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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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JUACY DA SILVA*
Durante a chamada Revolução Industrial, entre 1760 e 1840, o crescimento populacional no mundo, principalmente o crescimento urbano, experimentou uma verdadeira explosão, passando de 790 milhões para um bilhão de pessoas, ou seja, em 80 anos o aumento demográfico foi de 210 milhões de habitantes, com taxas de crescimento jamais vistas nos séculos anteriores, e isto ensejou muitos debates e preocupações em relação ao futuro.
Este crescimento acelerado, principalmente nas cidades europeias, foi o estopim para que governantes, empresários, estudiosos e até mesmo líderes religiosos se preocupassem diante da possibilidade de haver falta de alimentos e uma grande fome pelo mundo.
Foi neste contexto que o clérigo anglicano Thomas Malthus, que também tinha formação em economia, ciências sociais e estatística, nascido em 13 de fevereiro de 1766, publicou, em 1798, uma obra que causou o maior impacto e até hoje ainda tem discípulos espalhados pelo mundo, que advogam um controle do crescimento populacional como única forma de evitar que a fome se transforme em uma verdadeira epidemia. Malthus viveu apenas 68 anos e faleceu em 23 de dezembro de 1834.
Em sua obra Ensaio sobre o princípio da população, Malthus dizia que o mundo todo iria enfrentar um grave problema, pois a população crescia em proporção geométrica enquanto a produção de alimentos crescia apenas em proporção aritmética, e isto acarretaria, sem dúvida, grandes fomes que iriam dizimar boa parte da população mundial, principalmente entre os pobres, e o resultado seria um novo equilíbrio no crescimento demográfico, compatível com os níveis de produção de alimentos no mundo.
Todavia, Malthus mal podia imaginar que a população mundial chegaria ou iria superar 8,2 bilhões em 2025 e também que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia iria revolucionar tanto a produção de alimentos quanto o controle da natalidade, deslegitimando seus sombrios prognósticos na equação entre crescimento populacional x produção de alimentos x pobreza x fome.
Sem dúvida, existem ainda mais de 760 milhões de famintos no mundo atualmente, quase o total da população mundial na época de Malthus, porém isto não é devido à falta de alimentos, mas sim a fatores econômicos, concentração de renda, baixos salários, trabalho escravo ou quase escravo, guerras, conflitos armados internos, fatores climáticos, perdas e desperdícios, como há poucos dias este assunto foi exaustivamente discutido por ocasião do Dia Internacional de Combate às Perdas e Desperdício de Alimentos no mundo.
Para entendermos esta equação é importante que tenhamos consciência de que, para suprir alimentos para uma população que cresceu tanto, passando de um bilhão em 1840 para mais de 8,2 bilhões atualmente, com estimativas de que, por volta de 2100, o mundo chegará a 10,3 bilhões de habitantes, primeiro os sistemas agropecuários se expandiram fisicamente, passaram a ocupar novas áreas, as chamadas novas fronteiras agrícolas, ao longo de pelo menos 150 anos, mas com muita volúpia nas últimas cinco décadas, provocando desmatamento e queimadas em extensas áreas, principalmente nas florestas tropicais da América Latina (Amazônia), da Ásia e da África (floresta do Congo) e também em savanas ou áreas assemelhadas, como o cerrado brasileiro.
Até hoje, esta expansão continua praticamente sem controle, provocando grandes impactos sobre a natureza, destruindo solos, florestas, poluindo o ar e as águas e gerando os famosos Gases de Efeito Estufa (GEE), que são os responsáveis pela crise climática que também ameaça todas as formas de vida no planeta, inclusive a vida humana.
Diferente do que imaginava Malthus, que milhões de pessoas poderiam morrer por falta de comida, o que vemos, conforme os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é que se estima que cerca de 7 milhões de pessoas morrem anualmente devido apenas à poluição do ar, além de muito mais (milhões) por outras doenças relacionadas com a degradação socioambiental, das águas, falta de saneamento, falta de esgotamento sanitário, destinação incorreta do lixo, por exemplo.
Neste afã de produzir alimentos e também algumas commodities, um dos impactos neste avanço dos sistemas produtivos, inclusive que utilizam insumos modernos, como corretivos de solo, fertilizantes, fungicidas, herbicidas, enfim, agrotóxicos, tem sido a degradação dos solos, que no mundo já está em torno de 15 milhões de km², território maior do que nosso país, ou seja, mais de 1,5 bilhão de hectares, dos quais mais de 140 milhões de hectares estão no Brasil.
Mesmo que não existam dados atualizados sobre a relação entre o tamanho da propriedade rural e a degradação dos solos, tendo em vista a alta concentração fundiária da posse e uso da terra em nosso país, demonstrada pelo índice de Gini, estima-se que pelo menos 75% a 80% das áreas com solos degradados no Brasil estão concentradas nas grandes propriedades rurais, acima de mil hectares, demonstrando que a agricultura familiar tem práticas conservacionistas bem maiores e melhores. Por exemplo, dos 159 milhões de hectares com pastagens no Brasil, 78% estão degradados.
Aí é que entra a questão do papel e importância da agroecologia e também da agricultura regenerativa, como saídas mais racionais e ambientalmente corretas para que alimentos sejam produzidos com qualidade e não afetem a saúde e a vida humana, nem destruam os ecossistemas e biomas, diante do ainda um tanto acelerado crescimento populacional mundial, como pensam alguns estudiosos desses assuntos.
O desenvolvimento da ciência e da tecnologia, principalmente nos últimos 50 anos, tem propiciado um aumento espantoso da produtividade, tanto das culturas quanto dos animais, reduzindo bastante a pressão sobre a expansão das fronteiras agrícolas, da destruição das florestas e da biodiversidade em geral.
Muita gente confunde a agroecologia com as práticas enfatizadas pela agricultura regenerativa. Nesta, a ênfase representa “um sistema agrícola que busca recuperar a saúde do solo e restaurar os ecossistemas, em vez de apenas reduzir o impacto ambiental. Ela se baseia em práticas como o não revolvimento do solo, a rotação de culturas e a integração de lavoura, pecuária e floresta (ILPF) para aumentar a biodiversidade, a resiliência e a fertilidade do solo. O objetivo final é um sistema mais produtivo e sustentável que também contribua para o combate às mudanças climáticas”. Tais práticas têm sido utilizadas tanto por médias quanto por grandes propriedades, mas ainda não são consideradas práticas amplamente adotadas pelos grandes proprietários.
Enquanto isso, a agroecologia “é um campo multidisciplinar que busca desenvolver uma agricultura sustentável, integrando conhecimentos científicos, saberes tradicionais e práticas sociais para harmonizar a produção de alimentos com a proteção ambiental, a justiça social e a eficiência econômica. Ela promove a autonomia dos produtores, principalmente da agricultura familiar, através do uso de técnicas como a adubação orgânica, a ausência de organismos geneticamente modificados, de agrotóxicos, resultando em alimentos orgânicos, mais saudáveis e resistentes às mudanças climáticas, ao mesmo tempo que valoriza a biodiversidade e o bem-estar das comunidades”.
Recentemente, a FAO, agência da ONU responsável pelas questões da agricultura e da alimentação, em uma publicação intitulada Os dez elementos da agroecologia: um guia para a transição para sistemas agrícolas sustentáveis e de produção de alimentos, enfatizou que a agroecologia não é algo recente, como muitos podem imaginar, mas vem sendo desenvolvida, conforme relatos e estudos publicados desde a década de 1920, ou seja, há pouco mais de 100 anos, e no Brasil este sistema está em franca expansão, principalmente na agricultura familiar e na agricultura urbana e periurbana.
Os dez elementos que representam os fundamentos para o desenvolvimento e fortalecimento da agroecologia, conforme o documento da FAO, são os seguintes: 1) diversidade e diversificação de culturas, oposto às monoculturas, espinha dorsal do agronegócio; 2) compartilhamento social do conhecimento e práticas inovadoras naturais; 3) sinergia como base do sistema produtivo; 4) sistema produtivo de alta eficiência e racionalidade; 5) uso da reciclagem e da economia circular, para melhor aproveitamento dos fatores de produção e dos custos sociais e ambientais; 6) maior resiliência das pessoas envolvidas, das comunidades e dos ecossistemas; 7) respeito aos valores humanos e sociais, do conhecimento popular tradicional e ancestral, da equidade e da vida; 8) respeito aos hábitos e culturas envolvidas; 9) governança responsável e sistemas alimentares sustentáveis; 10) integração da economia circular com a economia solidária e a inclusão social, econômica e política da agricultura familiar. Enfim, empoderamento dos envolvidos com tais práticas.
Conforme nota do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, “neste 3 de outubro, celebramos o Dia Nacional da Agroecologia, data em homenagem à engenheira agrônoma e escritora Ana Maria Primavesi. A data destaca a relevância da agroecologia tanto para a saúde da sociedade quanto para a saúde do planeta. A agroecologia é um modelo de produção que vai além da agricultura tradicional, promove práticas sustentáveis, sem o uso de agrotóxicos e com foco na harmonia entre a produção e a natureza”.
Como reconhecimento público da caminhada, das lutas e conquistas da agroecologia, o Congresso Nacional aprovou a Lei 13.565, criando o DIA NACIONAL DA AGROECOLOGIA, sancionada pelo Presidente Michel Temer em 21 de dezembro de 2017, que estabelece o seguinte: “Art. 1º Fica instituído o Dia Nacional da Agroecologia, a ser comemorado, anualmente, no dia 3 de outubro. Art. 2º O poder público federal, em parceria com os poderes públicos estaduais, municipais e entidades da sociedade civil, realizará, na data a que se refere o art. 1º desta Lei, campanhas de esclarecimento da população sobre a agroecologia e a produção orgânica. Art. 3º Fica instituído o Prêmio Nacional de Agroecologia ‘ANA PRIMAVESI’, a ser concedido pelo poder público federal às organizações e pessoas da sociedade civil, parlamentares e autoridades públicas que se destacarem no desenvolvimento da agroecologia e da produção orgânica e no seu apoio”.
O Dia Nacional da Agroecologia celebra um modelo de produção agrícola sustentável, que utiliza os recursos naturais de forma inteligente e sem químicos, agrotóxicos ou transgênicos, estimulando a produção orgânica, promovendo a saúde, preservando a biodiversidade e o fortalecimento da economia rural através da economia solidária.
Como mecanismo para o fortalecimento da agricultura familiar em geral e da agroecologia em particular, o Governo Federal anunciou em julho último estar destinando R$ 89 bilhões, destacando a ampliação do crédito rural, juros negativos para a produção de alimentos e mecanização e linhas novas para irrigação sustentável, quintais produtivos para mulheres rurais e transição agroecológica.
Em agosto último (2025), conforme amplamente noticiado pela imprensa, foi realizada a 22ª Jornada de Agroecologia no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná, tendo recebido mais de 30 mil visitantes, o que demonstra a importância e o papel da agroecologia na soberania alimentar e no combate à crise climática.
Lema da agroecologia: produzir em harmonia com a natureza, com respeito à saúde humana, com fraternidade e fortalecer a economia solidária.
Vida longa para a agroecologia, no Brasil e no mundo todo.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulista da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy