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Quinta, 12 Março 2026 16:22

DAS “PIRRAÇAS” E DOS SEUS “AGENTES” - Roberto Boaventura

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Docente aposentado da UFMT
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            Por dois anos consecutivos, recortes da cultura brasileira têm sido vistos por plateias mundo afora. Em 2025, vibramos com a estatueta do Globo de Ouro, conquistada por Fernanda Torres, que interpretou as dores, o luto e a luta de Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de melhor filme internacional. Na edição deste ano, já vimos Wagner Moura receber a estatueta de melhor ator/drama e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vencer como o melhor filme de língua não-inglesa.
            Agora, já no aguardo pelo Oscar, para o qual há quatro indicações, registro que, além de leituras de campos diversos do conhecimento, muito já se falou acerca de tópicos específicos de O Agente Secreto, como, p. ex., de sua direção, elenco, figurino, fotografia, trilha sonora, caracterização de época etc.; todavia, penso que ainda haja elementos para reflexões sobre o seu cerne, afinal, em grandes obras, a obviedade não tem espaço.
            Como reflexo estético de época marcada pelo silêncio, irmão do medo, imposto em 1964 por golpistas cívico-militares, o filme diz muito, sem explicitar tanto. A síntese desse clima pode estar na cena em que dona Sebastiana (Tânia Maria), com os dedos deslizando sobre seus lábios, faz o gesto da “boca de siri”, após entregar um pacote a Marcelo (Wagner Moura), que faz gesto semelhante, quando indagado se, de fato, era Marcelo; e, assim, muito de sua narrativa surge por meio de signos e códigos, que pedem pela labor interpretativo do espectador, convidado a imergir na trama para tentar desvelar o que possa estar encoberto por véus (metáforas), ou fria e criminosamente fechado em gavetas de um IML... Enfim, todos precisamos organizar os dados – aparentemente, lançados de forma aleatória – de um intrincado enredo.
            Nesse sentido, contribuindo com o diálogo sobre o filme de Mendonça Filho, vou ao que considero central, reflexionando sobre qual seria o seu ponto de partida como narrativa que demandasse, de fato, por algum “agente secreto” em sua trama. Mas, antes, reafirmo a genialidade dessa construção fílmica, disposta em três grandes partes (“O Pesadelo do Menino”; “Institutos de Identificação” e “Transfusão de Sangue”), subdividas pelo que identifico como “signos focalizados”, além de se ancorar em:
            1º) códigos cifrados para cidadãos refugiados, em geral, politicamente;
            2º) metáforas/signos pictóricos, tais como:
            a) fotografias em paredes de repartições públicas, com ênfase à de Ernesto Geisel;
            b) placas de automóveis, que marcam espaços geográficos da narrativa, auxiliando nos “signos focalizados” de que falei acima;
            c) presença do tubarão, tanto o do filme “Tubarão” (1975), quanto dos que atacam banhistas no litoral pernambucano;
            d) brevíssima projeção de um fragmento de “Le Magnifique” (1973), no qual Philippe de Broca satiriza películas de espionagem, ou seja, de agentes secretos;
            e) gata com dupla face e dois nomes, assim como o grupo das personagens em refúgio no Edifício Ofir, em Recife; aliás, o nome “Ofir” cai como luva para a interpretação do filme, posto estar referenciado na Bíblia como região ou porto lendário, famoso por sua imensa riqueza, especialmente o seu ouro, de inconteste pureza 
            3º) presença de um elemento fantástico (a metonímia da “perna cabeluda”), que – substituindo a integralidade dos corpos de criminosos comuns e de inescrupulosos policiais em “passeios” noturnos pela Praça 13 de Maio, também em Recife – ganha vida própria na trama, servindo como denúncia de violências e assassinatos contra prostituta(o)s e LGBTQIA+, à época (1977), identificados como homossexuais e outros adjetivos nada respeitosos. Detalhe: o nome dessa praça – que também nos ajuda a sentir a densidade do filme – nos remete às pretensões da Lei Áurea, de 1888, possivelmente ainda não alcançada por tantos trabalhadores, inclusive, pelos trabalhadores do sexo.
            Isso tudo, somado ao fato de sua narrativa/enredo não se apresentar cronologicamente linear, faz O Agente Secreto ser mesmo um filme de recepção complexa, que não perde a chance de estabelecer críticas a acontecimentos atuais, como a indignação pela morte de Miguel Otávio, filho de Mirtes Souza, que segue na luta por justiça contra sua ex-patroa, Sari Corte Real, todos igualmente de Recife. Essa paráfrase é tão inesperada quanto reveladora, social e cinematograficamente falando.  
            Diante da complexidade do filme, sinto-me como um dos seus espectadores privilegiados, pois, assim como a personagem Armando (Wagner Moura), fui professor de uma das nossas federais. Concomitantemente à docência, militei no Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, o ANDES-SN – à época, espaço de relevantes debates políticos –, que deu sequência organizacional das antigas associações dos professores universitários. Tais agrupamentos já discutiam, como um dos desafios da categoria docente, a cooptação, em nada secreta, de pesquisadores, em especial das áreas tecnológicas, por parte de representantes do capital (nacional e estrangeiro), quase sempre em conluio com os golpistas/ditadores de 64, que também não eram anônimos ou secretos, ainda que suas práticas fossem realizadas à margem das leis e/ou dos direitos humanos.  
            Portanto, mais do que identificar que Armando fosse chefe de um Departamento da UFPE, é necessário perceber, no cerne da narrativa em pauta, esse processo de cooptação abrangente e bem-sucedido do capital junto a um departamento inteiro; tarefa corporificada por Ghirotti (Luciano Chirolli), empresário inescrupuloso, mas influente no Conselho da Eletrobras, vinculada ao Ministério das Minas e Energia daquele período.
            Na linha do tempo e dos acontecimentos, aqui, é interessante localizar que a cooptação em questão ocorrera em 1974, ou seja, três anos antes daquela cena do posto de gasolina, na abertura do filme, em cujo pátio se encontra um cadáver já em putrefação. Aliás, aquele prólogo, como numa antecipação metafórica do “mau cheiro” reinante no país, é retomado no unhappy end de O Agente Secreto, quando se fica sabendo, via notícia de jornal, do assassinato de Armando, ocorrido em 1977; estendido no chão, sua foto remete à lembrança da cena do cadáver no pátio do posto de gasolina, bem como de todos os demais cidadãos assassinados que “aparecem” no desenvolvimento do texto fílmico.
            Do processo de cooptação, vale ressaltar a resistência, inclusive física, de Armando e Fátima (Alice Carvalho), que – além de pesquisadora nordestina e mulher negra, e, por isso, vítima do racismo praticado por Ghirotti e por seu filho, Salvatore Ghirotti (Luciano Graziosi) – era companheira de Armando, com quem tivera o filho Fernando (Wagner Moura). O casal de pesquisadores, adversários frontais daquela intervenção dos dois representantes do capital, põe-se em situação de extrema vulnerabilidade ao defender seus princípios e origens, bem como a força da ciência/conhecimento vivenciado em universidades fora do eixo Rio-São Paulo.
            Portanto, aqui está, de forma cíclica, a origem do ponto de partida e do epílogo da narrativa. Sem esse conjunto de acontecimentos não haveria ação/motivação para que surgisse O Agente Secreto como filme de memória, fruto de pesquisa acadêmica de uma instituição particular de ensino superior, que investigava – mas, logo, desistira da empreitada – um pouco dos porões de um tempo deveras sombrio de nosso país.
            Todavia, se a instituição interrompera e engavetara seus estudos, a estagiária Flávia (Laura Lufési) não. Ao contrário, é ela quem, ao copiar, clandestina e secretamente, os depoimentos que ajudava a transcrever para a pesquisa institucional, torna-se o sujeito agente que entrega o material num pen drive a Fernando, filho de Armando e Fátima, garantindo, assim, o desvelamento público dos atos ocorridos com seus pais. O restante é despiste, típicos de narrativas tais.
            Nesse sentido, como num lance de fina ironia, Marcelo – que, antes, é Armando –, da cabine de projeção do Cine São Luiz, parece se sentir “espelhado” ao assistir a uma breve cena, na qual a personagem Bob Saint-Clar, uma criação de François Merlin, ambos interpretado por Jean-Paul Belmondo, em Le Magnifique, é que sugere ser o tal “agente secreto”; e até pode ser, mas naquele filme francês. No que nos interessa aqui, outra despista: o “nosso” Bob/Bobbi (Gabriel Leone), como jovem que responde a antigas violências vividas na infância, é um agente silencioso e perigoso, mas não secreto, pois não intelectualiza nada; no limite, apenas age friamente para auxiliar na terceirização – uma das dinâmicas do capital – de um matador de aluguel. Os que recebem propinas para “pequenas tarefas” equivalem, p. ex., às mulas do tráfico. São sempre seres sorrateiros, sem nada intelectualizar ou mesmo intuir algo.
            E, assim, várias ações desonestas vão surgindo, afinal, nos subterrâneos de uma ditadura, ninguém age solo. Há sempre um conjunto de colaboradores do regime, conscientes ou não, trabalhando para algum projeto, via de regras, obscuro. Nos porões, os ratos transitam e se comunicam entre si.
            Nessa perspectiva, em “despretensiosa” informação, à lá notas de rodapé, como nos trabalhos acadêmicos, sabe-se que, após a já mencionada dissolução do departamento da UFPE, houve dispersão daquele antigo corpo docente, que aceitou “tomar um banho de indústria”, conforme sugerido por Ghirotti. Por meio de um “sutil destaque”, registra-se que alguém do antigo grupo de docentes teria ido trabalhar justamente onde Ghirotti também tinha seus tentáculos, ou seja, no Metrô de São Paulo; não por coincidência, era a cidade da placa do fusca que, agora, Marcelo – após o assassinato de Fátima, que, ao invés de pneumonia, teve seu corpo atirado na represa Sérgio Motta – dirigia até o Recife, almejando sair do país em companhia de seu filho.
            Infelizmente, Armando não conseguiu se proteger do Brasil”, como havia sido sugerido pela personagem Elza (Maria Fernanda Cândido). Seu assassinado ocorreu pouco antes de seu autoexílio de um país que ainda busca sua consolidação como pátria, sem ameaça da presença asquerosa de nenhum agente do tipo sorrateiro, sem nenhuma “pirraça”, termo inusitado e maravilhosamente bem escolhido para abranger um amplo leque semântico de todo o retrocesso político, social, cultural e econômico que períodos antidemocráticos implacavelmente podem nos trazer: memória é, de fato, também prevenção ao futuro.



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