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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Alair Silveira
Professora e Pesquisadora do SOCIP e do PPGPS
Pós-doutoranda Universidad de Buenos Aires (UBA)
Membro do Grupo de Pesquisa MERQO/CNPq e do GTPFS/ADUFMAT-ANDES/SN
Miembro del Grupo de Trabajo Derechas Contemporaneas/CLACSO
Primeiramente, gostaria de registrar meu prazer em receber a crítica qualificada do colega e amigo Danilo de Souza, publicada sob n. 51/2026, no Espaço Aberto do dia 21/07/2026. Embora eu tenha sido tentada a estabelecer, imediatamente, o diálogo proposto pelo autor, fui impedida por razões do trabalho cotidiano de ordem burocrática e acadêmica. Assim, aproveito este domingo ensolarado (que deveria ser de merecido descanso) para fazê-lo. Em segundo lugar, registro minha integral concordância com relação ao reconhecimento do importante papel que o Espaço Aberto desempenha “na Universidade ao possibilitar a manifestação de diferentes posições sobre os mais variados temas da vida acadêmica”.
Se concordamos que o adoecimento docente é um grave problema que assola a categoria, e que este se deve às “contradições inerentes à realidade da educação” (dentre os quais a “burocratização da atividade acadêmica” e a sujeição à “racionalidade instrumental” e à “lógica de produtividade”), tenho muitas dificuldades para acompanhar as conclusões extraídas a partir daí, posto que elas reforçam a centralidade da minha crítica e não o contrário.
Conforme depreendi da leitura atenta do artigo, dois eixos o sustentam: (a) as particularidades de cada área de conhecimento e (b) o reconhecimento da eficácia da métrica avaliativa estabelecida. Eventuais ressalvas são absorvidas pela reafirmação da lógica que organiza os Editais. Consequentemente, Souza rejeita a assertiva de que se trata de processos seletivos pautados pela irrazoabilidade da lógica gerencial-produtivista como métrica de produção acadêmica. Desta maneira, em que pese muitos exercícios de reflexão propostos, as próprias evidências apresentadas pelo autor, ou se projetaram como evidências contraditórias ou foram construídas sobre pressupostos equivocados quanto ao afirmado no artigo n. 49/2026, no Espaço Aberto.
Com relação às especificidades de cada área de conhecimento, temos plena e integral concordância. E, no caso das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, nossa produção científica tem como objeto não somente o estudo de fenômenos sociais e políticos, mas, consequentemente, uma perspectiva crítica quanto aos seus impactos sociais, políticos, econômicos e culturais. Neste sentido, a área também considera as relações econômicas e de mercado que atravessam o conjunto da vida societária capitalista, em suas múltiplas faces. E, por isto somos – concreta e recorrentemente – desprestigiados e/ou atacados pelo establishment. Afinal, questionar a ordem da vida material, desvelar os interesses que organizam as relações de poder político e econômico, problematizar a funcionalidade das instituições e das regras estabelecidas etc. não são convenientes para aqueles que se beneficiam desta organização societária.
Neste sentido, não foi em desprestígio às demais áreas de conhecimento que o artigo n. 49/2026 foi escrito, mas, justamente o contrário. Foi em reconhecimento à diferença que constitui as distintas áreas que a isonomia no processo seletivo foi reclamada. Se as áreas são distintas, como é possível utilizar a mesma métrica estabelecida pelas áreas tecnológicas, exatas e engenharias? Não necessitamos de um exercício de abstração elaborado para evidenciar que o processo seletivo parte de realidades distintas como se iguais fossem! Consequentemente, não há isonomia alguma em uma grade de pontuação média que está organizada a partir da estrutura de algumas áreas específicas em detrimento de outras.
Porém, mesmo reconhecendo as especificidades de diferentes campos, pergunto: Qual a razoabilidade – do ponto de vista intelectual e acadêmico – de algum pesquisador publicar “mais de duas centenas de artigos em um ano”? Isto significa que este pesquisador produz (em média) um artigo em menos de dois dias. Como é isto possível? Ou seja, isto me permite ratificar minhas críticas e não o contrário. Aliás, independente da área de conhecimento, trata-se de uma esteira de produção fordista/taylorista.
Neste aspecto, ainda sobre a lógica meritocrática produtivista, cabe refletir sobre alguns dos exercícios propostos pelo autor. Conforme informou, se os mesmos critérios de pontuação atribuídos à Ciências Humanas e Sociais Aplicadas fossem estendidos às Engenharia, “somente no primeiro dos quatro itens do Bloco”, ele teria obtido “aproximadamente 48 pontos”. Considerando que cada evento conta 3 pontos e o período selecionado corresponde a quatro anos, o professor realizou 16 eventos. Como resultado, tem-se que, em média, o pesquisador organizou dois eventos técnico-científicos por semestre. Trata-se de uma média bastante respeitável, principalmente levando-se em conta a quantidade de dificuldades que encontramos para realização de eventos técnico-científicos compatíveis com as exigências que lhes são inerentes, como calendário, recursos e público alvo.
O segundo exercício diz respeito à bolsa ‘produtividade do CNPq’ que, como sublinha Souza, “decorre de um processo prévio de avaliação realizado pela própria comunidade científica de cada área”. Em total acordo com a lógica denunciada no artigo n. 49/2026, o pesquisador não somente a justifica, mas a naturaliza, recusando-se a analisar o que fora denunciado. Consequentemente, devolve para a pesquisadora a responsabilidade pessoal para angariar os ‘benefícios’ do reconhecimento sob a métrica gerencial-produtivista. Assim, em pleno acordo com a lógica meritocrática liberal, há que se dedicar mais, sujeitar-se mais, enquadrar-se mais...para alcançar a ’justa’ correspondência entre esforço/dedicação e reconhecimento (leia-se: pontuação) acadêmico. Porém, como ressalva Souza: “nenhum sistema de avaliação é isento de limitações ou críticas, e seu aperfeiçoamento deve ser contínuo”. Sim, é verdade. O problema é a partir de qual concepção de avaliação e razoabilidade partimos. E, registre-se: a adesão à lógica gerencial-produtivista não é prerrogativa exclusiva das Exatas, das Engenharias etc., pois há muitos colegas das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas que não apenas aderiram ao produtivismo acadêmico, mas o defendem, o estimulam e o reproduzem.
Nesta mesma toada, o terceiro exercício refere-se à criação de uma “rubrica denominada “Prêmio Nobel” e atribuir-lhe 10.000 pontos”. Esta proposição abstrata foi um pouco mais difícil de compreender frente ao objeto em discussão: a falta de razoabilidade no produtivismo acadêmico que orienta os processos seletivos de Iniciação Científica. Primeiramente porque não compreendo que o que está em avaliação é a excelência individual dos docentes-pesquisadores, mas as oportunidades que devem ser asseguradas aos estudantes que manifestam desejo de realizar pesquisa científica, sob a orientação de algum docente da sua área de interesse. Neste sentido, pareceu-me descabida tal proposição. Se a questão é de excelência individual, os espaços de concorrência não deveriam ser aqueles que devem ter por propósito proporcionar a qualificação de estudantes-pesquisadores.
Avançando para finalização deste artigo, reafirmo que a centralidade do artigo anterior (assim como deste) é o direito à Iniciação Científica de estudantes de todas as áreas de conhecimento e, como elas são distintas, não há possibilidade de garantir isonomia abstraindo suas diferenças e, tampouco, submetendo-se à irrazoabilidade do produtivismo acadêmico que, de forma nefasta, transforma docentes e pesquisadores em lutadores pela sobrevivência acadêmica, cada vez mais competitivos, hiperespecializados e, também, adoecidos.
Não por acaso, assim como recebi esta crítica qualificada do prof. Danilo de Souza, também recebi muitas outras manifestações de apoio e endosso à denúncia feita, não somente de colegas e estudantes da UFMT, mas, inclusive, de outras universidades brasileiras. Então, este não é um problema pessoal. E é exatamente sobre esta compreensão que deveria ser enfrentado. Portanto, não se trata de apelar para que colegas “não se deixem desmotivar por generalizações que, ainda que formuladas com legítima preocupação, podem transmitir à comunidade universitária a impressão de que produzir ciência de elevada qualidade equivale a submeter-se a uma lógica de ‘vassalagem acadêmica’”. Retomemos, portanto, a pergunta: qual a razoabilidade de presumir que é possível produzir ‘ciência de elevada qualidade’ em menos de dois dias? É este o papel central da universidade pública? Resignar-se aos cortes orçamentários, absorvendo a lógica da esteira de produção compatível com “as prioridades definidas” pelo mercado?
Sim, concordo plenamente com a afirmação: “Não dispomos de orçamento infinito e, por essa razão, toda política de fomento exige escolhas sobre onde investir recursos humanos, bolsas e financiamento”, porém, a partir da perspectiva do interesse público, não do mercado. E isto subverte toda a lógica que justifica o produtivismo acadêmico e os processos seletivos que o beneficia.
Em tempo: as críticas feitas por mim não se dirigem à equipe e à pró-reitoria da PROPESQ, mas a aderência à lógica produtivista que orienta os processos seletivos. É disto que se trata e que precisa ser enfrentado.