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Sexta, 08 Maio 2026 12:45

UM ANO DE MAGISTÉRIO DO PAPA LEÃO XIV - Juacy da Silva

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

 

“Um dos motivos pelos quais escolhi o nome “Leão XIV” é a Encíclica Rerum Novarum, escrita por Leão XIII durante a Revolução Industrial. O título Rerum Novarum significa “coisas novas”. Certamente há “coisas novas” no mundo, mas, quando dizemos isso, geralmente adotamos uma “visão a partir do centro” e nos referimos a coisas como inteligência artificial ou robótica. No entanto, hoje, gostaria de olhar para as “coisas novas” com vocês, começando pela periferia. A terra, o teto e o trabalho são direitos sagrados pelos quais vale a pena lutar” Papa Leão XIV, no 5º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na Sala Paulo VI, no Vaticano, em 23/10/2025.

Para entendermos o significado do Magistério Papal, é fundamental termos em mente que o Papa é a autoridade máxima da Igreja Católica no mundo, igreja esta que está presente, praticamente, no mundo inteiro e conta com mais de 1,422 bilhão de fiéis que, se viverem o evangelho em toda a sua plenitude e radicalidade, podem transformar a realidade, sendo o sal da terra e a luz do mundo, enquanto aguardamos o “novo céu e a nova terra”.

Neste sentido, é fundamental que o Papa, qualquer que ele seja, promova orientações relacionadas com a doutrina católica, mantendo a unidade da fé; mas também se preocupe e se posicione sobre os grandes desafios que afetam tanto católicos quanto a população mundial como um todo. Temas econômicos, sociais, políticos e geopolíticos, religiosos e culturais não podem estar ausentes das preocupações e exortações papais, jamais!

Daí a importância de, como cristãos, católicos e cidadãos de todos os países, inclusive do Brasil, acompanharmos, de perto, as “pegadas”, a caminhada, as exortações do Papa Leão XIV que, em 08 de maio de 2026, estará celebrando/comemorando seu primeiro ano na “Cátedra de São Pedro”.

No dia 21 de abril de 2025, falecia, em Roma, o Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio) e, 17 dias depois, em 08 de maio do mesmo ano (2025), o Colégio dos Cardeais elegia Robert Francis Prevost como o novo Papa, que escolheu o nome de Leão XIV, pelas razões já expostas.

Enquanto São Francisco de Assis foi a fonte inspiradora do Papa Francisco, principalmente em relação ao cuidado com a ecologia integral e com os pobres, Leão XIV inspira-se na figura de Leão XIII, um Papa que, diante do embate entre comunistas/socialistas, de um lado, e capitalistas selvagens, exploradores dos trabalhadores, de outro, em relação à situação do trabalho no final do século 19, não titubeou e escreveu/publicou a Encíclica Rerum Novarum, o marco inicial da Doutrina Social da Igreja, ainda atual na Igreja e no mundo contemporâneo.

Para muita gente, tanto dentro quanto fora da Igreja, a escolha de Leão XIV, um norte-americano de nascimento e naturalizado peruano, com formação agostiniana, enquanto Francisco era jesuíta da Argentina/América Latina, foi uma surpresa.

Mas, quando do início de um “novo” papado, tudo é novidade e, ao mesmo tempo, especulação, principalmente em relação aos rumos que cada Papa imprime à vida da Igreja, e isto gera muita expectativa e, às vezes, certa “angústia” e tensões internas na Igreja, principalmente quando consideramos a existência de alguns grupos, uns que se dizem mais conservadores e outros que se dizem e agem como mais “progressistas”, resgatando, inclusive, as conclusões do Concílio Vaticano II e as reformas decorrentes das conclusões do mesmo, encerrado em 08 de dezembro de 1965, portanto há mais de seis décadas, mas ainda totalmente válidas.

Ao longo deste seu primeiro ano de pontificado, o Papa Leão XIV demonstrou um grande respeito e amizade em relação ao legado do Papa Francisco e deu prosseguimento a aspectos fundamentais que marcaram o magistério de Francisco e “avançou” ou aprofundou outros aos quais Francisco não teve tempo de dedicar-se como era seu desejo.

Neste primeiro ano de magistério, o Papa Leão XIV tem exortado tanto a Igreja (tanto sua hierarquia eclesiástica, sacerdotes, religiosos, religiosas quanto os fiéis) a continuar no caminho da SINODALIDADE, uma igreja em saída em direção às periferias materiais, espirituais e existenciais, fiel à opção preferencial pelos pobres, razão de ser da Igreja, tão enfatizada no Concílio Vaticano II, que tanto Francisco pretendeu quanto Leão XIV pretende resgatar, como tem sido bem claro em seus pronunciamentos e exortações.

Outro aspecto fundamental abraçado por Leão XIV é o cuidado e defesa da Casa Comum, a ECOLOGIA INTEGRAL, seu compromisso com a continuidade da caminhada iniciada com a publicação da Laudato Si e das exortações Querida Amazônia e Laudate Deum, e os três “Ts” de Francisco: Terra, Teto e Trabalho.

Outro aspecto importante neste seu primeiro ano de caminhada tem sido o compromisso em defesa e acolhida dos pobres. Primeiro, de forma humilde, mencionada ao publicar a Exortação Dilexit Nos (Eu te amei), deu continuidade ao que o Papa Francisco estava escrevendo sobre os pobres, ampliando a abordagem e imprimindo a sua marca diante deste desafio mundial que são a pobreza, a exclusão e as injustiças.

Tanto é verdade que, ao definir sua intenção de oração do mês de maio deste ano (2026), escolheu como tema da exortação o combate ao desperdício de alimentos e enfatizou a importância de uma alimentação saudável, à qual os pobres têm direito.

A proposta vai além das orações e visa também ao despertar da solidariedade, da fraternidade, transformando a lógica do consumo egoísta que gera exclusão, pobreza e fome.

Lamentando o desperdício de tantos alimentos em nossas mesas, o Papa Leão XIV rezou para que o Senhor “desperte em nós uma nova consciência: que aprendamos a dar graças por cada alimento, a consumir com simplicidade, a partilhar com alegria e a cuidar dos frutos da terra como um dom de Vós, destinado a todos, e não apenas a alguns”.

Um outro tema que tem estado presente nas reflexões, nos pronunciamentos e nas atitudes e tentativas de mediação de Leão XIV são as guerras, os conflitos armados, a violência em geral e todas as suas formas particulares, incluindo a violência doméstica e de gênero.

Em lugar da violência como forma de “resolução” de conflitos, o Papa Leão XIV tem apresentado a proposta do diálogo e, no contexto dos conflitos e guerras entre países, tem insistido que o caminho é a diplomacia.

Em decorrência, tem sofrido ataques por parte de alguns governantes que promovem guerra em lugar da paz, mas isto não o tem demovido de suas convicções e atitudes.

Ele tem também condenado as guerras de conquista de territórios, os genocídios, as migrações em massa, em consequência da destruição tanto material quanto de vidas humanas inocentes. Sendo que uma de suas propostas é o desenvolvimento de uma cultura da paz, onde, ou em que, a Igreja, melhor, as Igrejas e religiões têm um papel preponderante.

Neste mesmo contexto, o Papa Leão XIV tem insistido também em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso como caminhos em busca da paz e da construção de um mundo justo, sustentável, mais humano e mais tolerante.

Este empenho fica bastante claro em seu primeiro pronunciamento a representantes de diversas religiões, em 19 de maio de 2025, no Vaticano, quando afirma aos presentes que “a sinodalidade e o ecumenismo estão intimamente relacionados” e afirmou mais sua intenção de continuar o compromisso do Papa Francisco em promover “o caráter sinodal da Igreja Católica e em desenvolver formas novas e concretas para uma sinodalidade cada vez mais intensa na esfera ecumênica”.

Esses são alguns dos aspectos, além de diversos outros que não são abordados nesta oportunidade, que marcam este primeiro ano do magistério do Papa Leão XIV. Vida longa, para que sua jornada produza frutos que fortaleçam a Igreja ao redor do mundo, em sua caminhada evangelizadora, em defesa dos direitos humanos em sua plenitude, da justiça social, justiça ambiental, justiça intergeracional.

Mas, para tanto, o Papa Leão também tem insistido na necessidade de reformas mais profundas na Igreja, como podemos ver na Audiência Geral de hoje (06/05/2026), quando disse claramente: “Nenhuma instituição eclesial pode ser absolutizada; antes, já que vivem na história e no tempo, são chamadas à conversão contínua, à renovação das formas e à reforma das estruturas, à regeneração constante das relações, para que possam verdadeiramente corresponder à sua missão”.

Essas são as marcas deste primeiro ano de pontificado de Leão XIV, mas que apontam novos rumos para a Igreja, inserida na história e na realidade, diante do compromisso em busca do “Reino”.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste.
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