irracionalidade de todas as guerras, conflitos armados e de tantas outras formas de violência generalizada, todos os países precisam dedicar recursos e esforços na construção de uma cultura da paz, ou melhor, da “paz desarmada”, como tanto tem sido enfatizado pelo Papa Leão XIV e por tantos outros líderes religiosos, sociais e políticos ao redor do mundo.
Este é o nosso desafio, juntamente com a defesa e melhor cuidado com o meio ambiente, o Planeta Terra, nossa Casa Comum, que também sofre com inúmeros impactos decorrentes de tantas guerras.
Nas palavras do Papa Francisco: “Precisamos ouvir o grito da terra e também o grito dos pobres e excluídos”, enfim, das vítimas de tantas formas de violência!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
JUACY DA SILVA*
Durante a chamada Revolução Industrial, entre 1760 e 1840, o crescimento populacional no mundo, principalmente o crescimento urbano, experimentou uma verdadeira explosão, passando de 790 milhões para um bilhão de pessoas, ou seja, em 80 anos o aumento demográfico foi de 210 milhões de habitantes, com taxas de crescimento jamais vistas nos séculos anteriores, e isto ensejou muitos debates e preocupações em relação ao futuro.
Este crescimento acelerado, principalmente nas cidades europeias, foi o estopim para que governantes, empresários, estudiosos e até mesmo líderes religiosos se preocupassem diante da possibilidade de haver falta de alimentos e uma grande fome pelo mundo.
Foi neste contexto que o clérigo anglicano Thomas Malthus, que também tinha formação em economia, ciências sociais e estatística, nascido em 13 de fevereiro de 1766, publicou, em 1798, uma obra que causou o maior impacto e até hoje ainda tem discípulos espalhados pelo mundo, que advogam um controle do crescimento populacional como única forma de evitar que a fome se transforme em uma verdadeira epidemia. Malthus viveu apenas 68 anos e faleceu em 23 de dezembro de 1834.
Em sua obra Ensaio sobre o princípio da população, Malthus dizia que o mundo todo iria enfrentar um grave problema, pois a população crescia em proporção geométrica enquanto a produção de alimentos crescia apenas em proporção aritmética, e isto acarretaria, sem dúvida, grandes fomes que iriam dizimar boa parte da população mundial, principalmente entre os pobres, e o resultado seria um novo equilíbrio no crescimento demográfico, compatível com os níveis de produção de alimentos no mundo.
Todavia, Malthus mal podia imaginar que a população mundial chegaria ou iria superar 8,2 bilhões em 2025 e também que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia iria revolucionar tanto a produção de alimentos quanto o controle da natalidade, deslegitimando seus sombrios prognósticos na equação entre crescimento populacional x produção de alimentos x pobreza x fome.
Sem dúvida, existem ainda mais de 760 milhões de famintos no mundo atualmente, quase o total da população mundial na época de Malthus, porém isto não é devido à falta de alimentos, mas sim a fatores econômicos, concentração de renda, baixos salários, trabalho escravo ou quase escravo, guerras, conflitos armados internos, fatores climáticos, perdas e desperdícios, como há poucos dias este assunto foi exaustivamente discutido por ocasião do Dia Internacional de Combate às Perdas e Desperdício de Alimentos no mundo.
Para entendermos esta equação é importante que tenhamos consciência de que, para suprir alimentos para uma população que cresceu tanto, passando de um bilhão em 1840 para mais de 8,2 bilhões atualmente, com estimativas de que, por volta de 2100, o mundo chegará a 10,3 bilhões de habitantes, primeiro os sistemas agropecuários se expandiram fisicamente, passaram a ocupar novas áreas, as chamadas novas fronteiras agrícolas, ao longo de pelo menos 150 anos, mas com muita volúpia nas últimas cinco décadas, provocando desmatamento e queimadas em extensas áreas, principalmente nas florestas tropicais da América Latina (Amazônia), da Ásia e da África (floresta do Congo) e também em savanas ou áreas assemelhadas, como o cerrado brasileiro.
Até hoje, esta expansão continua praticamente sem controle, provocando grandes impactos sobre a natureza, destruindo solos, florestas, poluindo o ar e as águas e gerando os famosos Gases de Efeito Estufa (GEE), que são os responsáveis pela crise climática que também ameaça todas as formas de vida no planeta, inclusive a vida humana.
Diferente do que imaginava Malthus, que milhões de pessoas poderiam morrer por falta de comida, o que vemos, conforme os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é que se estima que cerca de 7 milhões de pessoas morrem anualmente devido apenas à poluição do ar, além de muito mais (milhões) por outras doenças relacionadas com a degradação socioambiental, das águas, falta de saneamento, falta de esgotamento sanitário, destinação incorreta do lixo, por exemplo.
Neste afã de produzir alimentos e também algumas commodities, um dos impactos neste avanço dos sistemas produtivos, inclusive que utilizam insumos modernos, como corretivos de solo, fertilizantes, fungicidas, herbicidas, enfim, agrotóxicos, tem sido a degradação dos solos, que no mundo já está em torno de 15 milhões de km², território maior do que nosso país, ou seja, mais de 1,5 bilhão de hectares, dos quais mais de 140 milhões de hectares estão no Brasil.
Mesmo que não existam dados atualizados sobre a relação entre o tamanho da propriedade rural e a degradação dos solos, tendo em vista a alta concentração fundiária da posse e uso da terra em nosso país, demonstrada pelo índice de Gini, estima-se que pelo menos 75% a 80% das áreas com solos degradados no Brasil estão concentradas nas grandes propriedades rurais, acima de mil hectares, demonstrando que a agricultura familiar tem práticas conservacionistas bem maiores e melhores. Por exemplo, dos 159 milhões de hectares com pastagens no Brasil, 78% estão degradados.
Aí é que entra a questão do papel e importância da agroecologia e também da agricultura regenerativa, como saídas mais racionais e ambientalmente corretas para que alimentos sejam produzidos com qualidade e não afetem a saúde e a vida humana, nem destruam os ecossistemas e biomas, diante do ainda um tanto acelerado crescimento populacional mundial, como pensam alguns estudiosos desses assuntos.
O desenvolvimento da ciência e da tecnologia, principalmente nos últimos 50 anos, tem propiciado um aumento espantoso da produtividade, tanto das culturas quanto dos animais, reduzindo bastante a pressão sobre a expansão das fronteiras agrícolas, da destruição das florestas e da biodiversidade em geral.
Muita gente confunde a agroecologia com as práticas enfatizadas pela agricultura regenerativa. Nesta, a ênfase representa “um sistema agrícola que busca recuperar a saúde do solo e restaurar os ecossistemas, em vez de apenas reduzir o impacto ambiental. Ela se baseia em práticas como o não revolvimento do solo, a rotação de culturas e a integração de lavoura, pecuária e floresta (ILPF) para aumentar a biodiversidade, a resiliência e a fertilidade do solo. O objetivo final é um sistema mais produtivo e sustentável que também contribua para o combate às mudanças climáticas”. Tais práticas têm sido utilizadas tanto por médias quanto por grandes propriedades, mas ainda não são consideradas práticas amplamente adotadas pelos grandes proprietários.
Enquanto isso, a agroecologia “é um campo multidisciplinar que busca desenvolver uma agricultura sustentável, integrando conhecimentos científicos, saberes tradicionais e práticas sociais para harmonizar a produção de alimentos com a proteção ambiental, a justiça social e a eficiência econômica. Ela promove a autonomia dos produtores, principalmente da agricultura familiar, através do uso de técnicas como a adubação orgânica, a ausência de organismos geneticamente modificados, de agrotóxicos, resultando em alimentos orgânicos, mais saudáveis e resistentes às mudanças climáticas, ao mesmo tempo que valoriza a biodiversidade e o bem-estar das comunidades”.
Recentemente, a FAO, agência da ONU responsável pelas questões da agricultura e da alimentação, em uma publicação intitulada Os dez elementos da agroecologia: um guia para a transição para sistemas agrícolas sustentáveis e de produção de alimentos, enfatizou que a agroecologia não é algo recente, como muitos podem imaginar, mas vem sendo desenvolvida, conforme relatos e estudos publicados desde a década de 1920, ou seja, há pouco mais de 100 anos, e no Brasil este sistema está em franca expansão, principalmente na agricultura familiar e na agricultura urbana e periurbana.
Os dez elementos que representam os fundamentos para o desenvolvimento e fortalecimento da agroecologia, conforme o documento da FAO, são os seguintes: 1) diversidade e diversificação de culturas, oposto às monoculturas, espinha dorsal do agronegócio; 2) compartilhamento social do conhecimento e práticas inovadoras naturais; 3) sinergia como base do sistema produtivo; 4) sistema produtivo de alta eficiência e racionalidade; 5) uso da reciclagem e da economia circular, para melhor aproveitamento dos fatores de produção e dos custos sociais e ambientais; 6) maior resiliência das pessoas envolvidas, das comunidades e dos ecossistemas; 7) respeito aos valores humanos e sociais, do conhecimento popular tradicional e ancestral, da equidade e da vida; 8) respeito aos hábitos e culturas envolvidas; 9) governança responsável e sistemas alimentares sustentáveis; 10) integração da economia circular com a economia solidária e a inclusão social, econômica e política da agricultura familiar. Enfim, empoderamento dos envolvidos com tais práticas.
Conforme nota do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, “neste 3 de outubro, celebramos o Dia Nacional da Agroecologia, data em homenagem à engenheira agrônoma e escritora Ana Maria Primavesi. A data destaca a relevância da agroecologia tanto para a saúde da sociedade quanto para a saúde do planeta. A agroecologia é um modelo de produção que vai além da agricultura tradicional, promove práticas sustentáveis, sem o uso de agrotóxicos e com foco na harmonia entre a produção e a natureza”.
Como reconhecimento público da caminhada, das lutas e conquistas da agroecologia, o Congresso Nacional aprovou a Lei 13.565, criando o DIA NACIONAL DA AGROECOLOGIA, sancionada pelo Presidente Michel Temer em 21 de dezembro de 2017, que estabelece o seguinte: “Art. 1º Fica instituído o Dia Nacional da Agroecologia, a ser comemorado, anualmente, no dia 3 de outubro. Art. 2º O poder público federal, em parceria com os poderes públicos estaduais, municipais e entidades da sociedade civil, realizará, na data a que se refere o art. 1º desta Lei, campanhas de esclarecimento da população sobre a agroecologia e a produção orgânica. Art. 3º Fica instituído o Prêmio Nacional de Agroecologia ‘ANA PRIMAVESI’, a ser concedido pelo poder público federal às organizações e pessoas da sociedade civil, parlamentares e autoridades públicas que se destacarem no desenvolvimento da agroecologia e da produção orgânica e no seu apoio”.
O Dia Nacional da Agroecologia celebra um modelo de produção agrícola sustentável, que utiliza os recursos naturais de forma inteligente e sem químicos, agrotóxicos ou transgênicos, estimulando a produção orgânica, promovendo a saúde, preservando a biodiversidade e o fortalecimento da economia rural através da economia solidária.
Como mecanismo para o fortalecimento da agricultura familiar em geral e da agroecologia em particular, o Governo Federal anunciou em julho último estar destinando R$ 89 bilhões, destacando a ampliação do crédito rural, juros negativos para a produção de alimentos e mecanização e linhas novas para irrigação sustentável, quintais produtivos para mulheres rurais e transição agroecológica.
Em agosto último (2025), conforme amplamente noticiado pela imprensa, foi realizada a 22ª Jornada de Agroecologia no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná, tendo recebido mais de 30 mil visitantes, o que demonstra a importância e o papel da agroecologia na soberania alimentar e no combate à crise climática.
Lema da agroecologia: produzir em harmonia com a natureza, com respeito à saúde humana, com fraternidade e fortalecer a economia solidária.
Vida longa para a agroecologia, no Brasil e no mundo todo.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulista da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
NOSSOS RIOS ESTÃO MORRENDO - Juacy da Silva
****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
JUACY DA SILVA*
“Não aprisionem nossos rios, deixem que suas águas límpidas e cheias de vida deslizem suave e livremente e sigam seus destinos.” Provérbio de diversos povos ancestrais, ditos e repetidos por muitas gerações ao longo de milênios.
Quanta sabedoria e conhecimento da dinâmica da natureza estão contidos nessas palavras milenares, mas que há séculos, principalmente nas últimas décadas, têm sido desprezadas pelos amantes do “progresso” a qualquer preço e pelos defensores dos paradigmas tecnocráticos, como bem nos alertou o Papa Francisco ao publicar a Encíclica Laudato Si, demonstrando a importância da Ecologia Integral e sua máxima de que “tudo está interligado, nesta Casa Comum”, o nosso planeta Terra.
As águas e os rios (e também os córregos, seus afluentes) para os povos ancestrais, primitivos e também para diversos grupos religiosos na atualidade têm um sentido sagrado. Vemos, por exemplo, que João Batista batizou Jesus nas águas do Rio Jordão, na Galileia, hoje em território conflagrado da Síria, Líbano, Jordânia, Israel e Palestina, que no momento têm sido submetidos a um verdadeiro genocídio.
De forma semelhante, o Rio Ganges, na Índia, ainda hoje é considerado um rio sagrado pelos hindus, que o utilizam para suas práticas religiosas com muita frequência e também em ocasiões especiais.
Todos os povos indígenas das Américas, principalmente da América Latina, com destaque para aqueles da Pan-Amazônia, consideram os rios e todas as fontes de água como algo sagrado que, além de proporcionar alimentos (diversas variedades de peixes), também fazem parte de seus rituais sagrados.
Diversos outros grupos religiosos em todos os países e continentes têm pelos rios e pelas águas um respeito sagrado, razão pela qual defendem tenazmente os mesmos. Em 2004, por exemplo, a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica, sob a coordenação da CNBB, teve como lema “Água, fonte de vida”, cujo objetivo era conscientizar a sociedade sobre a água como um direito humano e um bem comum, além de destacar a importância da água, alertando sobre a crise hídrica e promovendo a gestão sustentável dos recursos hídricos.
À medida que o chamado “progresso” a qualquer preço foi se desenvolvendo no mundo inteiro, a começar pelo “velho mundo”, a Europa, e ao longo dos últimos dois ou três séculos em outros continentes e países, a falta de cuidado com o meio ambiente em geral e com os rios e outras fontes de água em particular, inclusive grandes lagos, mares e oceanos, bem como os solos e o ar, passou a ser o destino de todas as formas de degradação. Principalmente com poluentes químicos, agrotóxicos, lixo e esgotos in natura (sem qualquer tratamento), contribuindo para a deterioração da qualidade das águas dos rios, afetando principalmente a saúde humana e de outros animais.
Ao longo das últimas cinco décadas, todas as bacias hidrográficas brasileiras têm experimentado diversas crises, afetando tanto os sistemas produtivos, como a produção agropecuária, a geração de energia e também, o que é mais grave, o abastecimento humano. Inclusive nas grandes regiões metropolitanas, com destaque para a chamada “Grande São Paulo”, onde vivem mais de 21 milhões de pessoas, que se viram privadas de água há alguns anos e ainda sofrem com este fantasma nos dias atuais.
Apesar dos alertas e reflexões da Campanha da Fraternidade em 2004, a pior crise, por exemplo, na Área Metropolitana de São Paulo, aconteceu em 2014, conforme notícia estampada nos diversos meios de comunicação: a situação beirou os limites do desespero das pessoas.
Conforme matéria da Agência Brasil em 24 de dezembro de 2014, em artigo intitulado “São Paulo sofreu a sua pior crise de sua história em 2014”, de autoria da jornalista Fernanda Cruz: “O Alto Tietê contava com 46,3% da capacidade em 1º de janeiro de 2014 e, com a ajuda que prestou ao Cantareira, aliado à estiagem, estava com 4,4% da capacidade no dia 10 de dezembro”.
No Brasil, o Rio Tietê e outros como o Tamanduateí e o Pinheiros, que formam sua bacia na área da Grande São Paulo, bem como em diversos trechos de seu percurso de 1.150 km até desaguar no Rio Paraná, ainda hoje e a cada ano com mais frequência encontram-se totalmente poluídos. Foi transformado no maior esgoto a céu aberto da América Latina, o que não deixa de ser uma contradição com a opulência econômica de que tanto se jacta aquele estado, considerado a “locomotiva econômica” do Brasil.
Os rios que formam todas as bacias hidrográficas brasileiras, incluindo a Bacia Amazônica, a do Paraná/Paraguai, a do São Francisco, a do Parnaíba, a do Araguaia/Tocantins, estão todos correndo risco, em processo acelerado de degradação e morte.
Diversos fatores têm contribuído e continuam contribuindo para este processo, dentre os quais podemos destacar a crise climática, que tem afetado sobremaneira o regime de chuvas, ora provocando secas prolongadas, ora provocando inundações imensas, ambas exercendo pressão sobre os sistemas produtivos e também sobre a população. Fruto dessas mudanças, nos últimos anos temos presenciado, por exemplo, secas imensas que têm afetado rios caudalosos, com vários km de largura e profundos calados, como os rios Madeira, Solimões, Negro, Paraguai, São Francisco e também o Paraná. Esses rios vêm sendo afetados pela seca, o que impede a navegação e provoca sérios transtornos para a população em geral e para diversos setores econômicos em particular.
Outro fator que também tem afetado a natureza dos rios em todos os biomas brasileiros, mas principalmente nos biomas do Cerrado, da Amazônia e do Pantanal, tem sido o desmatamento desenfreado, as queimadas e também o uso de agrotóxicos, além da destruição das nascentes.
A expansão das fronteiras agrícolas e o uso intensivo do solo têm provocado muita erosão, cujos solos são carreados para todos os cursos d’água que, ao lado das atividades de mineração, dos garimpos ilegais — ainda muito frequentes e impunes em diversas partes dos estados —, bem como a dragagem dos rios para a retirada de areia para a construção civil e a pesca predatória, têm contribuído para a morte de nossos rios.
A degradação e morte dos rios também afetam diretamente o volume de águas subterrâneas, os chamados “aquíferos”, que paulatinamente perdem sua importância para o futuro das águas no planeta.
Para muitos setores, os rios e suas águas são considerados “insumos” ou mercadoria a ser explorada como fonte de renda e lucro, como nos casos do abastecimento urbano e da produção de energia elétrica, onde tanto as grandes barragens quanto as Pequenas Centrais Hidrelétricas simplesmente provocam danos ambientais imensos, afetando inclusive a vida de populações ribeirinhas e povos tradicionais.
Além desses impactos na vida dessas populações, a utilização dos rios para produção de energia também acarreta prejuízos para a fauna ictiológica. As barragens afetam negativamente a fauna ictiológica ao fragmentar os habitats, interromper rotas de reprodução e migração de peixes e alterar as condições da água.
Essas construções causam a diminuição de espécies nativas e a proliferação de espécies exóticas, o que leva à perda de biodiversidade e pode afetar o sustento das comunidades, como tem sido constatado em todas as bacias hidrográficas onde têm sido construídas barragens para a produção de energia elétrica.
Que o digam milhares de famílias que participam da luta do MAB — Movimento dos Atingidos por Barragens —, cujo drama é bem conhecido por inúmeras matérias há décadas nos meios de comunicação.
Em matéria publicada no site Mongabay, de 8 de julho de 2016, intitulada “Mais de 400 barragens poderão causar danos irreparáveis na ecologia da Amazônia”, podemos ler o seguinte: “Atualmente existem 412 barragens hidrelétricas principais a funcionar, em construção ou planejadas para a bacia do Amazonas ou nas suas nascentes, informou, em abril, o periódico londrino The Guardian. Esses planos acabarão por trazer o ‘fim dos rios livres’, contribuindo, provavelmente, para o ‘colapso do ecossistema’.”
Das 412 barragens, 256 encontram-se no Brasil, 77 no Peru, 55 no Equador, 14 na Bolívia, seis na Venezuela, duas na Guiana e uma na Colômbia, na Guiana Francesa e no Suriname, refere o antropólogo Paul Little, autor de um recente estudo intitulado Mega-Development Projects in Amazonia. Little afirma que 151 das barragens envolvem cinco dos seis principais afluentes andinos que desaguam no canal principal do Amazonas.
Em Mato Grosso, a construção ou planos de construção de PCHs — pequenas centrais hidrelétricas — em diversos rios que alimentam o Pantanal, no total mais de 130, significa que a vazão desses rios onde serão ou se pretende construir tais barragens afetará não apenas o curso livre desses rios, mas também contribuirá para a redução do estoque de água no Pantanal.
Isso pode levar o Pantanal a secar e até mesmo desaparecer a longo prazo, transformando-o em uma região totalmente imprópria para qualquer atividade econômica, afetando dezenas de milhares de habitantes.
As mudanças climáticas, a degradação e morte dos diversos cursos d’água têm provocado, por exemplo, o desaparecimento dos chamados “rios voadores”, que levam umidade e chuvas para as regiões Sul e Sudeste, afetando o clima dessas regiões.
Finalmente, outro fator não menos importante que está provocando a degradação e a morte de nossos rios tem sido a poluição urbana e industrial, principalmente muito lixo, esgoto in natura e também rejeitos químicos danosos para a saúde humana.
A degradação e morte dos rios no mundo inteiro e também no Brasil são desafios que não podem estar de fora de nossas reflexões e precisam fazer parte da pauta das discussões políticas. Principalmente na definição de políticas públicas, pois esses desafios afetam negativamente não apenas a vida de ribeirinhos, povos tradicionais, agricultores familiares, mas também setores produtivos, como o agronegócio, a mineração, o transporte e a logística, inclusive o comércio interno e internacional.
Na Amazônia Legal, os rios representam a maior malha “viária”, substituem as estradas que não existem, transportam pessoas, mercadorias e também são fontes de alimentação para dezenas ou centenas de milhares, enfim, milhões de pessoas que vivem naquela região. Razões mais do que suficientes para que esta questão seja incluída nos assuntos que tramitam no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras de Vereadores por este Brasil afora, em lugar de projetos de leis que dizem respeito apenas a alguns grupos privilegiados ou aos donos do poder.
Gostaria de compartilhar uma frase do Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si, sobre as águas. Afinal, quando falamos dos rios estamos falando de água e de sua importância para a vida humana em todas as dimensões: “A água não é mercadoria e não pode ser objeto de desperdício ou abuso ou motivo de guerra, mas deve ser preservada para nosso benefício e para as gerações futuras”.
Esta deve ser a nossa reflexão e ação neste DIA MUNDIAL DOS RIOS e ao longo do ano todo e de todos os anos: defender os nossos rios é defender a ecologia integral e defender todas as formas de vida, especialmente a vida humana. Sem rios não existe água e sem água não há vida!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
Juacy da Silva*
“A comida que jogamos no lixo é tirada, injustamente, das mãos de quem não tem e dos que têm direito ao pão de cada dia, em virtude da sua inviolável dignidade humana”. Papa Francisco, mensagem lida na Assembleia da FAO (Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), por Dom Fernando Chica Arellano, Observador Permanente da Santa Sé junto às organizações da FAO, FIDA e PMA, por ocasião do “Dia Internacional da Consciencialização sobre Perdas e Desperdício Alimentar”, 30 de setembro de 2023.
O Calendário Ecológico neste final de setembro nos convida a refletirmos sobre dois assuntos, temas super importantes tanto para a Ecologia Integral quanto para a vida de milhões, de bilhões de pessoas que são pobres, passam fome, são subalimentadas, desnutridas e também experimentam os rigores das mudanças climáticas e a degradação da natureza, a poluição do ar, dos solos e das águas, em todos os países, inclusive em nosso amado Brasil.
Refiro-me ao DIA INTERNACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE A PERDA E DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS, ou o que poderíamos denominar de DESPERDÍCIO ZERO, e também ao DIA MUNDIAL DOS RIOS, ambos a serem celebrados nesta segunda-feira, 29 de setembro de 2025.
Quando falamos sobre perdas e desperdício de alimentos, o objetivo principal deste despertar da consciência coletiva é sensibilizar as pessoas para que esta realidade possa ser mudada radicalmente, pois tanto as perdas de alimentos, que estão presentes desde a colheita, o transporte, a logística, o armazenamento e, pior ainda, em nossas casas, nos restaurantes, enfim, em todos os locais onde os alimentos estejam presentes, quanto a insensibilidade em relação a quem tem fome é algo que não deveria existir em nossas sociedades e países.
O tema deste Dia Internacional de Conscientização sobre os impactos que as perdas e o desperdício de alimentos, em 2025, provocam é: “Vamos parar com as perdas e o desperdício alimentar, pelas pessoas e pelo planeta.”
O Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos foi proclamado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 19 de dezembro de 2019, através da Resolução n.º 74/209, com o objetivo de aumentar a conscientização sobre o desperdício alimentar, promover a segurança alimentar e a sustentabilidade dos sistemas alimentares. A data escolhida para a celebração foi 29 de setembro, tendo a primeira celebração oficial ocorrido no ano de 2020.
É importante recordar que a ONU, em 2015, quando definiu os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, estabeleceu nos ODS 1 (Erradicação da Pobreza), ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis e Sustentáveis), sendo que a meta 12.3 é reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita, tanto por parte dos consumidores quanto dos que participam do processo produtivo e de toda a cadeia produtiva de alimentos, como parte da Agenda 2030.
Além disso, ao combater as perdas e o desperdício de alimentos, de forma direta ou indireta, estaremos sensibilizando a população em geral em todos os países e, ao mesmo tempo, promovendo a segurança alimentar e garantindo a sustentabilidade ecológica, tendo em vista que, para produzir alimentos, os sistemas produtivos precisam ocupar áreas, solos, água, energia, mão de obra e outros insumos utilizados na cadeia produtiva até chegar ao consumidor final.
As perdas acabam se transformando em resíduos sólidos, ou seja, lixo, e também provocam danos ambientais, pois nem sempre essas perdas, este lixo, têm a destinação correta e acabam gerando degradação em diversas localidades, afetando inclusive a saúde humana.
A FAO, uma agência especializada da ONU para assuntos de agricultura e alimentação, estima que aproximadamente um terço de todos os alimentos produzidos no mundo não chegam às mesas de quem precisa e vão parar no lixo.
De acordo com outra agência da ONU, o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente –, em seu relatório de 2024, tendo como base os dados de 2022, naquele ano, e também em anos anteriores, nada menos do que 1,05 bilhão de toneladas métricas de alimentos foram parar no lixo. Isto seria o suficiente para mais de um bilhão de refeições diárias e poderia alimentar mais de um bilhão de pessoas o ano inteiro.
O valor estimado dessas perdas e desperdício no mundo, em 2024, foi de US$ 3,5 trilhões de dólares, ou seja, em torno de R$ 19,5 trilhões de reais (este valor, se fosse o PIB de um país, seria a 6ª maior economia do planeta). O mais grave é que 60% dessas perdas e desperdício ocorrem nas residências e os 40% restantes nos demais elos da cadeia produtiva e distribuidora.
Enquanto isso, ainda de acordo com dados recentes da ONU, divulgados pela imprensa mundial em 28 de julho último, em 2024 estimava-se que 8,2% da população mundial, em torno de 673 milhões de pessoas – a maioria crianças, adolescentes, idosos e idosas – passavam e continuam passando fome, o que é uma enorme contradição em relação a quem não consegue se alimentar com dignidade humana.
No Brasil, país que tanto se orgulha de sua grande, enorme produção de grãos, que todos os anos tem batido recordes de produção e exportação e se vangloria de “alimentar o mundo”, até recentemente figurava no MAPA DA FOME DA ONU e, pela segunda vez, no atual Governo Lula – um presidente obcecado pelo combate à fome, com certeza pela sua origem de pobre e retirante nordestino que já experimentou a fome – conseguimos sair deste triste mapa.
Em 2019 o Brasil voltou a entrar no Mapa da Fome e, em 2022, no último ano do Governo Bolsonaro, cerca de 33 milhões de brasileiros estavam em situação de fome ou insegurança alimentar, tendo sido reduzida esta triste estatística para 2,5% da população (quase três milhões de pessoas) e saído do referido mapa, conforme relatório da FAO há poucos meses.
Por exemplo, enquanto em Cuiabá, capital do paraíso do agronegócio, havia “a fila dos ossinhos”, o volume do desperdício e das perdas de alimentos no Brasil era de aproximadamente 40 milhões de toneladas por ano de comida que ia e continua indo parar no lixo, uma verdadeira desumanidade em face da fome que ainda está presente e castiga milhões de famílias pobres e excluídas em todos os Estados, capitais e inúmeras cidades neste imenso país.
Todavia, se considerarmos o indicador “insegurança alimentar”, a situação do Brasil ainda é extremamente precária. Conforme dados mais recentes da PNAD Contínua Segurança Alimentar 2023, divulgada em 2024, nas regiões Norte e Nordeste 40% estão vivendo em insegurança alimentar, enquanto na Região Sul é de 17%, no Sudeste de 23% e no Centro-Oeste 25%. Ou seja, a fome e a insegurança alimentar ainda estão bem presentes em nosso país, mesmo que tenhamos saído do Mapa da Fome, enquanto continuamos a observar que também as perdas e desperdício de alimentos fazem parte de nossa realidade.
Em setembro de 2024, o PACTO CONTRA A FOME lançou uma campanha, utilizando diversos meios de comunicação, com o objetivo de sensibilizar a população brasileira e também as autoridades em todos os poderes e níveis de governo, cujo slogan reflete a gravidade deste assunto: “COMIDA BOA É NA BOCA (DAS PESSOAS QUE TÊM FOME) E NÃO NA BOCA DO LIXO”, como acontece no Brasil e praticamente em todos os demais países, inclusive nos “desenvolvidos”, como nos EUA, na Europa, no Japão e em outros lugares onde também existem pobres e gente passando fome.
O enfrentamento da questão da fome e da insegurança alimentar passa, necessariamente, tanto pelo combate às perdas e desperdício de alimentos quanto também pelo fortalecimento das redes de solidariedade e fraternidade, como recentemente a CARITAS BRASILEIRA, cujo presidente é Dom Mário Antônio, Arcebispo de Cuiabá, que está promovendo uma parceria com o Governo Federal para implementar o projeto Cozinhas Solidárias, da mesma forma que inúmeras outras organizações não governamentais, a maioria das quais vinculadas a diversas Igrejas cristãs e de outras religiões.
Todavia, este combate não pode se ater apenas a uma dimensão assistencialista, manipuladora, mas sim a um processo educativo, principalmente estimulando sistemas e projetos de economia solidária, substituindo os paradigmas assistencialistas por outros de uma caridade promocional e libertadora, como tanto tem enfatizado a CARITAS.
Outro aspecto importante é o trabalho educativo e de assistência técnica e estímulo à economia solidária junto aos agricultores familiares, tanto para evitar as perdas e desperdício, quanto para a produção agroecológica, evitando os agrotóxicos tão nocivos ao meio ambiente e à saúde humana.
Para não me alongar demasiadamente, deixo para um outro momento, próximo, a reflexão que gostaria de fazer em torno da situação dos rios, também tão importante, que é o DIA MUNDIAL DOS RIOS, a maioria dos quais, inclusive no Brasil, como o Tietê em São Paulo e o Cuiabá, em Mato Grosso, juntamente com milhares de córregos, já se transformaram em esgotos e lixões a céu aberto, afetando terrivelmente dezenas de milhões de famílias em nosso Brasil.
A perda e o desperdício de alimentos, a fome, a insegurança alimentar, a pobreza, a degradação de nossos rios e córregos, a falta de moradia popular e as “habitações sub-humanas”, a falta de saneamento básico e tantos outros fatores que provocam a exclusão de praticamente 70% da população brasileira são desafios que nossas autoridades e lideranças civis não podem postergar.
Defender a democracia, a soberania popular, a soberania e a independência nacionais não deve ser apenas slogans vazios, mas realidade transformada em políticas públicas nos três níveis de governo – federal, estaduais e municipais – e nos três poderes da República, que enfrentem esses desafios mencionados e outros tantos que nos envergonham muito.
Como sempre dizia o Papa Francisco: “Tudo está interligado”. Nesta Casa Comum, só assim vamos avançar rumo a um país e a uma sociedade em que a justiça, a igualdade/equidade, a inclusão, a solidariedade e o bem comum prevaleçam sempre!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
JUACY DA SILVA*
“Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz; onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver discórdia, que eu leve a união; onde houver dúvida, que eu leve a fé; onde houver erro, que eu leve a verdade; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver tristeza, que eu leve a alegria; onde houver trevas, que eu leve a luz! Ó Mestre, fazei que eu procure mais: consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna!” Oração de São Francisco de Assis.
“São Francisco de Assis pode ser considerado um profeta por seu retorno radical ao Evangelho, vivendo a pobreza e a fraternidade com os mais necessitados, o que o tornou um "anti-sistema" que confrontou a riqueza e a indiferença de sua época. Sua vida foi um anúncio profético do Reino de Deus, onde os pobres e oprimidos são os primeiros a serem abraçados, e sua preocupação com os animais, a natureza e todo o universo o configuram como um profeta da vida e do cuidado com a "Casa Comum”. Por isso, é também o Santo protetor dos animais, o defensor da natureza e o Patrono/padroeiro da Ecologia Integral.
Para os cristãos — católicos romanos, ortodoxos e evangélicos — Deus falou no passado, em diferentes momentos da história, e continua falando no presente à humanidade, através dos profetas, de suas vozes, de suas atitudes, de seus comportamentos, de seus estilos de vida e de suas ações.
O único problema é que, tanto no passado quanto no presente, nós, a humanidade, teimamos em não ouvir a voz de Deus pelos profetas que ainda existem entre nós, muitos deles verdadeiros mártires que lutam ao lado dos pobres, oprimidos e excluídos.
Os profetas eram e são homens e mulheres que viveram e vivem em profunda comunhão com a Divindade, Deus, o Criador, e não fazem adivinhações quanto ao futuro, mas sim, são pessoas extremamente “enraizadas” em seus tempos históricos e seus territórios, pessoas de carne e osso, muitas das quais também realizaram diversos milagres reconhecidos pela Igreja e também pela ciência, razão pela qual foram e continuam sendo canonizadas, ou seja, tornando-se Santos e Santas, como São Francisco de Assis.
Profetas são pessoas que, diante das maldades humanas, das injustiças sociais, econômicas e políticas, transmitem às demais pessoas, às nações e sociedades o desapreço divino em relação ao que a humanidade, principalmente os poderosos, os chamados “donos do poder” e seus apoiadores, os donos do capital, das riquezas e das rendas, infligem de injustiças e violência aos humildes, aos pobres, aos excluídos em cada momento histórico e em cada território.
Muitas vezes, o profetismo não é exercido pela palavra, mas pelo exemplo de uma vida que foge aos padrões de ostentação ou de exploração do povo. É por isso que os profetas, além de denunciarem as práticas injustas e pecaminosas das pessoas, também anunciam as boas novas, ou seja, coerentes com a ideia de que não basta denunciar o que está errado, mas o mais importante é, também e principalmente, apontar o caminho ou os caminhos que levem a um mundo melhor, um mundo onde reine a fraternidade, a solidariedade, a equidade, a justiça, a inclusão, a dignidade humana, a cidadania e o respeito pelos direitos humanos em sua plenitude. Enfim, a sociedade do bem viver ou a terra sem males.
Diante desses parâmetros é que eu gostaria de situar São Francisco de Assis, o protetor dos animais, o defensor da natureza e o visionário da ecologia integral; por isso, além de Santo, também podemos considerá-lo um profeta que, principalmente pelo seu exemplo, seu estilo de vida, sua maneira bastante “esdrúxula” de observar e tentar entender o universo como obra da Criação de Deus — a natureza, todos os seres vivos, animais e plantas — demonstrava que, ao assim viver, estaria fazendo a vontade do Criador e abrindo caminho para que todas as obras da criação sejam entendidas como criadas e pertencentes a um mesmo princípio criador. Razão pela qual a todas as obras da criação o jovem Francisco de Assis as chamava de irmão e irmã (irmão sol, irmã lua, irmão lobo, irmão rouxinol... como na música Cantiga por Francisco, do Padre Zézinho), já que somos uma grande família e temos um mesmo Pai.
Giovanni di Pietro di Bernardoni, depois São Francisco de Assis, nasceu na cidade de Assis, na Itália, no dia 5 de julho de 1182 e, bastante doente, debilitado, assistido pelos discípulos, irmãos e irmãs de caminhada, faleceu com apenas 44 anos de idade em Assis, Itália, no dia 3 de outubro de 1226. Dois anos depois de sua morte, ele foi canonizado pelo Papa Gregório IX, tornando-se São Francisco de Assis.
Em um determinado momento de sua vida, ao ouvir a “voz de Deus” dizendo-lhe para reformar a sua Igreja, no início imaginou que seria uma reforma física de uma determinada igrejinha na Itália do século XII, e foi assim que ele fez.
Mas, na verdade, a reforma da Igreja que Deus estava falando para o jovem Francisco de Assis não era uma reforma física, mas uma reforma moral, uma reforma ética, uma reforma espiritual, contra uma Igreja que vivia (e em certo sentido ainda vive) na opulência, abraçada com os donos do poder, com os poderosos, apesar de dizer-se uma Igreja que faz a opção preferencial pelos pobres.
E por falar em pobres, São Francisco de Assis era de origem de uma família rica, abastada, que abandonou todas as benesses que poderia ter usufruído e vivido com seus pais e demais parentes, e optou, de forma profética, por uma mudança radical: passou a viver na pobreza, junto aos pobres e também junto aos animais, em permanente contato com a natureza, demonstrando que Deus ama verdadeiramente os pobres e caminha com eles, enfrentando todos os dissabores e injustiças que sofrem cotidianamente.
Uma coisa é sermos solidários com os pobres, os famintos, os injustiçados, os sem-teto, os sem-terra, os sem-comida, os sem-direitos, os sem-liberdade, os abandonados, os que sofrem discriminação e preconceitos, as pessoas que sofrem violência de toda ordem — enfim, quem vive nas periferias físicas e existenciais — mas apenas por palavras; outra coisa, bem diferente, diametralmente oposta, é estarmos ao lado, caminharmos juntos e juntas com quem vive na pobreza e sofre as agruras da vida, enfim, tudo o que nós sabemos e vemos que sofrem, como fazia o jovem Francisco de Assis.
Depois de sua conversão e de ter abandonado a vida luxuosa em que vivia sua família, para dedicar-se inteiramente à caminhada ao lado e com os pobres, principalmente doentes, inclusive leprosos, em 1208 pediu autorização ao Papa para fundar uma irmandade mendicante.
Em 1219 estava fundada a “Ordem dos Irmãos Mendigos de Assis”, que se instalou em cabanas no alto dos montes e no interior das cavernas, renunciando a qualquer forma de propriedade e tendo uma vida em comum, como nas comunidades cristãs primitivas.
Conforme relato de Dilva Frasão, sobre a biografia de São Francisco de Assis: “Em 1215, no intuito de resguardar a autoridade papal, o Concílio de Latrão reconheceu a 'Ordem dos Irmãos Menores de Assis’. O Cardeal Ugolino foi designado 'protetor' da Ordem. Francisco consentiu repartir seus discípulos em dois grupos para seguir em peregrinação pelo mundo para disseminar o sentimento da fé cristã e converter os infiéis. Durante a peregrinação, os franciscanos tiveram seus primeiros martírios, quando cinco discípulos foram mortos em Ceuta pelos muçulmanos, pois recusaram sua conversão. Francisco de Assis embarcou para a Terra Santa, onde foi aprisionado e levado ao sultão. Para mostrar a superioridade da fé cristã, Francisco andou sobre brasas e imediatamente foi libertado”.
No mesmo relato, Dilva Frasão menciona um pouco da história primitiva dos franciscanos quando enfatiza que: “Em 1220, Francisco de Assis voltou para a Itália e encontrou uma cisão no movimento (franciscano). Alguns discípulos, pressionados por Ugolino, preconizaram uma reforma com novas 'regras', menos severas quanto ao voto de pobreza.
Em 1221, Assis apresentou um texto com a nova 'Regra' para a ordem: 'Observar o Santo Evangelho, viver da obediência, da castidade e não possuir absolutamente nada e só dividir a pobreza’.
O texto foi recusado pelo cardeal Ugolino. Em 1223, o texto foi retocado e finalmente aceito pelo Papa Honório III. Naquela ocasião, os franciscanos perderam muitos dos traços que os distinguiam originariamente.
Um fato curioso foi a inspiração que Francisco de Assis exercia em relação à sua amiga Clara, depois também canonizada como Santa Clara. Ambos devotaram suas vidas aos pobres e excluídos. Costuma-se dizer que São Francisco de Assis foi o mentor ou "pai espiritual" de Santa Clara de Assis.
Quase oito séculos depois de sua morte e canonização, São Francisco de Assis também inspirou o cardeal Jorge Mário Bergoglio que, ao ser eleito Papa, em 13 de março de 2013, escolheu o nome de Francisco, tendo como motivação a vida piedosa, voto de pobreza, defensor dos pobres, dos animais e da ecologia integral.
Inspirando-se em São Francisco de Assis, o Papa Francisco tornou-se um novo profeta da ecologia do século XXI, ao publicar a Encíclica Laudato Si e as Exortações Querida Amazônia e Laudate Deum; ao criar o Dia Mundial dos Pobres, instituído pela Carta Apostólica Misericordia et Misera, publicada em 20 de novembro de 2016, ao fim do Jubileu Extraordinário da Misericórdia e celebrado no 33º Domingo do Tempo Comum de cada ano (neste ano em 16 de novembro de 2025), com o objetivo de motivar a Igreja Católica e demais igrejas cristãs e as sociedades no mundo inteiro a reconhecerem que o amor de Cristo pelos pobres é algo fundamental para construirmos um mundo melhor.
Outra proposta do Papa Francisco, inspirada em São Francisco de Assis, é a substituição dos paradigmas que sustentam a economia da morte, característica dos atuais sistemas econômicos que não respeitam nem a natureza, nem os direitos dos trabalhadores, dos consumidores e nem das futuras gerações, por novos paradigmas que sejam os alicerces de uma economia da vida, da agroecologia e da economia solidária e circular, a chamada Economia de Francisco e Clara, em alusão a São Francisco de Assis e Santa Clara de Assis.
Estamos nos aproximando do término do Tempo da Criação e também do dia dos animais, dia da natureza e também dia de São Francisco de Assis, em 4 de outubro próximo, razão mais do que suficiente para celebrarmos também a figura deste Santo dos pobres, dos animais, padroeiro da Ecologia Integral e profeta de uma Igreja em saída, missionária, samaritana e sinodal.
Nesses tempos tão difíceis em que o mundo está vivendo, em meio a tantas guerras, genocídio, violência, ódio, fome, pobreza, degradação ambiental, crise climática e tantos outros males, qual seria a mensagem, por palavras e ações, que nos daria o jovem Francisco de Assis? Certamente, um mundo de paz, com justiça, equidade, solidariedade, sustentabilidade e muito amor aos nossos próximos, principalmente aos pobres!
Oxalá possamos refletir sobre a vida, a obra e os sonhos de Francisco de Assis (ele também sonhava com um mundo melhor), tendo como carisma o que ele expressava por seu estilo de vida, pelo exemplo, pelas palavras de sua oração transcritas no início desta reflexão! Paz e Bem!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. Email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. Instagram @profjuacy
****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
Juacy da Silva*
“Os nossos avós foram e são para nós exemplos de fé e de devoção, de virtudes cívicas e compromisso social, de memória e perseverança nas provações; os idosos são as primeiras testemunhas de esperança; a velhice é um tempo de bênção e de graça; a fragilidade dos idosos precisa do vigor dos jovens e a inexperiência dos jovens precisa do testemunho e exemplo dos idosos para projetar um futuro com sabedoria”. Papa Leão XIV, mensagem para o V DIA Mundial dos Avós e dos Idosos em 27 de julho de 2025.
Ontem recebi um vídeo da manifestação que ocorreu na Av. Paulista, em São Paulo, contra a PEC da Bandidagem/Blindagem, que, se aprovada, transformará o Congresso Nacional em reduto de criminosos e bandidos de todas as espécies, enquanto as demais pessoas serão cidadãos e cidadãs de segunda classe perante o sistema Judiciário brasileiro, abolindo o preceito constitucional de que “todos/todas são iguais perante a lei” e, também, um grande protesto contra o Projeto de Lei, o PL da Anistia aos golpistas do 8 de Janeiro de 2023, alguns já condenados e outros ainda a serem condenados.
Durante praticamente 10 anos, desde 2014, quando a direita e a extrema-direita tomaram as ruas e avenidas do Brasil participando das pressões que redundaram na derrubada da presidente Dilma, legitimamente eleita e reeleita pelo povo, passando pela eleição e os quatro anos terríveis do governo Bolsonaro, até o 08 de janeiro de 2023, quando da destruição da Praça dos Três Poderes, parecia que as forças de esquerda haviam desaparecido do cenário político, institucional e eleitoral do Brasil.
Todavia, parece que os ataques ao Judiciário, principalmente contra o STF e seus integrantes, e também as pressões internacionais contra a soberania nacional e a soberania popular, e ainda um Congresso Nacional que, além de extremamente conservador, quer aumentar seus privilégios, reservando para seus integrantes um sistema de proteção para todas as formas de ação, inclusive vários tipos de crimes, que ficariam longe dos tentáculos da justiça, acabaram acordando o povo que, sem medo, de forma pacífica e ordeira, demonstrou o seu desapreço e seu repúdio com os rumos e o que está acontecendo no Congresso Nacional, que, de defensor da democracia, do Estado Democrático de Direito, da soberania nacional e popular, deseja legislar para proteger interesses menores de seus integrantes, em lugar dos interesses dos eleitores que os elegeram e dos interesses e objetivos nacionais.
O Congresso Nacional, vale dizer, a maioria conservadora de direita (Centrão) e extrema-direita, há pelo menos nas três últimas legislaturas, tem se transformado em força que tem tentado ou vem tentando “emparedar” os demais poderes: o Executivo e o Judiciário, seja através do orçamento da União, ampliando absurdamente as emendas que são gastas sem a devida transparência, como o próprio orçamento secreto, e também via aprovação de PECs – Projetos de Emendas Constitucionais, enfim, afrontando o princípio da independência e harmonia entre os poderes.
Contra tudo isso, parece que, finalmente, o povo, única fonte real de poder, acordou, e sua voz começa, novamente, a ser ouvida pelos quatro cantos deste país.
Em mais de 40 cidades de médio e grande porte, incluindo as 27 capitais, ocorreram manifestações semelhantes, com dezenas ou centenas de milhares de pessoas que se manifestaram também em defesa da democracia, da soberania popular e soberania nacional, de direitos trabalhistas, resgatando a bandeira nacional e outros símbolos que há algum tempo foram “sequestrados” pela direita e extrema-direita golpistas e entreguistas.
Em lugar de bandeiras de outros países, como tem acontecido nas manifestações da direita e extrema-direita, ontem o que podia ser visto na Avenida Paulista, em São Paulo, por exemplo, foi uma grande, imensa bandeira brasileira, com o verde e amarelo tremulando, lembrando e relembrando que “o Brasil é dos brasileiros”.
A bandeira brasileira e os símbolos nacionais pertencem ao povo brasileiro e jamais podem ser sequestrados por um partido político, por uma ideologia ou por qualquer outro segmento populacional. Afinal, independentemente de nossas predileções políticas, partidárias e ideológicas, somos todos e todas brasileiros e brasileiras, jamais inimigos internos ou inimigas internas. Este é o único caminho para a pacificação nacional.
Pelas fotos, pode-se perceber que a esquerda, vale dizer, os partidos de esquerda, os movimentos sociais, as ONGs, os sindicatos, as entidades comunitárias, os estudantes, as donas de casa, os trabalhadores e trabalhadoras, finalmente acordaram e tomaram, novamente, as ruas, praças e avenidas do Brasil.
Além dessas entidades, notamos ainda a presença de muitas pessoas idosas, cujo símbolo maior foi o pronunciamento do padre Júlio Lancelotti, nascido em 27 de dezembro de 1948, ou seja, com quase 77 anos, lá estava ele, defendendo não apenas o povo, os moradores de rua, os sem teto, sem moradia, sem comida, sem saúde, sem voz e sem voto, mas também a causa do povo palestino, vítima de um verdadeiro genocídio, onde já foram mortas 65 mil pessoas e 166 mil feridas, a grande maioria, mais de 90%, crianças, jovens e idosos, enfim, população civil indefesa, além da destruição física daquele território.
Padre Júlio Lancelotti é sacerdote católico e conhecido pelo seu trabalho com a população em situação de rua e pela promoção da dignidade e dos direitos humanos fundamentais (comida, água, abrigo, moradia, trabalho, uma nova chance, enfim, dignidade humana), demonstrando, na prática, como podemos unir fé com cidadania, com ação sociotransformadora e mobilização profética.
Da mesma forma que o padre Júlio Lancelotti, que é responsável pela Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo, milhares de pessoas idosas por este Brasil afora ainda lutam por um Brasil menos desigual, mais justo, democrático, soberano e sustentável, enfim, por um mundo melhor, a partir de cada território onde estamos.
Com certeza, diante de tantas ameaças que o Brasil e as instituições nacionais, principalmente os poderes Executivo e Judiciário, vêm enfrentando nos contextos interno e internacional, a mobilização popular é o único caminho para fortalecer as instituições nacionais, a democracia e eleger um presidente da República, governadores, Congresso Nacional e parlamentos estaduais que estejam realmente à altura das aspirações, dos interesses e dos objetivos do povo brasileiro, em que a política, a ética e a justiça, principalmente a justiça social, estejam umbilicalmente interligadas.
Finalizando, gostaria de destacar uma das primeiras mensagens do Papa Leão XIV sobre alguns dos desafios da atualidade: “A guerra e todas as formas de violência nunca são inevitáveis, as armas podem e devem silenciar, porque não resolvem os problemas, mas os aumentam; pois entrará para a história quem semeia a paz, não quem provoca vítimas; porque os outros não são inimigos a serem odiados, mas seres humanos com os quais devemos dialogar”. Papa Leão XIV.
Este foi e sempre será o sentido e o significado do povo ocupando as ruas, praças e avenidas do Brasil inteiro, pavimentando o caminho das urnas em 2026.
*Juacy da Silva, 83 anos, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
Juacy da Silva*
“Propomos definir o pecado ecológico como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente. É um pecado contra as gerações futuras e se manifesta em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, em transgressões contra os princípios da interdependência e na ruptura das redes de solidariedade entre as criaturas e contra a virtude da justiça”. Fonte: Documento Final do Sínodo dos Bispos da Amazônia, matéria publicada por Elisangela Cavalheiro, em 30/01/2024 no Portal A12.
Bom dia, amigas e amigos, ótimo, abençoado e feliz domingo, 21 de setembro, DIA DA ÁRVORE e amanhã, 22 de setembro, é o início da primavera no Hemisfério Sul (Brasil, América do Sul, boa parte da África e vários outros países) e o início do outono no Hemisfério Norte (Europa, EUA, Canadá e outros países).
A primavera representa o fim de um verão cada vez mais escaldante, de poucas chuvas, baixa umidade do ar, que afetam tremendamente a saúde humana, mas também o mês das flores, do verde, da renovação da vida, da esperança, principalmente para o meio ambiente, para a ecologia integral, um melhor cuidado com o Planeta, a nossa Casa Comum, ou seja, um tempo benfazejo.
E por estarmos no ANO DO JUBILEU, convocado pelo Papa Francisco, que ao longo de seus 12 anos de magistério nos deixou um rico legado de exortações quanto à degradação dos biomas e ecossistemas, à necessidade de a Igreja ser e estar sempre em saída, no espírito da sinodalidade e do profetismo, para caminhar junto com os pobres, oprimidos e excluídos, os mais afetados pelas consequências da degradação ambiental e da crise climática.
Sempre é bom recordarmos que o tema do Jubileu de 2025 é PEREGRINOS DA ESPERANÇA, que deve representar um período especial de graça e renovação espiritual em todas as dimensões da vida humana, inclusive na caminhada ecológica da Igreja, representada pelos fiéis e também pela hierarquia eclesiástica, principalmente quando, por coincidência, estamos também celebrando o TEMPO DA CRIAÇÃO, representado por tantas obras da natureza e da humanidade. Isto deve nos iluminar para percebermos que precisamos construir uma harmonia total entre os seres humanos e destes com a natureza.
Quanto às celebrações do DIA DA ÁRVORE, não basta apenas plantarmos umas poucas mudinhas em diferentes locais, principalmente onde houver visibilidade, para fotografarmos e compartilharmos nas diferentes redes sociais com nossos contatos, como tanto gostam de fazer nossos governantes.
O importante é também refletirmos sobre a destruição que temos assistido de imensas áreas de florestas, a extração ilegal de madeira, a contaminação por mercúrio e agrotóxicos, o desmatamento e as queimadas, legais ou ilegais, de milhões de hectares e BILHÕES DE ÁRVORES, de forma irracional, transformando essas áreas em terras degradadas, como tem acontecido em todos os biomas brasileiros, principalmente no CERRADO, na AMAZÔNIA LEGAL e no PANTANAL.
Apenas para “refrescar” nossa memória e aquilatarmos o tamanho desta destruição, basta mencionar que em 2023 o desmatamento e as queimadas no CERRADO atingiram mais de 1,1 milhão de hectares, o que corresponde a 750 MILHÕES DE ÁRVORES.
Entre 1985 e 2023, o desmatamento e as queimadas no Cerrado destruíram 38 milhões de hectares, o que representa 27% da perda de toda a cobertura vegetal originária deste bioma e uma perda significativa de sua biodiversidade vegetal e animal, além de afetar todas as nascentes que formam os rios que alimentam tanto a Bacia Amazônica quanto a do Paraguai/Paraná, do São Francisco e do Parnaíba, inclusive os aquíferos que estão nesta vasta região.
Em termos de árvores destruídas, é algo extremamente gigantesco. Em quatro décadas este bioma “perdeu” nada menos do que 24,7 BILHÕES DE ÁRVORES.
É fundamental também que se diga que em 2023 o desmatamento e as queimadas que destruíram boa parte do Cerrado representaram um aumento de 68% em relação ao ano anterior e que esta destruição superou as perdas registradas na Amazônia.
Quanto à Amazônia, mesmo que tenha havido uma queda significativa em relação às décadas anteriores, mesmo assim o desmatamento e as queimadas devoraram 515 mil hectares, o que representa a destruição de aproximadamente 335 MILHÕES DE ÁRVORES.
Todavia, apesar desta “queda” no desmatamento e queimadas, na Amazônia Legal, no período de 1984 até 2023, ou seja, em 39 anos, foram destruídos 12,7 milhões de hectares de florestas nativas. Isto é algo assustador, pois representa 8,3 BILHÕES DE ÁRVORES destruídas e, pior ainda, boa parte deste vasto território teve os solos degradados, não se prestando mais para qualquer uso produtivo.
Já em relação ao nosso PANTANAL, considerado pela nossa Constituição, juntamente com a Amazônia, como Patrimônio Nacional, estabelecendo que, enquanto tais, devem ser preservados e cuidados, pelo respeito que devemos ter para que as presentes e, principalmente, as futuras gerações possam desfrutar de um meio ambiente saudável e sustentável.
Apesar de toda esta preocupação dos Constituintes em 1988, o Pantanal, nos últimos trinta ou quarenta anos, tem experimentado um aumento e agravamento do desmatamento e das queimadas e a redução significativa do volume de suas águas. Mesmo com uma redução significativa, em 2023 foram destruídos por desmatamento e queimadas uma área de 21 mil hectares, ou seja, 13,7 MILHÕES DE ÁRVORES desapareceram neste bioma que, pela sua exuberância, também é considerado pela UNESCO como PATRIMÔNIO NATURAL DA HUMANIDADE e não apenas patrimônio brasileiro.
Para compreendermos melhor a dinâmica da destruição, seja de forma legal ou ilegal ou por queimadas, é bom que vejamos qual o tamanho desta destruição nas últimas quatro décadas.
Entre 1985 até 2023, nada menos do que 1,8 milhão de hectares do Pantanal foram destruídos, sendo que em algumas regiões as queimadas atingiram áreas de uma forma totalmente devastadora, ocasionando também a degradação total das mesmas. Quando traduzimos esta destruição em relação ao total de árvores que desapareceram, chegamos a um número também absurdo. Em 39 anos foram destruídas 1,17 BILHÕES DE ÁRVORES que sumiram deste bioma, que, pela sua dimensão, corre o risco de desaparecer totalmente em algumas décadas, tanto pelo desmatamento e queimadas quanto por outros fatores como a destruição e degradação de todos os cursos d’água, como rios e córregos que alimentam o Pantanal e formam a Bacia Paraguai/Paraná.
Assim, quando estamos celebrando o TEMPO DA CRIAÇÃO, o DIA DA ÁRVORE e também o início da primavera em nosso país, plantando algumas mudinhas de árvores, como em Cuiabá, que há anos vem sofrendo perda de sua cobertura vegetal urbana, substituindo árvores por concreto, de outrora quando recebia a alcunha de CIDADE VERDE, para hoje que nem mesmo o PDAU (Plano Diretor de Arborização Urbana) tem, apesar de a cada ano experimentarmos temperaturas mais escaldantes, é imperioso termos uma visão crítica sobre a questão da falta de arborização urbana e também a gravidade das perdas que já ocorreram pelo desmatamento e queimadas sem controle ao longo das últimas quatro décadas em todos os biomas e ecossistemas.
Resumindo, nessas últimas quatro décadas a soma das áreas que foram desmatadas e queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal chega a 52,5 milhões de hectares e 34,2 BILHÕES DE ÁRVORES, que simplesmente desapareceram nesses territórios. Convenhamos: algo que deveria nos preocupar quanto ao presente e também quanto ao futuro, nos contextos da COP30, da justiça climática, justiça social, justiça intergeracional e dos DIREITOS HUMANOS.
Oxalá, este DIA DA ÁRVORE, do início da primavera, da mesma forma que o DIA DAS FLORESTAS, dos RIOS e de todos os biomas brasileiros, nos imponha a necessidade de buscarmos soluções para os nossos grandes desafios socioambientais, tanto no Brasil quanto nos territórios de cada bioma e ecossistema, presentes em cada território.
Os desafios socioambientais em Mato Grosso, principalmente para a Igreja Católica e as demais Igrejas Cristãs e outras religiões, são muito maiores do que em outros estados, tendo em vista que em nosso território estão presentes a Amazônia Legal, o Cerrado e o Pantanal. Por coincidência ou não, os três biomas são os que têm sido mais devastados e destruídos nas últimas décadas.
Para a doutrina da Igreja Católica, a OMISSÃO é um pecado, e a OMISSÃO diante da destruição da natureza, da ecologia integral, é um PECADO ECOLÓGICO, mais uma razão para assumirmos nossas responsabilidades como católicos, católicas, cristãos e cristãs.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, Sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
Juacy da Silva*
Ao publicar a Encíclica Laudato Si, em 24 de maio de 2015, ou seja, há dez anos, o Papa Francisco, utilizando o método da Igreja: VER, JULGAR/CELEBRAR e AGIR, pontuou diversos aspectos importantes quando se debruçou sobre a saúde do planeta, os direitos da natureza, a justiça social, a justiça climática e a justiça intergeracional. Assim, ele destacou alguns aspectos que estão diretamente relacionados com a questão da LIMPEZA, seja no plano individual ou doméstico e também da limpeza dos biomas, ecossistemas, enfim, a importância da limpeza como base da sustentabilidade, particularmente as questões da água, do saneamento básico e do lixo/resíduos sólidos.
Vejamos o que nos dizia Francisco há dez anos:
“A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (LS 21);
“Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades” (LS 5);
“Estes problemas estão intimamente ligados à cultura do descarte, que afeta tanto os seres humanos, os excluídos, como as coisas que se convertem rapidamente em lixo” (LS 22).
Em relação à questão da água na Encíclica Laudato Si (LS), ele nos exorta textualmente:
“A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos” (LS 28);
“Um problema particularmente sério é o da qualidade da água disponível para os pobres, que diariamente ceifa muitas vidas. Entre os pobres são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por micro-organismos e substâncias químicas” (LS 29).
Também o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em novembro de 2024, numa mensagem de vídeo dirigida aos negociadores na Coreia do Sul, durante o evento para buscar um acordo histórico contra a poluição plástica (que, lamentavelmente, até os dias de hoje os países não chegaram a um acordo), disse textualmente que “até 2050 os oceanos poderão ter mais plástico do que peixes”, uma projeção baseada em estudos que indicam o aumento da poluição plástica e sua acumulação nos mares, lagos, rios e córregos do mundo todo, afetando a vida desses sistemas, particularmente a vida marinha e a saúde humana.
Desde 1992, quando a ONU aprovou a criação do Dia Mundial da Água, passando pelo Dia Mundial da Limpeza (World Cleanup Day), que surgiu na Estônia em 2028, a preocupação com a questão do lixo, dos resíduos sólidos, com o saneamento básico e a qualidade do ar e da água, principalmente para consumo humano, tem estado na “ordem do dia”, tanto das “celebrações” de diversos organismos internacionais quanto na agenda das discussões públicas em praticamente todos os países.
Aqui cabe um destaque quando se diz que água não pode ser considerada apenas um bem a ser comercializado pelo mercado visando ao lucro a ser acumulado por algumas pessoas em detrimento de bilhões de pessoas; mas um direito humano fundamental, da mesma forma que os alimentos e a moradia digna.
Assim, diante desses desafios que afetam diretamente a qualidade de vida, da saúde e do bem-estar das populações, principalmente de grandes camadas populacionais de pobres, excluídos e moradores das periferias de todas as cidades, e também de bilhões de “esquecidos” que moram no meio rural, não podemos mais nos omitir, “racionalizando” esta triste realidade como algo “normal”, que faz parte do processo de “desenvolvimento” mundial e nacional.
Para colocar este tema e esses desafios na agenda das discussões públicas e não apenas nos discursos demagógicos e manipuladores das elites dominantes e dos donos do poder, foi escolhido o terceiro sábado de cada ano, que, em 2025, é 20 de setembro, como o DIA MUNDIAL DA LIMPEZA.
Limpeza de nossas casas, de nossos quintais, de nossas comunidades, de nossos córregos, de nossos rios, dos mares e oceanos, de nossas praias e nossas cidades. É superimportante que possamos refletir, dialogar e não apenas fazermos nossa parte diante desses desafios, mas também exigir que nossos governantes deixem de se preocupar com seus privilégios, suas mutretas e pensem, de forma séria, na definição e implementação de políticas públicas que resolvam de forma rápida tais desafios e problemas que afetam mais de 2,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo e mais de 110 milhões de pessoas em nosso Brasil.
Defender a democracia, defender o Estado Democrático de Direito, defender a soberania popular e a soberania nacional não pode ser apenas meros slogans, mas sim, definir e implementar políticas públicas, inclusive um amplo programa de educação ambiental crítica ou revolucionária, que possibilitem tanto o despertar da consciência ecológica, do cuidado com o planeta, nossa Casa Comum, quanto, em seus resultados, melhorem de fato as condições de vida da população, principalmente das grandes massas de excluídos, explorados, injustiçados, desrespeitados em seus direitos fundamentais como pessoas humanas, por meio de novos paradigmas que promovam mudanças e transformações profundas nos sistemas produtivos, nas relações políticas e, também, nas relações de trabalho e de consumo.
Sempre é bom refletirmos sobre dados concretos da realidade, tanto mundial quanto de nosso país, para percebermos a gravidade da falta de cuidado, no que tange, por exemplo, às consequências do descaso com questões ambientais importantes como a limpeza das águas, dos solos, em cada pedaço deste território planetário, como já mencionado.
De acordo com estatísticas oficiais de organismos internacionais (ONU), em 2024, mais de 3,4 bilhões de pessoas não tinham coleta e tratamento de esgoto e 2,2 bilhões de pessoas não tinham acesso à água tratada; 2,7 bilhões de pessoas não tinham acesso à coleta regular de lixo, sendo que dessas, em torno de 2 bilhões moravam em áreas rurais e 700 milhões nas periferias urbanas.
O resultado, muito claro, além da degradação do meio ambiente, ou seja, da natureza, como degradação dos solos, das águas e do ar, também tem consequências severas para a saúde humana — saúde individual e também saúde pública —, inclusive agravando a precariedade da falta de recursos públicos orçamentários para atender a bilhões de pessoas que diuturnamente buscam por cuidados médicos, hospitalares, ambulatoriais, além de milhões e milhões de mortes e muito sofrimento.
O número de mortes causadas no mundo em 2024, por falta de saneamento básico, foi de aproximadamente entre 1,4 milhão a 2,5 milhões de pessoas, sendo que dessas, mais de 70% eram crianças com menos de 5 anos, o que demonstra o tamanho do sofrimento para tantas famílias.
A poluição do ar, causada pelo descaso com o lixo e outros poluentes, em 2026 causou a morte de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas por infecções do sistema respiratório.
Para o leitor menos avisado, provavelmente pode parecer: “Ah, isto é uma realidade distante, de países extremamente pobres da África, Ásia ou Oceania, e isto jamais vai me afetar no Brasil”, e por isso “não estou nem aí”.
Todavia, como resposta, invoco novamente as sábias palavras do Papa Francisco quando ele dizia:
“Tudo está interligado nesta Casa Comum, o Planeta Terra”, e mais, que não existem duas crises separadas — de um lado uma crise ambiental (da natureza) e de outro uma crise política, social e econômica —, mas sim, apenas uma complexa crise socioambiental que, para sua solução, requer medidas também complexas, integradas e “em regime” de urgência.
Tal como o nosso Congresso acaba de aprovar para a anistia dos golpistas do 8 de janeiro e da “PEC da Blindagem”, aumentando seus privilégios e status de cidadãos de primeira classe, enquanto o resto da população continuará sendo tratada como “cidadãos e cidadãs” de segunda classe perante o sistema judiciário brasileiro.
No Brasil, em 2024, na área urbana, nada menos do que 20,8 milhões de pessoas não tinham coleta regular de lixo, e mais de 25 milhões de habitantes rurais também não tinham acesso a este serviço público, ou seja, totalizando 45,8 milhões de pessoas. Além disso, praticamente metade dos municípios brasileiros não tem uma destinação correta do lixo coletado e menos de 10% do lixo coletado é reciclado, indicando alto índice de degradação ambiental por resíduos nocivos à saúde humana e uma perda bilionária de recursos financeiros.
Em torno de 110 milhões de pessoas não têm coleta e tratamento de esgoto, sendo comum, inclusive em inúmeras capitais e cidades de médio e grande porte ou até mesmo regiões metropolitanas de regiões consideradas ricas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras mais, esgotos escorrendo pelas ruas, populações “morando” ao lado de córregos, palafitas ou valões transformados em esgotos a céu aberto.
Mais de 15 milhões de pessoas que vivem nas áreas urbanas, principalmente nas periferias, também não têm acesso à água tratada e de qualidade — condição básica para limpeza e higiene doméstica, necessária para a saúde dessas famílias. E no meio rural, a população continua à mercê do uso de água contaminada por agrotóxicos, mercúrio de garimpos e outras formas de poluição.
A degradação ambiental também provoca centenas de milhares de atendimentos médicos, hospitalares e ambulatoriais. Relatórios recentes indicam que anualmente entre 50 a 80 mil mortes têm como causa a poluição do ar — número muito maior do que as mortes por assassinatos, feminicídios, acidentes de trabalho e de trânsito —, mas que não causam tanta consternação, seja por parte das autoridades, seja por parte da população em geral.
A falta de saneamento e água potável no Brasil causou, em 2023, cerca de 11.544 mortes. Em 2024, o número de internações ultrapassou 340 mil, sendo que 8.830 óbitos foram de idosos, que representam um grupo mais vulnerável a essas condições.
Cabe ressaltar, no caso do Brasil, que a questão da limpeza, problemas de coleta, tratamento e destinação correta do lixo e de esgotamento sanitário, e suas consequências para o meio ambiente/natureza e também — ou principalmente — para a saúde humana, são muito diferentes entre as diversas regiões. O Nordeste e a Região Norte/Amazônia Legal, que abrigam em conjunto mais de 85 milhões de habitantes, ou seja, 40% da população brasileira, ostentam indicadores socioambientais — principalmente relacionados com coleta, tratamento e destino do lixo e do esgoto, bem como de acesso à água potável e de qualidade — semelhantes ou piores do que vários países extremamente pobres da África e da Ásia.
Todavia, em meio a tudo isso, nossos empresários e nossos governantes demonstram um enorme ufanismo diante do nosso poderio, potencial e do desempenho de nossa economia, esquecendo desses números vergonhosos que dizem muito, de perto, sobre os níveis de desigualdades sociais, econômicas e políticas que caracterizam nosso Brasil.
Toda essa realidade deveria estar sendo objeto de nossas reflexões não apenas neste 20 de setembro, DIA MUNDIAL DA LIMPEZA, mas também ao longo de todos os anos, tanto e principalmente por parte de nossos governantes, de nossos empresários, de nossas lideranças civis, militares, eclesiásticas, enfim, pelos donos do poder e suas “troupes” e “asseclas”, quanto também da população em geral.
Ao invés de terem urgência em relação a temas que não dizem respeito aos interesses das grandes massas, mas apenas de seus próprios interesses, nossos parlamentares, nossos governantes e lideranças deveriam, no exercício de seus mandatos, cargos e posições, dedicar mais tempo, recursos e ações que transformem a realidade sofrida em que vive mais da metade da população brasileira.
Vamos pensar nisso?
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
****
Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
****
Juacy da Silva*
Desde o dia 01 deste mês de setembro, estamos vivenciando e celebrando o TEMPO DA CRIAÇÃO, que termina no dia 04 de outubro, Dia de São Francisco de Assis — não apenas o defensor da natureza e padroeiro da Ecologia, mas também um PROFETA que revolucionou, com seus gestos simples, mas de cunho extremamente transformador e até mesmo revolucionário (daí a importância da EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA OU REVOLUCIONÁRIA), tanto a percepção, a visão quanto as ações que devemos promover em nossas relações com a natureza, com o universo, conosco mesmos e com o Criador.
Todas as pessoas sabem que é importante a gente estudar, observar, refletir, dialogar sobre as questões socioambientais e os desafios ecológicos que estão colocados para a humanidade, e que estão se agravando sobremaneira e de forma rápida ultimamente.
Diante disso, além de tudo o que já foi mencionado, as nossas AÇÕES são importantes. Costuma-se dizer que só as ações transformam, revolucionam a realidade, mas, para tanto, são precisos alguns pressupostos, como o despertar da consciência crítica e libertadora, a vontade de mudar, o aprofundamento na compreensão da dinâmica que existe não apenas no planeta, na natureza, mas nos efeitos que os diferentes modelos e sistemas de produção e de relações de trabalho e de consumo produzem tanto na natureza quanto na apropriação que cada pessoa e classe social fazem dos frutos do crescimento econômico, do desenvolvimento social, econômico e político.
Precisamos cuidar da natureza, do planeta, não como um objeto de adoração, mas para que tanto as atuais quanto as futuras gerações possam desfrutar, para seu bem-estar, dos frutos do “progresso”, do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, do crescimento econômico e do desenvolvimento integral, sustentável e integrado.
Diante disso, ao longo do ano, diversos momentos (dias, semanas ou meses) são criados para servirem como pontos de referência para uma reflexão mais profunda, crítica e criadora sobre a situação da saúde do planeta, a partir de cada dimensão dessa realidade, a partir de “nossos quintais”, ou seja, dos territórios nos quais vivemos, sofremos e também sonhamos e cultivamos a esperança e a paz — enfim, a harmonia com todas as obras da criação.
Voltando ao início desta reflexão: se estamos ainda no TEMPO DA CRIAÇÃO, até o dia 04 de outubro próximo, seria interessante observarmos o que o CALENDÁRIO ECOLÓGICO reserva nessas três semanas, ou poucos dias a mais, como oportunidade para, tanto refletirmos quanto, fundamentalmente, AGIRMOS — por um mundo melhor, por uma economia solidária, por uma produção agroecológica, uma agricultura realmente sustentável, uma economia circular, com menos consumismo, menos desperdício, menos degradação, menos poluição, menos voracidade diante dos biomas e ecossistemas; por mais justiça social, justiça climática, com mais respeito aos direitos humanos, de uma forma ampla, que inclua também o direito que todas as pessoas têm a um meio ambiente saudável, sustentável e inclusivo.
Vejamos o que este Calendário Ecológico nos reserva para as próximas semanas:
Restante deste mês de setembro:
-
16: Dia Internacional de Luta para a Preservação da Camada de Ozônio
-
19: Dia Mundial de Luta pela Limpeza das Águas (ver também 22 de março)
-
21: Dia da Árvore (ver também 21 de março e 17 de julho)
-
22: Dia Nacional em Defesa da Fauna
-
25: Dia da Bandeira dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
-
29: Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos (Dia Internacional do Desperdício Zero – ver também 30 de março)
-
29: Dia Mundial dos Rios
Outubro:
-
01: Dia do Vegetarianismo
-
03: Dia Nacional da Agroecologia
-
04: Dia de São Francisco de Assis
-
04: Encerramento do Tempo da Criação
-
04: Dia da Natureza
-
04: Dia dos Animais
Como podemos perceber, temos diversos momentos (dias) em que somos chamados para um despertar profundo, uma reflexão sobre aspectos e desafios fundamentais para buscarmos uma correção de rumo em nossas relações com a natureza e relações humanas e sociais, enquanto pessoas, cidadãos, cidadãs e também como governantes e empresários responsáveis pelo que estamos fazendo e contribuindo — tanto para a crise climática, que tantos efeitos perversos tem causado no mundo todo, inclusive no Brasil, quanto para a correção de rumo, através de políticas públicas e também mudanças de hábitos, estilos de vida e sistemas produtivos.
Isto é o que o Papa Francisco sempre insistia em seus pronunciamentos, encíclicas e exortações apostólicas, quando fala sobre a CONVERSÃO ECOLÓGICA — tanto individual quanto coletiva ou comunitária.
Todas as ações na defesa da ecologia integral, por mais simples que sejam, fazem a diferença. Mas as ações coletivas, comunitárias, têm um impacto muito maior. Por isso, precisamos estar unidos, juntos, nesta cruzada na defesa e em um melhor cuidado com o meio ambiente, com o nosso Planeta, que “sofre e geme” ao ser tão maltratado!
Pense nisso. Reflita sobre o que você está fazendo, deixando de fazer (omitindo-se) ou pode fazer para mudar o rumo desta catástrofe socioambiental anunciada!
*Juacy da Silva, professor fundador, tiular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste, E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy












