*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
RELATÓRIO POLÍTICO - Alair Silveira
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Profa. Dra. Alair Silveira
Professora e Pesquisadora do SOCIP e do PPGPS. Membro do MERQO e do GTPFS
Entre os dias 28 e 30 de novembro/2025, foi realizado o Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas do ANDES-SN, promovido pelo GTPFS-ANDES/SN, na cidade de São Paulo/SP.
Organizado a partir de uma pauta bastante instigante, as discussões foram distribuídas conforme os seguintes temas/mesas: 1) Organização da classe trabalhadora e as estratégicas para superar a crise do movimento sindical, com a participação de Cláudio Mendonça (atual presidente do ANDES-SN), Gustavo Seferian (ex-presidente) e Letícia Nascimento (2ª vice-presidente); 2) Federação x Sindicato Nacional: um debate sobre concepção sindical, com Raquel Dias (ex-diretora ANDES-SN) e Diego Marques (2º tesoureiro); 3) Questões Organizativas e Financeiras, com Lays Grazielle Cardoso (Tesoureira da Sesduf-RR), Jennifer Webb (ex-tesoureira ANDES-SN) e Fernanda Maria Vieira (Secretária-Geral); 4) Proporcionalidade e Majoritariedade: um debate sobre democracia e organização sindical, com Sonia Lucio (AdUFF), José Vitório Zago (Unicamp) e Marcos Soares (1º vice-presidente da Regional SP do ANDES-SN); e, 5) Espaços deliberativos e funcionamento do ANDES-SN, com Maria Carlotto (AdUFABC), Antônio Gonçalves (ex-presidente ANDES-SN) e Caroline Lima (1ª vice-presidente).
O evento contou com a presença de 120 pessoas e a participação de 47 seções sindicais, evidenciando a pertinência dos temas, assim como a disposição de atuação sobre esta pauta. Este Seminário teve como pretensão aprofundar reflexões sobre os temas propostos, de maneira a confluir para a discussão no 44º Congresso Nacional, a ser realizado em Salvador-BA, entre os dias 02 e 06 de março de 2026.
Em que pese a relevância da pauta e a disposição manifesta pelo número de participantes, o Seminário acabou por revelar o aprofundamento da intolerância política de alguns colegas e, especialmente, de membros da atual da Direção Nacional, assim como de ex-diretores.
Neste sentido, avançando sobre níveis de intolerância já intoleráveis, prosperaram atitudes explícitas de deboche; palavras de ordem com intuito de constranger pedidos de esclarecimento; ‘enquadramentos’ de sindicalizados através da Comissão de Ética; hostilidades gratuitas; e, se não bastassem, associações ofensivas por parte de membros da direção do Sindicato Nacional.
Em um Seminário dedicado a tratar da ‘crise’ e da reorganização sindical, episódios inimagináveis há alguns anos atrás, evidenciaram a profundidade da crise do ANDES-SN e dos seus rumos desarrazoados. Paradoxalmente, em nome do respeito à diversidade, a divergência política e de método tem decretado o estreitamento cada vez maior da convivência democrática por dentro do Sindicato.
Em graus elevados de violência política inaudita para um Sindicato com a história do ANDES-SN, a 1ª vice-presidente chegou a propor, de forma ofensiva e desrespeitosa, uma campanha sobre as ‘piranhas’ do rio Amazonas, diante do questionamento sobre a infantilização da campanha sindical, com o uso de memes de gatinhos. A intenção explícita: ridicularizar quem questionou e, se possível, constranger ao ponto de silenciá-la.
Não bastassem manifestações indignas da vida sindical e, particularmente, da história do ANDES-SN, o presidente da entidade, associou a filmagem de uma das Mesas, por parte de uma sindicalizada, com práticas ‘fascistas’ e de ‘extrema-direita’.
Sob estas circunstâncias, acrescidas por práticas de intolerância que têm se acumulado ao longo dos últimos 10 anos, o merecido avanço da pauta identitária tem sido promovido - dentro do ANDES-SN – sobre a secundarização da pauta classista e pela interdição do contraditório.
Como evidência da interdição do contraditório e da saga punitivista (com expulsões, constrangimentos e hostilidades, e consequente desfiliação e/ou afastamento de militantes históricos), a campanha de sindicalização simplesmente ‘esqueceu’ a importância da organização sindical para a defesa dos interesses docentes, da Universidade, do Plano de Carreira, da valorização do trabalho etc., concentrando o apelo à sindicalização para o fortalecimento da pauta identitária.
O reconhecimento (por parte da Diretoria) quanto à ausência de referências às lutas específicas da categoria e de unidade de classe diz muito sobre a naturalização do processo de sobreposição da pauta identitária sobre os referentes de classe. Ausência que somente foi reconhecida após questionamento de militante de base.
Desta maneira, o Seminário que teve como propósito o acúmulo de discussões para o 44º Congresso Nacional chegou ao fim com gosto amargo, demonstrando que a ‘crise’ é bem mais profunda do que pensávamos. Isto é, a ‘crise’ do ANDES-SN não reside na forma de composição da Direção (se por sistema majoritário ou proporcional) ou na inquestionável superioridade da estrutura de Sindicato Nacional sobre a federativa. A centralidade dos problemas do nosso Sindicato é que a democracia interna que lhe fez potente tem sido carcomida de maneira sistemática e progressiva. Assim, da interdição da fala, agora - com a atuação ativa da Diretoria Nacional - o ANDES-SN avança para a violência política desmedida, recorrendo a práticas indignas e hostis, de maneira a afastar seus críticos dos ambientes de debate e de disputa política.
Não passarão!
CALENDÁRIO ECOLÓGICO 2026 - Juacy da Silva
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Juacy da Silva*
O final do ano se aproxima, indicando que em breve estaremos em 2026 e, como sempre acontece, precisamos visualizar o que deve acontecer no próximo ano e nos posicionarmos em relação ao futuro que está diante de nós.
Tendo em vista a importância das questões socioambientais, elaboramos um calendário para orientar nossas reflexões e também nossas ações, com o objetivo de enfrentar os principais desafios que estão diante de nós e, assim, cada pessoa, cada instituição pública e privada, incluindo as Igrejas, as Escolas, o empresariado rural e urbano e, também, os meios de comunicação, possam fazer sua parte nesta verdadeira cruzada em defesa de nossa Casa Comum.
Diante da crise climática, que a cada dia está se tornando mais grave, mais frequente e cujas consequências são terríveis, e da degradação dos biomas e ecossistemas, do desmatamento, da destruição das florestas, das queimadas, da poluição em níveis elevadíssimos das águas, dos solos e do ar, da falta de arborização urbana, da fome, da exclusão de bilhões de pessoas pelo mundo afora e milhões no Brasil, é importante, necessário e fundamental que haja um esforço coletivo para enfrentar esses problemas e desafios, antes que todas as formas de vida no planeta, inclusive a vida humana, sejam afetadas profundamente.
Os anos de 2015 e 2025 podem ser considerados “anos emblemáticos” em relação aos desafios socioambientais no mundo. Em 24 de maio de 2015, podemos identificar três marcos significativos para o movimento ambientalista mundial. Em maio daquele ano, o Papa Francisco publicou a Encíclica Laudato Si, um marco na história da Igreja, “resumindo tudo” o que a Igreja, ao longo de décadas ou séculos, havia exortado sobre o meio ambiente, a natureza como Obra da Criação, conectando as questões ambientais à Doutrina Social da Igreja e com a Opção Preferencial feita pela Igreja, principalmente no Concílio Vaticano II.
Em 27 de setembro, a ONU homologou e publicou os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, os ODS, denominados desde então de Agenda 2030, estabelecendo 17 grandes objetivos para ajudar os países a nortearem suas políticas públicas e articularem ações globais, mundiais, para enfrentar os grandes desafios mundiais, inclusive as mudanças climáticas, a destruição da biodiversidade animal e vegetal e as secas e desertificação.
E entre os dias 30 de novembro e 12 de dezembro foi realizada a COP21, tendo como principal resultado e marco o Acordo de Paris, em que a quase totalidade dos países firmou um compromisso internacional no sentido de reduzir e controlar as emissões de gases de efeito estufa (GEE), para que a temperatura média do planeta não exceda 2,0 ºC até o final do século XXI e, se possível, não ultrapasse 1,5 ºC até 2040. O que, diga-se de passagem, já foi ultrapassado em 2024, considerado o ano mais quente em mais de um século e meio.
Pois bem, dez anos depois desses três marcos significativos, o mundo encontra-se em situação socioambiental pior do que em 2015, e foi nesse clima que, há poucas semanas, realizou-se em Belém, Estado do Pará, a COP30, entre muita “pompa e circunstância”, muitos discursos, euforia, discussões, mas que, ao final, trouxe poucos resultados quanto aos principais desafios socioambientais, principalmente quanto ao estabelecimento de um ponto de referência temporal para que o mundo abandone a produção e uso de combustíveis fósseis e promova uma transição energética no contexto da Justiça Climática, da Justiça Social e Intergeracional.
Assim, chegamos ao final de 2025, há apenas cinco anos do marco “final” para que o mundo e todos os países atinjam os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, indicando que estamos perdendo a corrida para as catástrofes socioambientais, que a cada ano estão se intensificando e com mais intensidade e impactos ao redor do mundo.
Todavia, os aspectos cruciais que provocam a degradação socioambiental, o aquecimento global, as mudanças climáticas, o aquecimento e elevação dos níveis e da temperatura das águas dos mares e oceanos, aumentando o risco de deslocamento de bilhões de pessoas que moram em áreas costeiras e em milhares de ilhas em todos os continentes — repito, os principais desafios — sistematicamente, por pressão dos grandes poluidores, têm ficado fora dessas discussões e das ações de mitigação ou resolução dos problemas.
O conhecimento já produzido por inúmeros cientistas, estudiosos e relatórios de organismos de estudos e pesquisas, e também por parte do Painel Intergovernamental do Clima – IPCC, da ONU, tem demonstrado sobejamente que 75% da produção e emissão dos gases de efeito estufa – GEE decorrem do uso de combustíveis fósseis (petróleo e seus derivados), gás natural e carvão mineral, e que 80% dessas emissões são produzidas pelos países ricos ou mais desenvolvidos, ou seja, o famoso G20, do qual o Brasil também participa.
Pelo Acordo de Paris, firmado entre mais de 180 países e territórios em 2015, na COP21, os países ricos e os maiores poluidores se comprometeram a aportar recursos para um fundo a ser utilizado pelos países pobres, que menos poluem, mas que sofrem com as consequências da degradação socioambiental produzida pelos maiores poluidores.
Todavia, esse compromisso tem sido sistematicamente descumprido, e esses mesmos países produtores e consumidores de combustíveis fósseis, inclusive o Brasil, também se recusam a assumir o compromisso de colocar um ponto final, a partir de uma data a ser acordada, no uso desses combustíveis sujos, indicando que a elevação da temperatura média do planeta deverá superar não apenas os 1,5 ºC, mas, certamente, os 2 ºC dentro de poucas décadas, colocando em risco todas as formas de vida no planeta Terra, principalmente a vida humana.
Precisamos de mais ações, de mudanças de estilo de vida, de consumismo, de desperdício, enfim, precisamos de CONVERSÃO ECOLÓGICA e de um pacto global para salvar a ecologia integral, o planeta Terra, nossa CASA COMUM, enquanto é tempo, pois o “ponto do não retorno” já está entre nós.
Além das datas/dias relacionados com eventos ecológicos, cabe registrar que, em 2026, a Campanha da Fraternidade, coordenada pela CNBB e desenvolvida em todas as mais de 12 mil paróquias, em todos os Estados e o DF, terá como tema FRATERNIDADE E MORADIA e, como tal, é um tema umbilicalmente relacionado com a Ecologia Integral, com a pobreza e a exclusão em todas as dimensões.
Existe uma máxima que diz ser importante pensarmos globalmente e agirmos localmente, individual, mas, de preferência, COLETIVAMENTE, cujos resultados terão um maior poder de transformação de estilos de vida e, consequentemente, maiores impactos nas questões socioambientais.
Assim, ao longo do ano de 2026, da mesma forma que em anos anteriores e no futuro, tanto a nível internacional/mundial quanto dos países, inclusive do Brasil, o calendário destaca algumas datas importantes que nos propiciam uma reflexão mais profunda sobre aspectos particulares da ecologia e que devemos aproveitar esses dias ou semanas especiais para celebrarmos, comemorarmos ou inclusive alertarmos a população/opinião pública sobre a importância das diferentes ações que possam estimular mudanças de comportamento, de atitudes e de estilo de vida, que possam contribuir para um melhor cuidado com a Casa Comum, que é o nosso planeta Terra.
Procure saber mais e refletir criticamente, ao longo do próximo ano, sobre esses dias e semanas especiais, voltados para a Ecologia Integral.
CALENDÁRIO ECOLÓGICO DE 2026
JANEIRO
11 — Dia do Controle dos Agrotóxicos
26 — Dia Mundial da Educação Ambiental (ver também 03 de junho)
26 — Dia Internacional da Energia Limpa
31 — Dia do Engenheiro/Engenheira Ambiental
FEVEREIRO
02 — Dia Mundial de Proteção das Zonas Úmidas
06 — Dia do Agente da Defesa Ambiental
07 — Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas
18 — Quarta-feira de Cinzas – Início da CF 2026 Fraternidade e Moradia
20 — Dia Mundial da Justiça Social
MARÇO
01 — Dia do Turismo Ecológico
03 — Dia Mundial da Vida Selvagem
04 — Dia Mundial da Engenharia para o Desenvolvimento Sustentável
05 — Dia Mundial da Eficiência Energética
13 — Dia do Conservacionismo
14 — Dia Internacional contra as Barragens
16 — Dia Mundial da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas
21 — Dia Mundial das Florestas
22 — Dia Mundial da Água (ver também 19 de setembro)
23 — Dia Mundial da Meteorologia
29 — Dia da Coleta Nacional da Solidariedade – Domingo de Ramos
30 — Dia Internacional do Lixo Zero (ver também 29 de setembro)
ABRIL
03 — Sexta-feira da Paixão
05 — Domingo de Páscoa
15 — Dia Nacional da Conservação do Solo (ver também 05 de dezembro)
17 — Dia da Botânica
19 — Dia dos Povos Indígenas – Brasil (ver também 09 de agosto)
22 — Dia da Terra
28 — Dia Nacional da Caatinga
MAIO
11 — Dia Mundial das Aves Migratórias
12 — Dia Nacional da Sanidade Vegetal
16 — Dia do Gari (cuidado com o lixo/resíduos sólidos)
17 — Dia Internacional da Reciclagem (ver também 05 de junho)
20 — Dia Mundial das Abelhas (ver 03 de outubro)
21 — Dia das Plantas Medicinais
22 — Dia Internacional da Biodiversidade Biológica
16 a 24 de maio — Semana Laudato Si
24 — 11º aniversário da publicação da Encíclica Laudato Si
25 — Dia do Trabalhador Rural
27 — Dia Nacional da Mata Atlântica
29 — Dia Mundial da Energia
JUNHO
01 a 08 — Semana do Meio Ambiente
03 — Dia Nacional da Educação Ambiental (ver também 26 de janeiro)
05 — Dia da Ecologia
05 — Dia Mundial do Meio Ambiente
05 — Dia Nacional da Reciclagem (ver também 17 de maio)
05 — Dia Internacional contra a Pesca Ilegal
07 — Dia Mundial da Segurança dos Alimentos
08 — Dia Mundial dos Oceanos
11 — Dia do Educador Sanitário / Educadora Sanitária
17 — Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca
17 — Dia do Gestor Ambiental
30 — Dia Nacional do Fiscal Agropecuário
JULHO
03 — Dia Internacional Sem Sacos Plásticos
12 — Dia do Engenheiro Florestal
13 — Dia do Engenheiro de Saneamento / Sanitarista
17 — Dia Mundial de Proteção das Florestas (ver também 21 de março e 21 de setembro)
26 — Dia Mundial de Proteção dos Manguezais
AGOSTO
08 — Dia Interamericano da Qualidade do Ar
09 — Dia Internacional dos Povos Indígenas (ver também 19 de abril)
10 — Dia dos Pais
10 — Dia Internacional do Biodiesel
10 — Dia da Solidariedade Cristã
12 — Dia Nacional dos Direitos Humanos
21 — Dia Nacional da Habitação
28 — Dia Nacional do Voluntariado
SETEMBRO
1º de setembro a 4 de outubro — Tempo da Criação
01 — Festa da Criação e momento de abertura do Tempo da Criação
01 — Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação
03 — Dia do Biólogo
05 — Dia da Amazônia
05 — Dia Internacional da Sobrecarga de Plásticos (Dia Internacional do Excesso de Plásticos)
07 — Dia da Independência do Brasil
07 — Dia Mundial do Ar Limpo (Combate à Poluição do Ar)
11 — Dia Nacional do Cerrado
16 — Dia Internacional de Luta para a Preservação da Camada de Ozônio
19 — Dia Mundial de Luta pela Limpeza das Águas (ver também 22 de março)
21 — Dia da Árvore (ver também 21 de março e 17 de julho)
22 — Dia Nacional em Defesa da Fauna
25 — Dia da Bandeira dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
29 — Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos (Dia Internacional do Desperdício Zero — ver também 30 de março)
29 — Dia Mundial dos Rios
OUTUBRO
01 — Dia Internacional e Nacional das Pessoas Idosas
01 — Dia do Vegetarianismo
03 — Dia Nacional da Agroecologia
03 — Dia Nacional das Abelhas (ver 20 de maio)
04 — Dia de São Francisco de Assis e encerramento do Tempo da Criação
04 — Dia da Natureza
04 — Dia dos Animais
07 — Dia Mundial do Habitat
12 — Dia do Engenheiro Agrônomo / Engenheira Agrônoma
15 — Dia do Educador Ambiental e Dia do Professor e da Professora
16 — Dia Mundial da Alimentação (fome zero)
17 — Dia da Agricultura
17 — Dia Mundial de Erradicação da Pobreza
31 — Dia Mundial das Cidades
NOVEMBRO
01 — Dia do Veganismo
08 — Dia Mundial do Urbanismo
09 a 16 — Semana Mundial dos Pobres
12 — Dia do Pantanal
16 — Dia Mundial dos Pobres (33º Domingo do Tempo Comum)
20 — Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra (feriado nacional)
DEZEMBRO
05 — Dia Mundial do Solo (ver também 15 de abril)
10 — Dia Internacional dos Direitos Humanos (Meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito de todas as pessoas – ênfase no conteúdo do Art. 225: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”)
Como podemos perceber, ao longo de 2026 teremos inúmeros momentos (pelo menos 78 dias e algumas semanas especiais para a ecologia integral, que aqui estão destacados) para refletirmos sobre aspectos importantes relacionados com a vida no planeta Terra e a CRISE CLIMÁTICA, que a cada dia e ano são mais constantes, cujos efeitos são cada vez mais catastróficos.
Cabe-nos, a todos nós, população em geral, empresários, governantes, lideranças sociais, políticas e religiosas, aproveitarmos esses dias para estimularmos as pessoas e as instituições governamentais e não governamentais, inclusive as religiosas, clubes de serviços, empresários, escolas etc., a dedicarem um pouco de tempo para refletirmos e encontrarmos caminhos e saídas para esta grave crise climática e desafios socioambientais que tanto nos afetam.
Esta é uma forma, também, de praticarmos a Educação Ambiental, na verdade, a EDUCAÇÃO ECOLÓGICA CRÍTICA E LIBERTADORA!
Finalmente, precisamos transformar nossos discursos, nossos sonhos em realidade. Somente as ações produzem transformações socioambientais, mudanças de costumes, de estilo de vida e de sistemas produtivos. Precisamos ter mais respeito pela natureza, pelas Obras da Criação, combatermos o consumismo, o desperdício e a geração de lixo, resíduos sólidos, da mesma forma que precisamos promover uma transição energética justa e rápida. Se o mundo não abandonar a produção e uso de combustíveis fósseis, a tendência será o aumento das catástrofes, e a humanidade terá que conviver com condições extremamente desfavoráveis a todas as formas de vida no planeta Terra, principalmente a vida humana.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, Sociólogo, Mestre em Sociologia, Ambientalista, Articulador da Pastoral da Ecologia Integral – PEI – Região Centro Oeste; E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
DO PALÁCIO À PRISÃO - Roberto Boaventura
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Por Roberto Boaventura*
Com a prisão do inominável ex-presidente da República, ocorrida no último dia 22, cada brasileiro que consegue entender a dimensão disso tem o amplo e irrestrito direito de se manifestar livremente. Assim, muito na esteira do conteúdo de “Vai Passar”, canção de Chico Buarque para os momentos já bem próximo do funeral da ditadura militar, imposta ao Brasil pelos golpistas de 64, vale, sim, extravasar. Para isso, os incontáveis memes, que voam pelas redes sociais, falam muito neste momento de felicidade para a maioria de nossa população.
De minha parte, como não sei fazer memes, resolvi escrever sobre a importância dessa prisão, posto o quão difícil, mas muito significativo, foi ver o país ter conseguido forças para a preservação do seu Estado Democrático de Direito. Por conta dessa preservação, na linha do tempo, foi-nos possível acompanhar seu aguardado indiciamento por diversos e gravíssimos crimes, dentre os quais estava a tentativa de golpe de Estado, assistir, de camarote, a seu digno e incisivo julgamento, e respirar aliviado por sua merecida condenação.
Contudo, longe de pretender abarcar uma ampla avaliação de todos os significados dessa prisão, que não são poucos, circunscrevo-me a uma curiosidade que pode caber em datas e acontecimentos muito simbólicos para a população de qualquer país: o que cada um de nós fazia no dia em que o inominável foi preso, repito, mesmo em caráter preventivo, por ter tentado se desvencilhar de sua tornozeleira e fugir, como já fizeram alguns de sua espécie?
De minha parte, vejam que feliz coincidência: mantive minha programação de sair bem cedo de onde moro atualmente rumo a São Paulo, de onde apenas 80 km me distanciam. Lá, mais no início da noite, me juntaria com um grupo de amantes das artes para mais um dos saraus que são realizados na residência de um excelente compositor, instrumentista e cantor. Detalhe muito importante, mas tão naturalizado em tempos de normalidade democrática: para o encontro desse seleto grupo, o anfitrião do sarau nos convidou por meio mensagem de texto, via whatsapp, o que soa elementar nos dias atuais.
Do detalhe acima exposto, afirmo, de pronto, que o sarau do qual pudemos tranquilamente participar no dia em que o inominável foi preso não teria ocorrido, caso o golpista, hoje, mais um presidiário de nosso país, tivesse tido o sucesso desejado e arquitetado. Motivo óbvio: estaríamos imersos numa ditadura, capitaneada ou por ele ou por algum fardado de sua própria tropa. Sim. Alguém descarta a possibilidade de um golpe dentro do golpe, caso o infortúnio tivesse sido concretizado? Até que ponto golpistas fardados suportariam a subordinação a um ser tão limitado, como o inominável?
Seja como for, aquela mensagem no whatsapp nos convidando para o sarau, ou não viria ou viria toda cifrada, na intenção de despistar “...hipócritas, disfarçados, rondando ao redor”, dos quais Gilberto Gil já nos falara em “Não chores mais”.
Agora, mais um detalhe, qual seja, a coincidência da qual falei acima: a motivação do sarau realizado no dia 22 – mas idealizado bem antes, e sem prejuízo de outras homenagens, como as que poderiam ter sido feitas ao Jards Macalé, o “Anjo Torto”, falecido há poucos dias – era manter vivas a memória e a obra de Lô Borges, morto em 02 de novembro. Cada um dos participantes do sarau ficava encarregado de falar ou cantar algo que reverenciasse o já saudoso mineiro do Clube da Esquina.
De sua vasta obra, eu havia escolhido “Paisagem da Janela”, composta em parceria com Fernando Brant, em 1972, ápice da censura em nosso país. Essencialmente, sua letra retrata a atmosfera pesada e perigosa que a censura dos golpista de 64 nos impunha a todos, mas mais especificamente a quem conseguia raciocinar sobre aquele momento vivido, opondo-se a ele. Assim, nessa canção, os versos “Quando eu falava desses homens sórdidos / Quando eu falava desse temporal” são imagens linguísticas da crueldade de um tempo sombrio, de perseguições, torturas e mortes; tempo que se contrapunha à tranquilidade vivida antes do golpe, representada, na canção, pela “igreja”, “muro branco” e “voo pássaro”.
Enfim, o sarau que nos foi possível realizar no dia 22 teve um sabor ainda mais marcante do valor da democracia. Sem medo algum de ter em nosso meio eventual hipócrita nos “ob-observando”, homenageamos Lô Borges e outras vozes (reais, e não advindas de surtos psicóticos) que sempre souberam do valor e da necessidade de defesa que as democracias, sempre em risco, demandam de nós todos.
Salve(m) a Democracia. Sempre.
PS.: como a prisão de que me refiro aqui é provisória, o mérito das reflexões expostas permanece, mesmo se alguma liminar judicial ou coisa do gênero der ao “ilustre” presidiário algum direito de sair de onde se encontra no momento da escritura deste artigo.
*Roberto Boaventura da Silva Sá é Dr. em Ciências da Comunicação/USP.
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Juacy da Silva*
A criação clama em meio a inundações, secas, tempestades e calor implacável. Uma em cada três pessoas vive em extrema vulnerabilidade devido a essas mudanças. Para elas, a mudança climática não é uma ameaça distante. Ignorar essas pessoas é negar nossa humanidade compartilhada. Ainda há tempo para manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5°C, mas a janela está se fechando. Como administradores da criação de Deus, somos chamados a agir com rapidez, fé e visão de futuro para proteger o dom que Ele nos confiou. Caminhamos ao lado de cientistas, líderes e pastores de todas as nações e religiões. Somos guardiões da criação, não rivais por seus recursos. Papa Leão XIV, 17 de novembro de 2025, em sua Mensagem “As Igrejas particulares do Sul Global reunidas no Museu Amazônico, em Belém, Estado do Pará, durante a COP 30”.
A Igreja Católica, tanto a Romana quanto a Ortodoxa, bem como todas as demais Igrejas e religiões, consideram que existe um princípio divino criador do Universo, incluindo o Planeta Terra e tudo o que nele existe. Essas são obras da criação, cabendo à humanidade cuidar, zelar e preservar todos os biomas e ecossistemas, para que, da mesma forma que as gerações anteriores e presentes, também as futuras gerações possam usufruir de um meio ambiente saudável, harmônico e equilibrado.
Todavia, há vários séculos, a partir da Revolução Industrial e, principalmente, nas últimas cinco décadas, tanto em decorrência do aumento populacional, quanto da urbanização e do acelerado crescimento econômico, este equilíbrio entre sistemas produtivos, consumismo, desperdício e uma ganância extrema, a humanidade vem explorando os chamados recursos naturais de uma forma irracional e descontrolada, em proveito de uma minoria da população.
Fruto deste processo de acumulação de capital, bens, riquezas e rendas, o desequilíbrio socioambiental tem produzido consequências e impactos, como a exaustão desses recursos, danos ambientais profundos com a poluição das águas, dos solos e do ar; a destruição da biodiversidade, o aumento das emissões de gases de efeito estufa, que produzem aquecimento global e a atual crise climática, enfim, tornando a vida no planeta em risco permanente, principalmente a vida humana.
Ao longo dos últimos 63 anos, todos os Papas desde então, de forma direta ou indireta, têm exortado tanto os fiéis católicos quanto a população em geral e a própria Igreja enquanto Instituição, representada pela sua hierarquia eclesiástica, a ter um cuidado maior com o meio ambiente, evitando que o mesmo venha a se deteriorar e afetar diretamente todas as formas de vida em nossa Casa Comum, que é o Planeta Terra.
O Concílio Vaticano II, que foi um marco na história da Igreja (1962-1965), não abordou explicitamente as questões socioambientais como um tema central e independente, mas lançou as bases teológicas para o desenvolvimento posterior da doutrina social da Igreja sobre ecologia integral.
A principal abordagem do Concílio Vaticano II estava centrada na relação entre o homem e a natureza no contexto do desenvolvimento e do bem comum, a destinação universal dos bens da natureza e o domínio responsável dos seres humanos em relação às obras da criação.
Ao lado da opção preferencial pelos pobres, também a consciência ecológica e a crise ambiental ganharam destaque nas décadas seguintes ao Concílio, o que levou os Papas subsequentes a aprofundar a questão com base nos fundamentos estabelecidos e também no desenvolvimento científico e tecnológico, que lançaram luzes sobre a finitude do planeta e o chamado “ponto do não retorno”.
Assim, o Papa João XXIII (hoje São João XXIII), que convocou o Concílio Vaticano II, em outubro de 1962, como Bispo de Roma, demonstrou sua preocupação a respeito do uso dos recursos naturais no planeta, dizendo: “O Paraíso sobre a Terra é o uso moderado e prudente das coisas belas e boas que a Providência espalhou pelo mundo, sem ser exclusivas a ninguém e úteis a todos”.
Em 1971, o Papa Paulo VI – na Encíclica Pacem in Terris – criticou a exploração insensata, gananciosa, exagerada e sem racionalidade dos recursos naturais finitos, que são obras da criação divina, em proveito de uma minoria, excluindo a grande maioria, bilhões de pobres, tema retomado de uma forma bem direta pelo Papa Francisco, quando diz, na Encíclica Laudato Si, que “o grito da terra é também o grito dos pobres, excluídos e oprimidos”.
Já o Papa Bento XVI enfatizou diversas vezes, em seus pronunciamentos, a necessidade de uma correção dos modelos de crescimento econômico que não levam em consideração o meio ambiente, que deve ser usado em benefício de todas as pessoas e não para atender apenas aos interesses de uma minoria, como atualmente acontece.
Coube ao Papa Francisco, em maio de 2015, antes que a ONU houvesse definido os ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – e também antes mesmo da realização da COP 21, cujo marco significativo foi o estabelecimento do Acordo de Paris, firmado por 195 países e territórios, consolidar todo o conhecimento acumulado pela Igreja e por inúmeros teólogos e cientistas, contidos na Encíclica Laudato Si.
Em 15 de outubro de 2017, dando sequência às suas preocupações e ao cuidado com o meio ambiente, o Papa Francisco convocou o Sínodo da Pan-Amazônia, que foi realizado entre 6 e 27 de outubro de 2019.
Após o encerramento do Sínodo da Amazônia, em 12 de fevereiro de 2020, mais uma vez o Papa Francisco demonstrou seu apreço pela Ecologia Integral ao publicar a Exortação Apostólica Querida Amazônia.
Foi, todavia, em 4 de outubro de 2023, com a publicação da Exortação Apostólica Laudate Deum, endereçada aos participantes da COP 28 e a todas as pessoas de bem, convocando o mundo a cuidar melhor do Planeta como única forma de evitar uma tragédia que já está em curso.
Também a Igreja do Brasil, representada pela CNBB, através da Campanha da Fraternidade, há mais de seis décadas tem escolhido temas ecológicos para serem objetos dessa iniciativa.
Como podemos mencionar, os temas e lemas das diversas Campanhas da Fraternidade que abordaram temas ecológicos são os seguintes: 1970 – Por um mundo mais humano – Preserve o que é de todos; 1986 – Fraternidade e a terra – Terra de Deus, terra de irmãos; 2002 – Fraternidade e povos indígenas – Por uma terra sem males; 2004 – Fraternidade e água – Água fonte de vida; 2007 – Fraternidade e Amazônia – Vida e missão neste chão; 2011 – Fraternidade e vida no planeta – A criação geme em dores de parto; 2016 – Casa Comum, nossa responsabilidade – Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça como qual riacho que não seca; 2017 – Fraternidade e biomas brasileiros e defesa da vida – Cultivar e guardar a criação; e, finalmente, em 2025 – Fraternidade e a Ecologia Integral – Deus viu que tudo era muito bom; e, em 2026, o tema será Fraternidade e moradia.
A preocupação da Igreja Católica com as questões socioambientais tem acontecido paralelamente com um despertar mundial, estimulado e articulado pela ONU desde a 1ª Conferência sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, na Suécia, em 1972, seguida da ECO 92, realizada no Rio de Janeiro em 1992.
A ECO 92 foi um marco significativo neste despertar, tendo como frutos a promulgação da Carta da Terra e o estabelecimento das bases para três convenções importantes para diversas ações que foram ou continuam sendo realizadas, incluindo a convenção pelo clima (motivada pela organização do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), a convenção sobre a proteção da biodiversidade e a convenção para o combate às secas e à desertificação; além de aprofundar o conceito de desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade ambiental, como parâmetro fundamental para nortear as políticas públicas e os sistemas produtivos em todos os países.
Em 1995, foi realizada a primeira COP – Conferência das Partes sobre o Clima – em Berlim, iniciando uma sequência anual dessas conferências, culminando com a COP 30, atualmente em curso em Belém, no Estado do Pará.
A COP 3, em 1997, realizada no Japão, foi o marco para o surgimento do Protocolo de Kyoto, que teve vida curta e poucos resultados concretos, principalmente pela baixa adesão dos países responsáveis pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa, incluindo a saída dos EUA, o maior poluidor histórico do planeta. Em 2012, o Protocolo de Kyoto praticamente chegou ao fim, deixando um hiato entre as preocupações com a crise climática e a falta de ações concretas para enfrentá-las.
O ano de 2015 foi um marco significativo na história das COPs e também das discussões sobre a necessidade de um acordo sobre o clima, em que os países que mais poluem deveriam pagar, ou seja, a necessidade de um fundo para financiar as ações de combate aos impactos produzidos pela degradação do planeta, o que não tem acontecido.
Diversos temas diretamente relacionados ao combate à crise climática não têm obtido consenso nas diferentes COPs, demonstrando que existe um grande fosso entre os discursos, os acordos e protocolos internacionais e as ações, que são extremamente limitadas ou inexistentes.
Durante a COP 21, em 2015, na França, foi firmado o Acordo de Paris, com inúmeros objetivos e metas a serem estabelecidos pelos diversos países, mas, da mesma forma que o Protocolo de Kyoto, a maioria dos países poluidores, como Estados Unidos, China, Índia, outros do G7 e outros integrantes do G20, não têm cumprido com suas obrigações, demonstrando a falta de compromissos de fato com o combate às mudanças climáticas e seus impactos.
Os Estados Unidos, durante os dois governos de Trump (o anterior e o atual), saíram do Acordo de Paris, apesar de ser o maior poluidor mundial historicamente considerado e o segundo desde há muito tempo, logo após a China, que é o maior poluidor do planeta há várias décadas.
De acordo com dados de diversas instituições internacionais e nacionais de pesquisas, e a própria ONU em seus relatórios, têm demonstrado que 75% do total das emissões de gases de efeito estufa são provenientes da produção e uso de combustíveis fósseis — petróleo e derivados, gás natural e carvão — e que 83% de todos esses gases poluidores são produzidos pelos países do G20, no qual, inclusive, o Brasil participa.
Diante dessas evidências, causa espécie o fato de que em todas as COPs jamais colocam a questão da necessidade de um acordo internacional para parar com a produção e o uso dos combustíveis fósseis, bem como a responsabilização dos países que mais têm poluído o planeta ao longo da história e ainda atualmente continuam sendo os maiores poluidores, pagarem pelos danos ambientais causados pelos mesmos.
Todas as COPs, sem exceção, têm sido ótimos fóruns de diálogo, troca de experiência e de mobilização social e política, mas com poucos ou nenhum resultado mais efetivo que aponte para uma transição energética, pondo fim ao uso dos combustíveis fósseis e à substituição dos mesmos por energias limpas e renováveis.
Precisamos de mais ações e menos discursos, acordos, tratados e protocolos internacionais que jamais são cumpridos.
Por exemplo, em 1972, ano da realização da 1ª Conferência Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente, até 2025, momento da realização da COP 30, a produção e emissão de gases de efeito estufa que se acumulam na atmosfera passaram de 16,22 bilhões de toneladas métricas/ano equivalentes de CO₂ para 54,5 bilhões desses gases anualmente.
Entre 1972 e 1995, quando foi realizada a primeira COP, essas emissões praticamente dobraram, atingindo 33,31 bilhões de toneladas métricas por ano.
Em relação à produção e uso de petróleo e derivados, apesar de todas as discussões ocorridas em todas as COPs, relatórios de organismos internacionais (ONU e outros) indicam um aumento imenso, passando de 20,2 milhões de barris/dia em 1972; para 60,6 milhões de barris/dia (COP1); para 104,9 milhões de barris/dia em 2025.
Já a produção de gás natural, também combustível fóssil, gerador de energia suja, passou de 1,7 trilhão de metros cúbicos em 1972; caindo para 1,6 trilhão em 1995; e novamente aumentando para 4,1 trilhões em 2022.
Outro combustível fóssil que, além de sujo, continua sendo utilizado amplamente como fonte de energia, principalmente na China, na Índia e em vários países europeus, é o carvão, com produção de 5,8 bilhões de toneladas métricas em 1972; para 4,6 bilhões de toneladas métricas em 1995; aumentando para 8,8 bilhões de toneladas em 2024.
Outro indicador que também demonstra a falta de cumprimento dos acordos internacionais relacionados com a crise climática é o desmatamento. Apesar de a ciência demonstrar sobejamente a importância das florestas, da mesma forma que mares e oceanos, enfim, todos os corpos d’água têm no controle da poluição, sequestrando gases de efeito estufa e armazenando-os no subsolo das florestas, mesmo assim, o mundo assiste passivamente à destruição de todas as florestas, principalmente as florestas tropicais, onde estão incluídas a Amazônia, a floresta do Congo e de alguns outros países asiáticos.
Entre 1972 e 1995, o total de desmatamento no mundo atingiu 180 milhões de hectares, caindo para 107 milhões de hectares entre 1995 e 2015, mas aumentando para 109 milhões de hectares entre 2015 e 2025, totalizando 396 milhões de hectares de áreas desmatadas.
Vale a pena mencionar também que o mundo enfrenta outro problema socioambiental terrível: mais de 100 milhões de hectares de áreas, outrora agricultáveis, anualmente se transformam em áreas degradadas, com muitos impactos na produção de alimentos, na desertificação e nos biomas e ecossistemas.
O Brasil, por exemplo, tem mais áreas degradadas do que ocupadas com agricultura, demonstrando a gravidade deste problema ambiental.
Diante desta realidade, apesar de muita euforia, um certo ufanismo e uma grande mobilização mundial despertados pelas diversas COPs, inclusive a COP 30, poucos resultados concretos têm surgido ao longo dessas décadas, e isto também deve acontecer com a COP 30. (Quem viver verá!)
Isto demonstra que, tanto para a Igreja quanto para todas as demais organizações públicas e não governamentais, o desafio de um cuidado melhor com o meio ambiente permanece, cabendo a cada pessoa e a cada entidade ações mais efetivas, possibilitando uma mudança radical e profunda nos paradigmas dos sistemas de produção e nas relações de consumo, dentro de uma ótica de justiça social, justiça climática e justiça intergeracional.
É neste contexto que a Igreja tem diante de si, tanto no Brasil quanto em todos os demais países, um enorme desafio: ser coerente com as Encíclicas, Exortações Apostólicas de seus Papas e também com os alertas advindos de milhares de cientistas demonstrando que estamos perdendo muito tempo em “discussões”, dedicando pouco tempo em ações; afinal, são essas ações que, de fato, mudam a realidade!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ; Instagram @profjuacy
A QUINTA REVOLUÇÃO ENERGÉTICA DOS SAPIENS - O DOMÍNIO DOS ESTOQUES - Danilo de Souza
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Por Danilo de Souza*
Se o domínio dos fluxos naturais (vento e água) representou a consolidação de uma civilização capaz de domesticar para mover a produção com as forças da natureza, a quinta revolução energética dos Sapiens marcou uma ruptura ainda mais profunda. Trata-se da passagem do uso de fontes renováveis de fluxo para a apropriação de estoques de energia acumulados ao longo de milhões de anos. Foi o momento em que a humanidade aprendeu a extrair da crosta terrestre as reservas concentradas de energia fóssil, como carvão, petróleo e gás natural, e, com elas, inaugurou a era industrial e o paradigma do crescimento acelerado.
Vale lembrar que, até o limiar do século XVIII, a trajetória civilizatória dos Sapiens esteve ancorada em fontes derivadas direta ou indiretamente do sol: biomassa vegetal, tração animal e forças hidráulicas e eólicas. Toda a produção de bens, alimentos e meios de transporte dependia de ciclos naturais de reposição contínua. Essa matriz de fluxos impunha limites físicos claros ao ritmo de expansão das sociedades. A descoberta e a exploração sistemática de estoques subterrâneos, como produtos fossilizados da fotossíntese pretérita, romperam esses limites.

MENZEL, Adolph. The Iron Rolling Mill (Modern Cyclopes). 1875. Óleo sobre tela, 158 × 254 cm. Alte Nationalgalerie, Berlim. Disponível em: https://www.smb.museum/en/museums-institutions/alte-nationalgalerie/home/. Acesso em: 8 nov. 2025.
A história da metalurgia sintetiza esse salto. Durante milênios, o trabalho do ferro, do cobre e do bronze esteve restrito à disponibilidade de carvão vegetal, combustível escasso e de difícil transporte. Entretanto, as florestas não conseguiam mais sustentar o apetite das forjas. O carvão mineral e depois o coque permitiram atingir as temperaturas necessárias para alimentar os altos-fornos e multiplicar a produção de ferro e aço. Sem ele, a Revolução Industrial não teria passado de um esboço.
Nesse sentido, o domínio dos estoques substituiu fontes sazonais e dispersas por uma energia densa, concentrada, contínua e armazenável. Com o carvão vieram as máquinas a vapor, as locomotivas, as minas profundas e as fundições. A termodinâmica emergiu como ciência e tornou-se a linguagem da civilização moderna.
A alta densidade energética do carvão mineral, sendo de 25 a 30 MJ por quilograma, dez vezes superior à da madeira, proporcionou um salto civilizatório sem precedentes, libertando o trabalho humano dos ritmos naturais e permitindo a produção contínua, independente do sol, do vento ou da água. Na Inglaterra do final do século XVIII, onde se reuniam abundância de carvão, portos acessíveis, capital e inovações técnicas, consolidou-se um novo sistema produtivo que transformou profundamente a sociedade: a industrialização, que não se resume à revolução técnica, marcou o início de uma era em que a energia se tornou autônoma dos ciclos naturais, possibilitando um brutal aumento da produtividade do trabalho.
De se notar que, durante quase 300 mil anos, a população dos Sapiens manteve-se em níveis reduzidos, crescendo lentamente de algumas dezenas de milhares de indivíduos até alcançar o primeiro bilhão por volta de 1800. Foram centenas de milênios até esse marco inicial. No entanto, em apenas dois séculos, precisamente o período em que a humanidade passou a explorar de forma intensiva os estoques de carvão, petróleo e gás, essa cifra se multiplicou por oito, chegando aos atuais oito bilhões de habitantes. Obviamente, esse salto demográfico não pode ser explicado apenas por avanços médicos, sanitários ou tecnológicos, mas, sobretudo, pela expansão energética proporcionada pelos estoques fósseis. Foi o acesso a essa energia densa e concentrada que permitiu a produção em massa de alimentos, a mecanização da agricultura, o transporte de grandes volumes e a industrialização global. A energia dos estoques ampliou a capacidade humana de transformar matéria, sustentar aglomerações urbanas e organizar sociedades cada vez mais complexas, redefinindo o metabolismo social e biológico dos Sapiens.
Importa destacar que o século XX ampliou o domínio dos estoques. O petróleo, combustível líquido e versátil, substituiu o carvão e tornou-se a base da civilização moderna. Navios, automóveis e aviões redefiniram o espaço e o tempo, conectando o planeta. A petroquímica, por sua vez, abriu fronteiras na produção de plásticos, fertilizantes e fármacos.
A energia dos estoques transformou o próprio conceito de riqueza e poder. O capital passou a ser medido por toneladas de carvão e barris de petróleo, enquanto o capitalismo industrial nascia do casamento entre motor e combustível. Como analisa Alfred Crosby (2006), em Children of the Sun: A History of Humanity’s Unappeasable Appetite for Energy, a industrialização representou o momento em que os Sapiens expandiram de forma sem precedentes sua “fome energética”, um impulso civilizatório que, a cada novo estoque explorado, exigia outro ainda maior, tornando o crescimento econômico e populacional dependente da exploração contínua das reservas fósseis do planeta.
Essa abundância, contudo, teve um preço. Se nas revoluções anteriores a energia era limitada pela natureza, na era dos estoques o limite passou a ser o planeta. A queima massiva de combustíveis fósseis alterou o equilíbrio termodinâmico da atmosfera, elevando a concentração de dióxido de carbono e modificando o clima global.
Do ponto de vista social, a quinta revolução energética produziu ambivalências. Libertou parte da humanidade do trabalho físico e multiplicou o conforto, mas também ampliou desigualdades e consolidou economias baseadas na exaustão de recursos finitos. A era que pode ser denominada de capitalismo industrial nasceu ancorada no controle global de energia e matéria. O acesso aos estoques passou a definir o poder das nações e o destino das guerras.
A industrialização baseada em estoques alterou a relação simbólica dos Sapiens com a natureza. Se antes predominava a ideia de convivência, cultivar, aproveitar, direcionar, agora se consolidou a lógica da extração e do domínio. O subsolo converteu-se em horizonte energético e em metáfora de poder. Extrair passou a significar progresso.
Nessa perspectiva, o domínio dos estoques, assim, foi simultaneamente libertador e aprisionante: libertador por romper os limites impostos pelos fluxos naturais; aprisionante por criar uma dependência estrutural de fontes não renováveis, cujas consequências ambientais e sociais são desafiadoras.
Hoje, compreendemos que essa revolução inaugurou tanto a era do crescimento exponencial quanto a do risco existencial. A abundância de energia fóssil permitiu avanços científicos e tecnológicos sem precedentes, mas trouxe consigo o desafio de reconstruir o elo entre energia, economia e ecossistema.
OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".
*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT e pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente IEE/USP.
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Juacy da Silva*
Manter as florestas em pé, os mares limpos e as geleiras eternas é um, ou talvez o maior, desafio que está posto à humanidade nesta fase histórica do aumento e agravamento da crise climática, da degradação dos biomas e da destruição da biodiversidade animal e vegetal.
A convite da Profa. Mestra em Sociologia Marlene Renck, participei, hoje, 06/11/2025, de uma roda de conversa, diálogo, com uma de suas turmas da disciplina de Sociologia, do penúltimo ano do Ensino Médio da Escola Estadual Liceu Cuiabano Maria de Arruda Müller, em Cuiabá.
O tema objeto da reflexão foi Desmatamento e Crise Climática, no contexto dos desafios socioambientais brasileiros e do planeta, exatamente no dia em que o Brasil realiza as primeiras reuniões com chefes e representantes de delegações de mais de uma centena e meia de países, para discutir a crise climática, na COP30, em Belém, Estado do Pará, tendo como uma das grandes propostas apresentadas pelo presidente Lula a criação do Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, como mecanismo de preservação do que ainda resta das florestas tropicais, diante da importância das mesmas para o enfrentamento da crise climática.
Creio que essas são oportunidades que devemos explorar tanto na dimensão da Educação Ambiental Crítica quanto em relação às ações que todas as organizações públicas e também não governamentais, inclusive a Igreja, representada, por exemplo, pela Pastoral da Ecologia Integral, devem fazê-lo de uma forma constante.
Despertar a consciência ecológica tanto entre crianças, adolescentes e a juventude é uma forma de motivarmos um maior engajamento dessa camada demográfica no cuidado com a Casa Comum, com o futuro do planeta Terra, diante do agravamento da crise climática e de tantas outras formas de degradação e destruição do meio ambiente.
Fico extremamente grato à Profa. Marlene pela oportunidade e tenho certeza de que podemos articular mais eventos como este em inúmeras escolas e também em parceria com o movimento comunitário e outras iniciativas, para buscar uma maior aproximação de crianças, adolescentes e jovens, para participarem mais diretamente desta jornada.
Ao fazermos este diálogo, estamos promovendo também Justiça Intergeracional, pois são as crianças, adolescentes e jovens de hoje que irão viver, dentro de mais 10, 20, 30 ou 40 anos, como adultos, em um planeta e em um país cada vez mais destruídos pela forma como produzimos, como consumimos e como nos relacionamos com a natureza — enfim, nosso estilo de vida, nosso sistema produtivo e nossas relações de trabalho.
Diante da gravidade da crise climática e de um desastre anunciado, chegando ao que o secretário-geral da ONU, António Guterres, tem alertado — que já estamos atingindo o “ponto do não retorno”, a partir do qual as consequências e impactos desta catástrofe serão devastadores —, precisamos transformar os atuais paradigmas econômicos, tecnológicos e nossos hábitos consumistas e de desperdício por outros que coloquem a sustentabilidade, a economia circular e a economia solidária como eixos principais da caminhada que a humanidade precisa realizar neste planeta a partir de agora.
Assim, somente as crianças, os adolescentes e os jovens têm o potencial para tais mudanças radicais, proativas, inovadoras e participativas, que devolvam o equilíbrio entre a natureza e os seres humanos. Sem isso, estamos condenados ao fracasso!
É neste sentido que devemos acreditar, ainda, no papel de uma educação libertadora e em uma educação ambiental crítica, cada vez mais, com esperança, como as chaves para um futuro diferente, mais harmônico e mais feliz!
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Juacy da Silva*
A temível mudança climática, representada pela atual crise climática, com elevação da temperatura média do planeta, tem como fato gerador a emissão constante e cada vez em maior quantidade de gases de efeito estufa que se acumulam na atmosfera.
Neste sentido, é fundamental destacar que, em torno de 75% das emissões desses gases de efeito estufa são produzidas pela produção e uso de combustíveis fósseis (petróleo e derivados, carvão e gás natural) e, de acordo com relatório da ONU, em 2019, os países do G20 são responsáveis por mais de 80% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). Sempre é bom lembrar que o Brasil faz parte do G20 e também é um dos países que contribuem significativamente para a crise climática que estamos vivenciando, e não mera vítima das ações de outros países que degradam o planeta.
Diante disso, só existem duas saídas, que devem ser buscadas ao mesmo tempo. A primeira é a redução significativa dessas emissões de gases de efeito estufa (GEE), através de mudanças radicais nos sistemas de produção e de consumo (de hábitos de consumo e estilos de vida individuais e coletivos). Isto significa mudar, radicalmente, as matrizes energética e elétrica mundial e os fundamentos da economia e, segunda, o sequestro de parte desses gases que, ao longo de quase dois séculos, desde o início do período da industrialização, foram sendo acumulados na atmosfera.
O sequestro dos GEE é feito pelos oceanos e grandes corpos d’água, pelas florestas (que já foram ou continuam sendo impiedosamente destruídas) e pelas geleiras. Os oceanos estão se transformando em uma grande lixeira planetária, emitindo mais GEE do que sequestram; as geleiras estão derretendo em decorrência do aquecimento global, e as florestas também já foram ou continuam sendo destruídas, via desmatamento e queimadas, em todos os países.
“Estudo realizado pelo Instituto Totum e pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), da Universidade de São Paulo, em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, estima que cada árvore da Mata Atlântica absorve 163,14 kg de gás carbônico (CO₂) equivalente ao longo de seus primeiros 20 anos. O carbono estocado por árvore resulta em aproximadamente 130 kg CO₂-eq para as árvores na Mata Atlântica e 222 kg CO₂-eq para as árvores da Floresta Amazônica.”
A quase totalidade dos cientistas concorda que uma das formas mais eficazes para absorver parte do CO₂ já acumulado na atmosfera seria plantando mais árvores, reflorestando, pois estas utilizam CO₂ para crescer e liberam oxigênio; tal ação traz benefícios para todo o meio ambiente.
Árvores e outras plantas, inclusive aquáticas, produzem oxigênio, o gás essencial para a sobrevivência das pessoas e de outros animais. Quando as árvores são cortadas, como acontece com frequência nas áreas urbanas ou no meio rural, para serem transformadas em pastagens, produção de alimentos, ou simplesmente se transformarem em áreas degradadas, menos oxigênio é liberado na atmosfera. Quando uma área é desmatada, muitos animais e plantas simplesmente morrem, ao passo que outros perdem seu habitat e precisam migrar para outros ecossistemas, como acontece com inúmeras espécies de aves que fogem das queimadas do Pantanal em direção às áreas urbanas da região.
A neutralização de carbono por plantio de árvores, urbanas ou reflorestamento rural, acontece através do sequestro de carbono da atmosfera. O carbono é retirado do meio ambiente e fixado no solo, na biomassa da planta. As florestas sequestram o elemento apenas na fase de crescimento das árvores, pois, ao atingirem o seu clímax, o balanço da compensação de CO₂ é zero.
De acordo com matéria publicada pela WRI Brasil, em 2021, “um novo estudo publicado na revista científica Nature Climate Change e disponível no Global Forest Watch concluiu que as florestas do mundo sequestraram cerca de duas vezes mais dióxido de carbono do que emitiram entre 2001 e 2019. Em outras palavras, as florestas fornecem um ‘sumidouro de carbono’ com uma absorção líquida de 7,6 bilhões de toneladas de CO₂ por ano, 1,5 vez mais carbono do que os Estados Unidos, segundo maior emissor histórico do mundo, emitem anualmente.”
Diante de tantas evidências científicas, não tem sentido que governantes (prefeitos e vereadores) e gestores municipais, da mesma forma que governantes estaduais e federais, ignorem a importância das florestas naturais ou plantadas e, também, da arborização urbana, tanto para mitigar os efeitos da crise climática quanto como uma das formas mais eficientes de sequestrar gases de efeito estufa acumulados e que continuam sendo acumulados na atmosfera, produzindo aquecimento global, quanto para melhorar a qualidade de vida nas cidades e em seu entorno.
Quando falamos em arborização urbana, estamos nos referindo tanto ao plantio de árvores nos espaços públicos urbanos, como ruas, avenidas, praças e parques, quanto também aos espaços privados ou mesmo públicos, como quintais das casas e também espaços ao redor das edificações públicas, como escolas, unidades de saúde ou edificações administrativas.
Outro componente importante quando se fala em arborização urbana são as florestas urbanas e periurbanas, com áreas bem maiores do que os parques, com milhares de hectares, propiciando espaços e ecossistemas para a vida silvestre, os corredores ecológicos e a proteção das nascentes, demais cursos d’água, a biodiversidade local e regional, bem como espaços para caminhadas ao ar livre, que fazem muito bem à saúde física, mental e emocional; enfim, melhoram a qualidade de vida das pessoas.
Como estamos em plenas atividades para a realização da COP30, em Belém, no Estado do Pará, que ocorrerá no período de 10 a 21 deste mês de novembro de 2025, considerado o maior evento climático que é realizado todos os anos desde 1995, é importante que possamos refletir sobre alguns aspectos de nossa realidade socioambiental local, aqui e agora, dentro da concepção “pensar globalmente e agir localmente”.
Também aqui em Mato Grosso, nos dias 10 a 12 deste mês, será realizada a COP do Pantanal, por iniciativa e coordenação da UNEMAT e do IFMT, com o objetivo de analisar e refletir sobre os principais desafios socioambientais que a maior planície alagável do mundo, Patrimônio Nacional e Mundial, vem enfrentando, pois está sendo destruída ano após ano, correndo o risco de morte, de desaparecer, se nada for realizado para impedir a degradação e destruição de sua rica biodiversidade.
Os grandes acordos, tratados internacionais ou nacionais precisam estar concretizados em ações locais; sem isso, todos esses esforços e compromissos não passam de meros discursos, palavras e documentos que nada produzem de concreto.
Inúmeras pesquisas e estudos produzidos tanto no Brasil quanto por diversas instituições internacionais e centros de estudos renomados ao redor do mundo vêm demonstrando que o aquecimento global, o volume de gases de efeito estufa, enfim, a crise climática e a temperatura média do globo terrestre têm aumentado significativamente nas últimas décadas, em ritmo muito mais acelerado do que em décadas e séculos anteriores.
Todavia, este aumento não é igual em todos os biomas, ecossistemas e países. Em algumas regiões, esses estudos indicam que, dentro de poucos anos, no máximo em torno do ano de 2040, a temperatura média anual poderá ser em torno de 45º, 50º graus centígrados ou até mesmo mais, impossibilitando todas as formas de vida, inclusive a vida humana.
O mundo tem assistido ao aumento da desertificação e períodos de secas mais prolongados, década após década, à destruição da biodiversidade e à degradação das bacias hidrográficas e dos aquíferos subterrâneos, indicando os riscos que corremos em termos de sobrevivência da vida na Terra.
Entre essas regiões, cinco ou seis se destacam: o Norte da África e Oriente Médio; parte da Índia; parte da Austrália; parte dos EUA e do México, e também o Centro-Oeste brasileiro e parte do Nordeste, incluindo a região conhecida como MATOPIBA.
Cabe um destaque: Cuiabá, que, pelo menos em mais da metade dos dias do ano, atualmente já é ou tem sido considerada a capital mais quente do Brasil, também estará experimentando mais dias com temperaturas acima de 40º, 45º ou até mesmo 50º graus (na sombra), e com mais dias com baixíssima umidade, ou seja, o período sem chuvas, com altas temperaturas e com baixa umidade, tornará a vida, principalmente de crianças e pessoas idosas e também de animais, extremamente difícil.
É neste contexto que a questão ambiental, ou melhor, socioambiental, se insere como uma dimensão importante e necessária quando as políticas públicas nacionais, estaduais e municipais são definidas e os planos, programas e ações de governo são estabelecidos.
Uma dessas dimensões que, tanto em Cuiabá, Várzea Grande e na grande maioria das cidades brasileiras, principalmente as de porte médio e grandes, incluindo aglomerados urbanos e regiões metropolitanas, é a questão da ARBORIZAÇÃO URBANA, lamentavelmente desconsiderada em Cuiabá e em Várzea Grande.
Para refletir sobre esta importante questão, dentro de poucos dias, na próxima sexta-feira, 07 de novembro de 2025, às 16h, estarei participando de um podcast com o jornalista Luisão, no programa Boa Tarde MT, ocasião em que iremos refletir sobre a importância da arborização urbana e por que, apesar de constar do Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico de Cuiabá desde 2007, até hoje a Prefeitura de Cuiabá não encaminhou o Plano Diretor de Arborização Urbana – PDAU para a Câmara Municipal de nossa capital.
Todos nós sabemos que, a cada dia, Cuiabá, Várzea Grande e toda a região Centro-Oeste têm experimentado um aumento acentuado da temperatura média, com ondas de calor, tanto na área central, totalmente degradada, quanto nos bairros periféricos, que prejudicam a saúde e o bem-estar das pessoas.
A arborização urbana, da mesma forma que reduzir os desmatamentos e as queimadas, tanto urbanas quanto rurais, aliadas ao combate à poluição urbana e à degradação generalizada do meio ambiente, são condições necessárias para mitigar os efeitos e impactos que a crise climática e todas as formas de descaso com o meio ambiente provocam na vida e na saúde das pessoas.
Inúmeros estudos têm demonstrado que ruas, avenidas, praças, parques e florestas urbanas têm um efeito positivo na temperatura média das cidades e favorecem as condições de vida, principalmente para pedestres, crianças e pessoas idosas.
Não tem sentido que Cuiabá, juntamente com Várzea Grande, o maior aglomerado urbano de Mato Grosso, já com pouco mais de um milhão de habitantes, continue destruindo o meio ambiente e, em lugar de cobertura vegetal, assista a uma volúpia pela impermeabilização do solo com asfalto e cimento em todos os lugares, tanto dos espaços públicos quanto privados, afetando o equilíbrio ecológico.
Torna-se, pois, urgente que a população em geral e também todas as lideranças pressionem a Prefeitura de Cuiabá para que conclua os estudos e o plano de arborização da capital, elaborado por uma consultoria contratada pela gestão anterior, elabore o Projeto de Lei Complementar – o PDAU – e que o mesmo seja encaminhado à Câmara Municipal com a maior urgência possível, para ser analisado e aprovado, cabendo à Prefeitura a sua coordenação e execução, inclusive abrindo espaços para parcerias com pessoas e entidades que desejam participar deste processo de arborização urbana.
Sem a aprovação do PDAU, todos os esforços voluntários de inúmeras entidades e pessoas que desejam ver Cuiabá voltar a ser, novamente, a nossa CIDADE VERDE perdem o sentido, pois é função do PDAU estabelecer as normas técnicas para que a arborização urbana seja feita corretamente.
Somente com o PDAU aprovado é que a Prefeitura poderá incluí-lo nas “peças” orçamentárias como o PPA – Plano Plurianual do Município, com objetivos e metas de curto, médio e longo prazos; na LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias e na LOA – Lei Orçamentária Anual.
Desde que foi aprovado o Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico, ainda na administração de Wilson Santos, em 2007, diversos prefeitos, incluindo Chico Galindo, Mauro Mendes, Emanuel Pinheiro e, atualmente, Abílio Brunini, e dezenas de vereadores já foram eleitos e/ou reeleitos, mas nada foi feito para que o PDAU se tornasse o instrumento fundamental para normatizar e orientar a arborização urbana de nossa capital.
Oxalá o atual prefeito, os atuais vereadores e as atuais vereadoras de Cuiabá despertem para este desafio, da mesma forma que tantos outros desafios socioambientais que existem em nossa capital, e aprovem o PDAU e outras medidas para que Cuiabá volte a ser não apenas novamente a CIDADE VERDE que queremos e merecemos, mas também uma cidade sustentável, limpa, sem lixo pelas ruas, sem esgotos escorrendo a céu aberto, sem poluição do ar, poluição sonora e sem poluição visual.
Só assim teremos uma capital que seja sustentável de verdade e tenha uma política ambiental coerente com uma melhor qualidade de vida, onde as pessoas tenham orgulho de viver!
Considerando o preceito constitucional de que “todo o poder emana do povo”, é fundamental que a população, que paga impostos para sustentar toda a máquina pública, não se omita, que exerça sua cidadania; afinal, cabe ao povo dizer aos políticos e gestores públicos o que desejamos e esperamos que os mesmos realizem, e não o contrário, deixando a essas “mentes iluminadas” as decisões que afetam a vida de cada cidadão e cidadã.
Por isso é que precisamos pressionar nossas autoridades municipais, nossos governantes que foram eleitos com os nossos votos, pois cabe a eles atenderem, não aos seus interesses pessoais ou de grupos, mas aos interesses, necessidades, objetivos e aspirações da população cuiabana, da mesma forma que a população varzeagrandense e também de milhares e milhares de outras cidades de nosso país, em todas as dimensões da vida urbana, principalmente na questão da arborização urbana.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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JUACY DA SILVA*
Se Lula, mesmo estando fora do poder há 12 anos, conseguiu derrotar Bolsonaro, que estava como presidente da República, com a máquina na mão, obtendo mais de 60 milhões de votos no segundo turno em 2022, com certeza pode ser considerado um candidato quase imbatível à reeleição em 2026. Este é o desespero da direita e da extrema-direita diante dos cenários eleitorais futuros.
Desde antes das eleições de 2022, quando o povo brasileiro elegeu democraticamente Lula para um terceiro mandato como presidente da República, alguns próceres da direita e, principalmente, da extrema-direita, dominada amplamente pelo bolsonarismo, não têm dado tréguas ao mesmo.
Durante os quatro anos de Bolsonaro, conforme diversas investigações da Polícia Federal têm comprovado, e a Justiça não tem se omitido, ficou e tem ficado amplamente documentado as maquinações que ocorriam inclusive nas antessalas dos Palácios do Planalto e da Alvorada, como o gabinete do ódio, as ações das milícias digitais e também tentativas de atos terroristas, como o que iria explodir um caminhão-tanque carregado com combustíveis próximo ao aeroporto de Brasília, ações contra a sede da Polícia Federal em Brasília, os bloqueios em diversas rodovias federais, os acampamentos golpistas em frente a diversas unidades militares, até culminar com a depredação do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e da sede do Supremo Tribunal Federal, como já demonstrado pelas ações que estão em curso ou já concluídas na referida Suprema Corte, quando a cúpula das maquinações — o que é chamado de “master minds”, em inglês, os cabeças pensantes —, incluindo o ex-presidente, acabou sendo condenada por diversos crimes a nada menos do que 27 anos de prisão, inicialmente em regime fechado.
Neste meio-tempo, uma verdadeira campanha tem sido feita sistematicamente, primeiro pelo ex-presidente, quando ainda estava no cargo, contra alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, incluindo tentativas de “impeachment” dos mesmos junto ao Senado Federal e insinuações de atos de corrupção por parte dos mesmos, desmentidos pelo próprio ex-presidente quando inquirido frente a frente pelo ministro Alexandre de Moraes.
Outra forma de “melar” as eleições foi a tentativa de desacreditar as urnas eletrônicas e o processo eleitoral, envolvendo até mesmo as Forças Armadas, através de uma comissão do Ministério da Defesa para fiscalizar as urnas eletrônicas — algo que jamais se inclui entre as atribuições das Forças Armadas —, tendo em vista que, no Brasil, desde a Proclamação da República, não existe mais a figura do “poder moderador”, que era atribuída ao imperador e que alguns militares golpistas tentavam ressuscitar ao interpretar de forma equivocada o que realmente é atribuição das Forças Armadas, estimulando um caráter golpista aos militares, o que, graças à postura legalista dos comandantes da Força Aérea e do Exército, impediu que se concretizasse realmente um golpe de Estado.
Outra forma de estimular a instabilidade democrática e criar um clima de caos institucional tem sido as ações e maquinações do filho do ex-presidente, também deputado federal, que, mesmo sem trabalhar no Congresso como parlamentar, continua recebendo seus salários, apesar de estar nos EUA fomentando ações do governo americano contra o Brasil, incluindo o tarifaço de 50% sobre nossas exportações, gerando desemprego, instabilidade econômica e financeira para diversos segmentos produtivos, além de criar um clima de conflito entre os EUA e o Brasil, ensejando reprimendas contra autoridades do Poder Judiciário e outras figuras de relevo do governo federal.
Diante de uma pronta atitude de altivez e firmeza por parte do presidente da República, ao defender a soberania nacional, a independência e a autodeterminação de nosso país e em não ceder a tais pressões, essas “armações” acabaram caindo por terra, como sendo “um tiro pela culatra”, ou seja, o prestígio de Lula perante a opinião pública nacional e internacional se elevou, tendo em vista que o mesmo demonstrou que não existem razões econômicas e muito menos comerciais nas práticas adotadas pelo Brasil em sua política externa, principalmente na política de comércio exterior, tendo em vista que os EUA são superavitários em relação ao Brasil em mais de 400 bilhões de dólares nos últimos quinze anos, ou seja, os EUA vendem muito mais ao Brasil do que importam de nosso país.
Além disso, as ameaças americanas à soberania e independência do Brasil em decorrência do julgamento da trama golpista e outros crimes cometidos contra o Estado Democrático de Direito, contra as instituições e contra os interesses nacionais seguiram todos os trâmites legais, com direito à ampla defesa, à presunção da inocência e ao chamado “contraditório”, e que isto é atribuição do Poder Judiciário, não sujeito à interferência do Poder Executivo.
Bastou um mero aperto de mão e a troca de olhares e poucas palavras entre Lula e Trump, por ocasião da presença de ambos no início da Assembleia Geral da ONU, em setembro último, para que todas as maquinações contra o Brasil fossem desfeitas.
Ato contínuo, ocorreu um diálogo telefônico entre os dois chefes de Estado e, a partir daí, as negociações e a busca de um consenso estão sendo alcançadas, culminando com um encontro formal entre Lula e Trump neste último domingo, durante a reunião da ASEAN, na Malásia, por quase uma hora, quando os mesmos estavam acompanhados de seus ministros de Relações Exteriores, assessores e negociadores, para que este imbróglio criado pelos paladinos da extrema-direita seja desatado.
Durante este encontro coube a Lula apresentar, por escrito, toda a argumentação pertinente e, pela reação de Trump, pode-se dizer que essas pendengas criadas por quem desejava colocar o Brasil perante os olhos do mundo e, principalmente, perante os olhos de Trump e do governo americano, caíram por terra, aumentando o crédito internacional quanto à postura e altivez de Lula e do governo brasileiro.
Como se diz, todas as dúvidas e juízos imprecisos não resistem à verdade, e foi isto o que Lula demonstrou ao presidente Trump, destruindo todas as maquinações que estavam e, com certeza, por mais algum tempo, ainda serão tentadas por falsos patriotas que colocam os interesses familiares acima dos interesses nacionais.
Desde o início das pressões americanas, embasadas em informações distorcidas apresentadas pelo filho do ex-presidente Bolsonaro para fundamentar suas narrativas — que corre o risco de ter seu mandato cassado —, o mesmo alimenta uma guerra surda com vários outros expoentes da direita e extrema-direita, implodindo a possibilidade de haver um consenso entre aspirantes a candidatos à Presidência da República, incluindo diversos setores do chamado Centrão.
Neste contexto, todas as pesquisas de opinião pública, nos últimos três ou quatro meses, estão demonstrando que Lula tem recuperado seu prestígio eleitoral em todos os estados e regiões, entre todos os segmentos, inclusive em alguns outrora marcadamente favoráveis ao bolsonarismo e a outros candidatos de direita, como os evangélicos, as mulheres, a população que ganha até cinco salários mínimos, os jovens e as diversas categorias de trabalhadores.
Resumindo: se as eleições fossem hoje ou nas próximas semanas, tendo em vista os frutos desta reunião entre Trump e Lula deste último domingo, o atual presidente venceria todos os demais concorrentes e, talvez, conseguisse este feito no primeiro turno.
Além disso, e até mesmo diante do boicote que o governo Lula tem sofrido, principalmente na Câmara Federal e em parte do setor empresarial, especialmente do mercado financeiro, denominado de “Faria Lima”, graças ao desempenho do governo tanto em termos econômicos quanto sociais, este prestígio de Lula e de seu governo tem sido altamente favorável.
Foi por isso que, há poucos dias, ao celebrar seu aniversário de 80 anos, Lula disse, de forma bem clara, que se sente em condições físicas, mentais, emocionais e políticas para concorrer a um quarto mandato em 2026.
Todavia, existe um grande desafio que está em jogo: tanto a direita quanto a extrema-direita, aos poucos, estão aceitando a vitória de Lula em 2026 e, diante disso, pretendem seguir no jogo de obstrução parlamentar. Para tanto, a grande estratégia deste segmento político conservador seria aumentar a maioria que já detém na Câmara Federal e que tantas dores de cabeça e derrotas parlamentares têm imposto ao governo Lula, prejudicando não o governo federal em si, mas o povo brasileiro, principalmente os pobres e a classe média.
Além disso, esta estratégia da direita e extrema-direita tentará desesperadamente conseguir também a maioria absoluta no Senado Federal, a partir de onde poderá provocar o impeachment de alguns ministros do STF e até mesmo um golpe parlamentar, como o que ocorreu contra Dilma.
Todavia, da mesma forma que Bolsonaro foi o maior cabo eleitoral da direita e extrema-direita em 2022, quando ajudou a eleger diversos senadores e deputados antes totalmente desconhecidos pelo Brasil, nas eleições de 2026, com certeza, diante dos resultados altamente positivos do governo Lula, tanto em relação às políticas públicas internas quanto à política externa brasileira, o atual presidente poderá alavancar a eleição de uma ampla maioria tanto na Câmara Federal quanto no Senado e, com alta probabilidade, em relação aos futuros governadores.
Este está sendo, cada vez mais, o temor e o desespero da direita e extrema-direita brasileira. Estamos, praticamente, a menos de um ano das eleições no primeiro turno e, a cada dia, o clima político e pré-eleitoral fica mais dinâmico e mais imprevisível, apesar dos inúmeros desafios que os partidos têm diante de si nos estados. Em muitos, a direita e a extrema-direita estão cada vez mais rachadas, o que favorece o chamado centro democrático, o centro-esquerda e os partidos de esquerda.
Lula já demonstrou sua habilidade em juntar cacos e construir novos vasos e sair-se vencedor, e isto deverá ocorrer mais uma vez!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
VAMOS REFLETIR E CELEBRAR - Juacy da Silva
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JUACY DA SILVA*
“Sonhemos com um mundo mais justo e mais humano, sem vencidos e nem vencedores, sem oprimidos e nem opressores, um mundo onde a paz esteja sempre presente.” — Dom Helder Câmara.
Esta semana é muito importante, pois estaremos celebrando seis eventos significativos para a sustentabilidade em nosso país e no mundo. Ontem, 12, além de ter sido o Dia de Nossa Senhora Aparecida, figura central da fé católica e Padroeira do Brasil, também foi o Dia do Engenheiro Agrônomo e da Engenheira Agrônoma, profissionais que, ao longo das últimas décadas ou século, no mundo inteiro, mas principalmente no Brasil, vêm encabeçando e conduzindo uma verdadeira revolução no sistema agrícola brasileiro, possibilitando que nosso país se tornasse o maior produtor de grãos, de proteína animal e de commodities, e também em tantas outras culturas e práticas sustentáveis em nosso país.
Na quarta-feira, 15 de outubro, é dedicado à luta de milhões de professoras e professores, mesmo não sendo devidamente reconhecidos, mal pagos e trabalhando em condições adversas — inclusive enfrentando violência dentro das salas de aula ou violência por parte de instituições públicas que deveriam oferecer-lhes condições adequadas de trabalho digno —, continuam fazendo da educação um instrumento de libertação de educandos e, ao mesmo tempo, ensejando uma jornada criativa, contribuindo sobremaneira para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, únicas condições para, verdadeiramente, garantir nossa soberania popular e nacional, nossa independência e fortalecer nossas instituições, nossa democracia e nosso Estado Democrático de Direito, colocando o Brasil em uma posição de destaque no cenário internacional.
Aqui cabe um destaque: todos os países que hoje são potências mundiais, como China, EUA, Alemanha, ou já ocuparam esta posição, como Reino Unido, Japão, França e outros mais, durante décadas a fio, decidiram que a Educação, a Ciência e a Tecnologia fossem — ou continuem sendo — suas prioridades máximas, suas estratégias para conquistar e manter objetivos nacionais que as colocassem no topo do “ranking” mundial do desenvolvimento e da qualidade de vida. O que, lamentavelmente, nossos governantes, nas três esferas de governo, com raras exceções, ainda não entenderam e, por isso, não valorizam os profissionais que se dedicam a esta jornada e, muito menos, uma educação pública de qualidade e universal.
Ao estabelecer os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável em 2015 — mesmo ano em que foi firmado o Acordo de Paris, para o combate efetivo das mudanças climáticas, e também da publicação da Encíclica Laudato Si', sobre a Ecologia Integral, pelo Papa Francisco —, a ONU enfatiza o papel da Educação e da Igualdade de Gênero em todas as sociedades e nações, como podemos ver nos ODS 4 e 5, que estabelecem a necessidade de: assegurar uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade de aprendizagem ao longo da vida para todos, e, alcançar a igualdade de gênero e empoderar as mulheres e meninas.
Também neste 15 de outubro é o Dia do Educador e da Educadora Ambiental, outra missão fundamental para, através de uma educação ambiental/ecológica crítica, estimular as pessoas — tanto nas escolas, universidades e centros de ensino superior quanto em todos os demais setores, como igrejas, clubes de serviço, associações profissionais, empresariais, instituições públicas, movimentos sindicais e comunitários —, repito, a missão de educadores e educadoras ambientais é estimular as pessoas a mudarem suas formas de produzir e consumir, transformarem hábitos e estilos de vida que impactam negativamente o princípio da sustentabilidade ambiental.
Todas as formas de degradação dos biomas, de destruição da biodiversidade, de poluição das águas, dos solos e do ar; o desmatamento, as queimadas, que direta ou indiretamente impactam negativamente a vida no planeta, bem como tantas outras, como o consumismo, o desperdício e a obsolescência, geram impactos negativos sobre o meio ambiente, representando o que o Papa Francisco sempre enfatiza: que a degradação e destruição de nossa Casa Comum, o Planeta Terra, decorrem de hábitos e estilos de vida que representam os paradigmas de uma Economia da Morte, paradigmas esses que precisam ser substituídos por outros que nos conduzam a uma Economia da Vida (agroecologia e economia solidária, por exemplo).
Para substituir tais paradigmas, é fundamental que haja uma mudança profunda de hábitos e estilos de vida, como a própria ONU insiste ao definir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, com destaque para o ODS 12, que estabelece: “Garantir padrões de consumo e de produção sustentáveis”.
Finalmente, na quinta-feira, 16 de outubro, é o Dia Mundial da Alimentação (fome zero, desperdício zero), outro objetivo estabelecido pela ONU no contexto do ODS 2: “Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável”.
O Dia Mundial da Alimentação foi estabelecido em 1979, na 20ª Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A primeira celebração ocorreu em 1981, e a data é comemorada anualmente em 16 de outubro para marcar o aniversário de fundação da FAO em 1945, que neste ano completa 80 anos e uma grande história de realizações voltadas para a sustentabilidade do planeta, para a Justiça Social e a Equidade.
O tema do Dia Mundial da Alimentação em 2025 é: "De Mãos Dadas por Alimentos Melhores e um Futuro Melhor". A celebração global, organizada pela FAO, destaca a necessidade de colaboração entre governos, organizações públicas e privadas e as comunidades para criar sistemas agroalimentares mais justos, sustentáveis e saudáveis. Outro tema localmente utilizado é: “Alimentação, territórios e resistência”, focando nos diferentes modos de produzir alimentos, de comer e viver no Brasil, valorizando, inclusive, os saberes e estilos de vida ancestrais.
Neste contexto das comemorações do Dia Mundial da Alimentação em 2025, ao longo da próxima semana serão realizados diversos eventos em Roma, sede da FAO, para celebrar esses 80 anos da FAO, refletir sobre a caminhada que vem sendo feita para tanto combater a fome e a miséria quanto desenvolver sistemas de produção agropecuária que respeitem a sustentabilidade, os limites e direitos do planeta e, ao mesmo tempo, produzam alimentos — em quantidade e qualidade — saudáveis, orgânicos, tão importantes para a saúde humana. Enfim, para uma população mundial que já supera 8,2 bilhões de pessoas e deverá ultrapassar 8,5 bilhões de bocas em 2030, podendo atingir 9,8 bilhões de habitantes em 2050.
Para que isso seja possível, é fundamental o apoio dos diversos governos, inclusive do Brasil, tanto à agricultura capitalista, voltada para o mercado internacional quanto, e principalmente, à agricultura familiar, de base agroecológica, que cumpre um grande papel tanto no que concerne à geração de oportunidades de trabalho e renda, quanto voltada, fundamentalmente, para o mercado interno. E, neste particular, é importante que os temas da reforma agrária e da economia solidária sejam recolocados, com a importância que lhes cabe na agenda nacional e na definição das políticas públicas nacionais, estaduais e locais.
Outros dois temas, assuntos importantes a serem celebrados nesta semana, são o Dia da Agricultura e o Dia Mundial da Erradicação da Pobreza.
O Dia da Agricultura é celebrado anualmente em 17 de outubro, constituindo-se em uma ótima oportunidade para refletirmos sobre a evolução dos sistemas produtivos e também sobre como algumas práticas agropecuárias são nocivas para o meio ambiente, para a vida e a saúde humanas, como, por exemplo, as questões da degradação dos solos, do desmatamento, da poluição do ar e das águas, o uso abusivo e indiscriminado de agrotóxicos e o uso da alimentação como arma de guerra, como tem acontecido no caso das guerras em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e Sudão do Sul, e em tantas outras guerras e conflitos armados.
O Dia Mundial da Erradicação da Pobreza é celebrado anualmente em 17 de outubro. Este dia foi estabelecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1992 e serve para lembrar a mobilização de 100.000 pessoas contra a pobreza e a fome que aconteceu em Paris, em 1987. O dia é um convite à reflexão sobre as desigualdades e à busca por ações que garantam que todos tenham a oportunidade de viver com dignidade.
Além disso, a erradicação da pobreza é um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, como parte da Agenda 2030 da ONU, na busca de um mundo melhor, com justiça, paz desarmada (como tem enfatizado o Papa Leão), equidade e sustentabilidade.
Pelo que vemos, esta é uma semana superimportante, com diversos temas fundamentais para redefinirmos os rumos de nosso desenvolvimento nacional, através de um PROJETO DE PAÍS, com justiça em todas as dimensões, principalmente: Justiça Ambiental, Justiça Climática, Justiça de Gênero, Justiça Social, Justiça Racial e, nunca — jamais — nos esquecermos da Justiça Intergeracional, como resposta à indagação: “Qual o futuro, qual a herança vamos deixar para as próximas gerações?”
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
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JUACY DA SILVA*
A “eleição”, enfim, a escolha do Cardeal Robert Prevost, norte-americano de nascimento e peruano por naturalização, para suceder o Papa Francisco, que não era bem aceito, “engolido” pelos conservadores católicos, foi, sem dúvida, uma surpresa diante das apostas que todos os “vaticanistas” e a mídia católica ou secular do mundo inteiro faziam.
Tão logo eleito, a primeira surpresa foi a escolha do nome do novo Papa, Leão XIV, demonstrando de forma clara o seu desejo de dar continuidade ao magistério de Leão XIII, o Papa que “revolucionou” a Igreja ao colocar no centro do magistério a questão das injustiças que eram cometidas contra os trabalhadores no final do século XIX, com a publicação da Encíclica Rerum Novarum, em 15 de maio de 1891, colocando a Igreja entre as duas grandes correntes de pensamento, de ideologias e de organização dos sistemas produtivos e de relações de trabalho: de um lado o capitalismo e, de outro, o marxismo.
Ao publicar a Rerum Novarum, Leão XIII estabelecia as bases para o magistério social da Igreja, o que, desde então, passou a ser a DSI – Doutrina Social da Igreja, que vem sendo aperfeiçoada até os dias de hoje, como, por exemplo, quando o Papa Francisco inseriu a Laudato Si’ no contexto da DSI.
Assim, há mais de 130 anos a Igreja vem “navegando” entre o capitalismo desumano que se iniciava e, em boa parte, ainda permanece até hoje, e o marxismo/comunismo, ideologia que se fortalecia na Europa até sua chegada ao poder pela Revolução Bolchevique, na Rússia, em 25 de outubro de 1917.
Desde então até a atualidade, a Igreja Católica, sob a liderança de diferentes Papas, alguns mais conservadores e outros mais “liberais” ou quase revolucionários, tem “transitado” neste caminho do meio, o que, em termos políticos, tem sido considerado a “terceira via”, bem complicada de equilibrar-se sem sofrer ataques de ambos os lados.
Cada Papa, por diferentes razões, procura deixar sua marca, seu legado ou suas “pegadas” na história milenar da Igreja Católica, sempre atentos aos desafios tanto teológicos, filosóficos, éticos e morais quanto premidos pela dureza da realidade econômica, social, política e ideológica do mundo, onde a Igreja está inserida e precisa sempre ser “o sal da terra e a luz do mundo”, conforme os Evangelhos e a mensagem do Cristo Ressuscitado.
O Papa Francisco marcou seu magistério por ter abraçado a causa da ecologia integral, a misericórdia, a amizade social, a defesa intransigente dos pobres e a necessidade de a Igreja ter uma nova cara, através da sinodalidade, do profetismo e da caridade, voltada para praticar de fato a opção que a mesma fez, principalmente pelas reformas aprovadas pelo Concílio Vaticano II, que, diga-se de passagem, jamais foram engolidas pelos setores conservadores da Igreja, incluindo um dos subprodutos do mesmo, que foi a Teologia da Libertação e a ênfase na “opção preferencial pelos pobres”.
Assim, a escolha/eleição de Leão XIV, em um certo momento, animou os setores conservadores, que expressaram a esperança de que o mesmo iria “abolir” ou deixar de lado as linhas mestras do magistério de Francisco, considerado muito liberal, esquerdista ou até quase comunista, segundo alguns setores extremamente conservadores da Igreja que, volta e meia, flertam com o pensamento e as ações da extrema-direita política e ideológica.
Mas isso não aconteceu. Leão XIV tem demonstrado seu grande apreço pela figura, pelo legado e pelo magistério do Papa Francisco, tanto em relação às questões da ecologia integral, quanto no que concerne à figura dos pobres e excluídos, e também o compromisso de conduzir a Igreja pelos caminhos da sinodalidade, de uma Igreja pobre, sem opulência, ao lado dos pobres; e também uma Igreja profética, que não comunga com a violência, com as guerras, com formas de discriminação e racismo.
Logo ao ser escolhido Papa, Leão XIV começou a “dar” pistas de como será o seu magistério, como, por exemplo, em diversas homilias, em pronunciamentos públicos ao receber diferentes pessoas, inclusive chefes de Estado e pessoas simples, ou gente da própria Igreja, pertencentes à hierarquia eclesiástica e também leigos e leigas, engajados ativamente em pastorais, organismos e movimentos da Igreja.
Em matéria publicada pela Agência Ecclesia em 18 de maio de 2025, poucos dias após a eleição do novo Papa, a mesma assim afirmava: “O Papa Leão XIV disse hoje desejar uma Igreja ‘unida’ para responder aos desafios colocados pelas desigualdades e os conflitos que marcam a humanidade.”
E aí transcreve as palavras de Leão XIV: “No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, pela violência, pelos preconceitos, pelo medo do diferente, por um paradigma econômico que explora os recursos da terra e marginaliza os mais pobres”, disse, na homilia da Missa que marca o início oficial do seu ministério petrino. E continua: “Nós queremos ser, dentro desta massa, um pequeno fermento de unidade, comunhão e fraternidade.”
Em diferentes momentos, Leão XIV tem deixado bem claro seu pensamento e suas exortações tanto aos católicos quanto aos demais cristãos, a todos os fiéis de outras religiões e também aos donos do poder (governantes), bem como aos empresários, de que devemos lutar por “uma paz desarmada”, por uma cultura da paz, pelo fim das guerras, dos conflitos armados, pelo respeito à ecologia integral e pela dignidade dos pobres, marginalizados e excluídos.
Apenas para clarear esta “linha” de argumentação, podemos nos referir, por exemplo, à sua carta aos Reitores de Universidades Católicas da América Latina sobre a importância do compromisso da Igreja e das instituições de ensino católicas com a defesa da ecologia integral.
Outro exemplo: no recente encontro ocorrido há poucos dias em Castel Gandolfo, em 1º deste mês de outubro de 2025, na celebração dos dez anos da publicação da Encíclica Laudato Si’, diante de representantes da Igreja e de autoridades públicas, incluindo o ex-governador da Califórnia e a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e das Mudanças Climáticas do Brasil, denominado Elevando/Espalhando Esperança (em inglês Rising Hope), Leão XIV foi claro ao afirmar que “É preciso passar dos discursos ambientalistas a uma conversão ecológica”, enfatizando que esta conversão ecológica precisa ser não apenas individual, mas, fundamentalmente, seguindo o pensamento e palavras do Papa Francisco, “ser uma conversão comunitária/coletiva”, a começar dentro da própria Igreja, o que, infelizmente, ainda não tem acontecido, apesar dos dez anos da publicação da Laudato Si’.
Em seu discurso perante os participantes do evento, Leão XIV foi claro ao recordar a herança espiritual e pastoral deixada por Francisco e convidou todos a redescobrir a ecologia integral como caminho de unidade, paz e esperança.
E, no último dia 04 deste outubro de 2025, ou seja, há poucos dias, Leão XIV publicou sua primeira Exortação Apostólica “Dilexi Te” – Sobre o Amor para com os Pobres, aprofundando seu pensamento sobre este tema importante e transcendental para a vida e o magistério da Igreja.
Esta é uma Exortação razoavelmente longa, enfatizando os fundamentos bíblicos, dos santos e doutores da Igreja e também enfatizando as causas estruturais da pobreza e como a Igreja precisa estar ao lado dos pobres.
Em outra ocasião, pretendo refletir melhor e com maior profundidade sobre o sentido e o significado desta Exortação Apostólica de Leão XIV, principalmente para o agir pastoral da Igreja, com ênfase na dimensão sociotransformadora que a mesma nos estimula a refletir e a agir.
Transcrevo aqui um trecho da referida Exortação Apostólica, para aquilatarmos o que Leão XIV nos exorta, nos orienta e nos estimula a agirmos, como cristãos em geral e como católicos em particular:
“A condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e econômicos e, sobretudo, a Igreja. No rosto ferido dos pobres encontramos impresso o sofrimento dos inocentes e, portanto, o próprio sofrimento de Cristo. Ao mesmo tempo, deveríamos falar, e talvez de modo mais acertado, dos inúmeros rostos dos pobres e da pobreza, uma vez que se trata de um fenômeno multifacetado; na verdade, existem muitas formas de pobreza: a daqueles que não têm meios de subsistência material; a pobreza de quem é marginalizado socialmente e não possui instrumentos para dar voz à sua dignidade e capacidades; a pobreza moral e espiritual; a pobreza cultural; aquela de quem se encontra em condições de fraqueza ou fragilidade, seja pessoal, seja social; a pobreza de quem não tem direitos, nem lugar, nem liberdade”.
Ao aprofundar a reflexão sobre os pobres e a pobreza, Leão XIV foge das propostas e sugestões assistencialistas, paternalistas e manipuladoras, porquanto deixa clara a natureza estrutural da pobreza, demonstrando que tanto a pobreza quanto os pobres e suas formas de vida, longe da dignidade humana, têm causas, raízes nas estruturas sociais, políticas e econômicas e, assim, para combatermos a pobreza e a exclusão, a Igreja precisa estar, realmente, de fato, e não apenas por palavras, ao lado e com os pobres, promovendo e advogando ações sociotransformadoras profundas, pois este é ou deve ser o caminho que a Igreja deve trilhar.
Vejamos, nas palavras de Leão XIV, esta exortação a todos nós, aqui e agora:
“Devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza. É uma urgência que ‘não pode esperar’; e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para curá-la de uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias. A falta de equidade é a raiz dos males sociais. Com efeito, muitas vezes constata-se que, realmente, os direitos humanos não são iguais para todos”.
Para finalizar esta reflexão, não poderia deixar de transcrever o rumo que Leão XIV nos indica em termos de nossa religiosidade engajada, pavimentando o caminho, principalmente para as ações das pastorais sociais, dos movimentos e organismos da Igreja que propugnam por um agir profético e não apenas uma religiosidade intimista ou subjetiva.
Assim, enfatiza Leão XIV:
“Portanto, mesmo correndo o risco de parecer ‘estúpidos’, é tarefa de todos os membros do Povo de Deus fazer ouvir, ainda que de maneiras diferentes, uma voz que desperte, denuncie e se exponha. As estruturas de injustiça devem ser reconhecidas e destruídas com a força do bem, através da mudança de mentalidades e também, com a ajuda da ciência e da técnica, através do desenvolvimento de políticas eficazes na transformação da sociedade. É preciso recordar sempre que a proposta do Evangelho não é apenas a de uma relação individual e íntima com o Senhor. Ela é mais ampla: ‘é o Reino de Deus’ (cf. Lc 4,43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais. Procuremos o seu Reino”.
Fica bem claro, pois, nas palavras deste “novo” Papa, que a Igreja, além de sinodal, deve ser também uma Igreja em saída, rumo às periferias materiais e existenciais, onde estão os pobres e excluídos, que dialoga com o mundo, com as demais instituições nacionais e internacionais, com a academia, com as universidades – locus do desenvolvimento da ciência e da tecnologia –, com as demais religiões e movimentos que lutam por um mundo melhor, com justiça, em “paz desarmada”, ao lado dos pobres, oprimidos e injustiçados.
Esta é a Igreja que Leão XIV deseja: sinodal, em saída, samaritana e, também, profética.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy












