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Terça, 19 Maio 2026 17:55

Territórios Amazônicos II: Qual o papel da universidade no debate sobre degradação ambiental e redução das desigualdades no campo? Destaque

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O segundo dia de atividades do evento Territórios Indígenas MT II foi marcado por debates profundos, orientados pelos movimentos sociais de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de Atingidos por Barragens (MAB). Novamente, o papel da universidade em meio às questões sociais, políticas e econômicas que envolvem as disputas pela terra entre os movimentos sociais e o agronegócio foi o ponto central das reflexões.     

 

A coordenadora estadual do MST, Dê Silva, iniciou sua intervenção com a poesia “A fala da terra”, de Pedro Tierra, que ressalta: a paz no campo tem nome, é Reforma Agrária (leia a íntegra aqui).

 

Em seguida, relatou as dificuldades de falar de Reforma Agrária, uma política realizada em dezenas de países, incluindo Estados Unidos da América e outros europeus, num país que ainda não fez, e da importância da educação neste processo, em parceria com os movimentos sociais de trabalhadores organizados e as comunidades tradicionais, sem as imposições estabelecidas pelo governo – já orientado pelos interesses econômicos.


“A agroecologia é um modelo antagônico ao modelo hegemônico do capital, ela vai contra o capitalismo e o agronegócio. Se a universidade pensa em discutir agroecologia em paridade com o agronegócio, ela está fora da realidade do mundo. É preciso compreender a agroecologia como um modelo de enfrentamento a esse setor e ao capital”, pontuou.

 

Segundo Silva, neste debate, uma informação fundamental é quanto o setor hegemônico e o próprio Governo investem na instituição. “Assim, nós vamos saber que quem sustenta, de fato, a universidade é o povo, não é o agronegócio, porque esse modelo só expropria e explora. Para que de fato nós tenhamos demarcação de terras, os direitos que reivindicamos, a democratização da educação contextualizada será nossa ferramenta. Nós não queremos apenas o acesso à educação clássica e bancária, mas uma educação que enxergue a partir das nossas culturas, etnias, e priorize o fortalecimento das políticas que nós realmente precisamos, que são, de fato, as necessidades do povo – Pronera, Proindi, entre outras. É preciso que a universidade se abra para o povo, e essa é uma decisão política”.  


Marciano da Silva, também do MST, explicou que ser “sem terra” é uma identidade; é muito mais do que lutar pela distribuição de terras, é lutar pela democratização da terra junto à garantia de todos os direitos aos trabalhadores do campo e da cidade. “Todos os direitos que cada um de nós, aqui hoje, tem, foi conquistado com luta, não foi dado por alguém que era bonzinho”, destacou.

 

Além disso, o debatedor apresentou a agroecologia como, além de um modelo de produção, uma ciência que visa produzir pensando nas pessoas, nos animais e no meio ambiente. Um modelo que ajuda no fortalecimento de uma sociedade mais justa e igualitária.  

 

“A Reforma Agrária é uma questão de justiça, e o Brasil é um dos poucos que ainda não fez. Até os Estados Unidos fizeram. Os assentamentos não são a Reforma Agrária ainda, são frutos dessa luta, mas quando houver a Reforma Agrária vai ser bem diferente”, finalizou.

 

A professora Rafaella Felipe falou sobre a experiência no Projeto Gaia, que promove agroecologia em Sinop. Segundo Felipe, houve e ainda há muita resistência dentro e fora da universidade, e ainda não há órgãos institucionais para promover este modelo.

 

A docente falou, ainda, sobre alimentos com agrotóxico (veneno): uva, batata, tomate, pimentão, e destacou uma aparente contradição: um dos menos contaminados, de acordo com as pesquisas oficiais, é a soja. Isso ocorre porque, apesar de a soja ser um dos produtos que mais utiliza agrotóxicos na sua produção, os grandes produtores têm equipamento de milhões, enquanto a agricultura familiar tem apenas a indiferença. “A agricultura familiar está abandonada”, afirmou.

 

A manhã foi encerrada por uma dinâmica de grupos, onde os participantes deveriam destacar ameaças e fortalezas que identificam em suas lutas.

 

Algumas ameaças destacadas foram: o agronegócio, Hidronegócio, alimentos produzidos com alto teor de insumos agrícolas, emissão de carbono, mudanças climáticas, desmatamento, garimpeiros, madeireiros, a lógica do lucro, a naturalização do químico, a pressão dos fazendeiros, individualidade, Congresso inimigo do povo, desinformação, ignorância, mídia, universidade nas mãos dos capitalistas, abuso de poder, feminicídio, racismo, desigualdade no financiamento para produção (agronegócio tem financiamento público, a agricultura familiar não tem), especulação imobiliária, cooptação dos jovens.
  

Entre as fortalezas, foram citadas a solidariedade, a coletividade, unidade na luta, unidade popular, conscientização, movimentos e projetos que visam introduzir a agroecologia no cotidiano, estimular debates sobre meio ambiente, hortas escolares, educação, respeito, educação e sustentabilidade, agroecologia como ferramenta de segurança alimentar, alimentos saudáveis, soberania alimentar, ervas medicinais, emancipação humana, comunicação entre pessoas e comunidades, convívio interculturais.

 

 

Não é preciso degradar para prosperar


No período da tarde, a mesa “Degradação ambiental: ocupação do território, desafios e prioridades” foi conduzida pelos representantes do Movimento de Atingidos por Barragens.

 

A coordenação nacional, Emilly Schwingel, falou sobre a atuação do movimento em mais de 22 estados, onde pessoas foram atingidas por barragens e pelas mudanças climáticas.

 

Ela destacou que os grandes causadores dos crimes ambientais, desastres e mudanças são grandes empresas como a Vale, a Cargill, a Amaggi, entre outras, e não o nosso banho de mais de 5 minutos, como tentam fazer a população pensar. De acordo com Schwingel, os crimes ambientais ocorrem porque as empresas colocam o lucro acima da vida.

 

Após a leitura de um cordel sobre o tema, a professora Keyla Garcia, atingida pela construção da Usina Hidrelétrica de Sinop, também criticou a produção predatória de monocultura – de soja, de milho -, e falou sobre a Gleba Mercedes V, assentamento Wesley Manoel dos Santos, localizado ao norte de Mato Grosso (zona rural de Sinop), que foi colonizado de maneira institucionalizada a partir da década de 1970, orientada por políticas da ditadura militar. Na época, a região ficou conhecida como a última fronteira agrícola (saiba mais aqui).

 

Mais uma vez a grande questão foi: qual o papel da universidade, como ela pode ajudar? As respostas foram desde estimulando a conscientização e escutando os povos que ocupam esses territórios até desenvolvendo conhecimento e tecnologias.

 

A dinâmica da tarde pretendeu, justamente, identificar as degradações ambientais, seus causadores e o que é possível fazer neste cenário. Os participantes falaram sobre irregularidades nas chuvas, riscos às espécies, empobrecimento dos solos, entre outras realidades já vivenciadas nas regiões.   

 

O diretor da Adufmat-Ssind, Einstein Aguiar, representou um dos grupos e apresentou as ideias sobre como as instituições de ensino superior podem atuar. “A universidade tem vários papéis: monitorar (ela poderia ter um laboratório com satélite desenvolvido e mantido pelo governo, por exemplo. Tem isso a serviço do agro); ela pode criar subsistência voltada a desenvolver tecnologias para os pequenos produtores; ela pode agir como viabilizador de conhecimento, promovendo cursos rápidos para identificação das necessidades da comunidade, fazer formação em geoprocessamento, por exemplo; ela pode ter ambiente de prova, de teste, isso é muito comum na academia. Claro que a instituição não vai resolver tudo, ela não é o Estado, mas ela é um veículo que a gente pode usar para pensar, construir e elaborar”, afirmou.

 

 

A professora e também diretora da Adufmat-Ssind, Maria Salete Ribeiro, utilizou o microfone para agradecer. “Nós temos muito a aprender com os povos dos territórios. Saber a situação e, principalmente, as alternativas apontadas pelos povos originários, é fundamental para a produção de conhecimento de ensino superior”.   

 

 

Representantes indígenas de diversas etnias reafirmaram a importância da educação para fortalecer as relações entre as aldeias, garantindo direitos, e também aumentando o poder de reivindicação das populações.  

 

Esses destaques serão sistematizados em um documento, consolidando as potencialidades e desafios apontados pelos grupos.


O dia foi encerrado, novamente, com a exibição de filmes. Desta vez “Vidas Alagadas”, do MAB, e “Bicho Livre Terra Viva”, do Proteção Animal Mundial.

 

Luana Soutos

Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

Ler 51 vezes Última modificação em Quarta, 20 Maio 2026 15:53
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