Imprimir esta página
Segunda, 09 Fevereiro 2026 11:52

A SEXTA REVOLUÇÃO ENERGÉTICA DOS SAPIENS: O DOMÍNIO DA ELETRICIDADE - Danilo de Souza

Escrito por 
Avalie este item
(0 votos)

 

 

****

Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
****

 


Por Danilo de Souza*

 

Chegamos, assim, à sexta revolução energética dos Sapiens: o domínio da eletricidade. Diferentemente das revoluções anteriores, a eletricidade não se estabelece como uma fonte primária de energia, mas como uma forma singular de representar, converter e transportar energia. O papel histórico da eletricidade foi atuar como intermediária altamente eficiente entre diferentes fontes primárias e seus usos finais, reorganizando profundamente a forma como a energia é produzida, distribuída e utilizada.


Até o domínio dos estoques, a humanidade já dispunha de meios para produzir luz, calor e movimento. O domínio da eletricidade consolidou-se como um desenvolvimento em camada técnica superior, capaz de tornar essas conversões mais flexíveis, controláveis e eficientes. Em si mesma, a eletricidade não tem utilidade direta: precisa ser convertida em luz, calor, torque ou sinal. Seu valor está justamente na capacidade de se transformar em quase qualquer forma de energia útil.


É nesse ponto que a eletricidade se consolida como uma revolução no transporte da energia, ao permitir desacoplar, de forma técnica e operacional, o local de geração do local de consumo. O carvão no subsolo, o petróleo em campos distantes, a água em bacias remotas e os ventos em regiões pouco habitadas podem ser convertidos em eletricidade nos seus “berços”, enquanto a carga se concentra predominantemente nas cidades, nas fábricas e nas residências. A eletricidade conecta esses dois mundos por meio de condutores, transportando energia sem transporte macroscópico de matéria, o que produz consequências estruturais profundas: desloca a “sujeira”, afastando fumaça, ruído e resíduos associados à geração do ponto de uso final; desloca o risco, retirando processos industriais dos centros das cidades ou dos ambientes domésticos; e transfere parte relevante do impacto ambiental do local de consumo para o local de geração, que pode estar distante e tecnicamente mais controlado.


A eletricidade também apresenta uma característica singular entre as mercadorias energéticas: em condições normais, precisa ser produzida e consumida quase simultaneamente. Embora o armazenamento venha avançando, o sistema elétrico se organiza como um sistema de equilíbrio dinâmico. Geração, consumo, frequência e tensão precisam estar continuamente coordenadas.


Historicamente, os primeiros usos sistemáticos da eletricidade ocorreram no século XIX, inicialmente associados à telegrafia e à iluminação. A lâmpada incandescente, comercializada em larga escala a partir da década de 1880, transformou radicalmente a vida urbana. Ruas, fábricas e residências passaram a ser iluminadas de forma contínua, previsível e relativamente segura. A iluminação elétrica ampliou as horas produtivas do dia, reorganizou os turnos de trabalho e alterou os hábitos sociais. A noite deixou de ser um limite para a atividade humana.


Pouco depois, a eletricidade passou a desempenhar um papel central na produção de força motriz, transformando profundamente a organização industrial. Como ilustrado na Figura 1a) e na Figura 1b), nos arranjos baseados, respectivamente, em energia hidráulica (dependente dos fluxos naturais) e em máquinas a vapor (baixíssima eficiência na distribuição de força), a força mecânica era gerada de forma centralizada e distribuída fisicamente por eixos, correias e engrenagens ao longo das fábricas, o que implicava elevadas perdas por atrito, limitações espaciais, ruído intenso, vibrações e riscos significativos à segurança dos trabalhadores. A introdução dos motores elétricos, apresentada na Figura 1c), rompe com esse paradigma. A energia passa a ser transportada na forma elétrica por condutores, enquanto a conversão em força mecânica ocorre localmente, junto à carga. Cada máquina passa a dispor de seu próprio motor, acionado de forma independente, com controle preciso de velocidade e torque. A grande vantagem dessa transição não reside apenas no ganho de eficiência, mas também no fracionamento da força motriz e na eliminação dos complexos sistemas mecânicos de distribuição. Esse desacoplamento entre geração, transmissão e uso final da energia reduz perdas, amplia a flexibilidade operacional, permite a reorganização do layout das fábricas e eleva significativamente a produtividade industrial. Mais do que uma inovação técnica pontual, a eletrificação redefine o próprio conceito de organização produtiva, ao transformar a energia em um fluxo distribuído, modular e controlável, fundamento da moderna indústria eletromecanizada.

 

 

No transporte, a eletricidade também provocou rupturas significativas. Bondes elétricos, metrôs e trens eletrificados transformaram a mobilidade urbana a partir do final do século XIX e do início do século XX. Ao deslocar a geração para fora do espaço urbano, o transporte elétrico reduziu a poluição local, o ruído e os riscos associados à combustão direta. Mesmo quando alimentados por fontes fósseis, esses sistemas reorganizaram o espaço das cidades e viabilizaram a expansão metropolitana.


Outro aspecto central do domínio da eletricidade é o controle. A energia elétrica permite que o controle se torne mais barato. Sensores simples, circuitos elementares e dispositivos de proteção permitem medir, comparar, acionar e desligar sistemas com baixo custo adicional. Esse fator foi decisivo para a difusão da automação industrial e, posteriormente, para a automação doméstica. Quando o controle se torna acessível, a automação deixa de ser exceção e passa a ser regra.


Na indústria, esse controle viabilizou sistemas de comando, proteção e intertravamento, elevando os padrões de segurança e confiabilidade. No cotidiano doméstico, permitiu a substituição progressiva de usos térmicos baseados em chamas abertas por dispositivos elétricos automaticamente controlados. Não se trata apenas de conforto, mas de uma reorganização técnica do risco e da previsibilidade dos processos.


Essa capacidade de controle também é o elo entre a eletricidade e a computação. Chavear circuitos, comparar sinais, amplificar correntes e temporizar eventos são operações energéticas e informacionais simultâneas. A eletricidade tornou possível representar informação em forma física, o que permitiu o desenvolvimento de calculadoras, computadores e sistemas digitais. A partir desse momento, energia e informação passam a compartilhar a mesma infraestrutura material.


Do ponto de vista produtivo, a eletricidade também redefiniu a relação entre energia e tempo. Ao permitir iluminação mais eficiente e confiável, ela ampliou a disponibilidade de horas produtivas. Ao permitir força motriz fracionada, elevou a eficiência do trabalho. Ao permitir controle barato, reduziu desperdícios e falhas. Esses fatores combinados explicam por que o domínio da eletricidade está diretamente associado aos grandes ganhos de produtividade observados entre o final do século XIX e o século XX.


Outro elemento decisivo é a capacidade da eletricidade de integrar diferentes fontes de energia em um mesmo sistema. Uma vez eletrificados os usos finais, torna-se possível substituir as fontes de geração sem modificar profundamente os equipamentos consumidores. Essa característica confere à eletricidade um papel estratégico na reorganização das matrizes energéticas ao longo do tempo, permitindo incorporar fontes de baixo carbono e explorar potenciais energéticos distantes das cargas.


Como sexta revolução energética, o domínio da eletricidade não se define pela descoberta ou pelo desenvolvimento de uma nova fonte, mas pela construção de sistemas de conversão, transporte e controle da energia. A eletricidade possibilitou a reorganização do espaço, o deslocamento de impactos, redefiniu o tempo produtivo e transformou a energia em elemento estruturante da vida econômica e social.


A eletricidade consolida uma civilização na qual energia, técnica e organização passam a operar de forma integrada. Mais do que fornecer potência, ela fornece coordenação. Esse talvez seja seu legado mais profundo: transformar a energia em algo distribuído, controlável e articulado em rede, preparando o terreno para as revoluções tecnológicas que se seguiram.


OBS: Coluna publicada mensalmente na revista - "O Setor Elétrico".

*Danilo de Souza é professor na FAET/UFMT, pesquisador no NIEPE/FE/UFMT e no Instituto de Energia e Ambiente IEE/USP.

Ler 29 vezes

Mais recentes de Imprensa

Itens relacionados (por tag)