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Sexta, 09 Outubro 2026 15:19

FAMÍLIA, IGREJA E EDUCAÇÃO NA CAMINHADA PELA CULTURA DA PAZ! - Juacy da Silva

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

“Precisamos de uma verdadeira e sólida era de reconciliação, que ponha fim à opressão, às demonstrações de força e à indiferença à justiça. Chega de guerras, com seu doloroso tributo de morte, destruição e exílio!... Espírito Santo, faz de nós construtores fiéis e criativos de paz quotidiana: no nosso coração, nas nossas famílias, nas nossas comunidades e nas nossas cidades. Que cada palavra amável, cada gesto de reconciliação e cada decisão de diálogo sejam sementes de um mundo novo.” Papa Leão XIV

Precisamos, de forma urgente, quebrar o círculo vicioso e cruel da cultura da violência, da intolerância, do ódio, da exclusão, enfim, dos conflitos armados e das guerras, uma cultura da morte, por uma cultura da paz, da tolerância, do diálogo, da inclusão, da fraternidade, enfim, pela cultura da vida e do amor.

Quando a Família, a Igreja e a Educação, como instituições de base e universais, falham, o preço é alto demais: violência, abandono, sofrimento, destruição, morte e um futuro perdido e sem sentido e significado. Precisamos resgatar as novas gerações enquanto é tempo; amanhã pode ser tarde demais!

Na verdade, ninguém nasce bandido ou senhor das guerras e conflitos armados, verdadeiros “líderes sanguinários”, mas tudo isso é fruto de uma sociedade, de uma humanidade envolta em violência, destruição e morte, que “molda” a forma de pensar, sentir e agir das pessoas ao se tornarem adultas, fruto de muitas experiências trágicas acumuladas, principalmente a partir da primeira infância, da adolescência e da juventude, incluindo famílias desestruturadas, territórios dominados pelo crime organizado, onde a violência faz parte do cotidiano das pessoas.

O ponto de partida desta reflexão é a Encíclica Magnifica Humanitas e o grito de alerta e exortação do Papa Leão XIV, em sua primeira Encíclica, publicada em 2025, quando retoma com força o fio condutor da história humana denunciado por todos os Papas: a violência que gera sofrimento, mortes e destruição, a imensa maioria das vítimas inocentes, sobretudo nas guerras e conflitos armados.

Sabemos que a violência não é um acidente; é fruto de estruturas políticas, econômicas, sociais e religiosas injustas. Está na família, na comunidade, no trabalho, na escola, nas igrejas e, de forma mais cruel, na política internacional.

Sua Santidade propõe o diálogo e a busca de entendimento como substitutos da violência, tendo como horizonte a Cultura da Paz e a Civilização do Amor, conceito tão caro a São Paulo VI e também ao Papa Francisco.

Mas, penso eu, não basta combater a violência concreta já instalada; se não agirmos preventivamente, é como “enxugar gelo”. É preciso ir às raízes e impedir que as novas gerações, crianças, adolescentes e jovens, banalizem os comportamentos e as atitudes violentas e enveredem pela senda da violência generalizada, como atualmente está acontecendo em todos os países, inclusive em nosso Brasil. É preciso, fundamentalmente, realizarmos, coletivamente, institucionalmente, um trabalho preventivo, a partir do presente, para salvar o futuro e as novas gerações, enfim, rompermos este círculo vicioso da violência da história humana.

Para termos uma ideia aproximada do significado e do tamanho da violência, “apenas” das guerras e conflitos armados no mundo, a partir de 1900 até 2025, estima-se que entre 140 milhões e 190 milhões de pessoas tenham morrido no período de 1900 a 2025.

Além disso, conforme o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e estudos históricos e demográficos, estima-se que entre 50 milhões e mais de 200 milhões de pessoas foram assassinadas neste período, indicando que estamos vivendo há mais de um século uma verdadeira epidemia de violência sem tréguas.

É aqui que nasce a tese central desta reflexão: a urgente necessidade de uma articulação entre Família, Igreja/Religião e Educação, a partir da educação infantil até o final do ensino médio, por estarem aí as bases do período de formação e socialização das crianças, adolescentes e jovens.

Este desafio, no cotidiano, deixa de ser conceito abstrato e vira uma proposta educacional, de catequese e de cidadania, estimulando empatia, diálogo, verdade, tolerância e respeito.

A denúncia crítica: a falência das três instituições na origem

Por que a violência explodiu? Porque as três instituições que estão na base do processo de socialização das novas gerações e que deveriam ser as “vacinas” contra o surgimento da violência tornaram-se, muitas vezes, vetores. E isto é preciso dizer com coragem: a) a Família falida: quando troca escuta ativa por grito, diálogo por punição violenta, exemplo de respeito por autoritarismo e machismo. Quando naturaliza o castigo físico, a humilhação, a divisão injusta de tarefas por gênero, a criança aprende que conflito se resolve na força, com violência.

E, neste aspecto, quebra-se o apego seguro (0 a 6 anos) e contribui-se para a formação de adolescentes inseguros e violentos, que buscarão apoio e “status” no pertencimento a facções, na delinquência, em gangs digitais de ódio, em atitudes antissociais ou no isolamento depressivo.

As Igrejas/Religiões também, em certo sentido, estão falidas, alienadas, perdidas neste aspecto fundamental no período de formação das novas gerações: quando abandonam seu papel de farol ético e viram palanque de intolerância, fundamentalismo, julgamento e fanatismo. Ou quando pregam amor no altar e praticam desvios éticos e sexuais, exclusão, racismo religioso e condenação na comunidade. Quando se omitem diante da injustiça social. Em vez de acolhimento e cura, geram trauma espiritual e humano.

A Educação também está falida, principalmente quando a escola, que deveria ser espaço de pluralismo, de amor, de fraternidade, vira fábrica de competição destrutiva, bullying institucionalizado, violência institucionalizada, conteúdo sem vida, autoritarismo. Quando suspende e expulsa em vez de mediar e restaurar. Quando fecha os olhos ao cyberbullying, ao discurso de ódio nas redes sociais digitais.

Quando essas três instituições que estão na base da formação humana falham juntas, o resultado é o que vemos: medo, ameaças de leis mais “pesadas”, penas mais longas, incluindo propostas de pena de morte, prisão perpétua, prisões de segurança máxima com cercas de arame farpado eletrificadas, espadas, ódio. Neste momento, o vazio é ocupado pela violência.

A boa-nova: são as mesmas três a salvação da humanidade

Mas, e aqui está o giro profético desta reflexão, são exatamente essas três instituições, quando convertidas, voltadas para suas verdadeiras finalidades, que podem representar a salvação. Nenhuma polícia, nenhum presídio, nenhum algoritmo vai construir paz sozinho se as famílias, as Igrejas, as religiões e a Educação continuarem falidas e não cumprirem os papéis para os quais elas existem ou deveriam existir.

Tabela da articulação prática: Pilar — Papel no Cotidiano — Prática de Não Violência e Amor

FAMÍLIA — Primeiro laboratório afetivo e social. Berço da afetividade. Escuta ativa, diálogo em vez de punição violenta. Exemplo prático de respeito mútuo. Inteligência emocional. Quebra de ciclos de violência intergeracional.

IGREJA/RELIGIÃO — Farol ético e espiritual da comunidade. Mensagens de acolhimento superando as intolerâncias. Ecumenismo e diálogo inter-religioso. Ações sociais concretas de solidariedade, empatia, serviço e voluntariado.

EDUCAÇÃO — Espaço de formação cidadã e plural. Mediação de conflitos através de muito diálogo e paciência, Círculos de Paz, Justiça Restaurativa, projetos de cidadania, valorização da diversidade, justiça social e Direitos Humanos.

Como articular no cotidiano? O chão da vida (0 a 17 anos)

A transformação acontece quando há coerência e projetos integrados. O que a Igreja prega tem que ser vivido em casa e na escola. O que a escola ensina sobre respeito à diversidade e combate ao bullying tem que ser reforçado pela família e também pela catequese e por outras práticas religiosas.

Caminhos práticos:

a) Coerência entre discurso, ação e Comunicação Não Violenta (CNV) como linguagem comum na família, na Igreja e na escola. Aprender e saber ouvir antes de reagir. Validar sentimentos. Ensinar crianças a expressarem frustrações com palavras amorosas, nunca com agressão física ou verbal. Em casa, na sala de aula ou no templo, substituir julgamentos apressados por empatia, escuta e tolerância. É a mensagem dos Evangelhos e também a linguagem de Marshall Rosenberg para serem vividas.

b) Engajamento em ações comunitárias conjuntas. Parcerias locais: escolas, igrejas e famílias criando hortas comunitárias, campanhas de doação, mutirões de limpeza. Família em movimento: quando pais e filhos participam juntos de projeto social da Igreja ou da escola, a Civilização do Amor ganha forma concreta e memória afetiva. É o que a arte mostra: crianças regando mudas sobre escombros de espadas quebradas.

c) Uso consciente das redes. Cultura da Paz e da importância da não violência no ambiente digital: na família, na escola e com líderes religiosos orientando jovens a não espalhar discurso de ódio, fake news ou divisão. Combater o ódio em todos os espaços.

d) Currículo por faixa etária:

Educação Infantil (0 a 6 anos): partilha, empatia, regulação emocional. Aprender a dizer o que sente com palavras em vez de mordidas e empurrões. Participação na construção dos combinados.

Ensino Fundamental (1º ao 9º ano): alfabetização emocional, Círculos de Construção de Paz, mediação feita pelos próprios alunos, foco na restauração e não na punição, integração com História (Gandhi, Martin Luther King, Mandela, Madre Teresa de Calcutá, Santa Dulce dos Pobres e tantos mártires conhecidos), combate sistemático ao bullying.

Ensino Médio (15 a 17 anos): pensamento crítico, Projetos de Vida, protagonismo juvenil, aprendizagem em serviço para resolver problemas reais do bairro, liderança ética, combate ao discurso de ódio, cidadania global, acolhimento emocional.

Conclusão: Grito pela Paz — A sinergia que blinda

Nenhum pilar sozinho salva. Sem família, falta base afetiva. Sem religião/espiritualidade, falta senso de transcendência e propósito. Sem escola, faltam ferramentas intelectuais, profissionais e de cidadania.

Quando a Igreja inspira o espírito de justiça social, de fraternidade, de partilha, do cuidado e do amor universal, a família protege o coração e a escola treina a mente e as emoções, criamos cidadãos integrais amantes da paz e da não violência, enfim, da possibilidade da construção da Civilização do Amor, ou seja, um mundo diferente do que temos é possível.

Creio que a Igreja Católica, que representa mais de 1,4 bilhão de pessoas no mundo todo e que tem a maior rede privada de educação, desde a educação infantil, passando pelos ensinos fundamental, médio e superior, com mais de 71,7 milhões de alunos em 2025, representa uma integração “perfeita” entre as famílias, a Igreja e a Educação e, neste sentido, pode representar um enorme instrumento para combater a cultura da violência e substituí-la pela cultura da paz.

Isto decorre dos princípios da interação profunda entre essas três dimensões, ampliando muitíssimo o raio de ação de cada uma dessas instituições, caso as mesmas continuem agindo de forma isolada, como atualmente acontece.

Além da Igreja Católica, não podemos deixar de mencionar os mesmos princípios, independentemente dos aspectos transcendentais e doutrinários, quando todas as demais igrejas cristãs (evangélicas e), bem como as de outras religiões e filosofias, como o islamismo, o budismo, as religiões de matriz afro e as de povos primitivos, também possuem larga experiência nesta dinâmica de integração entre família, religião e educação. A soma de todas essas igrejas e religiões representa mais de 2,0 bilhões de pessoas e mais de 50 milhões de alunos.

Resultado prático desta integração: menos violência, menos intolerância, menos criminalidade, menos conflitos armados e menos guerras, além de ambientes familiares, educacionais, religiosos e de trabalho mais saudáveis, saúde mental coletiva forte. Em vez de prisões, cadeias, campos de concentração, vamos construir moradias dignas, escolas de melhor qualidade, inclusivas e integradoras, templos acolhedores e famílias mais felizes.

Portanto, a denúncia é dura: sim, há falência institucional na origem da violência; sem considerar isto, será impossível construirmos a cultura da paz. Mas o anúncio é mais forte: a aliança entre Família, Igreja/Religião e Educação, no cotidiano do diálogo, do perdão, da justiça restaurativa e do cuidado com a Casa Comum, é o único caminho que pode gerar a Cultura da Paz e a Civilização do Amor, como sonhou São Paulo VI, como gritou o Papa Francisco e como agora reafirma com sua voz profética o Papa Leão XIV na Magnifica Humanitas, na Dilexi Te e em seus pronunciamentos.

Sem luta não há vitória, mas sem amor não há futuro. Vamos à luta pela cultura da paz e pela Civilização do Amor, com ternura e diálogo sempre!

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

 

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