Entrevista: Invasão da Venezuela expõe disputa por hegemonia no cenário internacional
A invasão dos Estados Unidos à Venezuela, em 3 de janeiro deste ano, resultando na captura do então presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, deu início a uma grave crise política e diplomática que vai além do petróleo. Nesse contexto, o professor venezuelano Luis Bonilla-Molina analisa, em entrevista à imprensa do ANDES-SN*, o papel estratégico da Venezuela na geopolítica internacional e os impactos da ofensiva dos EUA sobre a soberania nacional e regional, diante do avanço de novas potências globais. Parte da entrevista foi publicada na edição do InformANDES de fevereiro e a íntegra pode ser conferida abaixo.
Luis Bonilla-Molina em evento na sede do ANDES-SN, em Brasília (DF). Foto: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
InformANDES: Como a Venezuela se tornou um ponto estratégico central para os Estados Unidos na atual disputa entre grandes potências e na redefinição de zonas de influência na América Latina?
Luis Bonilla-Molina: A Venezuela ocupa uma posição geográfica estratégica do ponto de vista militar, com acesso ao Mar do Caribe e ao Oceano Atlântico, a poucos quilômetros do Canal do Panamá — que o conecta ao Pacífico —, o que a torna fundamental para as rotas comerciais e de transporte na região. Além disso, o país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, abundância de ouro, presença de terras raras e outros minerais estratégicos para a inovação tecnológica, além de reservas significativas de água e biodiversidade.
Historicamente, os Estados Unidos invocaram a Doutrina Monroe e intervieram como mediadores quando o então presidente da Venezuela, Cipriano Castro (1899–1908), em 1902, decidiu ignorar a dívida externa do país, contraída com potências imperiais europeias — Alemanha, Inglaterra e Itália —, fato que gerou um bloqueio naval na costa venezuelana, semelhante ao aplicado hoje pela Marinha dos EUA.
Aplicando o princípio de “América para os americanos”, os Estados Unidos não apenas queriam impedir que a Europa se apoderasse de territórios na região, mas também garantir que Castro não escapasse impune, pois isso seria um mau precedente para a dominação que estavam construindo. Esse episódio abriu o capítulo da relação dependente e neocolonial da Venezuela com os Estados Unidos, algo que se tornaria ainda mais tenso quando Hugo Chávez [ex-presidente da Venezuela, 1999–2013] lançou sua proclamação anti-imperialista: “Yankees de mierda, váyanse al carajo” (tradução: “Ianques de merda, vão se ferrar”).
Ao longo do século XX, para controlar a indústria petrolífera, os Estados Unidos organizaram golpes de Estado e influenciaram a formação da democracia representativa que se desenvolveu após a revolução burguês-democrática de 1958.
Com a eclosão da crise estrutural venezuelana em 1983, que é a gênese da situação atual, ficou evidenciado o colapso do modelo de acumulação rentista, do sistema multiclassista de controle social e de suas instituições de intermediação, bem como dos instrumentos políticos de representação. Esses fatores, embora não tenham rompido com a dominação dos Estados Unidos na política e economia locais, convenceram o império de que o controle à distância não era mais suficiente e de que seria necessário migrar para um controle mais direto.
A chegada de Chávez ao poder sempre foi desconfortável para eles. Por isso, colaboraram com a tentativa de golpe de Estado em 2002, que fracassou graças à ampla mobilização popular. No entanto, a Venezuela nunca deixou de ser fornecedora de petróleo para o norte imperialista durante o período chavista.
Mas o início da redefinição da ordem mundial decorrente da Segunda Guerra Mundial, com o surgimento da China como potência econômica e da Rússia como bastião militar global, fez com que a Venezuela adquirisse uma importância incomum para o norte imperialista. Barack Obama [ex-presidente dos EUA, 2009–2017], em seu segundo mandato, declarou que a terra natal de Simón Bolívar era um perigo à segurança estratégica dos Estados Unidos, criando um precedente para que Trump implementasse sanções contra o país em seu primeiro mandato [2017-2021]. Isso evidenciou a convergência entre democratas e republicanos na reconfiguração do papel da Venezuela na geopolítica dos EUA, ainda que com diferenças nas formas.
Nesse contexto, chegamos ao bloqueio naval de 2025, com o desdobramento de navios militares e armamentos de última geração, que se intensificou em 3 de janeiro de 2026 com a intervenção militar no território venezuelano e o sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, evento que causou mais de 100 mortes.
InformANDES: Que mensagem política e simbólica os EUA buscam transmitir ao capturar um presidente em exercício e declarar que estão “no comando” de outro país?
LBM: O governo de Nicolás Maduro Moros havia iniciado, anos atrás, negociações com os Estados Unidos com a intenção de distensionar o conflito e aliviar as sanções. Essa tentativa tornou-se pública em 2021, mesmo ano em que a relação com a associação empresarial venezuelana Fedecámaras — que participou ativamente do golpe de Estado de 2002 — foi reconstruída e ampliada após a guerra na Ucrânia, o que permitiu que a Venezuela voltasse a ser um fornecedor confiável de petróleo para os EUA.
No entanto, a má gestão da indústria petrolífera e o impacto das sanções na aquisição de suprimentos e peças de reposição levaram a produção de petróleo venezuelana ao seu nível mais baixo em décadas. Os Estados Unidos queriam mais petróleo, mas isso implicava investimentos elevados, difíceis de realizar diante da crise econômica venezuelana e do receio das corporações transnacionais de investir em um país declarado ameaça à segurança dos EUA.
Delcy Rodríguez, presidenta interina da Venezuela, foi um fator decisivo na recomposição da relação com a velha burguesia, o que abriu espaço para um eventual acordo interburguês. Em 2024, o governo de Maduro vivia o melhor momento das relações com os Estados Unidos, a ponto de a então vice-presidenta Kamala Harris, na noite de 28 de julho daquele ano, ter sido excessivamente cautelosa diante dos resultados eleitorais venezuelanos, mesmo diante de questionamentos.
Então, por que essa mudança na política dos EUA? Por que passamos de uma crítica limitada ao discurso político para a maior ofensiva militar contra a América do Sul em sua história? Porque uma nova ordem mundial está emergindo e os Estados Unidos querem ser protagonistas centrais em sua construção, ampliando seu controle energético e reafirmando o “Hemisfério Ocidental” como área de influência exclusiva.
Sequestram Maduro para tentar dissolver a República e impor uma relação colonial com a Venezuela, facilitando a aplicação da Estratégia de Segurança Nacional e o relançamento da Doutrina Monroe sob o corolário Trump, que passa a tratar a região como seu quintal, estendendo as fronteiras imperiais a todo o continente. E, ainda, alcançar o controle direto das reservas de petróleo da Venezuela.
O ataque à Venezuela, o sequestro de Maduro e a tentativa de construir um protetorado no século XXI são apenas a ponta do iceberg do que pode vir para toda a região.
Nesse processo, desde agosto de 2025, foi implementada a maior operação de uso de tecnologia de ponta, voltada à coleta massiva de dados produzidos a partir das respostas da população do continente a ataques contra pequenas embarcações e a anúncios de escalada do conflito.
Essa coleta de dados permite, hoje, que os Estados Unidos possuam informações atualizadas, segmentadas e geograficamente direcionadas para planejar ações conforme a Estratégia de Segurança Nacional, identificando simpatias e focos de resistência.
Não é estranho que, duas semanas após o ataque à Venezuela e o sequestro de Maduro, os barcos que supostamente transportavam drogas tenham simplesmente desaparecido e nenhum outro ataque tenha ocorrido?
Os Estados Unidos farão o que quiserem, vão violar toda a ordem jurídica internacional e a soberania de qualquer país para manter sua hegemonia na nova ordem mundial.
InformANDES: De que forma o controle da Venezuela pode ampliar a influência dos EUA para além do petróleo, alcançando dimensões militares, diplomáticas e econômicas na região?
LBM: Os Estados Unidos levaram seu plano colonial para a Venezuela às últimas consequências. O que estamos vendo é uma transição controlada da condição de República para a de Colônia, um processo que pode incluir a instalação de bases militares estadunidenses no país, sob o pretexto de proteger a produção de petróleo.
Nos dias seguintes ao ataque militar à Venezuela e ao sequestro de Maduro e de sua esposa, os Estados Unidos declararam o confisco de cerca de 50 milhões de barris de petróleo e a intenção de vendê-los diretamente no mercado mundial. Os recursos seriam depositados em contas bancárias no Catar, para evitar ações de credores, e uma parte desses valores seria devolvida à Venezuela para que os dólares fossem leiloados por um banco privado, e não pelo Banco Central venezuelano, com o objetivo declarado de custear salários e infraestrutura.
Embora a presidenta interina Delcy Rodríguez afirme que o que está sendo retomado é a relação comercial histórica com os Estados Unidos, o que vem ocorrendo é preocupante. Há reformas aceleradas nas legislações comercial, de hidrocarbonetos e trabalhista, com o objetivo de criar condições para ampliar o investimento e a participação de transnacionais na exploração do petróleo, relegando a estatal venezuelana a um papel secundário.
Na verdade, Trump reuniu-se com gestores e proprietários das principais empresas petrolíferas transnacionais com o objetivo de criar um fundo de 100 bilhões de dólares para “recuperar” a infraestrutura petrolífera venezuelana e aumentar a produção de cerca de um milhão para mais de quatro milhões de barris diários. Esse esquema parece colocar a companhia petrolífera estatal venezuelana como coadjuvante na ofensiva petrolífera americana.
Isso é grave, pois busca legitimar o direito dos Estados Unidos de usar todo o seu poder para garantir o próprio bem-estar. Se, para isso, for necessário destruir repúblicas e transformá-las em colônias, dinamitar Estados-nação para criar protetorados, demonstrar superioridade militar e tecnológica, eliminar infraestruturas de defesa nacional ou assassinar soldados de países da região, isso acontecerá.
Trump parece afirmar que, para evitar esse destino, os países do chamado Hemisfério Ocidental devem abrir mão de sua riqueza e soberania, acostumar-se à desapropriação e se contentar com um esquema de retorno de lucros controlado, supervisionado e determinado pelo Norte imperial. O que está acontecendo na Venezuela ameaça todo o continente.
InformANDES: E quais os riscos essa ofensiva representa para países da América Latina que mantêm projetos políticos autônomos ou alianças fora do eixo de Washington?
LBM: Há tensões e contradições entre blocos capitalistas pelo controle do poder e pela acumulação mundial. Nessa dinâmica, surgem blocos como os BRICS**, nos quais a China, adversária comercial dos Estados Unidos, desempenha um papel de liderança.
A Estratégia de Segurança Nacional, publicada em novembro de 2025 pelo governo Trump, estabelece que toda a América Latina e o Caribe são sua zona de influência direta, parte do Hemisfério Ocidental que consideram o anel de segurança econômica, política e militar dos Estados Unidos. Consequentemente, esses blocos econômicos com a China tornam-se um alvo, seja para forçar os países da região a abandoná-los ou para que eles façam parte da estratégia estadunidense, tentando implodí-los internamente.
Nesse cenário, é esperado que a administração Trump busque intervir, aberta ou secretamente, nas próximas eleições de países como Brasil, Colômbia e México, ao mesmo tempo em que avança na recolonização econômica, como ocorre no Panamá, na Argentina e no Chile, ou na recolonização territorial, como nos casos de Cuba e Nicarágua.
A Venezuela é a vanguarda dessa estratégia de recolonização do Hemisfério Ocidental. É necessário encontrar formas de resistência. Isso ocorre em dois níveis: o institucional e o popular.
No institucional, os governos da região deveriam pactuar uma agenda mínima capaz de conter a ofensiva imperial. O problema é que a direita iliberal e protofascista já ocupa muitos desses governos. O outro é a mobilização popular continental para despertar e se conectar com o movimento social norte-americano para derrotar a ofensiva trumpista de recolonização. Esse caminho é mais viável e depende da capacidade de articulação entre movimentos sociais e partidos políticos não alinhados com a estratégia dos EUA. O desafio é seguir nessa direção.
InformANDES: E qual é o papel da esquerda venezuelana?
LBM: O centro da política revolucionária na região é de caráter anti-imperialista, não há dúvidas. Mas é necessário esclarecer que nem o governo Maduro nem o atual, liderado por Delcy Rodríguez, são revolucionários. Pelo contrário, Nicolás Maduro liquidou os avanços sociais conquistados durante a revolução liderada por Hugo Chávez. No entanto, não hesitamos nem por um segundo em denunciar seu sequestro e exigir sua liberdade, porque o destino do povo venezuelano deve ser decidido pelos venezuelanos, não por qualquer império.
A autêntica esquerda venezuelana está passando por uma situação muito séria. Todos os partidos de esquerda foram judicialmente intervencionados pelo governo Maduro. Atualmente, não existe na Venezuela um único partido de esquerda autônomo legalizado.
Mesmo assim, as forças da esquerda que não dependem da legalidade burguesa denunciaram o ataque imperialista e o sequestro de Maduro e defenderam a articulação de uma frente anti-imperialista internacional baseada nos interesses da classe trabalhadora.
Infelizmente, tanto os governos de Maduro e Delcy Rodríguez quanto setores da esquerda internacional seguiram o caminho de esconder a existência de uma oposição de esquerda na Venezuela, que carrega a tradição histórica da resistência anticapitalista.
O governo venezuelano bloqueia a construção de um amplo acordo nacional anti-imperialista porque isso implicaria reconhecer que há uma oposição de esquerda. Do meu ponto de vista, é urgente superar esse obstáculo por meio da construção de uma ampla frente anti-imperialista que coloque a defesa da soberania nacional em primeiro plano, sem silenciar as críticas às políticas antioperárias do madurismo, das quais integrantes do atual governo foram coautores.
Estamos comprometidos com essa tarefa de articulação ampla, especialmente a partir do chamado da plataforma global em solidariedade à Venezuela e ao anti-imperialismo, lançada em 17 de janeiro. Todos os caminhos levam à unidade na luta anti-imperialista.
*Entrevista realizada em 21 de janeiro. Eventuais mudanças na conjuntura política descrita podem ter ocorrido após essa data.
**BRICS: bloco formado por economias emergentes — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de outros seis países — voltado à cooperação política, ao desenvolvimento econômico e à articulação do Sul Global.
Fonte: Andes-SN
Entrevista: Sobretaxa de Trump, ofensiva imperialista e soberania nacional
O governo dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, anunciou a aplicação de uma sobretaxa de 40% sobre os produtos brasileiros exportados ao país, que já estavam sujeitos a uma tarifa de 10%. Com isso, o total da tarifa chega a 50% e entrará em vigor a partir de quarta-feira (6). Embora o governo estadunidense tenha recuado parcialmente em relação ao anúncio feito em junho — retirando 694 itens da lista, como petróleo, suco de laranja, minérios e aeronaves —, a medida é vista como parte de uma ofensiva mais ampla, de caráter imperialista, contra o Brasil e sua soberania.
A sobretaxa foi acompanhada por uma série de ações e declarações que colocam em xeque o respeito dos Estados Unidos (EUA) à democracia e ao Estado de Direito no Brasil. Entre elas, estão acusações infundadas de ataques à liberdade de expressão, utilizadas como pretexto para proteger os interesses das big techs* norte-americanas, interferências no processo judicial contra Jair Bolsonaro pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e suspeitas de um ataque especulativo ao Real, que teria gerado lucros bilionários a grupos com acesso privilegiado a informações.
Segundo comunicado da Casa Branca, a medida seria uma resposta a ações do governo brasileiro que, na avaliação dos EUA, representam uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa e à economia norte-americana.
Diante desse cenário, manifestações contra o tarifaço e a ofensiva imperialista vêm sendo organizadas em várias partes do país. Na última sexta-feira (1º), ocorreram atos em locais públicos e em frente a representações diplomáticas dos Estados Unidos.
Para analisar esse contexto e refletir sobre os caminhos da luta sindical e popular diante dessa conjuntura, Marcos Soares, 1º vice-presidente da Regional São Paulo e encarregado de Relações Sindicais do ANDES-SN, deu uma entrevista ao site do Sindicato Nacional.
ANDES-SN: Quais os impactos econômicos e sociais da sobretaxa para os trabalhadores e as trabalhadoras brasileiras, especialmente nos setores mais afetados pela exportação?
Marcos Soares: Agora que o tarifaço, ou a sobretaxa, foi anunciada, alguns itens e setores foram mais afetados, outros menos, mas, de forma geral, não houve muita mudança em relação ao que havia sido anunciado previamente. Se observarmos as áreas econômicas do Brasil mais impactadas, destacam-se o café, o açúcar (com toda a cadeia da cana-de-açúcar), as carnes e os calçados — setores com forte presença nas exportações brasileiras para os Estados Unidos.
Os representantes e empresários desses setores têm defendido que o governo brasileiro continue tentando negociar com os EUA, buscando reduzir o percentual da sobretaxa ou até conseguir isenções, como ocorreu com outros setores. Além da via diplomática e política, alguns também têm cobrado que o governo adote uma política de apoio financeiro, nos moldes do que foi implementado, ainda que parcialmente, durante a pandemia.
Essa estratégia, no entanto, tem impacto direto na economia brasileira, pois implica a entrada do Estado com recursos, financiamento e apoio aos setores produtivos, em especial ao setor privado. É uma discussão importante, já que envolve grandes segmentos da economia nacional. O impacto imediato, no entanto, recai sobre os trabalhadores. O setor de calçados, por exemplo, já anunciou que, se a sobretaxa for mantida, até 8 mil postos de trabalho poderão ser eliminados.
ANDES-SN: Quais medidas o governo brasileiro deveria adotar diante desta sanção comercial dessa magnitude, imposta unilateralmente pelos EUA?
MS: O governo Lula procurou os empresários para discutir e negociar, demonstrando, assim, um caráter de forte conciliação com esse setor. Ainda que, em essência, esses setores também sejam vítimas de um processo absolutamente arbitrário, por um governo de um país muito rico e poderoso do ponto de vista econômico. No entanto, até o momento, Lula não chamou os trabalhadores para essa discussão, o que considero um problema.
É claro que o governo brasileiro está sob grande pressão, sobretudo porque essas medidas do Trump têm um caráter conspiratório, intervencionista e de aliança com a extrema direita brasileira. Por isso, a discussão no Brasil não é tranquila. Estamos assistindo, por exemplo, ao próprio filho do ex-presidente Bolsonaro, nos Estados Unidos, conspirando contra o Brasil e contra setores que, em tese, até poderiam apoiá-lo politicamente, como o agronegócio. Portanto, esse diálogo interno não é fácil de ser feito no Brasil, mas, seguramente, ele fica mais difícil se não houver um diálogo com as centrais sindicais, os movimentos sociais, enfim, com a classe trabalhadora.
Acredito que uma das medidas que o governo deveria tomar, além das econômicas, que visem mitigar os impactos da sobretaxa e das tarifas, seria abrir um canal de diálogo com o movimento sindical, os trabalhadores e as trabalhadoras e os movimentos sociais em geral. A possibilidade de demissão é latente, porque é a resposta imediata que o capital faz para tentar diminuir o impacto do aumento do custo de produção e impostos. Então, o governo brasileiro precisaria chamar os trabalhadores para discutir essa situação.

ANDES-SN: Antes do anúncio oficial do tarifaço, os EUA vincularam as tarifas a uma suposta “censura” no Brasil e saíram em defesa de Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe. De que forma essa postura ameaça a soberania do Judiciário brasileiro e enfraquece nossas instituições democráticas?
MS: O Trump lidera hoje um projeto global da extrema direita, com articulações em países da Europa, Israel, alguns contatos no Oriente Médio e a Argentina, na América Latina — onde se alinha diretamente a figuras como Bolsonaro e sua equipe. O tarifaço anunciado pelos EUA não mira apenas o Brasil, mas aqui teve um tratamento particular: não houve negociação oficial, e a medida veio acompanhada de pressões políticas, como a defesa pública de Bolsonaro e críticas infundadas ao sistema judiciário brasileiro. Trata-se de uma ofensiva em duas frentes — econômica e política — para proteger aliados e interferir em processos internos, como não culpabilizar Bolsonaro por tentativa de golpe. Recentemente, um general chegou a admitir que cogitou o assassinato de Lula, do vice Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, o que revela a gravidade da ameaça à democracia brasileira.
Não haverá um apoio substancial da União Europeia, ou de outros países, muito menos da Rússia ou da China, à ideia de que há uma “caça às bruxas” no Brasil ou de que a Justiça esteja perseguindo Jair Bolsonaro. Até porque, pela lógica da política internacional e da diplomacia, os países costumam evitar interferências diretas nos assuntos internos de outras nações. Isso é, em certa medida, uma regra da diplomacia internacional. Na verdade, o que temos visto é o contrário. No dia 25 de julho, o ANDES-SN esteve presente na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na Universidade de São Paulo (USP), durante o lançamento da campanha Soberania Nacional. Foram mais de 300 entidades, a maioria ligada aos movimentos sociais, à luta por democracia, por direitos humanos, mas, no evento, havia também representantes do empresariado, discutindo que a soberania de um país não se negocia.
Nós, trabalhadoras e trabalhadores organizados, sabemos que o Judiciário no Brasil é muito seletivo. No entanto, na discussão específica que envolve a acusação contra Jair Bolsonaro e sua equipe numa trama golpista, a Justiça está seguindo os ritos legais e as provas estão aí para todos e todas verem. Há uma ameaça à soberania nacional. Por isso, é fundamental que os movimento sociais e os sindicatos estejam atentos e atuem para impedir qualquer manifestação no sentido de dar a um país estrangeiro a outorga de se inserir e fazer algum tipo de ingerência na soberania do nosso país, do ponto de vista das suas instituições, da luta geral e do próprio governo. Soberania não se negocia.
ANDES-SN: A AGU tem apurado possíveis operações no mercado financeiro brasileiro com base em informações privilegiadas, envolvendo lucros com câmbio antes e depois dos anúncios de taxação feitos por Donald Trump. O que essa possível operação especulativa revela sobre os mecanismos de dominação financeira internacional e seus impactos sobre a economia brasileira?
MS: Demonstrou como o sistema financeiro internacional, embora pareça ter regras e uma estrutura formal, é uma grande farsa. No campo da discussão que nos traz István Mészáros, com a incontrolabilidade do capital, mostra que o capital é incontrolável. O Brasil foi o país, até aqui, com a taxação mais alta, de 50%, o que envolve muito dinheiro.
Há uma farsa em termos de controle sobre a lógica do capitalismo em nível mundial e expõe os mecanismos de dominação financeira. Grupos que se beneficiam com informações privilegiadas, com movimentos especulativos que afetam a economia, porque isso significa essa volatilidade de capital, que entra e sai do país a partir dessas informações, desse circuito informativo que acontece entre pessoas que dominam o capital, ligadas a governos, ou diretamente ao capital especulativo, Bolsa de Valores etc.
ANDES-SN: De que forma a política externa dos EUA, marcada pelo unilateralismo e por ações imperialistas, impacta países do Sul Global como o Brasil?
MS: É importante dizer que, desde o final do século XIX, quando os Estados Unidos começam a se consolidar e, principalmente, pós-Segunda Guerra, como a principal potência imperialista do planeta. É importante dizer que a relação com os demais países sempre foi uma relação de dominação, seja ela econômica ou militar. Podemos pegar o exemplo das políticas econômicas lideradas pelo FMI [Fundo Monetário Internacional] para os países da periferia do capital, ou as intervenções militares, como no Iraque, no Afeganistão e em outros países.
O unilateralismo é uma marca deste atual momento dos Estados Unidos, ou seja, um país que vai se dirigindo aos demais de forma quase que individual, não por blocos. Um ponto interessante é que, mesmo em relação aos seus grandes parceiros europeus, já há divergências públicas. Essas divergências já existiam, mas eram tratadas de forma mais velada. Agora, são abertamente expostas, inclusive no que diz respeito aos gastos militares.
Me parece que o unilateralismo é uma resposta a essa conjuntura marcada por um tipo de governo de extrema direita, com traços até protofascistas. No campo econômico, essa postura se expressa por meio de pressões feitas a países de forma isolada, o que, na prática, aumenta ainda mais essa pressão. Uma coisa é pressionar um bloco como o Mercosul, outra é pressionar individualmente países como Argentina, Brasil, Venezuela e México. A saída, do ponto de vista da soberania dos países, seria buscar a unificação dessas economias.
Nós temos os Brics**, que ampliaram sua participação com a entrada de novos países como membros e parceiros. Alguns analistas dizem que essa ação dos Estados Unidos tem a ver, inclusive, com a expansão dos Brics. Ou seja, seria uma forma protecionista de se proteger economicamente.
O grande problema da América Latina é que não há uma certa unidade, mesmo nos governos ditos progressistas. Atualmente, temos governos assim no Chile, na Colômbia e no Brasil, mas já houve outro momento na América Latina em que mais países tinham governos chamados progressistas e, ainda assim, não buscaram uma linha política e econômica que lhes garantisse alguma segurança frente às políticas expansionistas do imperialismo estadunidense, como ocorre agora.
Ao mesmo tempo, outros analistas apontam que esse impacto pode abrir outros caminhos para exportações que antes eram minoritárias, voltadas a outros países. O Brasil, por exemplo, anunciou que muitos empresários estão procurando mercados, como o mexicano, para comercializar seus produtos.
ANDES-SN: Como as trabalhadoras, os trabalhadores, os movimentos sociais e entidades como o Sindicato Nacional podem se posicionar diante dessas ofensivas econômicas e políticas? E por que é fundamental que entidades sindicais e populares se manifestem contra as medidas que ferem a soberania nacional e favorecem o capital internacional?
MS: Do ponto de vista político, trata-se de defender a soberania nacional. Estamos assistindo uma aliança da extrema direita dos Estados Unidos, com Donald Trump como liderança global desse campo, em conluio com a extrema direita brasileira. É essa mesma extrema direita brasileira que colocou o boné da campanha do Trump “Fazer a América grande novamente”. América, aqui, entendida como Estados Unidos. E agora, parte dessa direita, como os governadores de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, tem se posicionado a favor de Trump, se colocando, inclusive, em situações delicadas, como no caso de São Paulo, onde o agronegócio pode ser impactado em grande medida pelos tarifaços. Isso gerou questionamentos ao governador [Tarcísio de Freitas (Republicanos)], eleito com o apoio desse setor, a respeito de qual lado ele está.
Temos ainda um parlamentar em licença, nos Estados Unidos, o filho de Jair Bolsonaro [Eduardo], que atua como um embaixador da extrema direita brasileira e que, junto a Donald Trump, ataca a soberania brasileira.
É uma prova cabal de que a pecha de “patriotas” não cabe a essas pessoas, porque estão defendendo interesses de um país estrangeiro em detrimento dos do Brasil. É um conluio entre a extrema direita brasileira e estadunidense. Então, do ponto de vista político, os movimentos sociais devem denunciar essa aliança e defender a soberania nacional.
Do ponto de vista da classe, nós, trabalhadores e trabalhadoras, temos que nos posicionar em defesa dos empregos e da economia nacional. Ou seja, se o tarifaço gerar desemprego, é preciso pressionar empresas e governos a criarem novos postos de trabalho, que substituam aqueles eventualmente perdidos em função dessas políticas, responsabilizando o governo dos Estados Unidos, Donald Trump e os seus aliados no Brasil. Além da soberania nacional, a campanha deve focar na defesa do emprego para todos e todas.
ANDES-SN: O pretexto de “ataque à liberdade de expressão” tem sido utilizado para justificar a resistência das big techs norte-americanas à regulação de suas atividades no Brasil. Como esse discurso vem sendo manipulado por grandes corporações para evitar o cumprimento das leis brasileiras e a atuação do Estado?
MS: Liberdade de expressão é um termo que, no capitalismo, é um conceito polissêmico, porque envolve certos limites daquilo que se fala e daquilo que se faz. No caso das big techs, mas sem entrar muito nessa discussão, trata-se de um tema relativamente novo, tanto no Brasil quanto no mundo, e ainda é difícil consolidar uma compreensão clara na opinião pública. De modo geral, penso que a população tende a acreditar que tudo se enquadra como liberdade de expressão. E isso atrapalha o debate sobre a regulação das big techs.
O discurso mais fácil, quando se fala em regulação, é o da censura. Mas há diferença entre regular e censurar. Eu penso que a regulação seja necessária. Se pegarmos, por exemplo, o processo eleitoral, essas grandes empresas tiveram um papel preponderante no pleito que elegeu Jair Bolsonaro, divulgando informações falsas, muitas delas mentirosas.
De qualquer jeito, a legislação brasileira e o próprio debate público vêm sendo alvo de tentativa de desmoralização por parte da extrema direita, que tenta deslegitimar instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF), como se o Judiciário fosse um poder autoritário, que quer controlar o país e se sobrepor aos demais poderes.
A ideia, amplamente veiculada na mídia, de que essas plataformas apenas permitem a comunicação entre pessoas e não têm controle sobre o que se fala ou escreve, não corresponde à realidade. Quem produz um instrumento de comunicação controla esse instrumento, seja diretamente ou por meio de algoritmos. Essas plataformas muitas vezes direcionam os usuários a determinados conteúdos ou opiniões, moldando percepções e comportamentos. Portanto, é necessário conquistar a opinião pública para entender que a chamada liberdade de expressão precisa, hoje, ter limites. Liberdade de expressão é uma coisa. Preconceito, mentira e fake news são outra.
É fundamental construir um debate nacional sobre a regulação dessas grandes empresas de tecnologia e pensar uma legislação brasileira que o faça sem cair na censura. Porque nosso país viveu uma ditadura de 21 anos, e os legisladores se acostumaram a censurar. Mas, no caso das fakes news , regular não seria censura.
Apostar todas as fichas apenas na via judicial, entretanto, me parece temerário. Os movimentos sociais e sindicais precisam assumir esse debate, com suas bases, sobre a necessidade de se estabelecer critérios para a atuação dessas empresas. É fundamental construir coletivamente uma compreensão sólida sobre o que é regulação e o que é censura. E, sobretudo, saber diferenciar uma coisa da outra.
*Big techs, ou gigantes de tecnologia, são as grandes empresas que exercem domínio no mercado de tecnologia e inovação, como Apple, Google, Amazon, Microsoft e Meta.
**Composto por onze países - Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã -, o Brics atua como um fórum de articulação político-diplomática entre nações do Sul Global, promovendo a cooperação em diversas áreas.
Fonte: Andes-SN
Entrevista: professor Wanderlei Pignati fala sobre o crime ambiental no Pantanal e outras questões do Agronegócio em Mato Grosso
No dia 14 de Abril de 2024 foi ao ar uma matéria no programa Fantástico que falou sobre um crime ambiental cometido pelo pecuarista Claudecy Oliveira Lemes. Ele realizou desmate químico em áreas do Pantanal Mato-Grossense, que totalizam 81 mil hectares. Foi o maior dano ambiental já registrado no estado.
Na reportagem, o professor da UFMT, Wanderlei Pignati, foi um dos entrevistados, mas teve sua fala editada de uma forma que prejudicou o conteúdo de suas declarações.
Assim, a Adufmat-Ssind o convidou para falar sobre este fato e seu contexto com mais detalhes. Confira:
Entrevista: saúde docente tem preocupado cientistas; pesquisas são realizadas desde antes da pandemia
Jiddu Krishnamurti foi um filósofo e educador indiano que morreu em 1986. É dele a clássica frase “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”. Uma pequena demonstração de que há muitos anos estudiosos e cientistas identificam que não estamos caminhando como deveríamos.
Nesse sentido, o aumento de ocorrências cotidianas relacionadas à saúde mental e, consequentemente, de pesquisas na área, é sintomático. São as universidades públicas que realizam a maior parte dos estudos, observando grupos fora e dentro das instituições.
Na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), por exemplo, a mestranda do Programa de Pós-graduação em Política Social, Gisele Marques Lopes, se dedicou ao estudo do adoecimento docente dentro da instituição, entre 2011 e 2022. Sua dissertação foi apresentada em 30 de outubro deste ano.
Os resultados preliminares da pesquisa indicaram a sobrecarga de trabalho, algumas extrapolando a função docente, como a realização de atividades técnico-administrativas por ausência de servidores para auxiliarem as coordenações de curso, excesso de trabalho nas chefias de departamentos e demais atividades administrativas, como a participação em comissões, além do volume de trabalho excessivo para dar conta das atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão.
Também foram relatados problemas com relação a estrutura precária da universidade, ambientes insalubres, prédios desabando, limpeza precária de laboratórios, ausência de segurança no campus no período noturno, falta de equipamentos mínimos para ministrar as aulas e relações que configuram assédio.
O próprio Sindicato Nacional da categoria (Andes-SN) está levantando informações, neste momento, por meio da enquete nacional “Condições de Trabalho e Saúde dos(as) Docentes que atuam nas Universidades Públicas, Institutos Federais e Cefets”. Alguns dados preliminares já foram divulgados, inclusive com a contribuição de docentes da UFMT (veja aqui).
Para falar mais sobre doença e saúde mental, a Adufmat-Ssind entrevistou a doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e professora do Departamento de Psicologia da UFMT, Vanessa Furtado.
Entre outras observações, a psicóloga reafirmou o fato de que as condições de saúde e doença são multideterminadas por diversas questões, isto é, que a constituição da unidade psicofísica de cada pessoa é fruto de suas relações sociais e históricas com o meio social.
Confira abaixo íntegra da entrevista.
Adufmat-Ssind.: Há dados estatísticos, pesquisas ou estudos que demonstrem o aumento do desenvolvimento de doenças psíquicas no mundo, no Brasil e/ou nas universidades?
Vanessa Furtado: Não sei se há algum espaço, local ou entidade que faça uma compilação desses dados estatísticos. No campo da pesquisa, o que é possível perceber nas bases de dados como Redalyc, Scielo, Google Acadêmico é que houve um aumento de pesquisas que tem como objeto a saúde mental de docentes do nível superior no período da pandemia e ensino remoto. Porém, no ano de 2016, o ANDES realizou um evento sobre saúde docente em Fortaleza e, já naquele momento, diante dos depoimentos e discussões no evento, era possível notar um processo de adoecimento psíquico entre docentes. Uso esse recorte de tempo só para termos uma noção de que quatro anos antes da entrada no ensino remoto em decorrência da pandemia, já era possível notar adoecimento psíquico na categoria.
Também é possível notar pesquisas em 2009, 2012, 2016, 2018 que trabalham o tema, mas são poucas e espaçadas as análises em comparação com os números produzidos sobre o tema a partir da pandemia.
O que quero dizer é que, embora, numa primeira e superficial análise, tenha havido uma preocupação maior com o agravamento do sofrimento psíquico docente no período de pandemia, essa realidade já estava presente no processo de trabalho da categoria muito antes. Isto quer dizer que pode ser que a pandemia tenha agudizado a situação, mas que os fatores de adoecimento não estão apenas ligados às formas remotas do processo ensino-aprendizagem, mas sim na própria forma de organização do trabalho docente hoje. É preciso entendermos esse processo como historicamente construído e sua relação, por exemplo, com as perdas de direitos trabalhistas nas reformas estatutárias e das leis trabalhistas de forma geral.
Ad: Quais são os principais motivadores das doenças relacionadas ao trabalho no geral e também dentro da universidade, entre docentes, discentes e técnicos?
VF: A gente tem trabalhado com a tese da Determinação Social da Saúde, que em essência entende os processos saúde e doença a partir de fatores multideterminados constituídos social e historicamente da singularidade de cada pessoa, bem como, das particularidades, contextos sociais em que a pessoa está inserida. Neste sentido, não se trata de apenas um fator que se possa apontar como etiologia da patologia, mas sim, de uma série de fatores que estão ligados às formas de produção e reprodução da vida. Então, não se tratam de fatores biológicos e/ou genéticos dados desde o princípio da concepção daquela pessoa que vão determinar se ela vai ou não adoecer, mas sim a relação estabelecida entre a pessoa e o seu meio social. Ainda dentro da ideia da genética, é preciso considerar os fatores que são chamados epigenéticos que, em essência, estão relacionados em como a interação com o meio anula ou favorece a expressão fenotípica de um gene. Isto mostra que o biológico não é determinante, mas sim a relação da pessoa com o meio social que vai incidir, inclusive, em sua constituição biológica ao longo da vida. Para aprendermos o processo de adoecimento psíquico, portanto, preciso entender como a relação entre a pessoa, enquanto unidade psicofísica, e seu meio social se dão. É aí que precisamos entender o lugar do trabalho assalariado no processo de adoecimento, enquanto processo de produção e reprodução da vida.

No modo de sociabilidade capitalista, o trabalho assalariado se configura como principal meio de manutenção da vida, tudo se transforma em mercadoria comprável a partir do dinheiro recebido pelo nosso trabalho. Sem trabalho, boa parte da população mundial não consegue sequer se alimentar, os postos de trabalho estão sob domínio e controle da burguesia e associado à produção do lucro dessa classe às custas da exploração da mão de obra da classe trabalhadora. Quanto mais explorada, no sentido de maior carga de trabalho, menos direitos trabalhistas e menores salários, mais aumenta o lucro da classe dominante. Para sustentação dessa exploração engendra a lógica da opressão, que vai dizer, em última instância, dos processos ideológicos que desvaloriza, ou melhor, atribui um menor preço à mão de obra que se distancia cada vez mais das formas fenomênicas do ethos burguês (branco, homem, cis, heteropatriarcal, etc). Daí incidem as opressões como o racismo, o machismo, a lgbtqia+fobia, dentre outras. Uma ideologia que sustenta, por exemplo, as diferenças salariais entre homens e mulheres; a diferença do valor da mão de obra europeia e brasileira.
Além disso, é preciso analisar a história de vida da pessoa e sua exposição a fatores de adoecimento, como as diversas formas de exploração da mão de obra, trabalhadoras que estão mais expostas ao sol, tendem a desenvolver mais problemas de pele e câncer do que os que não estão; trabalhadoras expostas a produtos químicos tendem a desenvolver doenças respiratórias (ainda que utilizem Equipamentos de Proteção Individual - EPIs, porque os EPIs reduzem os danos); etc.
Estou trazendo todos esses elementos para demonstrar que essas relações refletem nas pessoas diversas formas e modificações de sua constituição enquanto unidade psicofísica e podem se expressar como adoecimentos, não apenas psíquicos, mas casos de pressão alta, diabetes, problemas cardíacos, câncer, entre outros. É a isso que se denomina Determinação Social do Processo Saúde e Doença, (uma categoria da medicina latinoamericana cujos expoentes são Breilh e Laurel), não se trata de apenas um agente etiológico determinando o processo, mas vários outros fatores que incidem na forma de expressão daquele tipo de adoecimento. Por exemplo, a COVID-19 é um vírus que provoca uma série de alterações no organismo que podem levar as pessoas à morte. No entanto, algumas desenvolveram condições graves e morreram ou carregam sequelas até hoje, enquanto outras, mesmo sem vacina, não desenvolveram sintomas tão graves assim e se curaram sem precisar ser hospitalizadas. E há, ainda, uma outra gama de pessoas que desenvolveram condições agravadas dessa doença, mas tiveram mais acesso aos recursos médicos de cuidado, condições de repouso sem preocupação com tarefas domésticas e cumprimento de metas do trabalho assalariado; acesso a hospitais e tecnologias de saúde que a grande maioria das pessoas não tiveram, e isso ajudou o processo de recuperação da doença. Enfim, o vírus agiu em cada pessoa de forma diferente e cada pessoa teve condições objetivas, materiais e psicofísicas diferentes de lidar com seu adoecimento, o que pode ter sido determinante para essa pessoa viver ou morrer. O que fica disso é o fato de que a condição saúde e doença é multideterminada por essas diversas questões que vimos trabalhando aqui, a constituição da unidade psicofísica de cada pessoa é fruto de sua relação social e histórica com o meio social.
Ad. No caso específico das universidades, quais são os cuidados mais relevantes para a prevenção do desenvolvimento dessas doenças?
É difícil falar dos cuidados em apenas um aspecto como nas universidades, mas é preciso atentar-se para fatores que agravam e agudizam os sofrimentos psíquicos e estes passam a se constituir como processo de adoecimento. Vivemos, na universidade, enquanto trabalhadoras, uma série de perdas de direitos. Um exemplo básico: na universidade, enquanto docente, se eu adoecer e não puder dar aulas e apresentar atestado médico de um ou dois dias (ou algum atestado que seja inferior a três meses, que é o que não gera lastro para contratação de substituto) eu preciso, de alguma forma, repor as horas de aulas que não dei durante a licença médica. Então, vemos docentes que, mesmo com "doenças menores", como uma febre, vão dar aulas, porque, se não derem, isso vai incidir em sua carga de trabalho posterior, pois, embora apresentem atestado médico, os dias atestados por afastamento por saúde devem ser repostos, sob pena de prejudicarem também as estudantes, que não fecham carga horária daquela disciplina para poderem se formar. É neste nível de exploração da mão de obra da classe docente que estamos na UFMT. Você tira licença para produzir pesquisas, licença pós-doutorado, por exemplo, que são de interesse da própria universidade, porque seu rankeamento é medido pelo número de produtividade de pesquisa, mas ao retornar deve repor os encargos não dados. Muitas docentes não têm encargos nas pós-graduações contados em suas horas de trabalho, porque não se pode extrapolar um determinado número de horas de trabalho, embora a gente trabalhe mais do que está em nosso contrato de 40h. Em outras formas de trabalho, trabalhar mais do que o contratado gera horas-extras em termos de remuneração, aqui na UFMT nem isso gera. Mas, ainda assim, o que significa a hora-extra? Um trabalho fora da hora contratada que, em última instância, rouba o nosso tempo de lazer, de ficar com a família, amigos, de estabelecer vínculos e relações sociais outras que não se circunscrevem apenas ao ambiente do trabalho. Estes vínculos e atividade fora do trabalho são essenciais para o processo de prevenção e promoção de saúde no âmbito da saúde mental.
Talvez o principal cuidado nas universidades em termos de trabalho docente é que seja nossa luta diária a busca por direitos trabalhistas que nos dê condições de Ensino, Pesquisa e Extensão de forma dignas, que as atividades fora de sala de aula não se constituam atividades extras, que a lógica da produtividade imposta pela CAPES seja questionada e modificada, o financiamento da universidade não pode estar atrelado à sua produtividade como se fôssemos uma indústria privada de fabricação e conhecimento. O processo de pesquisa, muitas vezes demanda tempo, as publicações de artigos, trabalhos científicos demandam tempo de processamento de dados, ideias, etc. O modelo atual não faz avançar a produção científica no Brasil em termos reais, apenas em termos estatísticos, talvez, sob as custas da maior exploração da mão de obra docente, sem a devida remuneração e menos tempo para vivenciar as outras esferas de sua vida para além do trabalho, o que culmina no adoecimento da classe docente. Nós poderíamos afirmar que reflete no adoecimento de toda a comunidade acadêmica, porque os processos de aumento da exploração unidos com o aumento das opressões se expressam em todos os setores da universidade.
Uma última observação se faz necessária, em que pese que, ainda que fôssemos remuneradas pelas horas-extras, estaríamos vendendo a nossa saúde, pois estaríamos abrindo mão de realizar atividades que poderiam nos servir como fatores de prevenção e promoção de saúde. Por outro lado, espero que tudo o que tenho discutido aqui nos possibilite entender também que não se pode atribuir a apenas ao indivíduo as questões que dizem respeito a sua saúde, como entrar no clichê de "hábitos saudáveis". Porque as condições de trabalho incidem diretamente nas condições objetivas e materiais da pessoa conseguir ter ou não ter hábitos que lhe possam trazer mais benefícios à sua saúde - tempo, dinheiro, organização da rotina, etc. Por isso, a responsabilização não pode ser individualizada, mas entendida a partir das determinações sociais e históricas do processo saúde e doença.
Ad. Gostaria de dizer mais alguma coisa?
VF: Por fim, a questão da saúde mental na comunidade acadêmica tem sido uma pauta pouco trabalhada na UFMT, pelo menos nos últimos 10 anos, que pude acompanhar. Digo pouco trabalhada, porque elas se restringem a ações pontuais, em geral, em casos de agravos do processo de adoecimento como surtos psicóticos, tentativas de suicídio etc. Mas, as ações se encerram em casos pontuais.
Além disso, há outros fatores que não são encarados como questões de saúde mental, como o uso abusivo e nocivo de substâncias como álcool e outras drogas lícitas ou ilícitas. Se fizermos um levantamento rápido em um departamento ou faculdade de quantas pessoas ali fazem uso de medicação psiquiátrica, por exemplo, não será surpresa encontrarmos um número superior a 50% do corpo docente, de técnicas e técnicos e estudantes. O uso desses medicamentos, assim como o uso de substâncias como o álcool, é banalizado e naturalizado por grande parte das pessoas e na universidade não é diferente. Todas nós sofremos com o aumento do processo de perdas de direito, aumento da exploração e opressão do nosso trabalho e no nosso ambiente de trabalho, que culminam em formas de assédios morais e institucionais, todas nós nos medicamos seja com medicação farmacológica seja com substâncias outras, mas sofremos, de certa forma, caladas, porque individualizamos o processo de adoecimento e naturalizamos o aumento do processo de exploração e opressão que temos assistido nas universidades federais brasileiras. Quantas docentes, ao invés de questionarem o modelo de produtividade da CAPES, tomam como regra natural e imutável, e acabam por extrapolarem suas horas de trabalho para publicarem um artigo? Pressionam suas orientadas e orientados para que concluam os trabalhos de pesquisa e isso gere publicações? É esta relação que muitas vezes resulta em casos de assédio e são absolutamente banalizadas dentro da estrutura da universidade, não só no Brasil e não apenas na relação docente e estudante, mas também na relação docentes e técnicas e técnicos em educação e entre o próprio corpo docente.
A solução, assim como a causa do adoecimento psíquico, não pode ser individualizada. É preciso um processo de entendimento coletivo dos principais fatores que asseveram o adoecimento psíquico nas universidades, lutar por condições de trabalho dignas, pelo direito do gozo das licenças em seus tempos determinados pelas resoluções de modo a não precisar repor as atividades não dadas, porque isso se configura em maior sobrecarga de trabalho e, na prática, é a perda do direito de se afastar do trabalho, seja por motivos médicos ou para capacitação e qualificação. Isto vai ter impactos em situações de pessoas que preferem fazer procedimentos médicos no período de férias, por exemplo, perdendo mais esse direito de gozar das férias remuneradas como descanso das atividades laborais no tempo previsto por lei de 30 dias - o que foi recentemente alterado na UFMT à revelia da lei.
Por fim, acredito que, sendo os processos de adoecimento e saúde processos coletivos, precisamos nos organizar de forma coletiva para enfrentar as questões que nos têm levado a adoecer no exercício de nossa atividade profissional. Seria fundamental, pois, termos no ANDES algo como um Observatório de Saúde Mental Docente, onde pudéssemos ter a compilação dos dados estatísticos das diversas seções sindicais, sobre os números de afastamentos docentes provocados por CID [Classificação Internacional de Doenças] psiquiátricos, por exemplo. Poderíamos entender historicamente esses dados, notar o aumento dos afastamentos, quais os principais CIDs, quais as principais substâncias utilizadas (psicofarmacológicas ou não), e apontar para o desenvolvimento de políticas de atenção e prevenção à saúde mental. Mas, isso não pode se restringir às formas individualizadas e ambulatoriais de atenção à saúde mental, é preciso um trabalho coletivo e articulado com a luta por direitos. Também não pode se restringir à pesquisa apenas, mas ser incorporado ao processo de luta sindical, demonstrando, enfim, o necessário papel da luta por direitos trabalhistas que, consequentemente, é a luta pela melhoria das nossas condições de vida e que essas melhorias são preventivas e promotoras de saúde de forma geral e não apenas no campo da saúde mental.
Luana Soutos
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind
Edital de seleção de estagiário(a) em contabilidade - selecionados para a entrevista dia 09/11
A Adufmat-Ssind divulga o resultado da primeira fase do processo seletivo para contratação de estagiário contábil.
Foram classificados e devem comparecer para entrevista presencial, na sede da Adufmat-Ssind (dentro do campus da UFMT, em Cuiabá), às 9h desta quinta-feira, 09/11, os seguintes candidatos:
- Débora Juliana Mendes Gonçalves dos Anjos
- Denise Aparecida Lima Pacheco
- Larissa Cristina
- Hamurabi Rique Costa Fortunato
Mais informações por meio dos telefones: (65) 99686-8732 | (65) 99696-9293
Leia aqui o Edital desta seleção.

Com o objetivo de munir a categoria de informações acerca das propostas para a direção da Adufmat-Ssind, biênio 2023-2025, o sindicato disponibiliza entrevista realizada com as chapas candidatas. A eleição será na próxima terça-feira, 18/07.
Confira abaixo as respostas da Chapa 2 - Renova Ação Adufmat:
Com o objetivo de munir a categoria de informações acerca das propostas para a direção da Adufmat-Ssind, biênio 2023-2025, o sindicato disponibiliza entrevista realizada com as chapas candidatas. A eleição será na próxima terça-feira, 18/07.
Confira abaixo as respostas da Chapa 1 - Lutar e Mudar as Coisas nos Interessa Mais:
Adufmat-Ssind: Na leitura da chapa, quais serão os principais desafios que a Adufmat-Ssind terá de enfrentar nos próximos anos?
Chapa 1: Diante de uma economia que se centra nos lucros via exploração do trabalho, todo avanço científico e tecnológico tem redundado no esfacelamento das relações de trabalho. Em vez de nos aliviar a carga de trabalho, tende a intensificá-lo; em vez de reduzir a jornada de trabalho, tem gerado desemprego de um lado e de outro, trabalhadores/as com jornadas cada vez mais extensa; em vez de melhorar as condições materiais de trabalho e vida, tem-nos devastado; enquanto o trabalho com vínculos formais e proteção social se torna exceção.
Este cenário de rebaixamento do mundo do trabalho rebate também na carreira docente que vem sendo precarizada por meio de anos de congelamento salarial num período de altas taxas de inflação; da intensificação da jornada de trabalho através de métodos de computação de horas de trabalho que subnotifica atividades e horas de trabalho (de modo a mascarar a sobrecarga de trabalho); as TICs, sobretudo após a pandemia, eliminaram a fronteira entre tempo de trabalho e tempo livre, de modo que os/as docentes são obrigados/as a responder pelo seu trabalho praticamente em tempo integral; além de, dentro do perfil de profissional polivalente próprio da acumulação flexível, vêm assumindo trabalho (de forma invisível porque não computada como hora de trabalho) de outras funções técnicas que vagarosamente estão sendo extintas do quadro de servidores/as públicos/as federais.
Para os/as aposentados/as os ataques não são menos deletérios: a precarização do SUS mesmo diante de uma pandemia mundial levou muitos/as ao endividamento; o aumento dos preços combinado com a defasagem salarial resultado de 4 anos de congelamento salarial achataram bruscamente seu poder de compra; a ampliação do desemprego, sobretudo na juventude, e a compressão do poder aquisitivo da família trabalhadora levou os/as idosos/as ao endividamento e ao comprometimento de seus rendimentos com empréstimos bancários que, sob as mais altas taxas de juros bancários do mundo, apertam o cinto dos/as aposentados/as. O ambiente aos/às docentes é, portanto, de ataques a seus direitos e sua capacidade de resposta está cada vez mais contida, na medida em que são consumidos/as pelo trabalho e desacreditados/as da luta sindical.
Isso porque este cenário tem reverberado também nos sindicatos que perderam sua capacidade de aglutinação e embate; quanto a esta segunda questão, o alinhamento de burocracias sindicais a projetos de poder em detrimento a projetos de sociedade, levam-nas a conter revoltas ao preferirem as mesas de negociação em vez do enfrentamento direto que possa efetivamente resolver as questões; sobretudo de setores próximos ao governo que preferem o autoritarismo da barganha que o processo de luta e conquistas democráticas.
Diante deste cenário, cabe ao sindicato recobrar como centralidade da sua dinâmica a luta pelos interesses concretos e imediatos dos/as docentes num processo de aglutinação para a construção de respostas contundentes, para, além das palavras, construir alternativas que tragam respostas e esperanças aos/às trabalhadores/as; lutas que demandarão alianças estratégicas com outros setores populares a quem também interesse uma educação pública, gratuita e de qualidade. Acolher as insatisfações e canalizar lutas coletivas encontrando, entre tantas questões distintas de uma classe fragmentada, os interesses que nos unem, este é o difícil papel do sindicato atual
Adufmat-Ssind: Quais são as propostas da chapa para enfrentar esses desafios?
Chapa 1: A crescente precarização da carreira docente que sofre com achatamento de salários e rebaixamento das condições de trabalho é fruto do mundo do trabalho estruturalmente degradado pela contrarreforma da previdência e trabalhista que atacaram os mecanismos de proteção ao trabalho e viabiliza a imposição universal de um trabalho degradante e adoecedor, tendo o assédio moral como mecanismo de gestão do trabalho.
A sobrecarga das mulheres docentes em sua jornada ininterrupta de trabalho, entre trabalho docente e funções da vida privada, trazem adoecimento e sensação de incapacidade às docentes até porque os critérios meritocráticos da universidade atual tendem ao seu desprestígio; a secundarização da intelectualidade negra tendendo a sobrecarga de encargos e a secundarização dos saberes e do protagonismo dos docentes negros numa universidade eurocêntrica são expressões de uma Universidade inserida numa sociabilidade que se ergue a partir da discriminação racial.
Além de tudo isso, denunciamos o ataque que os critérios meritocráticos significam ao direito de progressão funcional, direito do/a trabalhador/a. Em toda a sociabilidade capitalista, quanto mais complexa e arrojada a mercadoria, maior seu preço. Na carreira docente da UFMT, porém, não basta a formação e os anos de atuação profissional; são cobrados critérios produtivistas que prejudicam docentes que saem de licença saúde; mães em licença maternidade; dentre outros.
Diante desses ataques, a nossa proposta é a de criarmos espaço de debate, formulação e articulação dos/as docentes. Nossa intenção é a de nos aproximarmos das questões concretas da categoria docente, abrindo espaços de acolhida individual e/ou coletiva de denúncia de processos de exploração, assédio e discriminação para encaminhamentos individuais e coletivos destas questões. Nossa classe está sob intenso e contínuo ataque e o sindicato precisa ser a caixa de ressonância das questões docentes e da construção de respostas coletivas.
Destacamos que uma das tarefas desta gestão será o debate da Resolução 158 que rege a distribuição de encargos docentes. O momento histórico tende a fazer desta revisão um mecanismo de intensificação da precarização do trabalho, de modo a intensificar nossas jornadas de trabalho na medida em que computarão ainda menos horas em relação às atividades que cumprimos; além de manter invisível um conjunto de trabalhos, sobretudo administrativos, que vêm sendo impostos invisivelmente aos/às docentes na medida em que excluem os cargos técnicos. Construir nossa proposta substitutiva da Resolução 158 a partir de fóruns da categoria, de modo a computar com justeza as horas trabalhadas com a inclusão de trabalhos hoje invisíveis, de modo a garantir nosso direito de cumprimento de 40 horas de trabalho semanal é nosso desafio prioritário.
Além da justiça em relação ao cumprimento da carga-horária, lutaremos pela remuneração mais justa. No Brasil, o/a professor/a universitário tem um salário 48,4% inferior em relação aos países da OCDE. Na última década, conforme o Andes, acumulamos uma defasagem salarial de 49,28%. Diante deste cenário, cumpre lutarmos pela reposição salarial imediata; além do pagamento imediato dos 28,86% conquistados via judicial, mas que a justiça burguesa tem protelado a execução; bem como dos 3,17% a quem tem direito. Fortalecer a educação passa pela valorização dos/as seus/suas trabalhadores/as.
Adufmat-Ssind: Como a chapa entende a conjuntura brasileira atual e, dentro dela, a situação das universidades? Por que e para que os professores devem ser organizar em um sindicato?
Chapa 1: Vamos responder essas duas perguntas juntas, pois o diagnóstico da situação das universidades determina a razão da categoria docente lutar.
A conjuntura nacional reflete a internacional. Passamos por um período de crise generalizada, inclusive uma crise política oriunda da incapacidade do capital dar respostas às genuínas necessidades humanas e ambientais.
Desta crise, de um lado vemos a classe trabalhadora na defensiva lutando para não perder direitos; de outro, vemos a ultradireita mobilizada entorno de retirar direitos de toda ordem, inclusive as liberdades democráticas.
Estamos diante de um respiro democrático no Brasil, fruto da vitória eleitoral sobre o fascismo nas eleições presidenciais de uma ampla coalizão de forças políticas que incluem setores patronais e da direita moderada.
Um executivo que governa com um legislativo (Congresso Nacional) bastante retrógrado, sendo hegemonizado pelo "Centrão" que coloca na mesa os interesses mais atrasados e mesquinhos das nossas elites por meio de um jogo político marcado por chantagens e corrupção (vide orçamento secreto).
Neste cenário, apenas a própria classe trabalhadora em luta é capaz de colocar em tela os seus interesses e defender a democracia por meio do seu exercício. Entendemos que apenas através de sua luta há condições de criar um cenário de governabilidade à esquerda capaz de conter o avanço fascista e garantir os direitos da classe trabalhadora.
No que depender do “Centrão”, não haverá revogação das contrarreformas da previdência e trabalhista, nem valorização salarial; o PT já aprovou o arcabouço fiscal que coloca o orçamento do país em função dos juros bancários; o Banco central se nega a reduzir as taxas de juros do Brasil que, escandalosamente, são as maiores do mundo. Tais posturas denotam que sem luta não haverá valorização dos salários e do serviço público e a educação jamais será uma efetiva prioridade orçamentária.
Desta forma, seguirá sendo tendência a precarização da educação, dos salários e das condições do trabalho docente e a mesma precarização recairá sobre a ciência. Sem educação robusta e produção científica autônoma não se constrói um país soberano!
Ressaltamos ainda que o fascismo se alimenta do ódio e da irracionalidade e, por isso, o anticientificismo lhe presta serviço. Por isso, a superação do fascismo envolve uma agenda econômica que priorize as necessidades da classe trabalhadora; uma agenda política que amplie e fortaleça as instâncias democráticas aos/às trabalhadores/as; como também a democratização do acesso à educação e ciência comprometidos com a construção de uma sociedade justa e igualitária.
Enfrentar a precarização da carreira docente e galgar ganhos em termos salariais e de condição de trabalho por meio da mobilização da luta pela educação será o grande desafio do nosso sindicato; uma agenda essencial para a construção do país justo, igualitário e soberano que sonhamos. Docentes sapientes do tempo histórico presente sabem que são tempos de luta e reconstrução da educação e do país.
Adufmat-Ssind: Levando em consideração que a Adufmat-Ssind é uma Seção Sindical do Andes-SN, qual a importância da organização da categoria em âmbito nacional?
Chapa 1: Qualquer avanço da educação e das condições de vida da classe trabalhadora precisará ser arrancado pela luta entorno de um projeto de sociedade que coloque os interesses da classe trabalhadora na cena política.
São muitas as perdas que acumulamos, muitas as insatisfações, porém, estamos quase mudos/as sem dar resposta e isso não tem a ver apenas com a dureza da última quadra histórica, mas também da postura inerte dos instrumentos de luta de nossa classe.
Isso porque muitos partidos, sindicatos e movimentos sociais contam com lideranças da esquerda institucionalizada que trazem a expectativa de resolução dos conflitos para espaços burocráticos inócuos em vez da mobilização autônoma da nossa classe construindo seus meios de lutar e vencer.
Diante deste cenário de necessidade de destravamento da luta autônoma da nossa classe, a robustez e a capilaridade do Andes no cenário nacional e internacional são fundamentais.
Adufmat-Ssind: Quais as propostas da chapa para aproximar o conjunto dos professores das atividades da Adufmat-Ssind?
Chapa 1: Temos em mente a necessidade de construir três espaços de aproximação com a categoria docente.
A primeira se refere à retomada da centralidade do debate e da luta pela carreira docente que estará em voga em virtude do debate da Resolução 158. Nossa intenção é sair da negativa (não queremos rever a 158) para a ofensiva: construir uma proposta de resolução a partir de debates da nossa categoria que seja capaz de computar todos os encargos docentes, inclusive os hoje invisíveis, tais como bancas, participação em conselhos editoriais, confecção de relatórios e demais trabalhos burocráticos; e que preserve o docente nas funções previstas a sua carreira, devolvendo aos/às técnicos/as as suas competências; como também uma computação de horas que considere as particularidades das docentes mães e cuidadoras e de pessoas que necessitem de adaptações ao trabalho.
Uma segunda via de aproximação se dará por meio da criação de espaços de acolhida, escuta qualificada e encaminhamentos a situações de assédio de toda ordem (assédio moral, sexual, institucional, etc.). As situações individuais de misoginia, racismo, lgbtfobia e demais discriminações precisam de trato no plano individual, como de inserção nas lutas coletivas por direitos da nossa categoria. Ninguém será deixado para trás! Todo direito violado precisa ser pauta do sindicato!
A terceira via de aproximação está na construção de espaços de relação dos/as sindicalizados/as para além dos estritamente políticos. Como forma de aproximação da base, de promoção da saúde mental e de propagar a cultura de resistência, pretendemos criar espaços artísticos, esportivos, de lazer e convivência entre os/as docentes e destes/as com o sindicato.
Neste sentido, pretendemos criar espaços de vivência que aproximem o sindicato sobretudo das professoras e professores aposentados. Vivemos numa sociedade em que temos valor apenas na condição de força de trabalho; numa sociedade da obsolescência que torna tudo substituível. Isso ocorre até mesmo na carreira docente em que o arcabouço de conhecimento tende a se ampliar com o tempo. Por isso, espaços de valorização dos/as aposentados/as, suas vivências e saberes precisam fazer parte de um sindicato que contribua com a construção de uma sociedade igualitária.
Resgatar a história do nosso sindicato e dos/as sindicalizados/as; o orgulho de ser docente e a paixão pela construção coletiva de uma educação libertadora guiará nossos passos de reconexão da ADUFMAT junto a categoria docente.
Adufmat-Ssind: Quais as propostas da chapa para a área Sociocultural do sindicato?
Chapa 1: Uma das questões centrais do tempo histórico é a superação do fascismo da cultura brasileira, sobretudo em Mato Grosso que sedia o ninho fascista e golpista do país, como demonstraram os atos antidemocráticos de janeiro.
Para a tarefa de superação do fascismo, tão fundamental quanto o desenvolvimento científico é o fomento da vida cultural para a sensibilização dos sentidos humanos. Ambas têm o papel de refletir a realidade: a ciência pela via racional e a arte por conexões afetivas. Por isso, a arte muitas vezes consegue dar insights e cortar caminhos na sensibilização humana quanto as necessidades humanas coletivas.
Assim, temos em mente a promoção de uma política sociocultural sindical que trate a arte como necessidade básica e cotidiana; fomentando artistas populares e de resistência dentro e fora da universidade.
Faz parte das nossas intenções promover festivais culturais de música, poesia e artes plásticas; pretendemos levar festivais culturais e momentos de arte, cultura e lazer para todos os campi. E, para além de eventos esporádicos, pretendemos trazer a arte para o cotidiano da universidade, fomentando de forma ininterrupta exposições, festividades, oficinas e toda forma de promoção e propagação cultural. Lutar e mudar as coisas será embalado pela pulsão científica e artística.
Adufmat-Ssind: Quais as propostas da chapa para a Comunicação do sindicato?
Chapa 1: Os meios de comunicação têm sofrido muitas transformações e inovações e a comunicação sindical não pode ficar para trás.
Temos um setor de comunicação privilegiado se comparado a outros sindicatos, contando com uma profissional de jornalismo, um de rádio e TV e um de marketing e propaganda. Precisamos realizar a imensa capacidade destes profissionais, de modo a qualificar o que já existe e multiplicar as formas de diálogo com os/as sindicalizados/as e com a comunidade externa.
Além de manter o jornal impresso, precisamos aprimorar o uso das nossas redes sociais com conteúdos curtos e rápidos sobre as notícias cotidianas do sindicato; criar canais de diálogo rápido entre sindicalizados/as e ADUFMAT via WhatsApp; retomar o programa de rádio comunitária "Pulso Cerrado”.
Como tarefa de resgate da história dos/as docentes e da própria ADUFMAT, consideramos importante investirmos na produção de documentários e temos em mente resgatar a história de embate da ADUFMAT contra a ditadura militar de 1964 para não deixar qualquer dúvida sobre seu caráter deletério para o país e a educação brasileira e evidenciar a bravura dos/as nossos/as lutadores/as, já aposentados/as e muitos/as deles/as relegados/as ao esquecimento. Para essas atividades, o fomento do Grupo de Trabalho sobre Educação, Comunicação e Arte (GTECA) é fundamental.
Entendemos, porém, que o principal meio de aproximação as informações dos/as sindicalizados/as está em aproximar as ações do sindicato ao cotidiano docente e o/a docente da construção do cotidiano do sindicato.
Por fim, para além da comunicação da própria Adufmat, é possível e necessário fazer parcerias entre sindicatos para criarmos meios de comunicação alternativos com abrangência estadual. Os conflitos no campo, as pautas docente e de demais trabalhadores/as são negligenciadas pela imprensa local; nela, nem pagando conseguimos publicar conteúdos críticos aos governos. Por isso, o fomento a meios de comunicação alternativos bancados por sindicatos associados é um passo fundamental para democratizar o acesso à informação aos/às sindicalizados/as e a população em geral.
Adufmat-Ssind: Quais as propostas da chapa para a área de Assuntos de Aposentadoria e Seguridade Social?
Chapa 1: Pretendemos valorizar os/as sindicalizados/as aposentados/as para além da sua condição de força de trabalho, valorizando-os em sua dimensão humana. Isso engloba a melhoria de suas condições materiais de vida e a construção de espaços de socialização e valorização de saberes.
Quanto a primeira dimensão, a valorização da vida material passa por recompor o poder de compra dos/as aposentados/as pela luta da valorização salarial através da reposição das perdas salariais e do recebimento imediato dos 28,86% e dos valores retroativos; passa pela luta pela redução das taxas de juros, de modo a reduzir o comprometimento dos salários com o endividamento bancário; pela recomposição das políticas públicas para restringir os gastos com tratamentos médicos, escolares, etc.
A construção de espaços de socialização e valorização dos saberes dos/as aposentados/as será viabilizada pelas políticas de comunicação e política sociocultural que pretendemos desenvolver em debate com a categoria docente.

Desde o início da pandemia, o ANDES-SN vem defendendo a vida acima dos lucros e o retorno seguro às atividades escolares presenciais, o que, na avaliação do Sindicato Nacional só é possível com a vacinação de todas e todos. Para ampliar o debate sobre o Plano Nacional de Vacinação e sobre a omissão do governo federal em atuar no combate à pandemia e necessidade de defesa da vacinação pública e gratuita para toda a população, conversamos com o professor Gilberto Calil. "É absolutamente imprescindível que esta vacinação seja inteiramente organizada a partir do Sistema Único de Saúde (SUS) e das prioridades estabelecidas no Plano Nacional de Vacinação, e gratuita", afirma o docente.
Gilberto Calil é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), integrando o Grupo de Pesquisa História e Poder. Integra a atual diretoria do ANDES-SN como 2º Tesoureiro da Regional Sul do ANDES-SN e é Presidente da Adunioeste Seção Sindical (Sindicato de Docentes da Unioeste). Desde abril de 2020, Calil apresenta o quadro "Números da Pandemia", no canal de youtube do Esquerda Online. Confira a entrevista.
Até o momento, não temos um Plano Nacional de Vacinação estabelecido e doses suficientes de vacinas para atender, pelo menos, a parcela mais vulnerável da população. Como você avalia a disponibilidade de vacinas no país, a postura dos governos Federal, estaduais e Distrital na compra de vacinas e os critérios de vacinação?
Do ponto de vista mais geral, esses 27 grupos que estão estabelecidos incluem todos aqueles que se considerariam como sendo os grupos prioritários: os profissionais de saúde, a população idosa, num primeiro momento aquela em condição institucionalizada - em asilos e espaços como esses -, e os mais idosos, num escalonamento, inicialmente, acima de 80 anos, depois por faixa etária de 5 em 5 anos e uma série de outras categorias, que estão dentro de um ordenamento no plano, que não é claro se ele estabelece de forma rigorosa que essa sequência seja definida. Um aspecto que chama a atenção e que é bastante questionável é que a população privada de liberdade, que tem alto índice de contaminação, assim como a população em situação de rua, não está entre as primeiras prioridades, estão lá em 14º e 15º grupo, o que demoraria bastante tempo para serem atingidas. Do ponto de vista da comparação internacional, aqui tem algo complicado, que parece atender à uma perspectiva ideológica do governo de deixar essas populações mais para trás.
No entanto, de forma geral, o conjunto mais importante está contemplado, mas contemplado em abstrato. No concreto, o que temos é um volume muito baixo de vacinas. Hoje [no dia 02 de fevereiro], temos registradas 2,3 milhões de pessoas vacinadas no Brasil, o que significa basicamente 1% da população, ou poderia se dizer, menos de 1/30 do que está previsto como sendo a população prioritária.
Do ponto de vista das negociações que o governo fez em relação à compra de vacinas, das vacinas fundamentais, que seriam necessárias para isso, não há nenhuma previsão. O número que se tem nesse primeiro momento é muito inferior, e o governo vem recusando a estabelecer negociações, reiteradamente. Talvez, o mais digno de registro foi o fato de ter ficado vários meses recusando o consórcio internacional do Covax, que permitiria, só a partir dali, vacina para 50% da população brasileira, o que já é mais do que o conjunto desses grupos prioritários. O Brasil aderiu muito tardiamente ao convênio e com uma carga de doses muito inferior a essa, porque aderiu com a cota mínima. E o exemplo mais recente disso foi que a gente teve a liberação da vacina da Johnson e Johnson, que é uma vacina extremamente promissora e que tem a vantagem de ser dose única, e o governo também não estabeleceu negociação e não demonstrou interesse e permanece nessa postura de postergar a resolução da situação, ao contrário de todos outros governos do mundo que disputam as doses.
Diante do cenário que vivenciamos, com aumento no número de casos, com mais de mil mortes diárias e fim do Auxílio Emergencial, quais parcelas da população você avalia que deveriam estar nas prioridades de vacinação?
Uma das questões em pauta é o retorno presencial às atividades escolares. Você acredita que esse é o momento para retomar as atividades presenciais nas escolas?
Nos números oficiais, até o dia 04 de janeiro - isso está no boletim epidemiológico 44 - nós tínhamos já 1.203 crianças e adolescentes que foram a óbito, vítimas comprovadamente da Covid-19. E outras 1.970 crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, que foram a óbito vítimas de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) Não especificada, ou seja, que faleceram por problemas respiratórios com um quadro análogo ao da Covid-19, mas que não tem a comprovação final de que foi Covid-19. E outros 63 óbitos que estavam ainda em investigação. Isso soma, entre Covid-19 e SRAG, 3.242 crianças e adolescentes que faleceram até o dia 4 de janeiro de 2021. É um número absolutamente significativo, relevante, ainda que proporcionalmente indique que o risco é menor, mas o montante de óbitos dessa categoria, dessas faixas etárias, não é, em absoluto, desprezível. E, ainda, se deveria considerar que as pesquisas recentes têm indicado um índice de transmissibilidade muito elevado nas crianças. Uma pesquisa recentemente publicada na revista Lancet indica que as crianças têm 60% mais transmissibilidade do que os adultos, o que significa que, mesmo aquelas que não venham a desenvolver sintomas, levam o vírus para suas casas, transmitem, propagam o vírus.
Então, o conjunto desses fatores nos indica que é absolutamente despropositado pensar em qualquer modalidade de retorno às aulas presenciais neste momento. Quando nós tivermos todos os grupos prioritários vacinados e, nesse caso, com o montante que temos hoje seria 36% da população, provavelmente ainda não existam as condições, mas aí os dados epidemiológicos vão dizer qual é o patamar de circulação e qual seria o impacto e, ao menos, nós teremos os grupos mais vulneráveis já protegidos. O mais provável é que se demande algo próximo de 70% da população vacinada, para que haja essa possibilidade [de retorno às aulas presenciais]. O que é certo é que neste momento é um completo absurdo.
Como seria possível pensar o retorno presencial às escolas e universidades? Com quais condições?
Há o debate sobre incluir professores e professoras nas prioridades de vacinação. Como você avalia essa questão? Você acha que adianta vacinar só professores e professoras e não os demais trabalhadores escolares e também os estudantes?
Qual a argumentação do ANDES-SN para a defesa da consigna "Vacina para todos e todas já"?
E é absolutamente imprescindível que esta vacinação seja inteiramente organizada a partir do Sistema Único de Saúde (SUS) e das prioridades estabelecidas no Plano Nacional de Vacinação, e gratuita. No momento em que tivermos um sistema paralelo de vacinação paga, a probabilidade de que setores minoritários, setores economicamente dominantes sintam-se protegidos e, portanto, defendam políticas ainda mais radicalmente negacionistas é muito grande. É claro que isso seria uma incorreção porque a imunização que a vacina produz ela se dá no coletivo. Por isso, deve ser fundamental a consigna “Vacina para todos e todas, já”, mas sempre lembrar (a defesa) da Vacina pública, gratuita e distribuída pelo SUS, dentro das prioridades estabelecidas no Plano Nacional de Vacinação.

Osvaldo Coggiola, 2º vice-presidente da Regional São Paulo do ANDES-SN, é docente do departamento de história contemporânea da Universidade de São Paulo (USP). Estuda temas como marxismo, América Latina, movimento operário, capitalismo e socialismo. Nessa entrevista, ele analisa a crise do Capital que, apesar de estar em curso antes do advento da pandemia causada pelo novo coronavírus, se aproveita da situação provocada pela Covid-19 para aprofundar os ataques à classe trabalhadora. Sobre saídas da atual conjuntura, ele cita a greve internacional dos trabalhadores de aplicativos como exemplo de excepcional vontade de luta, que marca o caminho e demonstra que mesmo em condições desfavoráveis é possível avançar.
1 – A economia mundial revive uma nova crise do Capital de dimensões históricas, deflagrada pela pandemia da Covid-19, e a sua recuperação é dada como incerta. Quais os efeitos práticos dessa crise?
A pandemia entrou em erupção em condições de uma crise excepcional do sistema capitalista mundial, fortemente repercutida no Brasil. As guerras econômicas são a prova disso. Os 280 trilhões de dólares de dívidas mundiais (mais de três vezes o PIB mundial) são a prova da falência do sistema; não podem ser cancelados por décadas nem pelos lucros: 20% do capital mundial está em default. O capital e seu Estado não têm condições de retornar à situação pré-pandêmica, e busca tirar proveito da pandemia para impor uma saída que destrua as defesas dos trabalhadores. A política impulsionada pelos brutamontes imperialistas, como se sabe, acabou quase custando a vida de seu impulsionador, o britânico Boris - o próprio - Johnson, e teve de ceder lugar à medidas de distanciamento social que, adotadas tardiamente, custaram a vida de dezenas de milhares de pessoas, no que Donald Trump achou um pretexto para denunciar uma conspiração viral contra os EUA orquestrada pela China. Não há dados para justificar a passagem para o que se chama de "novo normal". Considerada mundialmente, a liberdade comercial não encontra fundamento no desenvolvimento da pandemia. Os países que alcançaram um freio na curva de contágio são poucos. Mesmo neles, China e Coreia do Sul em primeiro lugar, não está descartado um novo surto de infecções. O negacionismo viral de Trump e a sua recorrente má vontade em relação à ciência, além de suas constantes bravatas, vêm lhe custando caro e têm repercutido de modo negativo junto a uma parcela significativa da população norte-americana, com fortes chances de comprometer suas pretensões de se reeleger presidente, sem falar nas enormes mobilizações antirracistas provocadas pelo assassinato de George Floyd. Diante desse fato, Trump recorre, fomentado pelo incansável Steve Bannon, a teorias de conspiração, dizendo que a China é a grande responsável pelo “Chernobyl biológico” e que deve ser denunciada por crime premeditado. Ao invés de juntar esforços globais para enfrentar a pandemia, o governo Trump se engajou em uma guerra ideológica sem qualquer base científica.
2 - A capacidade de rápido contágio do novo coronavírus, somada às condições já precárias de vida e de saúde de grande parte dos trabalhadores, tem gerado um enorme e crescente número de mortos no mundo. Quais ações seriam necessárias para evitar os efeitos da pandemia?
A única saída realista para evitar o desastre passou a ser impor a centralização de todos os recursos do país, com base em um plano social e econômico sob a mobilização e liderança dos trabalhadores. A "reativação da economia", que os governos proclamam como seu objetivo quando rejeitam impor quarentenas, é uma mentira; o que está para vir, como os economistas não cansam de repetir, é uma recessão enorme. O grande capital pretende converter a retirada da força de trabalho em suspensões ou demissões em massa, redução de salários, maior flexibilidade do trabalho e abolição de acordos trabalhistas. O capital quer usar a pandemia para desencadear uma guerra de classes. O capitalismo está em um impasse e numa guerra intestina, com ataques a aviões nos aeroportos, que sequestram instrumentos de saúde destinados a Estados rivais. Esse impasse se manifesta nas crescentes crises políticas: Trump e Bolsonaro contra seus governadores; Piñera (Chile) contra seus prefeitos; os Fernández, na Argentina, pressionam a indústria, os bancos e o capital internacional para desmantelar a quarentena e cancelar os contratos de trabalho. A Confederação Internacional dos Sindicatos estima em 2,5 bilhões de pessoas – mais de 60 % da força de trabalho do mundo – o número de trabalhadores informais, sujeitos a condições degradantes e precarização. Contra isso, existe uma multiplicação de lutas em defesa do distanciamento social, do emprego, dos salários, das aposentadorias, que deveriam se unificar nacional, regional e internacionalmente. A greve internacional dos trabalhadores de aplicativos é um exemplo de excepcional vontade de luta, que marca o caminho e demonstra que mesmo em condições desfavoráveis é possível avançar.
3 – O presidente brasileiro vem perdendo o apoio do presidente estadunidense Donald Trump. A última medida do governo norte-americano foi a de fechar fronteiras contra turistas e viajantes do Brasil, além de condenar a política de Bolsonaro sobre a pandemia. Quais fatores influenciaram esse distanciamento?
O roteiro do governo brasileiro correspondeu à política do imperialismo sobre o coronavírus. Donald Trump tomou alguma distância quando viu o atoleiro político em que Bolsonaro estava metido. A rejeição da quarentena para permitir a disseminação em massa do vírus foi anunciada inicialmente pelo primeiro ministro britânico Boris Johnson, como o método de melhor custo-benefício (para o capital). A fantasia de que o contágio em massa provocaria imunidade natural foi imediatamente rejeitada por todos os especialistas em saúde. Os EUA seguiram uma linha similar; sua implementação abandonou qualquer protocolo e foi imposta mediante as mentiras de Donald Trump. O resultado foi um cenário assustador, com Nova York e os EUA tomados pelo contágio. A OMS alertou que a luta contra a epidemia exigia não apenas restrição total, mas também testagem massiva para detectar o avanço do vírus. O governo brasileiro não fez uma coisa nem outra. A ocultação da situação, promovida pelo ministro da Saúde, foi funcional à política ditada por Bolsonaro. O ministro anunciou que a política de prevenção do contágio nas favelas e periferias urbanas passava... por um acordo com milicianos e traficantes. E, também, com o grande capital. O primeiro pacote econômico "anticoronavírus" autorizou as empresas a reduzir os salários e prometeu um auxílio mensal insignificante, durante três meses, para 40 milhões de trabalhadores lançados na informalidade, benefícios fiscais para as grandes empresas e compra de títulos públicos pelo Banco Central, em resposta à seca no mercado financeiro. O embate com o Legislativo acabou elevando o montante da ajuda para R$ 600, para evitar uma catástrofe social que poderia virar terremoto político. Para completar, sob o comando de Trump, Bolsonaro lançou uma provocação contra a China, que abriu uma fissura em sua base política de apoio. A pressão da burguesia do agronegócio (a China é o maior parceiro comercial do Brasil, responsável por 30% das exportações) colocou o governo em uma situação de fraqueza, no meio de uma crise política ao som dos panelaços e do aumento diário do número de casos de contágio e de mortes. A classe capitalista brasileira ficou dividida, com seu sistema político fraturado. A principal empresa de consultoria mundial para avaliação de “risco político” detectou a possibilidade de uma “crise institucional” no Brasil, acelerando uma fuga de capitais, mensurável cotidianamente.
4 – Protestos contra o racismo ganharam as ruas de diversos lugares do mundo com o assassinato de George Floyd, morto pela polícia dos EUA. No Brasil, o caso Floyd, junto com o assassinato do menino João Pedro, alvejado 70 vezes em uma ação policial no Rio de Janeiro, impulsionou diversos atos no país. Como você avalia esse levante com dimensão internacional?
É um levante internacional, com repercussões políticas internacionais. Um confronto histórico de classes começa em um momento de mudança na política interna dos Estados Unidos e do mundo. A questão da luta contra o racismo entra em um campo político definido: a luta contra o fascismo, contra o poder político que busca mobilizar todo o aparato estatal em uma guerra civil e até recrutar os setores intermediários prejudicados pela falência capitalista. No Brasil,o importante é que o levante antirracista questiona que a principal base internacional de Bolsonaro, Donald Trump (e outros membros da “Internacional Antiliberal”) continue a apoiá-lo (o que não está claro), ou que o próprio Trump seja destronado como consequência da rebelião popular que percorre os EUA (Black Lives Matter) em ano eleitoral. A luta contra o racismo pode suscitar uma rebelião popular no Brasil, que já não é surda (vide panelaços à repetição e mobilizações de rua contra os grupos fascistas e em defesa dos trabalhadores da saúde) e que pode fazer de sua grande desvantagem atual (a pandemia e o isolamento social) uma vantagem, ao somar para suas fileiras não só os participantes e organizações habituais nas mobilizações, mas toda a população, inclusive a desorganizada, que se vê obrigada a lutar pelo seu elementar direito à vida.
Fonte: ANDES-SN
É possível Educar à Distância? Acompanhe o debate na live da Adufmat-Ssind nessa terça-feira, 19/05, às 19h30
Ignorando todas as dificuldades da comunicação digital no Brasil gerada pela desigualdade social e a gravidade da pandemia, o Governo Federal quer exigir que as universidades retornem às aulas pelo sistema de Ensino à Distância (EaD). O debate deve voltar à pauta dos conselhos da UFMT nos próximos dias e, por isso, a Adufmat-Ssind lança a pergunta: “É possível educar à distância?”. Os convidados a refletirem sobre o tema na Live dessa terça-feira, 19/05/20, às 19h30, são os professores Patrícia Acs (da Rede Estadual de Ensino) e Maelison Neves (da UFMT).
A Live será transmitida ao vivo pela página oficial do sindicato no Facebook: https://www.facebook.com/ADUFMAT-SSIND-211669182221828/.
Participe!
Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind












