Os políticos e empresários da região norte do estado de Mato Grosso desejam, há anos, que o campus da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em Sinop seja uma instituição autônoma. As vantagens políticas e econômicas são evidentes – especialmente o controle maior sobre os cursos, pesquisas, servidores e administração. Mas o que a comunidade acadêmica pensa sobre isso?
Em reunião ampliada realizada com a Reitoria na última quinta-feira, 16/10, ficou claro que, bem diferente do que algumas pessoas afirmam, a comunidade acadêmica tem muito mais dúvidas do que certezas e, neste momento, tende a não defender o desmembramento do campus.
Algumas das dúvidas são: existe um projeto de universidade? O recurso irá aumentar e sanar os problemas? Um diploma assinado por universidade nova tem o mesmo valor de uma instituição com mais de 50 anos e está entre as 40 melhores do país? Abriremos mais concursos? Os 28,86% estarão assegurados aos docentes? A resposta para todas essas questões é só uma: não.
Durante a reunião em Sinop, a reitora Marluce Souza e Silva destacou que, pela primeira vez, a comunidade universitária do campus de Sinop da UFMT discutiu, oficialmente, com a Reitoria, a ideia de desmembramento. A reitora afirmou que a administração central nunca havia sido formalmente comunicada sobre a intenção de tornar o campus independente. “Essa proposta está sendo debatida pela primeira vez dentro da universidade, e é importante que qualquer decisão seja tomada coletivamente, com a participação da comunidade, e não de forma isolada, por diretores ou pró-reitores”, afirmou.
Assim, a forte presença da imprensa foi destacada como um ponto relevante, já que o assunto vinha sendo tratado mais por veículos externos do que por canais institucionais da UFMT.
Sobre recursos
A reitora destacou que o campus de Sinop sempre teve acesso a recursos importantes. “Entre todos os campi, Sinop é o único com recursos sempre disponíveis. Não é verdade que o campus é ‘coitado’ ou ‘fraco’. Pelo contrário, é o segundo mais forte, atrás apenas da sede, em Cuiabá”, pontuou, revelando que, naquele mesmo momento - já quase no final do ano - o campus tinha mais de R$ 1 milhão em caixa, à disposição.
“Universidade não é empresa. Os recursos devem ser aplicados conforme as demandas locais. Não faz sentido acumular dinheiro enquanto há carências nas unidades. Pelo contrário, terminar o ano com recursos em caixa sinaliza que a universidade não está precisando, e todos nós sabemos que ela está precisando”, criticou.
Silva explicou que a distribuição de recursos da UFMT segue o que determina a matriz da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), que leva em consideração a demanda e indicadores como número de alunos, grupos de pesquisa e produção acadêmica de cada universidade. Isso demonstra que, em caso de desmembramento, não haveria mudança significativa nos recursos destinados à Sinop. Segundo os dados apresentados, a divisão atual é de 66,5% para o campus de Cuiabá, 17,2% para Sinop, 13,25% para o Araguaia e pouco mais de 5% para Várzea Grande – vale lembrar que esta última ainda utiliza a estrutura do campus de Cuiabá.
Ela alertou, no entanto, que a separação de Sinop pode enfraquecer não apenas o campus local, mas a UFMT como um todo. “Se Sinop emancipar, a universidade perde força institucional. Juntos temos mais chances de crescer e conquistar melhorias”, defendeu.
Foram abordadas, ainda, questões administrativas envolvendo o campus de Sinop, como a perda de recursos do PAC por falta de licitação e a ausência de informação sobre 34 técnicos lotados no curso de Medicina, que estão fora de suas funções de origem, situação que gerou investigação interna. “É preciso saber quem autorizou, para onde foram esses técnicos e trazer esses profissionais de volta às funções para as quais foram concursados. Não se pode responsabilizar a Reitoria por isso”, pontuou.
O professor Elton Ribeiro, pró-reitor do campus de Sinop, afirmou que o processo de debate respeitará todas as instâncias democráticas e que a vontade da comunidade será respeitada. Da mesma forma, garantiu que todas as questões levantadas sobre o campus de Sinop, como a lotação atual dos 34 servidores técnico-administrativos, serão devidamente investigadas e esclarecidas.
Muitas dúvidas, nenhuma certeza
Além dos representantes da administração, professores, servidores técnico-administrativos e estudantes também participaram e compartilharam seus receios e dúvidas.
Para o docente Juliano dos Santos, representante sindical da subseção da Adufmat-Ssind em Sinop, preocupa o fato de instituições privadas do município, como a União das Entidades de Sinop (Unesin) estarem discutindo a questão sem consulta à comunidade. “Eles estão discutindo isso e a gente não foi consultado. Tem até uma comissão pró-emancipação dentro da Unesin desde 2021. Eu queria destacar que, quando eu fiz concurso, fiz para a UFMT. Eu nem conhecia Sinop. Cheguei aqui, me vejo UFMT, mas parece que a gente foi construindo uma divisão, um muro. Parece que a gente está se debatendo. Nós podíamos aproveitar esse momento de discussão para juntar forças e pensar a universidade, porque a dificuldade orçamentária não é só da UFMT. Se a gente unir forças, tenho certeza que a gente pode encontrar soluções. Eu vejo que a gente foi destruindo nossas interações, e a gente tem é que reconstruir as relações profissionais e sociais dentro da universidade, para que a gente melhore enquanto UFMT. Se emancipar, com as relações que a gente tem aqui, hoje, me desculpem, vai ser como se a gente estivesse saindo do zero”, concluiu.

Professor Juliano dos Santos, coordenador da subseção da Adufmat-Ssind em Sinop
O professor Breno Santos, diretor-geral da Adufmat-Ssind, destacou a necessidade de respeitar os espaços democráticos de discussão e deliberação da universidade, e compartilhou um pouco dos relatos que o GT Multicampia e Fronteira do Andes – Sindicato Nacional tem registrado.
“O temos cobrado, desde o início, que o debate democrático em torno dessa questão aconteça sem negligenciar o fato de que os espaços da universidade são de vários tipos, tem os espaços de discussão ampla e também os colegiados, institucionalmente reconhecidos e historicamente validados. Eles também precisam fazer esse debate. São lentos? São lentos, mas a democracia é processo. Dentro do espaço sindical, nós defendemos uma democracia radical. Temos acompanhado o debate sobre multicampia no Brasil inteiro, porque o Andes - Sindicato Nacional tem um GT que estuda o tema. Nós ouvimos relatos dos mais diversos. No caso das universidades da Amazônia, alguns campi, em determinados períodos do ano, sequer têm acesso por terra; regiões em que o custo de vida é tão brutal, que o gás de cozinha chega a ser mais do que o dobro do que nas regiões mais centrais do Brasil. Todos os relatos, graves e preocupantes, impactam na permanência, acesso, e nas condições de trabalho dos professores que trabalham nessas unidades, mas não levam à conclusão de que o caminho único é a emancipação. Ao contrário, o caminho é: luta por orçamento; o caminho é mais democracia dentro da universidade, é mais participação; é mais universidade do que menos universidade; é mais estabilidade administrativa e jurídica do que instabilidade e criatividade estatutária, que foi o que aconteceu em Rondonópolis, que passou vários anos sem estatuto e, no fim das contas, uma bagunça geral que faz com que a universidade hoje enfrente cada vez novos problemas por conta dessa insegurança”, argumentou.

Professor Breno Santos, diretor-geral da Adufmat-Ssind
Estudante do curso de Farmácia e representante estudantil e Sinop, Diego Taquini questionou o que considera perda de recursos do campus de Sinop para Cuiabá e a atual falta de integração entre os campi, mas também ressaltou a ausência de informações sobre o que seria o processo de desmembramento. “A gente tem vários problemas para debater aqui hoje, e o principal é: como a gente vai cobrar um posicionamento, seja contrário ou a favor, se não existe um projeto técnico sobre a emancipação? A gente vai votar como? A gente não sabe o que vai acontecer. É sério mesmo a gente vai acreditar em proposta de político? ‘Ah, mas eles vão dar dinheiro!’ E aí ele perde o cargo, você perde o dinheiro e fecha as portas. A principal mensagem que eu quero passar para os meus colegas estudantes aqui hoje é: independentemente do que for decidido, o nosso papel é cobrar, a gente tem que continuar cobrando Restaurante Universitário a R$ 1, alojamento, mais bolsas e melhores condições como um todo”, pontuou.
A professora Paula Moreira, também diretora da subseção da Adufmat-Ssind em Sinop, lembrou que a implementação do curso de Medicina no campus foi feita de surpresa, sem debate com a comunidade, e que neste momento, o curso passa por alguns questionamentos do MEC, não pela qualidade, mas, por exemplo, pela ausência dos 34 técnicos-administrativos que deveriam estar lotados na unidade e não estão. “Será que se a gente desmembrasse não ia acontecer isso também com a gente? Porque prometer é uma coisa, mas falta técnico nessa universidade desde que eu entrei aqui. Se é precário, será que desmembrar não vai ser um tiro no pé? Será que Rondonópolis, que quis tanto, tem bastante vaga? Conseguiu mais técnicos e professores? Será que tem infraestrutura? Será que eu, que tenho que dar aula, fazer pesquisa, extensão, ainda vou ter que acumular cargo de Pró-reitoria, e mesmo assim continuar dividindo sala com outros quatro, cinco professores? Eu quero isso? Do mesmo jeito que criaram esse curso de Medicina, sem estrutura - porque foi uma ação política -, está se dando a questão do desmembramento. Se essa canetada acontecer e pegar a gente de surpresa, o que é que a gente vai fazer? As coisas estão acontecendo fora dos nossos olhos, ninguém fica sabendo de nada. Parece truque de ilusionismo, e eu me sinto enganada, porque tinha que ser uma construção nossa. Para saber se o orçamento ia melhorar, se a gestão seria viável, como nós poderíamos construir essas relações... nós não temos nada na mão”, afirmou.

Professora Paula Moreira, coordenadora da subsede da Adufmat-Ssind em Sinop
Ao final da reunião, foram feitos encaminhamentos para que o debate continue com mais participação da comunidade acadêmica em todos os campi da UFMT, não apenas Sinop. A Reitoria reforçou que não há decisão tomada sobre o desmembramento e garantiu que nenhuma medida será adotada sem amplo debate e deliberação da comunidade e dos conselhos superiores da universidade.
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
O Laboratório “Nenhuma a menos” e a Adufmat-Ssind já têm duas datas marcadas o lançamento do Caderno “Relatos sobre violência política contra mulheres em Mato Grosso”. Serão nos dias 30/10, no auditório do sindicato, e 19/11, na Casa das Pretas (região central de Cuiabá), sempre às 19h. Outras duas datas ainda serão definidas para lançamento nos Institutos Federais de Mato Grosso, campus Octayde Jorge da Silva e Bela Vista.
Os eventos têm por objetivo mobilizar o Poder Público e a sociedade civil organizada para o 2º “Encontro sobre Violência Política Contra Mulheres em Mato Grosso”, que ocorrerá nos dias 04 e 05/12, no auditório do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) da Universidade Federal de Mato Grosso.
O Caderno, organizado por docentes que fazem parte do Grupo de Trabalho Política de Classe para Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) da Adufmat-Ssind, traz relatos de mulheres organizadas nos movimentos docente, negro, indígena e quilombola no estado, destacando a importância e as dificuldades das lutas. A versão online da obra já está disponível para download no site da Adufmat-Ssind (clique aqui).
O "Laboratório Nenhuma a Menos" é um projeto de pesquisa e ação feminista e antirracista, que se concentra no enfrentamento das violências contra mulheres e meninas. Saiba mais na página do Instagram (clique aqui).
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
OFÍCIO 030/ADUFMAT/2025
Cuiabá, 21 de outubro de 2025.
Prezados/as docentes, TAEs e discentes,
Com a recente divulgação de relatório final, por parte do GT, da Reforma Administrativa constituído na Câmara Federal, sob coordenação do Dep. Pedro Paulo (PSD-RJ) e relatoria do Dep. Zé Trovão (PL-SC), e a consequente apresentação de três medidas legislativas (quais sejam: uma Proposta de Emenda Constitucional – PEC, uma Proposta de Lei Complementar – PLP e um Projeto de Lei Ordinária – PL), fica demonstrado cabalmente o teor destrutivo da proposta para os serviços públicos, para os direitos sociais e, em especial, para a universidade pública[1]
Diante desse cenário de retirada de direitos, o FONASEFE (Fórum que reúne mais de 90% do funcionalismo federal) e os Fóruns representativos estaduais e municipais propuseram a realização de uma semana de lutas contra a proposta de Reforma Administrativa, que tem como atividade central a Marcha Nacional dos Servidores e Servidoras em Defesa dos Serviços Públicos e contra a Reforma Administrativa, que será realizada no dia 29 de outubro, em Brasília - DF. A construção trouxe também a proposta de uma paralisação nacional do serviço público federal nos dias 28 e 29 de outubro, observando o dia do e da servidora, dia 28, como um dia de luta.
Na última Assembleia Geral Ordinária da Adufmat, realizada no dia 16 de outubro de 2025, a categoria docente aprovou paralisação das atividades docentes nos dias 28 e 29 de outubro, em referência a essa importante e urgente luta contra a Reforma Administrativa, que ameaça os serviços públicos e os direitos sociais, nos termos e garantias constitucionais estabelecidas nos arts. 9º e 37 parágrafo 7º da CF/88. Tal decisão já foi comunicada à Administração Superior, em cumprimento ao que dispõe o art. 13 da Lei Federal nº 7.783/89.
As atividades de mobilização também acontecerão nos demais estados, como é o caso de Mato Grosso. Enviamos o calendário de atividades locais abaixo e chamamos toda a categoria docente, discentes e TAEs a se somarem nessa luta em defesa dos direitos sociais e contra o desmonte dos serviços públicos!
Ademais, solicitamos, por gentileza, que tal informe seja repassado a todos/as os/as docentes das unidades acadêmicas.
MOBILIZAÇÃO LOCAL CONTRA A REFORMA ADMINISTRATIVA:
- Dia 27 de outubro, às 13h - Ato político na Praça Ipiranga
- Dia 28 de outubro, às 9h - Mesa de Debate sobre os riscos da Reforma para a Universidade - Auditório do Batatão (UFMT)
Diretoria Colegiada da Adufmat - 2025-2027
Adufmat é pra lutar!
[1] Como pode ser atestado pela análise preliminar realizada pelo ANDES-SN, que pode ser lida no link: https://drive.google.com/file/d/1vPQXIfa7Qw_A6Xw0WyS5kRuGTiO_VeZO/view?usp=sharing
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Mandar uma mensagem no WhatsApp, pedir um carro por aplicativo, salvar fotos na “nuvem”, curtir uma postagem nas redes sociais ou cadastrar seus dados em um hospital público parecem ser ações simples do dia a dia. Mas, por trás desses gestos cotidianos, existe uma engrenagem bilionária que envolve o uso de recursos públicos, o fortalecimento de monopólios globais e a ampliação da dependência do Brasil em relação às gigantes estrangeiras da tecnologia, conhecidas como “big techs” - Apple, Google, Amazon, Microsoft e Meta.
A presença dessas empresas nos serviços pagos pelo orçamento público brasileiro tem crescido de forma acelerada e quase imperceptível aos olhos da população brasileira. Com a promessa de modernidade e eficiência, seja em escolas, hospitais ou repartições públicas, a digitalização impõe um modelo que fortalece monopólios privados globais.
“Atualmente, o modelo hegemônico de desenvolvimento de serviços digitais, ou de bens e produtos tecnológicos digitais, está assentado em poucas empresas que dominam o setor. Trata-se de serviços de gestão de agendas e armazenamento de documentos da Microsoft, como a Microsoft Team; do Google; da Amazon, com hospedagem de grandes bases de dados e capacidade de processamento, entre outros exemplos. Seja por contratação direta desses serviços ou de forma indireta, através de um prestador de serviço que utiliza nessas plataformas o meio de desenvolvimento dos seus próprios serviços e produtos, as grandes empresas drenam recursos públicos para alimentar o seu próprio modelo de negócios”, explicou Alexandre Arns, integrante do coletivo Direito à Comunicação e Democracia (DiraCom).
Tecnologias da Informação e Comunicação Licenças de softwares, sistemas de gestão e serviços de nuvem são ferramentas essenciais para organizar tarefas, usar aplicativos e armazenar arquivos na internet. Tudo isso faz parte do vasto universo das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), cujas contratações por parte do Estado brasileiro estão no centro de um debate complexo.
Um estudo intitulado "Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro", realizado por pesquisadoras e pesquisadores das universidades de São Paulo (USP) e de Brasília (UnB) e publicado em julho deste ano, revelou o grande volume de recursos que o setor público brasileiro destina a tecnologias estrangeiras.
Entre 2014 e 2025, o gasto total mínimo com licenças de software, serviços em nuvem e soluções similares de grandes corporações internacionais atingiu R$ 23 bilhões. O documento alertou que este valor é apenas a "ponta do iceberg", pois não está ajustado pela inflação e foi obtido a partir do cruzamento limitado de dados públicos. A dimensão desses gastos fica ainda mais evidente ao analisar o período de apenas um ano, entre junho de 2024 e junho de 2025.
Nesse intervalo, as três esferas de governo — federal, estadual e municipal — desembolsaram mais de R$ 10,3 bilhões em materiais e serviços de TIC de empresas estrangeiras. Para contextualizar, esse valor seria suficiente para sustentar integralmente uma universidade do porte da UnB por quatro anos e meio, ou custear bolsas de estudo integrais para 100% de estudantes de pós-graduação do Brasil por um ano, considerando as mestrandas e os mestrandos (250 mil) e as doutorandas e os doutorandos (100 mil) do país.
Grande parte desses contratos, segundo a pesquisa, não foi feita diretamente com as big techs, mas sim por meio de intermediários e revendedores nacionais, o que dificulta o rastreio e a transparência. O estudo destacou que o país gasta continuamente com sistemas e soluções de grandes fornecedores internacionais, perdendo o controle e a autonomia sobre sua própria infraestrutura digital. Essa dependência, conforme o relatório, limita o desenvolvimento de um ecossistema de inovação nacional e mantém o Brasil refém de empresas internacionais, especialmente nas compras públicas de TICs.
Segundo o integrante do DiraCom, o resultado dessa escolha é a destinação de recursos públicos a grandes empresas estrangeiras e a criação de uma dependência tecnológica estrutural. “Essas empresas capturam um recurso financeiro que poderia estar sendo destinado ao fortalecimento de produtos e serviços digitais ao longo de toda a cadeia de desenvolvimento tecnológico digital, desde a transmissão de dados, armazenamento e processamento até a gestão e prestação de serviços em geral”, alertou. Para Arns, a interrupção do uso desses serviços exigiria um processo organizativo de determinados serviços públicos ou da administração pública.
Data Centers
Outra peça indissociável dessa engrenagem são os data centers. Conhecidos como os “cérebros” da internet, os data centers, ou centro de dados, são prédios físicos que abrigam computadores, os quais armazenam e processam os dados das usuárias e dos usuários 24 horas por dia, sete dias por semana. No Brasil, a disputa para atrair esses tipos de empreendimento tem mobilizado cifras bilionárias e gerado um custo fiscal significativo. O governo federal incluiu no Orçamento de 2026, a previsão de renunciar a R$ 5 bilhões em receitas para implementar o regime tributário especial, o ReData.
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A medida visa desonerar a importação de equipamentos para data centers, com a justificativa de corrigir assimetrias competitivas e atrair mais de R$ 1,5 trilhão em investimentos nos próximos cinco anos, consolidando o Brasil como um centro global de infraestrutura digital, segundo a Associação Brasileira de Data Centers (ABDC).
Essa renúncia inicial representa uma quantia expressiva de recursos públicos e beneficia diretamente o capital privado e estrangeiro, suscitando questionamentos sobre a prioridade de alocação de recursos em um país com tantas demandas sociais. Além do custo fiscal, o impacto ambiental e social dos data centers também é relevante, sobretudo pelo alto consumo de água e energia, especialmente para manter a refrigeração necessária, e pelos efeitos associados à sua operação contínua. Um exemplo é o caso do data center planejado para Caucaia, no estado do Ceará.
O projeto foi apresentado pela Casa dos Ventos, empresa responsável oficialmente pelo empreendimento, ao governo do Ceará para obter a licença prévia, primeira das três etapas do licenciamento ambiental. Segundo informações reveladas pelo The Intercept Brasil, quem vai ocupar o prédio, na prática, é a chinesa ByteDance, dona da rede social TikTok.
A central de dados está projetada para consumir, em um único dia, a mesma quantidade de energia utilizada por 2,2 milhões de brasileiras e brasileiros em suas casas. Anualmente, seu consumo de 1,84 TWh supera o gasto elétrico total de três estados brasileiros (Acre, Amapá e Roraima) juntos. Esse consumo energético é impulsionado por sistemas de resfriamento intensivos e pela demanda de supercomputadores, para processar e treinar modelos de Inteligência Artificial generativa, conhecidos por seu consumo elevado de energia e de carbono. Mesmo com a promessa de energia 100% renovável, proveniente de parques eólicos e solares, esses empreendimentos não estão isentos de impactos.
A chamada "energia limpa" pode resultar no bloqueio de acesso a áreas de comunidades, aterramento de lagoas, ruído sonoro constante - causadores da síndrome da turbina eólica -, desmatamento e violações de direitos humanos. A comunidade indígena Anacé, no Ceará, denuncia que o projeto do TikTok está sendo imposto sem consulta prévia, livre e informada, violando direitos garantidos pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata especificamente dos direitos dos povos indígenas, e pela Constituição Federal.
“Um data center consome uma quantidade gigantesca de água e energia, o que pode afetar diretamente nossos territórios tradicionais, rios, aquíferos e a biodiversidade. A promessa de ‘energia renovável’ muitas vezes significa instalar novos parques solares e eólicos, que, na prática, também trazem impactos ambientais, sociais e culturais profundos — ocupando terras, degradando áreas de uso tradicional e afetando a vida das comunidades”, criticou o cacique Roberto Anacé.
Anacé também expressou preocupação com grandes empresas que prometem desenvolvimento, mas não garantem direitos, reparações, proteção ambiental e a demarcação integral do nosso território sagrado. “Até agora, não houve diálogo real com o povo Anacé. Nem a empresa, nem o governo estadual ou municipal procuraram a comunidade para debater ou apresentar estudos de impacto. O que vemos é a repetição de uma prática histórica: decidem sobre nosso território sem nos ouvir, tratando nos como se não existíssemos”, disse.
Leia a matéria completa do Informandes aqui
Fonte: Andes-SN
De 28 a 30 de novembro, São Paulo irá sediar o Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas do ANDES-SN. A atividade acontecerá no Campus São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) na Vila Mariana, na sede da Associação de Docentes da Unifesp (Adunifesp SSind.). As inscrições podem ser feitas até 21 de novembro (clique aqui).

Na programação, debates sobre a diferença entre Federação e Sindicato Nacional; Proporcionalidade e Majoritariedade; Espaços deliberativos do ANDES-SN: um balanço das últimas alterações, aperfeiçoamento e o papel do Conad. Também serão discutidos os princípios políticos que direcionam as resoluções sobre rateio, questões financeiras e administrativas do Sindicato Nacional, além de outras questões que envolvem a organização sindical do ANDES-SN. Confira abaixo a programação completa.
“Avaliar, refletir e alterar o funcionamento dos nossos espaços deliberativos é parte da democracia sindical, além de atender as mudanças que ocorreram no mundo do trabalho e na carreira docente. Precisamos, é claro, debater e construir o melhor funcionamento do ANDES-SN, e isso só ocorrerá de forma qualificada, com amplo debate na categoria e o seminário será esse espaço”, explicou Caroline Lima, 1ª vice-presidenta do ANDES-SN.
Segundo a diretora do Sindicato Nacional, o Seminário é muito importante para que a categoria possa acumular também sobre as questões financeiras da entidade, como o rateio dos custos dos eventos nacionais, como Congressos e Conads. “O Brasil é um país continental. No ANDES-SN, hoje, temos 120 seções sindicais do setor das Ifes, Iees, Imes e Ides, o que resultou em proposições de rediscutir o rateio, a partir de questões regionais. Isso significa que não é apenas um debate sobre questões financeiras e sim de concepção sindical, do que é um Sindicato Nacional e o princípio da solidariedade de classe. Diante disso, o seminário será um espaço importante para construirmos e fortalecermos um Sindicato Nacional, que considere as especificidades se abrir mão dos seus princípios. O seminário será esse espaço de debate e de reflexões e certamente resultará em propostas para o próximo congresso”, detalhou.
Outros temas relacionados à forma de organização e atuação do ANDES-SN serão pautados durante o evento, como as diferenças entre diretorias proporcionais e majoritárias. Marcos Soares, 1º vice-presidente da Regional SP do Sindicato Nacional, explica que vincular, necessariamente, uma diretoria proporcional a uma diretoria mais democrática pode ser equivocado.
“Há sindicatos proporcionais que não são necessariamente democráticos. E seguramente há sindicatos de diretoria majoritária que são essencialmente democráticos, e eu vou dizer que o ANDES-SN é esse exemplo. O ANDES-SN é um sindicato nacional de direção majoritária que é muito democrático, aliás. Por exemplo: quando se aprova a greve, cria-se o Comando Nacional de Greve, que vai dirigir a greve. Não é a diretoria que faz isso. Poucos sindicatos têm esse mecanismo para dirigir uma greve, que é o ápice do movimento de qualquer entidade sindical”, exemplifica Soares, que é também encarregado de Relações Sindicais.
De acordo com o diretor, é fundamental envolver a categoria na discussão desses temas e na participação do Seminário, pois tem sempre pessoas integrando a base do ANDES-SN, que muitas vezes não tem experiência sindical e acabam por ter dificuldade em acompanhar esses debates. “É importante que a categoria acompanhe todos esses debates, primeiro, porque é legítimo defender a proporcionalidade, majoritariedade, defender critérios outros para rateio de recursos financeiros, do meu ponto de vista, é legítimo. Mas é importante a categoria localizar, do ponto de vista do debate, onde está o ‘X da questão’, onde está a divergência política”, acrescentou.

Confira a circular 405/2025, que convocou o Seminário
Fonte: Andes-SN












