Segunda, 03 Novembro 2025 16:51

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Juacy da Silva*

 

A temível mudança climática, representada pela atual crise climática, com elevação da temperatura média do planeta, tem como fato gerador a emissão constante e cada vez em maior quantidade de gases de efeito estufa que se acumulam na atmosfera.

Neste sentido, é fundamental destacar que, em torno de 75% das emissões desses gases de efeito estufa são produzidas pela produção e uso de combustíveis fósseis (petróleo e derivados, carvão e gás natural) e, de acordo com relatório da ONU, em 2019, os países do G20 são responsáveis por mais de 80% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). Sempre é bom lembrar que o Brasil faz parte do G20 e também é um dos países que contribuem significativamente para a crise climática que estamos vivenciando, e não mera vítima das ações de outros países que degradam o planeta.

Diante disso, só existem duas saídas, que devem ser buscadas ao mesmo tempo. A primeira é a redução significativa dessas emissões de gases de efeito estufa (GEE), através de mudanças radicais nos sistemas de produção e de consumo (de hábitos de consumo e estilos de vida individuais e coletivos). Isto significa mudar, radicalmente, as matrizes energética e elétrica mundial e os fundamentos da economia e, segunda, o sequestro de parte desses gases que, ao longo de quase dois séculos, desde o início do período da industrialização, foram sendo acumulados na atmosfera.

O sequestro dos GEE é feito pelos oceanos e grandes corpos d’água, pelas florestas (que já foram ou continuam sendo impiedosamente destruídas) e pelas geleiras. Os oceanos estão se transformando em uma grande lixeira planetária, emitindo mais GEE do que sequestram; as geleiras estão derretendo em decorrência do aquecimento global, e as florestas também já foram ou continuam sendo destruídas, via desmatamento e queimadas, em todos os países.

“Estudo realizado pelo Instituto Totum e pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), da Universidade de São Paulo, em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, estima que cada árvore da Mata Atlântica absorve 163,14 kg de gás carbônico (CO₂) equivalente ao longo de seus primeiros 20 anos. O carbono estocado por árvore resulta em aproximadamente 130 kg CO₂-eq para as árvores na Mata Atlântica e 222 kg CO₂-eq para as árvores da Floresta Amazônica.”

A quase totalidade dos cientistas concorda que uma das formas mais eficazes para absorver parte do CO₂ já acumulado na atmosfera seria plantando mais árvores, reflorestando, pois estas utilizam CO₂ para crescer e liberam oxigênio; tal ação traz benefícios para todo o meio ambiente.

Árvores e outras plantas, inclusive aquáticas, produzem oxigênio, o gás essencial para a sobrevivência das pessoas e de outros animais. Quando as árvores são cortadas, como acontece com frequência nas áreas urbanas ou no meio rural, para serem transformadas em pastagens, produção de alimentos, ou simplesmente se transformarem em áreas degradadas, menos oxigênio é liberado na atmosfera. Quando uma área é desmatada, muitos animais e plantas simplesmente morrem, ao passo que outros perdem seu habitat e precisam migrar para outros ecossistemas, como acontece com inúmeras espécies de aves que fogem das queimadas do Pantanal em direção às áreas urbanas da região.

A neutralização de carbono por plantio de árvores, urbanas ou reflorestamento rural, acontece através do sequestro de carbono da atmosfera. O carbono é retirado do meio ambiente e fixado no solo, na biomassa da planta. As florestas sequestram o elemento apenas na fase de crescimento das árvores, pois, ao atingirem o seu clímax, o balanço da compensação de CO₂ é zero.

De acordo com matéria publicada pela WRI Brasil, em 2021, “um novo estudo publicado na revista científica Nature Climate Change e disponível no Global Forest Watch concluiu que as florestas do mundo sequestraram cerca de duas vezes mais dióxido de carbono do que emitiram entre 2001 e 2019. Em outras palavras, as florestas fornecem um ‘sumidouro de carbono’ com uma absorção líquida de 7,6 bilhões de toneladas de CO₂ por ano, 1,5 vez mais carbono do que os Estados Unidos, segundo maior emissor histórico do mundo, emitem anualmente.”

Diante de tantas evidências científicas, não tem sentido que governantes (prefeitos e vereadores) e gestores municipais, da mesma forma que governantes estaduais e federais, ignorem a importância das florestas naturais ou plantadas e, também, da arborização urbana, tanto para mitigar os efeitos da crise climática quanto como uma das formas mais eficientes de sequestrar gases de efeito estufa acumulados e que continuam sendo acumulados na atmosfera, produzindo aquecimento global, quanto para melhorar a qualidade de vida nas cidades e em seu entorno.

Quando falamos em arborização urbana, estamos nos referindo tanto ao plantio de árvores nos espaços públicos urbanos, como ruas, avenidas, praças e parques, quanto também aos espaços privados ou mesmo públicos, como quintais das casas e também espaços ao redor das edificações públicas, como escolas, unidades de saúde ou edificações administrativas.

Outro componente importante quando se fala em arborização urbana são as florestas urbanas e periurbanas, com áreas bem maiores do que os parques, com milhares de hectares, propiciando espaços e ecossistemas para a vida silvestre, os corredores ecológicos e a proteção das nascentes, demais cursos d’água, a biodiversidade local e regional, bem como espaços para caminhadas ao ar livre, que fazem muito bem à saúde física, mental e emocional; enfim, melhoram a qualidade de vida das pessoas.

Como estamos em plenas atividades para a realização da COP30, em Belém, no Estado do Pará, que ocorrerá no período de 10 a 21 deste mês de novembro de 2025, considerado o maior evento climático que é realizado todos os anos desde 1995, é importante que possamos refletir sobre alguns aspectos de nossa realidade socioambiental local, aqui e agora, dentro da concepção “pensar globalmente e agir localmente”.

Também aqui em Mato Grosso, nos dias 10 a 12 deste mês, será realizada a COP do Pantanal, por iniciativa e coordenação da UNEMAT e do IFMT, com o objetivo de analisar e refletir sobre os principais desafios socioambientais que a maior planície alagável do mundo, Patrimônio Nacional e Mundial, vem enfrentando, pois está sendo destruída ano após ano, correndo o risco de morte, de desaparecer, se nada for realizado para impedir a degradação e destruição de sua rica biodiversidade.

Os grandes acordos, tratados internacionais ou nacionais precisam estar concretizados em ações locais; sem isso, todos esses esforços e compromissos não passam de meros discursos, palavras e documentos que nada produzem de concreto.

Inúmeras pesquisas e estudos produzidos tanto no Brasil quanto por diversas instituições internacionais e centros de estudos renomados ao redor do mundo vêm demonstrando que o aquecimento global, o volume de gases de efeito estufa, enfim, a crise climática e a temperatura média do globo terrestre têm aumentado significativamente nas últimas décadas, em ritmo muito mais acelerado do que em décadas e séculos anteriores.

Todavia, este aumento não é igual em todos os biomas, ecossistemas e países. Em algumas regiões, esses estudos indicam que, dentro de poucos anos, no máximo em torno do ano de 2040, a temperatura média anual poderá ser em torno de 45º, 50º graus centígrados ou até mesmo mais, impossibilitando todas as formas de vida, inclusive a vida humana.

O mundo tem assistido ao aumento da desertificação e períodos de secas mais prolongados, década após década, à destruição da biodiversidade e à degradação das bacias hidrográficas e dos aquíferos subterrâneos, indicando os riscos que corremos em termos de sobrevivência da vida na Terra.
Entre essas regiões, cinco ou seis se destacam: o Norte da África e Oriente Médio; parte da Índia; parte da Austrália; parte dos EUA e do México, e também o Centro-Oeste brasileiro e parte do Nordeste, incluindo a região conhecida como MATOPIBA.

Cabe um destaque: Cuiabá, que, pelo menos em mais da metade dos dias do ano, atualmente já é ou tem sido considerada a capital mais quente do Brasil, também estará experimentando mais dias com temperaturas acima de 40º, 45º ou até mesmo 50º graus (na sombra), e com mais dias com baixíssima umidade, ou seja, o período sem chuvas, com altas temperaturas e com baixa umidade, tornará a vida, principalmente de crianças e pessoas idosas e também de animais, extremamente difícil.

É neste contexto que a questão ambiental, ou melhor, socioambiental, se insere como uma dimensão importante e necessária quando as políticas públicas nacionais, estaduais e municipais são definidas e os planos, programas e ações de governo são estabelecidos.

Uma dessas dimensões que, tanto em Cuiabá, Várzea Grande e na grande maioria das cidades brasileiras, principalmente as de porte médio e grandes, incluindo aglomerados urbanos e regiões metropolitanas, é a questão da ARBORIZAÇÃO URBANA, lamentavelmente desconsiderada em Cuiabá e em Várzea Grande.

Para refletir sobre esta importante questão, dentro de poucos dias, na próxima sexta-feira, 07 de novembro de 2025, às 16h, estarei participando de um podcast com o jornalista Luisão, no programa Boa Tarde MT, ocasião em que iremos refletir sobre a importância da arborização urbana e por que, apesar de constar do Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico de Cuiabá desde 2007, até hoje a Prefeitura de Cuiabá não encaminhou o Plano Diretor de Arborização Urbana – PDAU para a Câmara Municipal de nossa capital.

Todos nós sabemos que, a cada dia, Cuiabá, Várzea Grande e toda a região Centro-Oeste têm experimentado um aumento acentuado da temperatura média, com ondas de calor, tanto na área central, totalmente degradada, quanto nos bairros periféricos, que prejudicam a saúde e o bem-estar das pessoas.

A arborização urbana, da mesma forma que reduzir os desmatamentos e as queimadas, tanto urbanas quanto rurais, aliadas ao combate à poluição urbana e à degradação generalizada do meio ambiente, são condições necessárias para mitigar os efeitos e impactos que a crise climática e todas as formas de descaso com o meio ambiente provocam na vida e na saúde das pessoas.

Inúmeros estudos têm demonstrado que ruas, avenidas, praças, parques e florestas urbanas têm um efeito positivo na temperatura média das cidades e favorecem as condições de vida, principalmente para pedestres, crianças e pessoas idosas.

Não tem sentido que Cuiabá, juntamente com Várzea Grande, o maior aglomerado urbano de Mato Grosso, já com pouco mais de um milhão de habitantes, continue destruindo o meio ambiente e, em lugar de cobertura vegetal, assista a uma volúpia pela impermeabilização do solo com asfalto e cimento em todos os lugares, tanto dos espaços públicos quanto privados, afetando o equilíbrio ecológico.

Torna-se, pois, urgente que a população em geral e também todas as lideranças pressionem a Prefeitura de Cuiabá para que conclua os estudos e o plano de arborização da capital, elaborado por uma consultoria contratada pela gestão anterior, elabore o Projeto de Lei Complementar – o PDAU – e que o mesmo seja encaminhado à Câmara Municipal com a maior urgência possível, para ser analisado e aprovado, cabendo à Prefeitura a sua coordenação e execução, inclusive abrindo espaços para parcerias com pessoas e entidades que desejam participar deste processo de arborização urbana.

Sem a aprovação do PDAU, todos os esforços voluntários de inúmeras entidades e pessoas que desejam ver Cuiabá voltar a ser, novamente, a nossa CIDADE VERDE perdem o sentido, pois é função do PDAU estabelecer as normas técnicas para que a arborização urbana seja feita corretamente.
Somente com o PDAU aprovado é que a Prefeitura poderá incluí-lo nas “peças” orçamentárias como o PPA – Plano Plurianual do Município, com objetivos e metas de curto, médio e longo prazos; na LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias e na LOA – Lei Orçamentária Anual.

Desde que foi aprovado o Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico, ainda na administração de Wilson Santos, em 2007, diversos prefeitos, incluindo Chico Galindo, Mauro Mendes, Emanuel Pinheiro e, atualmente, Abílio Brunini, e dezenas de vereadores já foram eleitos e/ou reeleitos, mas nada foi feito para que o PDAU se tornasse o instrumento fundamental para normatizar e orientar a arborização urbana de nossa capital.

Oxalá o atual prefeito, os atuais vereadores e as atuais vereadoras de Cuiabá despertem para este desafio, da mesma forma que tantos outros desafios socioambientais que existem em nossa capital, e aprovem o PDAU e outras medidas para que Cuiabá volte a ser não apenas novamente a CIDADE VERDE que queremos e merecemos, mas também uma cidade sustentável, limpa, sem lixo pelas ruas, sem esgotos escorrendo a céu aberto, sem poluição do ar, poluição sonora e sem poluição visual.

Só assim teremos uma capital que seja sustentável de verdade e tenha uma política ambiental coerente com uma melhor qualidade de vida, onde as pessoas tenham orgulho de viver!

Considerando o preceito constitucional de que “todo o poder emana do povo”, é fundamental que a população, que paga impostos para sustentar toda a máquina pública, não se omita, que exerça sua cidadania; afinal, cabe ao povo dizer aos políticos e gestores públicos o que desejamos e esperamos que os mesmos realizem, e não o contrário, deixando a essas “mentes iluminadas” as decisões que afetam a vida de cada cidadão e cidadã.


Por isso é que precisamos pressionar nossas autoridades municipais, nossos governantes que foram eleitos com os nossos votos, pois cabe a eles atenderem, não aos seus interesses pessoais ou de grupos, mas aos interesses, necessidades, objetivos e aspirações da população cuiabana, da mesma forma que a população varzeagrandense e também de milhares e milhares de outras cidades de nosso país, em todas as dimensões da vida urbana, principalmente na questão da arborização urbana.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy  

Quinta, 02 Outubro 2025 11:25

 

 

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JUACY DA SILVA*

 

Durante a chamada Revolução Industrial, entre 1760 e 1840, o crescimento populacional no mundo, principalmente o crescimento urbano, experimentou uma verdadeira explosão, passando de 790 milhões para um bilhão de pessoas, ou seja, em 80 anos o aumento demográfico foi de 210 milhões de habitantes, com taxas de crescimento jamais vistas nos séculos anteriores, e isto ensejou muitos debates e preocupações em relação ao futuro.


Este crescimento acelerado, principalmente nas cidades europeias, foi o estopim para que governantes, empresários, estudiosos e até mesmo líderes religiosos se preocupassem diante da possibilidade de haver falta de alimentos e uma grande fome pelo mundo.


Foi neste contexto que o clérigo anglicano Thomas Malthus, que também tinha formação em economia, ciências sociais e estatística, nascido em 13 de fevereiro de 1766, publicou, em 1798, uma obra que causou o maior impacto e até hoje ainda tem discípulos espalhados pelo mundo, que advogam um controle do crescimento populacional como única forma de evitar que a fome se transforme em uma verdadeira epidemia. Malthus viveu apenas 68 anos e faleceu em 23 de dezembro de 1834.


Em sua obra Ensaio sobre o princípio da população, Malthus dizia que o mundo todo iria enfrentar um grave problema, pois a população crescia em proporção geométrica enquanto a produção de alimentos crescia apenas em proporção aritmética, e isto acarretaria, sem dúvida, grandes fomes que iriam dizimar boa parte da população mundial, principalmente entre os pobres, e o resultado seria um novo equilíbrio no crescimento demográfico, compatível com os níveis de produção de alimentos no mundo.


Todavia, Malthus mal podia imaginar que a população mundial chegaria ou iria superar 8,2 bilhões em 2025 e também que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia iria revolucionar tanto a produção de alimentos quanto o controle da natalidade, deslegitimando seus sombrios prognósticos na equação entre crescimento populacional x produção de alimentos x pobreza x fome.


Sem dúvida, existem ainda mais de 760 milhões de famintos no mundo atualmente, quase o total da população mundial na época de Malthus, porém isto não é devido à falta de alimentos, mas sim a fatores econômicos, concentração de renda, baixos salários, trabalho escravo ou quase escravo, guerras, conflitos armados internos, fatores climáticos, perdas e desperdícios, como há poucos dias este assunto foi exaustivamente discutido por ocasião do Dia Internacional de Combate às Perdas e Desperdício de Alimentos no mundo.


Para entendermos esta equação é importante que tenhamos consciência de que, para suprir alimentos para uma população que cresceu tanto, passando de um bilhão em 1840 para mais de 8,2 bilhões atualmente, com estimativas de que, por volta de 2100, o mundo chegará a 10,3 bilhões de habitantes, primeiro os sistemas agropecuários se expandiram fisicamente, passaram a ocupar novas áreas, as chamadas novas fronteiras agrícolas, ao longo de pelo menos 150 anos, mas com muita volúpia nas últimas cinco décadas, provocando desmatamento e queimadas em extensas áreas, principalmente nas florestas tropicais da América Latina (Amazônia), da Ásia e da África (floresta do Congo) e também em savanas ou áreas assemelhadas, como o cerrado brasileiro.


Até hoje, esta expansão continua praticamente sem controle, provocando grandes impactos sobre a natureza, destruindo solos, florestas, poluindo o ar e as águas e gerando os famosos Gases de Efeito Estufa (GEE), que são os responsáveis pela crise climática que também ameaça todas as formas de vida no planeta, inclusive a vida humana.


Diferente do que imaginava Malthus, que milhões de pessoas poderiam morrer por falta de comida, o que vemos, conforme os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é que se estima que cerca de 7 milhões de pessoas morrem anualmente devido apenas à poluição do ar, além de muito mais (milhões) por outras doenças relacionadas com a degradação socioambiental, das águas, falta de saneamento, falta de esgotamento sanitário, destinação incorreta do lixo, por exemplo.


Neste afã de produzir alimentos e também algumas commodities, um dos impactos neste avanço dos sistemas produtivos, inclusive que utilizam insumos modernos, como corretivos de solo, fertilizantes, fungicidas, herbicidas, enfim, agrotóxicos, tem sido a degradação dos solos, que no mundo já está em torno de 15 milhões de km², território maior do que nosso país, ou seja, mais de 1,5 bilhão de hectares, dos quais mais de 140 milhões de hectares estão no Brasil.


Mesmo que não existam dados atualizados sobre a relação entre o tamanho da propriedade rural e a degradação dos solos, tendo em vista a alta concentração fundiária da posse e uso da terra em nosso país, demonstrada pelo índice de Gini, estima-se que pelo menos 75% a 80% das áreas com solos degradados no Brasil estão concentradas nas grandes propriedades rurais, acima de mil hectares, demonstrando que a agricultura familiar tem práticas conservacionistas bem maiores e melhores. Por exemplo, dos 159 milhões de hectares com pastagens no Brasil, 78% estão degradados.
Aí é que entra a questão do papel e importância da agroecologia e também da agricultura regenerativa, como saídas mais racionais e ambientalmente corretas para que alimentos sejam produzidos com qualidade e não afetem a saúde e a vida humana, nem destruam os ecossistemas e biomas, diante do ainda um tanto acelerado crescimento populacional mundial, como pensam alguns estudiosos desses assuntos.


O desenvolvimento da ciência e da tecnologia, principalmente nos últimos 50 anos, tem propiciado um aumento espantoso da produtividade, tanto das culturas quanto dos animais, reduzindo bastante a pressão sobre a expansão das fronteiras agrícolas, da destruição das florestas e da biodiversidade em geral.


Muita gente confunde a agroecologia com as práticas enfatizadas pela agricultura regenerativa. Nesta, a ênfase representa “um sistema agrícola que busca recuperar a saúde do solo e restaurar os ecossistemas, em vez de apenas reduzir o impacto ambiental. Ela se baseia em práticas como o não revolvimento do solo, a rotação de culturas e a integração de lavoura, pecuária e floresta (ILPF) para aumentar a biodiversidade, a resiliência e a fertilidade do solo. O objetivo final é um sistema mais produtivo e sustentável que também contribua para o combate às mudanças climáticas”. Tais práticas têm sido utilizadas tanto por médias quanto por grandes propriedades, mas ainda não são consideradas práticas amplamente adotadas pelos grandes proprietários.


Enquanto isso, a agroecologia “é um campo multidisciplinar que busca desenvolver uma agricultura sustentável, integrando conhecimentos científicos, saberes tradicionais e práticas sociais para harmonizar a produção de alimentos com a proteção ambiental, a justiça social e a eficiência econômica. Ela promove a autonomia dos produtores, principalmente da agricultura familiar, através do uso de técnicas como a adubação orgânica, a ausência de organismos geneticamente modificados, de agrotóxicos, resultando em alimentos orgânicos, mais saudáveis e resistentes às mudanças climáticas, ao mesmo tempo que valoriza a biodiversidade e o bem-estar das comunidades”.


Recentemente, a FAO, agência da ONU responsável pelas questões da agricultura e da alimentação, em uma publicação intitulada Os dez elementos da agroecologia: um guia para a transição para sistemas agrícolas sustentáveis e de produção de alimentos, enfatizou que a agroecologia não é algo recente, como muitos podem imaginar, mas vem sendo desenvolvida, conforme relatos e estudos publicados desde a década de 1920, ou seja, há pouco mais de 100 anos, e no Brasil este sistema está em franca expansão, principalmente na agricultura familiar e na agricultura urbana e periurbana.


Os dez elementos que representam os fundamentos para o desenvolvimento e fortalecimento da agroecologia, conforme o documento da FAO, são os seguintes: 1) diversidade e diversificação de culturas, oposto às monoculturas, espinha dorsal do agronegócio; 2) compartilhamento social do conhecimento e práticas inovadoras naturais; 3) sinergia como base do sistema produtivo; 4) sistema produtivo de alta eficiência e racionalidade; 5) uso da reciclagem e da economia circular, para melhor aproveitamento dos fatores de produção e dos custos sociais e ambientais; 6) maior resiliência das pessoas envolvidas, das comunidades e dos ecossistemas; 7) respeito aos valores humanos e sociais, do conhecimento popular tradicional e ancestral, da equidade e da vida; 8) respeito aos hábitos e culturas envolvidas; 9) governança responsável e sistemas alimentares sustentáveis; 10) integração da economia circular com a economia solidária e a inclusão social, econômica e política da agricultura familiar. Enfim, empoderamento dos envolvidos com tais práticas.


Conforme nota do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, “neste 3 de outubro, celebramos o Dia Nacional da Agroecologia, data em homenagem à engenheira agrônoma e escritora Ana Maria Primavesi. A data destaca a relevância da agroecologia tanto para a saúde da sociedade quanto para a saúde do planeta. A agroecologia é um modelo de produção que vai além da agricultura tradicional, promove práticas sustentáveis, sem o uso de agrotóxicos e com foco na harmonia entre a produção e a natureza”.


Como reconhecimento público da caminhada, das lutas e conquistas da agroecologia, o Congresso Nacional aprovou a Lei 13.565, criando o DIA NACIONAL DA AGROECOLOGIA, sancionada pelo Presidente Michel Temer em 21 de dezembro de 2017, que estabelece o seguinte: “Art. 1º Fica instituído o Dia Nacional da Agroecologia, a ser comemorado, anualmente, no dia 3 de outubro. Art. 2º O poder público federal, em parceria com os poderes públicos estaduais, municipais e entidades da sociedade civil, realizará, na data a que se refere o art. 1º desta Lei, campanhas de esclarecimento da população sobre a agroecologia e a produção orgânica. Art. 3º Fica instituído o Prêmio Nacional de Agroecologia ‘ANA PRIMAVESI’, a ser concedido pelo poder público federal às organizações e pessoas da sociedade civil, parlamentares e autoridades públicas que se destacarem no desenvolvimento da agroecologia e da produção orgânica e no seu apoio”.


O Dia Nacional da Agroecologia celebra um modelo de produção agrícola sustentável, que utiliza os recursos naturais de forma inteligente e sem químicos, agrotóxicos ou transgênicos, estimulando a produção orgânica, promovendo a saúde, preservando a biodiversidade e o fortalecimento da economia rural através da economia solidária.


Como mecanismo para o fortalecimento da agricultura familiar em geral e da agroecologia em particular, o Governo Federal anunciou em julho último estar destinando R$ 89 bilhões, destacando a ampliação do crédito rural, juros negativos para a produção de alimentos e mecanização e linhas novas para irrigação sustentável, quintais produtivos para mulheres rurais e transição agroecológica.


Em agosto último (2025), conforme amplamente noticiado pela imprensa, foi realizada a 22ª Jornada de Agroecologia no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná, tendo recebido mais de 30 mil visitantes, o que demonstra a importância e o papel da agroecologia na soberania alimentar e no combate à crise climática.


Lema da agroecologia: produzir em harmonia com a natureza, com respeito à saúde humana, com fraternidade e fortalecer a economia solidária.
Vida longa para a agroecologia, no Brasil e no mundo todo.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulista da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy 

Quarta, 01 Outubro 2025 11:01

 

 
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JUACY DA SILVA*

 

“Não aprisionem nossos rios, deixem que suas águas límpidas e cheias de vida deslizem suave e livremente e sigam seus destinos.” Provérbio de diversos povos ancestrais, ditos e repetidos por muitas gerações ao longo de milênios.

Quanta sabedoria e conhecimento da dinâmica da natureza estão contidos nessas palavras milenares, mas que há séculos, principalmente nas últimas décadas, têm sido desprezadas pelos amantes do “progresso” a qualquer preço e pelos defensores dos paradigmas tecnocráticos, como bem nos alertou o Papa Francisco ao publicar a Encíclica Laudato Si, demonstrando a importância da Ecologia Integral e sua máxima de que “tudo está interligado, nesta Casa Comum”, o nosso planeta Terra.

As águas e os rios (e também os córregos, seus afluentes) para os povos ancestrais, primitivos e também para diversos grupos religiosos na atualidade têm um sentido sagrado. Vemos, por exemplo, que João Batista batizou Jesus nas águas do Rio Jordão, na Galileia, hoje em território conflagrado da Síria, Líbano, Jordânia, Israel e Palestina, que no momento têm sido submetidos a um verdadeiro genocídio.

De forma semelhante, o Rio Ganges, na Índia, ainda hoje é considerado um rio sagrado pelos hindus, que o utilizam para suas práticas religiosas com muita frequência e também em ocasiões especiais.

Todos os povos indígenas das Américas, principalmente da América Latina, com destaque para aqueles da Pan-Amazônia, consideram os rios e todas as fontes de água como algo sagrado que, além de proporcionar alimentos (diversas variedades de peixes), também fazem parte de seus rituais sagrados.

Diversos outros grupos religiosos em todos os países e continentes têm pelos rios e pelas águas um respeito sagrado, razão pela qual defendem tenazmente os mesmos. Em 2004, por exemplo, a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica, sob a coordenação da CNBB, teve como lema “Água, fonte de vida”, cujo objetivo era conscientizar a sociedade sobre a água como um direito humano e um bem comum, além de destacar a importância da água, alertando sobre a crise hídrica e promovendo a gestão sustentável dos recursos hídricos.

À medida que o chamado “progresso” a qualquer preço foi se desenvolvendo no mundo inteiro, a começar pelo “velho mundo”, a Europa, e ao longo dos últimos dois ou três séculos em outros continentes e países, a falta de cuidado com o meio ambiente em geral e com os rios e outras fontes de água em particular, inclusive grandes lagos, mares e oceanos, bem como os solos e o ar, passou a ser o destino de todas as formas de degradação. Principalmente com poluentes químicos, agrotóxicos, lixo e esgotos in natura (sem qualquer tratamento), contribuindo para a deterioração da qualidade das águas dos rios, afetando principalmente a saúde humana e de outros animais.

Ao longo das últimas cinco décadas, todas as bacias hidrográficas brasileiras têm experimentado diversas crises, afetando tanto os sistemas produtivos, como a produção agropecuária, a geração de energia e também, o que é mais grave, o abastecimento humano. Inclusive nas grandes regiões metropolitanas, com destaque para a chamada “Grande São Paulo”, onde vivem mais de 21 milhões de pessoas, que se viram privadas de água há alguns anos e ainda sofrem com este fantasma nos dias atuais.

Apesar dos alertas e reflexões da Campanha da Fraternidade em 2004, a pior crise, por exemplo, na Área Metropolitana de São Paulo, aconteceu em 2014, conforme notícia estampada nos diversos meios de comunicação: a situação beirou os limites do desespero das pessoas.

Conforme matéria da Agência Brasil em 24 de dezembro de 2014, em artigo intitulado “São Paulo sofreu a sua pior crise de sua história em 2014”, de autoria da jornalista Fernanda Cruz: “O Alto Tietê contava com 46,3% da capacidade em 1º de janeiro de 2014 e, com a ajuda que prestou ao Cantareira, aliado à estiagem, estava com 4,4% da capacidade no dia 10 de dezembro”.

No Brasil, o Rio Tietê e outros como o Tamanduateí e o Pinheiros, que formam sua bacia na área da Grande São Paulo, bem como em diversos trechos de seu percurso de 1.150 km até desaguar no Rio Paraná, ainda hoje e a cada ano com mais frequência encontram-se totalmente poluídos. Foi transformado no maior esgoto a céu aberto da América Latina, o que não deixa de ser uma contradição com a opulência econômica de que tanto se jacta aquele estado, considerado a “locomotiva econômica” do Brasil.

Os rios que formam todas as bacias hidrográficas brasileiras, incluindo a Bacia Amazônica, a do Paraná/Paraguai, a do São Francisco, a do Parnaíba, a do Araguaia/Tocantins, estão todos correndo risco, em processo acelerado de degradação e morte.

Diversos fatores têm contribuído e continuam contribuindo para este processo, dentre os quais podemos destacar a crise climática, que tem afetado sobremaneira o regime de chuvas, ora provocando secas prolongadas, ora provocando inundações imensas, ambas exercendo pressão sobre os sistemas produtivos e também sobre a população. Fruto dessas mudanças, nos últimos anos temos presenciado, por exemplo, secas imensas que têm afetado rios caudalosos, com vários km de largura e profundos calados, como os rios Madeira, Solimões, Negro, Paraguai, São Francisco e também o Paraná. Esses rios vêm sendo afetados pela seca, o que impede a navegação e provoca sérios transtornos para a população em geral e para diversos setores econômicos em particular.

Outro fator que também tem afetado a natureza dos rios em todos os biomas brasileiros, mas principalmente nos biomas do Cerrado, da Amazônia e do Pantanal, tem sido o desmatamento desenfreado, as queimadas e também o uso de agrotóxicos, além da destruição das nascentes.

A expansão das fronteiras agrícolas e o uso intensivo do solo têm provocado muita erosão, cujos solos são carreados para todos os cursos d’água que, ao lado das atividades de mineração, dos garimpos ilegais — ainda muito frequentes e impunes em diversas partes dos estados —, bem como a dragagem dos rios para a retirada de areia para a construção civil e a pesca predatória, têm contribuído para a morte de nossos rios.

A degradação e morte dos rios também afetam diretamente o volume de águas subterrâneas, os chamados “aquíferos”, que paulatinamente perdem sua importância para o futuro das águas no planeta.

Para muitos setores, os rios e suas águas são considerados “insumos” ou mercadoria a ser explorada como fonte de renda e lucro, como nos casos do abastecimento urbano e da produção de energia elétrica, onde tanto as grandes barragens quanto as Pequenas Centrais Hidrelétricas simplesmente provocam danos ambientais imensos, afetando inclusive a vida de populações ribeirinhas e povos tradicionais.

Além desses impactos na vida dessas populações, a utilização dos rios para produção de energia também acarreta prejuízos para a fauna ictiológica. As barragens afetam negativamente a fauna ictiológica ao fragmentar os habitats, interromper rotas de reprodução e migração de peixes e alterar as condições da água.

Essas construções causam a diminuição de espécies nativas e a proliferação de espécies exóticas, o que leva à perda de biodiversidade e pode afetar o sustento das comunidades, como tem sido constatado em todas as bacias hidrográficas onde têm sido construídas barragens para a produção de energia elétrica.

Que o digam milhares de famílias que participam da luta do MAB — Movimento dos Atingidos por Barragens —, cujo drama é bem conhecido por inúmeras matérias há décadas nos meios de comunicação.

Em matéria publicada no site Mongabay, de 8 de julho de 2016, intitulada “Mais de 400 barragens poderão causar danos irreparáveis na ecologia da Amazônia”, podemos ler o seguinte: “Atualmente existem 412 barragens hidrelétricas principais a funcionar, em construção ou planejadas para a bacia do Amazonas ou nas suas nascentes, informou, em abril, o periódico londrino The Guardian. Esses planos acabarão por trazer o ‘fim dos rios livres’, contribuindo, provavelmente, para o ‘colapso do ecossistema’.”

Das 412 barragens, 256 encontram-se no Brasil, 77 no Peru, 55 no Equador, 14 na Bolívia, seis na Venezuela, duas na Guiana e uma na Colômbia, na Guiana Francesa e no Suriname, refere o antropólogo Paul Little, autor de um recente estudo intitulado Mega-Development Projects in Amazonia. Little afirma que 151 das barragens envolvem cinco dos seis principais afluentes andinos que desaguam no canal principal do Amazonas.

Em Mato Grosso, a construção ou planos de construção de PCHs — pequenas centrais hidrelétricas — em diversos rios que alimentam o Pantanal, no total mais de 130, significa que a vazão desses rios onde serão ou se pretende construir tais barragens afetará não apenas o curso livre desses rios, mas também contribuirá para a redução do estoque de água no Pantanal.

Isso pode levar o Pantanal a secar e até mesmo desaparecer a longo prazo, transformando-o em uma região totalmente imprópria para qualquer atividade econômica, afetando dezenas de milhares de habitantes.

As mudanças climáticas, a degradação e morte dos diversos cursos d’água têm provocado, por exemplo, o desaparecimento dos chamados “rios voadores”, que levam umidade e chuvas para as regiões Sul e Sudeste, afetando o clima dessas regiões.

Finalmente, outro fator não menos importante que está provocando a degradação e a morte de nossos rios tem sido a poluição urbana e industrial, principalmente muito lixo, esgoto in natura e também rejeitos químicos danosos para a saúde humana.

A degradação e morte dos rios no mundo inteiro e também no Brasil são desafios que não podem estar de fora de nossas reflexões e precisam fazer parte da pauta das discussões políticas. Principalmente na definição de políticas públicas, pois esses desafios afetam negativamente não apenas a vida de ribeirinhos, povos tradicionais, agricultores familiares, mas também setores produtivos, como o agronegócio, a mineração, o transporte e a logística, inclusive o comércio interno e internacional.

Na Amazônia Legal, os rios representam a maior malha “viária”, substituem as estradas que não existem, transportam pessoas, mercadorias e também são fontes de alimentação para dezenas ou centenas de milhares, enfim, milhões de pessoas que vivem naquela região. Razões mais do que suficientes para que esta questão seja incluída nos assuntos que tramitam no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras de Vereadores por este Brasil afora, em lugar de projetos de leis que dizem respeito apenas a alguns grupos privilegiados ou aos donos do poder.

Gostaria de compartilhar uma frase do Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si, sobre as águas. Afinal, quando falamos dos rios estamos falando de água e de sua importância para a vida humana em todas as dimensões: “A água não é mercadoria e não pode ser objeto de desperdício ou abuso ou motivo de guerra, mas deve ser preservada para nosso benefício e para as gerações futuras”.

Esta deve ser a nossa reflexão e ação neste DIA MUNDIAL DOS RIOS e ao longo do ano todo e de todos os anos: defender os nossos rios é defender a ecologia integral e defender todas as formas de vida, especialmente a vida humana. Sem rios não existe água e sem água não há vida!

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular, aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy 

Segunda, 29 Setembro 2025 10:44

 

 

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Juacy da Silva*

“A comida que jogamos no lixo é tirada, injustamente, das mãos de quem não tem e dos que têm direito ao pão de cada dia, em virtude da sua inviolável dignidade humana”. Papa Francisco, mensagem lida na Assembleia da FAO (Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), por Dom Fernando Chica Arellano, Observador Permanente da Santa Sé junto às organizações da FAO, FIDA e PMA, por ocasião do “Dia Internacional da Consciencialização sobre Perdas e Desperdício Alimentar”, 30 de setembro de 2023.

O Calendário Ecológico neste final de setembro nos convida a refletirmos sobre dois assuntos, temas super importantes tanto para a Ecologia Integral quanto para a vida de milhões, de bilhões de pessoas que são pobres, passam fome, são subalimentadas, desnutridas e também experimentam os rigores das mudanças climáticas e a degradação da natureza, a poluição do ar, dos solos e das águas, em todos os países, inclusive em nosso amado Brasil.

Refiro-me ao DIA INTERNACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE A PERDA E DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS, ou o que poderíamos denominar de DESPERDÍCIO ZERO, e também ao DIA MUNDIAL DOS RIOS, ambos a serem celebrados nesta segunda-feira, 29 de setembro de 2025.

Quando falamos sobre perdas e desperdício de alimentos, o objetivo principal deste despertar da consciência coletiva é sensibilizar as pessoas para que esta realidade possa ser mudada radicalmente, pois tanto as perdas de alimentos, que estão presentes desde a colheita, o transporte, a logística, o armazenamento e, pior ainda, em nossas casas, nos restaurantes, enfim, em todos os locais onde os alimentos estejam presentes, quanto a insensibilidade em relação a quem tem fome é algo que não deveria existir em nossas sociedades e países.

O tema deste Dia Internacional de Conscientização sobre os impactos que as perdas e o desperdício de alimentos, em 2025, provocam é: “Vamos parar com as perdas e o desperdício alimentar, pelas pessoas e pelo planeta.”

O Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos foi proclamado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 19 de dezembro de 2019, através da Resolução n.º 74/209, com o objetivo de aumentar a conscientização sobre o desperdício alimentar, promover a segurança alimentar e a sustentabilidade dos sistemas alimentares. A data escolhida para a celebração foi 29 de setembro, tendo a primeira celebração oficial ocorrido no ano de 2020.

É importante recordar que a ONU, em 2015, quando definiu os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, estabeleceu nos ODS 1 (Erradicação da Pobreza), ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis e Sustentáveis), sendo que a meta 12.3 é reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita, tanto por parte dos consumidores quanto dos que participam do processo produtivo e de toda a cadeia produtiva de alimentos, como parte da Agenda 2030.

Além disso, ao combater as perdas e o desperdício de alimentos, de forma direta ou indireta, estaremos sensibilizando a população em geral em todos os países e, ao mesmo tempo, promovendo a segurança alimentar e garantindo a sustentabilidade ecológica, tendo em vista que, para produzir alimentos, os sistemas produtivos precisam ocupar áreas, solos, água, energia, mão de obra e outros insumos utilizados na cadeia produtiva até chegar ao consumidor final.

As perdas acabam se transformando em resíduos sólidos, ou seja, lixo, e também provocam danos ambientais, pois nem sempre essas perdas, este lixo, têm a destinação correta e acabam gerando degradação em diversas localidades, afetando inclusive a saúde humana.

A FAO, uma agência especializada da ONU para assuntos de agricultura e alimentação, estima que aproximadamente um terço de todos os alimentos produzidos no mundo não chegam às mesas de quem precisa e vão parar no lixo.

De acordo com outra agência da ONU, o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente –, em seu relatório de 2024, tendo como base os dados de 2022, naquele ano, e também em anos anteriores, nada menos do que 1,05 bilhão de toneladas métricas de alimentos foram parar no lixo. Isto seria o suficiente para mais de um bilhão de refeições diárias e poderia alimentar mais de um bilhão de pessoas o ano inteiro.

O valor estimado dessas perdas e desperdício no mundo, em 2024, foi de US$ 3,5 trilhões de dólares, ou seja, em torno de R$ 19,5 trilhões de reais (este valor, se fosse o PIB de um país, seria a 6ª maior economia do planeta). O mais grave é que 60% dessas perdas e desperdício ocorrem nas residências e os 40% restantes nos demais elos da cadeia produtiva e distribuidora.

Enquanto isso, ainda de acordo com dados recentes da ONU, divulgados pela imprensa mundial em 28 de julho último, em 2024 estimava-se que 8,2% da população mundial, em torno de 673 milhões de pessoas – a maioria crianças, adolescentes, idosos e idosas – passavam e continuam passando fome, o que é uma enorme contradição em relação a quem não consegue se alimentar com dignidade humana.

No Brasil, país que tanto se orgulha de sua grande, enorme produção de grãos, que todos os anos tem batido recordes de produção e exportação e se vangloria de “alimentar o mundo”, até recentemente figurava no MAPA DA FOME DA ONU e, pela segunda vez, no atual Governo Lula – um presidente obcecado pelo combate à fome, com certeza pela sua origem de pobre e retirante nordestino que já experimentou a fome – conseguimos sair deste triste mapa.

Em 2019 o Brasil voltou a entrar no Mapa da Fome e, em 2022, no último ano do Governo Bolsonaro, cerca de 33 milhões de brasileiros estavam em situação de fome ou insegurança alimentar, tendo sido reduzida esta triste estatística para 2,5% da população (quase três milhões de pessoas) e saído do referido mapa, conforme relatório da FAO há poucos meses.

Por exemplo, enquanto em Cuiabá, capital do paraíso do agronegócio, havia “a fila dos ossinhos”, o volume do desperdício e das perdas de alimentos no Brasil era de aproximadamente 40 milhões de toneladas por ano de comida que ia e continua indo parar no lixo, uma verdadeira desumanidade em face da fome que ainda está presente e castiga milhões de famílias pobres e excluídas em todos os Estados, capitais e inúmeras cidades neste imenso país.

Todavia, se considerarmos o indicador “insegurança alimentar”, a situação do Brasil ainda é extremamente precária. Conforme dados mais recentes da PNAD Contínua Segurança Alimentar 2023, divulgada em 2024, nas regiões Norte e Nordeste 40% estão vivendo em insegurança alimentar, enquanto na Região Sul é de 17%, no Sudeste de 23% e no Centro-Oeste 25%. Ou seja, a fome e a insegurança alimentar ainda estão bem presentes em nosso país, mesmo que tenhamos saído do Mapa da Fome, enquanto continuamos a observar que também as perdas e desperdício de alimentos fazem parte de nossa realidade.

Em setembro de 2024, o PACTO CONTRA A FOME lançou uma campanha, utilizando diversos meios de comunicação, com o objetivo de sensibilizar a população brasileira e também as autoridades em todos os poderes e níveis de governo, cujo slogan reflete a gravidade deste assunto: “COMIDA BOA É NA BOCA (DAS PESSOAS QUE TÊM FOME) E NÃO NA BOCA DO LIXO”, como acontece no Brasil e praticamente em todos os demais países, inclusive nos “desenvolvidos”, como nos EUA, na Europa, no Japão e em outros lugares onde também existem pobres e gente passando fome.

O enfrentamento da questão da fome e da insegurança alimentar passa, necessariamente, tanto pelo combate às perdas e desperdício de alimentos quanto também pelo fortalecimento das redes de solidariedade e fraternidade, como recentemente a CARITAS BRASILEIRA, cujo presidente é Dom Mário Antônio, Arcebispo de Cuiabá, que está promovendo uma parceria com o Governo Federal para implementar o projeto Cozinhas Solidárias, da mesma forma que inúmeras outras organizações não governamentais, a maioria das quais vinculadas a diversas Igrejas cristãs e de outras religiões.

Todavia, este combate não pode se ater apenas a uma dimensão assistencialista, manipuladora, mas sim a um processo educativo, principalmente estimulando sistemas e projetos de economia solidária, substituindo os paradigmas assistencialistas por outros de uma caridade promocional e libertadora, como tanto tem enfatizado a CARITAS.

Outro aspecto importante é o trabalho educativo e de assistência técnica e estímulo à economia solidária junto aos agricultores familiares, tanto para evitar as perdas e desperdício, quanto para a produção agroecológica, evitando os agrotóxicos tão nocivos ao meio ambiente e à saúde humana.

Para não me alongar demasiadamente, deixo para um outro momento, próximo, a reflexão que gostaria de fazer em torno da situação dos rios, também tão importante, que é o DIA MUNDIAL DOS RIOS, a maioria dos quais, inclusive no Brasil, como o Tietê em São Paulo e o Cuiabá, em Mato Grosso, juntamente com milhares de córregos, já se transformaram em esgotos e lixões a céu aberto, afetando terrivelmente dezenas de milhões de famílias em nosso Brasil.

A perda e o desperdício de alimentos, a fome, a insegurança alimentar, a pobreza, a degradação de nossos rios e córregos, a falta de moradia popular e as “habitações sub-humanas”, a falta de saneamento básico e tantos outros fatores que provocam a exclusão de praticamente 70% da população brasileira são desafios que nossas autoridades e lideranças civis não podem postergar.

Defender a democracia, a soberania popular, a soberania e a independência nacionais não deve ser apenas slogans vazios, mas realidade transformada em políticas públicas nos três níveis de governo – federal, estaduais e municipais – e nos três poderes da República, que enfrentem esses desafios mencionados e outros tantos que nos envergonham muito.

Como sempre dizia o Papa Francisco: “Tudo está interligado”. Nesta Casa Comum, só assim vamos avançar rumo a um país e a uma sociedade em que a justiça, a igualdade/equidade, a inclusão, a solidariedade e o bem comum prevaleçam sempre!

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

 

Terça, 23 Setembro 2025 10:18

 

 
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Juacy da Silva*

 

“Propomos definir o pecado ecológico como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente. É um pecado contra as gerações futuras e se manifesta em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, em transgressões contra os princípios da interdependência e na ruptura das redes de solidariedade entre as criaturas e contra a virtude da justiça”. Fonte: Documento Final do Sínodo dos Bispos da Amazônia, matéria publicada por Elisangela Cavalheiro, em 30/01/2024 no Portal A12.

Bom dia, amigas e amigos, ótimo, abençoado e feliz domingo, 21 de setembro, DIA DA ÁRVORE e amanhã, 22 de setembro, é o início da primavera no Hemisfério Sul (Brasil, América do Sul, boa parte da África e vários outros países) e o início do outono no Hemisfério Norte (Europa, EUA, Canadá e outros países).

A primavera representa o fim de um verão cada vez mais escaldante, de poucas chuvas, baixa umidade do ar, que afetam tremendamente a saúde humana, mas também o mês das flores, do verde, da renovação da vida, da esperança, principalmente para o meio ambiente, para a ecologia integral, um melhor cuidado com o Planeta, a nossa Casa Comum, ou seja, um tempo benfazejo.

E por estarmos no ANO DO JUBILEU, convocado pelo Papa Francisco, que ao longo de seus 12 anos de magistério nos deixou um rico legado de exortações quanto à degradação dos biomas e ecossistemas, à necessidade de a Igreja ser e estar sempre em saída, no espírito da sinodalidade e do profetismo, para caminhar junto com os pobres, oprimidos e excluídos, os mais afetados pelas consequências da degradação ambiental e da crise climática.

Sempre é bom recordarmos que o tema do Jubileu de 2025 é PEREGRINOS DA ESPERANÇA, que deve representar um período especial de graça e renovação espiritual em todas as dimensões da vida humana, inclusive na caminhada ecológica da Igreja, representada pelos fiéis e também pela hierarquia eclesiástica, principalmente quando, por coincidência, estamos também celebrando o TEMPO DA CRIAÇÃO, representado por tantas obras da natureza e da humanidade. Isto deve nos iluminar para percebermos que precisamos construir uma harmonia total entre os seres humanos e destes com a natureza.

Quanto às celebrações do DIA DA ÁRVORE, não basta apenas plantarmos umas poucas mudinhas em diferentes locais, principalmente onde houver visibilidade, para fotografarmos e compartilharmos nas diferentes redes sociais com nossos contatos, como tanto gostam de fazer nossos governantes.

O importante é também refletirmos sobre a destruição que temos assistido de imensas áreas de florestas, a extração ilegal de madeira, a contaminação por mercúrio e agrotóxicos, o desmatamento e as queimadas, legais ou ilegais, de milhões de hectares e BILHÕES DE ÁRVORES, de forma irracional, transformando essas áreas em terras degradadas, como tem acontecido em todos os biomas brasileiros, principalmente no CERRADO, na AMAZÔNIA LEGAL e no PANTANAL.

Apenas para “refrescar” nossa memória e aquilatarmos o tamanho desta destruição, basta mencionar que em 2023 o desmatamento e as queimadas no CERRADO atingiram mais de 1,1 milhão de hectares, o que corresponde a 750 MILHÕES DE ÁRVORES.

Entre 1985 e 2023, o desmatamento e as queimadas no Cerrado destruíram 38 milhões de hectares, o que representa 27% da perda de toda a cobertura vegetal originária deste bioma e uma perda significativa de sua biodiversidade vegetal e animal, além de afetar todas as nascentes que formam os rios que alimentam tanto a Bacia Amazônica quanto a do Paraguai/Paraná, do São Francisco e do Parnaíba, inclusive os aquíferos que estão nesta vasta região.

Em termos de árvores destruídas, é algo extremamente gigantesco. Em quatro décadas este bioma “perdeu” nada menos do que 24,7 BILHÕES DE ÁRVORES.

É fundamental também que se diga que em 2023 o desmatamento e as queimadas que destruíram boa parte do Cerrado representaram um aumento de 68% em relação ao ano anterior e que esta destruição superou as perdas registradas na Amazônia.

Quanto à Amazônia, mesmo que tenha havido uma queda significativa em relação às décadas anteriores, mesmo assim o desmatamento e as queimadas devoraram 515 mil hectares, o que representa a destruição de aproximadamente 335 MILHÕES DE ÁRVORES.

Todavia, apesar desta “queda” no desmatamento e queimadas, na Amazônia Legal, no período de 1984 até 2023, ou seja, em 39 anos, foram destruídos 12,7 milhões de hectares de florestas nativas. Isto é algo assustador, pois representa 8,3 BILHÕES DE ÁRVORES destruídas e, pior ainda, boa parte deste vasto território teve os solos degradados, não se prestando mais para qualquer uso produtivo.

Já em relação ao nosso PANTANAL, considerado pela nossa Constituição, juntamente com a Amazônia, como Patrimônio Nacional, estabelecendo que, enquanto tais, devem ser preservados e cuidados, pelo respeito que devemos ter para que as presentes e, principalmente, as futuras gerações possam desfrutar de um meio ambiente saudável e sustentável.

Apesar de toda esta preocupação dos Constituintes em 1988, o Pantanal, nos últimos trinta ou quarenta anos, tem experimentado um aumento e agravamento do desmatamento e das queimadas e a redução significativa do volume de suas águas. Mesmo com uma redução significativa, em 2023 foram destruídos por desmatamento e queimadas uma área de 21 mil hectares, ou seja, 13,7 MILHÕES DE ÁRVORES desapareceram neste bioma que, pela sua exuberância, também é considerado pela UNESCO como PATRIMÔNIO NATURAL DA HUMANIDADE e não apenas patrimônio brasileiro.

Para compreendermos melhor a dinâmica da destruição, seja de forma legal ou ilegal ou por queimadas, é bom que vejamos qual o tamanho desta destruição nas últimas quatro décadas.

Entre 1985 até 2023, nada menos do que 1,8 milhão de hectares do Pantanal foram destruídos, sendo que em algumas regiões as queimadas atingiram áreas de uma forma totalmente devastadora, ocasionando também a degradação total das mesmas. Quando traduzimos esta destruição em relação ao total de árvores que desapareceram, chegamos a um número também absurdo. Em 39 anos foram destruídas 1,17 BILHÕES DE ÁRVORES que sumiram deste bioma, que, pela sua dimensão, corre o risco de desaparecer totalmente em algumas décadas, tanto pelo desmatamento e queimadas quanto por outros fatores como a destruição e degradação de todos os cursos d’água, como rios e córregos que alimentam o Pantanal e formam a Bacia Paraguai/Paraná.

Assim, quando estamos celebrando o TEMPO DA CRIAÇÃO, o DIA DA ÁRVORE e também o início da primavera em nosso país, plantando algumas mudinhas de árvores, como em Cuiabá, que há anos vem sofrendo perda de sua cobertura vegetal urbana, substituindo árvores por concreto, de outrora quando recebia a alcunha de CIDADE VERDE, para hoje que nem mesmo o PDAU (Plano Diretor de Arborização Urbana) tem, apesar de a cada ano experimentarmos temperaturas mais escaldantes, é imperioso termos uma visão crítica sobre a questão da falta de arborização urbana e também a gravidade das perdas que já ocorreram pelo desmatamento e queimadas sem controle ao longo das últimas quatro décadas em todos os biomas e ecossistemas.

Resumindo, nessas últimas quatro décadas a soma das áreas que foram desmatadas e queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal chega a 52,5 milhões de hectares e 34,2 BILHÕES DE ÁRVORES, que simplesmente desapareceram nesses territórios. Convenhamos: algo que deveria nos preocupar quanto ao presente e também quanto ao futuro, nos contextos da COP30, da justiça climática, justiça social, justiça intergeracional e dos DIREITOS HUMANOS.

Oxalá, este DIA DA ÁRVORE, do início da primavera, da mesma forma que o DIA DAS FLORESTAS, dos RIOS e de todos os biomas brasileiros, nos imponha a necessidade de buscarmos soluções para os nossos grandes desafios socioambientais, tanto no Brasil quanto nos territórios de cada bioma e ecossistema, presentes em cada território.

Os desafios socioambientais em Mato Grosso, principalmente para a Igreja Católica e as demais Igrejas Cristãs e outras religiões, são muito maiores do que em outros estados, tendo em vista que em nosso território estão presentes a Amazônia Legal, o Cerrado e o Pantanal. Por coincidência ou não, os três biomas são os que têm sido mais devastados e destruídos nas últimas décadas.

Para a doutrina da Igreja Católica, a OMISSÃO é um pecado, e a OMISSÃO diante da destruição da natureza, da ecologia integral, é um PECADO ECOLÓGICO, mais uma razão para assumirmos nossas responsabilidades como católicos, católicas, cristãos e cristãs.

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, Sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

Segunda, 22 Setembro 2025 09:55

 

 

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Juacy da Silva*
 

Ao publicar a Encíclica Laudato Si, em 24 de maio de 2015, ou seja, há dez anos, o Papa Francisco, utilizando o método da Igreja: VER, JULGAR/CELEBRAR e AGIR, pontuou diversos aspectos importantes quando se debruçou sobre a saúde do planeta, os direitos da natureza, a justiça social, a justiça climática e a justiça intergeracional. Assim, ele destacou alguns aspectos que estão diretamente relacionados com a questão da LIMPEZA, seja no plano individual ou doméstico e também da limpeza dos biomas, ecossistemas, enfim, a importância da limpeza como base da sustentabilidade, particularmente as questões da água, do saneamento básico e do lixo/resíduos sólidos.

Vejamos o que nos dizia Francisco há dez anos: 

“A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (LS 21);
“Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades” (LS 5);
“Estes problemas estão intimamente ligados à cultura do descarte, que afeta tanto os seres humanos, os excluídos, como as coisas que se convertem rapidamente em lixo” (LS 22).

Em relação à questão da água na Encíclica Laudato Si (LS), ele nos exorta textualmente: 

“A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos” (LS 28);
“Um problema particularmente sério é o da qualidade da água disponível para os pobres, que diariamente ceifa muitas vidas. Entre os pobres são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por micro-organismos e substâncias químicas” (LS 29).

Também o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em novembro de 2024, numa mensagem de vídeo dirigida aos negociadores na Coreia do Sul, durante o evento para buscar um acordo histórico contra a poluição plástica (que, lamentavelmente, até os dias de hoje os países não chegaram a um acordo), disse textualmente que “até 2050 os oceanos poderão ter mais plástico do que peixes”, uma projeção baseada em estudos que indicam o aumento da poluição plástica e sua acumulação nos mares, lagos, rios e córregos do mundo todo, afetando a vida desses sistemas, particularmente a vida marinha e a saúde humana.

Desde 1992, quando a ONU aprovou a criação do Dia Mundial da Água, passando pelo Dia Mundial da Limpeza (World Cleanup Day), que surgiu na Estônia em 2028, a preocupação com a questão do lixo, dos resíduos sólidos, com o saneamento básico e a qualidade do ar e da água, principalmente para consumo humano, tem estado na “ordem do dia”, tanto das “celebrações” de diversos organismos internacionais quanto na agenda das discussões públicas em praticamente todos os países.

Aqui cabe um destaque quando se diz que água não pode ser considerada apenas um bem a ser comercializado pelo mercado visando ao lucro a ser acumulado por algumas pessoas em detrimento de bilhões de pessoas; mas um direito humano fundamental, da mesma forma que os alimentos e a moradia digna.

Assim, diante desses desafios que afetam diretamente a qualidade de vida, da saúde e do bem-estar das populações, principalmente de grandes camadas populacionais de pobres, excluídos e moradores das periferias de todas as cidades, e também de bilhões de “esquecidos” que moram no meio rural, não podemos mais nos omitir, “racionalizando” esta triste realidade como algo “normal”, que faz parte do processo de “desenvolvimento” mundial e nacional.

Para colocar este tema e esses desafios na agenda das discussões públicas e não apenas nos discursos demagógicos e manipuladores das elites dominantes e dos donos do poder, foi escolhido o terceiro sábado de cada ano, que, em 2025, é 20 de setembro, como o DIA MUNDIAL DA LIMPEZA.
Limpeza de nossas casas, de nossos quintais, de nossas comunidades, de nossos córregos, de nossos rios, dos mares e oceanos, de nossas praias e nossas cidades. É superimportante que possamos refletir, dialogar e não apenas fazermos nossa parte diante desses desafios, mas também exigir que nossos governantes deixem de se preocupar com seus privilégios, suas mutretas e pensem, de forma séria, na definição e implementação de políticas públicas que resolvam de forma rápida tais desafios e problemas que afetam mais de 2,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo e mais de 110 milhões de pessoas em nosso Brasil.

Defender a democracia, defender o Estado Democrático de Direito, defender a soberania popular e a soberania nacional não pode ser apenas meros slogans, mas sim, definir e implementar políticas públicas, inclusive um amplo programa de educação ambiental crítica ou revolucionária, que possibilitem tanto o despertar da consciência ecológica, do cuidado com o planeta, nossa Casa Comum, quanto, em seus resultados, melhorem de fato as condições de vida da população, principalmente das grandes massas de excluídos, explorados, injustiçados, desrespeitados em seus direitos fundamentais como pessoas humanas, por meio de novos paradigmas que promovam mudanças e transformações profundas nos sistemas produtivos, nas relações políticas e, também, nas relações de trabalho e de consumo.

Sempre é bom refletirmos sobre dados concretos da realidade, tanto mundial quanto de nosso país, para percebermos a gravidade da falta de cuidado, no que tange, por exemplo, às consequências do descaso com questões ambientais importantes como a limpeza das águas, dos solos, em cada pedaço deste território planetário, como já mencionado.

De acordo com estatísticas oficiais de organismos internacionais (ONU), em 2024, mais de 3,4 bilhões de pessoas não tinham coleta e tratamento de esgoto e 2,2 bilhões de pessoas não tinham acesso à água tratada; 2,7 bilhões de pessoas não tinham acesso à coleta regular de lixo, sendo que dessas, em torno de 2 bilhões moravam em áreas rurais e 700 milhões nas periferias urbanas.

O resultado, muito claro, além da degradação do meio ambiente, ou seja, da natureza, como degradação dos solos, das águas e do ar, também tem consequências severas para a saúde humana — saúde individual e também saúde pública —, inclusive agravando a precariedade da falta de recursos públicos orçamentários para atender a bilhões de pessoas que diuturnamente buscam por cuidados médicos, hospitalares, ambulatoriais, além de milhões e milhões de mortes e muito sofrimento.

O número de mortes causadas no mundo em 2024, por falta de saneamento básico, foi de aproximadamente entre 1,4 milhão a 2,5 milhões de pessoas, sendo que dessas, mais de 70% eram crianças com menos de 5 anos, o que demonstra o tamanho do sofrimento para tantas famílias.

A poluição do ar, causada pelo descaso com o lixo e outros poluentes, em 2026 causou a morte de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas por infecções do sistema respiratório.

Para o leitor menos avisado, provavelmente pode parecer: “Ah, isto é uma realidade distante, de países extremamente pobres da África, Ásia ou Oceania, e isto jamais vai me afetar no Brasil”, e por isso “não estou nem aí”.

Todavia, como resposta, invoco novamente as sábias palavras do Papa Francisco quando ele dizia:

“Tudo está interligado nesta Casa Comum, o Planeta Terra”, e mais, que não existem duas crises separadas — de um lado uma crise ambiental (da natureza) e de outro uma crise política, social e econômica —, mas sim, apenas uma complexa crise socioambiental que, para sua solução, requer medidas também complexas, integradas e “em regime” de urgência.
Tal como o nosso Congresso acaba de aprovar para a anistia dos golpistas do 8 de janeiro e da “PEC da Blindagem”, aumentando seus privilégios e status de cidadãos de primeira classe, enquanto o resto da população continuará sendo tratada como “cidadãos e cidadãs” de segunda classe perante o sistema judiciário brasileiro.

No Brasil, em 2024, na área urbana, nada menos do que 20,8 milhões de pessoas não tinham coleta regular de lixo, e mais de 25 milhões de habitantes rurais também não tinham acesso a este serviço público, ou seja, totalizando 45,8 milhões de pessoas. Além disso, praticamente metade dos municípios brasileiros não tem uma destinação correta do lixo coletado e menos de 10% do lixo coletado é reciclado, indicando alto índice de degradação ambiental por resíduos nocivos à saúde humana e uma perda bilionária de recursos financeiros.

Em torno de 110 milhões de pessoas não têm coleta e tratamento de esgoto, sendo comum, inclusive em inúmeras capitais e cidades de médio e grande porte ou até mesmo regiões metropolitanas de regiões consideradas ricas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras mais, esgotos escorrendo pelas ruas, populações “morando” ao lado de córregos, palafitas ou valões transformados em esgotos a céu aberto.

Mais de 15 milhões de pessoas que vivem nas áreas urbanas, principalmente nas periferias, também não têm acesso à água tratada e de qualidade — condição básica para limpeza e higiene doméstica, necessária para a saúde dessas famílias. E no meio rural, a população continua à mercê do uso de água contaminada por agrotóxicos, mercúrio de garimpos e outras formas de poluição.

A degradação ambiental também provoca centenas de milhares de atendimentos médicos, hospitalares e ambulatoriais. Relatórios recentes indicam que anualmente entre 50 a 80 mil mortes têm como causa a poluição do ar — número muito maior do que as mortes por assassinatos, feminicídios, acidentes de trabalho e de trânsito —, mas que não causam tanta consternação, seja por parte das autoridades, seja por parte da população em geral.

A falta de saneamento e água potável no Brasil causou, em 2023, cerca de 11.544 mortes. Em 2024, o número de internações ultrapassou 340 mil, sendo que 8.830 óbitos foram de idosos, que representam um grupo mais vulnerável a essas condições.

Cabe ressaltar, no caso do Brasil, que a questão da limpeza, problemas de coleta, tratamento e destinação correta do lixo e de esgotamento sanitário, e suas consequências para o meio ambiente/natureza e também — ou principalmente — para a saúde humana, são muito diferentes entre as diversas regiões. O Nordeste e a Região Norte/Amazônia Legal, que abrigam em conjunto mais de 85 milhões de habitantes, ou seja, 40% da população brasileira, ostentam indicadores socioambientais — principalmente relacionados com coleta, tratamento e destino do lixo e do esgoto, bem como de acesso à água potável e de qualidade — semelhantes ou piores do que vários países extremamente pobres da África e da Ásia.

Todavia, em meio a tudo isso, nossos empresários e nossos governantes demonstram um enorme ufanismo diante do nosso poderio, potencial e do desempenho de nossa economia, esquecendo desses números vergonhosos que dizem muito, de perto, sobre os níveis de desigualdades sociais, econômicas e políticas que caracterizam nosso Brasil.

Toda essa realidade deveria estar sendo objeto de nossas reflexões não apenas neste 20 de setembro, DIA MUNDIAL DA LIMPEZA, mas também ao longo de todos os anos, tanto e principalmente por parte de nossos governantes, de nossos empresários, de nossas lideranças civis, militares, eclesiásticas, enfim, pelos donos do poder e suas “troupes” e “asseclas”, quanto também da população em geral.

Ao invés de terem urgência em relação a temas que não dizem respeito aos interesses das grandes massas, mas apenas de seus próprios interesses, nossos parlamentares, nossos governantes e lideranças deveriam, no exercício de seus mandatos, cargos e posições, dedicar mais tempo, recursos e ações que transformem a realidade sofrida em que vive mais da metade da população brasileira.
Vamos pensar nisso?

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy 

Quarta, 17 Setembro 2025 09:24

 

 

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Juacy da Silva*

 

Desde o dia 01 deste mês de setembro, estamos vivenciando e celebrando o TEMPO DA CRIAÇÃO, que termina no dia 04 de outubro, Dia de São Francisco de Assis — não apenas o defensor da natureza e padroeiro da Ecologia, mas também um PROFETA que revolucionou, com seus gestos simples, mas de cunho extremamente transformador e até mesmo revolucionário (daí a importância da EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA OU REVOLUCIONÁRIA), tanto a percepção, a visão quanto as ações que devemos promover em nossas relações com a natureza, com o universo, conosco mesmos e com o Criador.

Todas as pessoas sabem que é importante a gente estudar, observar, refletir, dialogar sobre as questões socioambientais e os desafios ecológicos que estão colocados para a humanidade, e que estão se agravando sobremaneira e de forma rápida ultimamente.

Diante disso, além de tudo o que já foi mencionado, as nossas AÇÕES são importantes. Costuma-se dizer que só as ações transformam, revolucionam a realidade, mas, para tanto, são precisos alguns pressupostos, como o despertar da consciência crítica e libertadora, a vontade de mudar, o aprofundamento na compreensão da dinâmica que existe não apenas no planeta, na natureza, mas nos efeitos que os diferentes modelos e sistemas de produção e de relações de trabalho e de consumo produzem tanto na natureza quanto na apropriação que cada pessoa e classe social fazem dos frutos do crescimento econômico, do desenvolvimento social, econômico e político.

Precisamos cuidar da natureza, do planeta, não como um objeto de adoração, mas para que tanto as atuais quanto as futuras gerações possam desfrutar, para seu bem-estar, dos frutos do “progresso”, do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, do crescimento econômico e do desenvolvimento integral, sustentável e integrado.

Diante disso, ao longo do ano, diversos momentos (dias, semanas ou meses) são criados para servirem como pontos de referência para uma reflexão mais profunda, crítica e criadora sobre a situação da saúde do planeta, a partir de cada dimensão dessa realidade, a partir de “nossos quintais”, ou seja, dos territórios nos quais vivemos, sofremos e também sonhamos e cultivamos a esperança e a paz — enfim, a harmonia com todas as obras da criação.

Voltando ao início desta reflexão: se estamos ainda no TEMPO DA CRIAÇÃO, até o dia 04 de outubro próximo, seria interessante observarmos o que o CALENDÁRIO ECOLÓGICO reserva nessas três semanas, ou poucos dias a mais, como oportunidade para, tanto refletirmos quanto, fundamentalmente, AGIRMOS — por um mundo melhor, por uma economia solidária, por uma produção agroecológica, uma agricultura realmente sustentável, uma economia circular, com menos consumismo, menos desperdício, menos degradação, menos poluição, menos voracidade diante dos biomas e ecossistemas; por mais justiça social, justiça climática, com mais respeito aos direitos humanos, de uma forma ampla, que inclua também o direito que todas as pessoas têm a um meio ambiente saudável, sustentável e inclusivo.

Vejamos o que este Calendário Ecológico nos reserva para as próximas semanas:

Restante deste mês de setembro:

  • 16: Dia Internacional de Luta para a Preservação da Camada de Ozônio

  • 19: Dia Mundial de Luta pela Limpeza das Águas (ver também 22 de março)

  • 21: Dia da Árvore (ver também 21 de março e 17 de julho)

  • 22: Dia Nacional em Defesa da Fauna

  • 25: Dia da Bandeira dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

  • 29: Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos (Dia Internacional do Desperdício Zero – ver também 30 de março)

  • 29: Dia Mundial dos Rios

Outubro:

  • 01: Dia do Vegetarianismo

  • 03: Dia Nacional da Agroecologia

  • 04: Dia de São Francisco de Assis

  • 04: Encerramento do Tempo da Criação

  • 04: Dia da Natureza

  • 04: Dia dos Animais

Como podemos perceber, temos diversos momentos (dias) em que somos chamados para um despertar profundo, uma reflexão sobre aspectos e desafios fundamentais para buscarmos uma correção de rumo em nossas relações com a natureza e relações humanas e sociais, enquanto pessoas, cidadãos, cidadãs e também como governantes e empresários responsáveis pelo que estamos fazendo e contribuindo — tanto para a crise climática, que tantos efeitos perversos tem causado no mundo todo, inclusive no Brasil, quanto para a correção de rumo, através de políticas públicas e também mudanças de hábitos, estilos de vida e sistemas produtivos.

Isto é o que o Papa Francisco sempre insistia em seus pronunciamentos, encíclicas e exortações apostólicas, quando fala sobre a CONVERSÃO ECOLÓGICA — tanto individual quanto coletiva ou comunitária.

Todas as ações na defesa da ecologia integral, por mais simples que sejam, fazem a diferença. Mas as ações coletivas, comunitárias, têm um impacto muito maior. Por isso, precisamos estar unidos, juntos, nesta cruzada na defesa e em um melhor cuidado com o meio ambiente, com o nosso Planeta, que “sofre e geme” ao ser tão maltratado!

Pense nisso. Reflita sobre o que você está fazendo, deixando de fazer (omitindo-se) ou pode fazer para mudar o rumo desta catástrofe socioambiental anunciada!

 

*Juacy da Silva, professor fundador, tiular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste, E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy 

 

Segunda, 08 Setembro 2025 14:27

 

 

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Juacy da Silva*

O Dia Nacional do Cerrado, a ser comemorado em 11 de setembro de cada ano, foi instituído pelo Decreto de 20.8.2003, assinado pelo presidente Lula em seu primeiro ano do primeiro mandato, há 22 anos e, desde então, a destruição deste bioma ganhou proporções assustadoras.

O objetivo da criação do Dia Nacional do Cerrado em 2003 foi conscientizar a sociedade e os governantes sobre a importância da preservação do bioma Cerrado, um dos mais ricos em biodiversidade e, ao mesmo tempo, um dos mais ameaçados do Brasil, incentivando a criação de estratégias para a sua proteção, conservação e exploração racional e sustentável.

A data serve como um alerta sobre a destruição da biodiversidade, incluindo a perda de vegetação nativa devido ao desmatamento e à extinção de várias espécies animais, e busca mobilizar a sociedade para práticas sustentáveis, enquanto é tempo.

No Senado, está em análise, a passos de tartaruga, na Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR), o PL – Projeto de Lei 5462/2019, de autoria do senador Jacques Wagner, do PT/BA, que cria a política de desenvolvimento sustentável do Cerrado brasileiro.

“Povos, saberes e natureza do Cerrado: resistência à crise climática” é o tema da V Semana Nacional do Cerrado (V SENACER), que será realizada no período de 8 a 13/09/2025, abrangendo o Dia Nacional do Cerrado (11 de setembro).

Este será um evento coordenado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG), Campus Senador Canedo/GO. Este ano, será elaborada a Carta de Repúdio ao Ecocídio no Cerrado, destinada aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e à coordenação da COP 30 (Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima), que acontecerá em Belém/PA (10 a 21/11/2025).

Oxalá diversas outras instituições, como universidades federais, institutos federais de ensino, ONGs, igrejas e também organismos públicos federais, estaduais e municipais, bem como entidades representativas dos diversos setores econômicos situadas nos estados que integram o bioma Cerrado, também pudessem refletir e despertar a consciência para esta tragédia já bem conhecida, enfim, um desastre anunciado sobejamente.

Tendo em vista que a destruição do Cerrado afeta todos os demais biomas, creio também que diversos eventos deveriam ser realizados não apenas no território do Cerrado, mas também em outras localidades pelo Brasil afora por diversas instituições públicas e não governamentais, na tentativa de despertar a opinião pública para as consequências da destruição do Cerrado, incluindo a destruição das nascentes, a poluição das águas, dos solos e do ar; a destruição de sua rica biodiversidade animal e vegetal, a questão da degradação dos solos e, também, para o aumento médio da temperatura, que a cada dia tem se elevado muito.

Aqui estão algumas informações para entendermos a importância do Cerrado para a ECOLOGIA INTEGRAL, diante do papel que o mesmo tem para a biodiversidade brasileira, o clima e as águas, tendo em vista que o Cerrado é considerado o “berço das águas”, onde estão as nascentes das bacias do Prata (Paraná, Paraguai), Amazônica (rios Xingu, Araguaia, Tocantins etc.), do São Francisco e do Parnaíba.

Lamentavelmente, o CERRADO está sendo destruído implacavelmente pela ganância de uns poucos, em detrimento da natureza e dos brasileiros, e também afetando a crise climática nacional e mundial, pelo desmatamento, pelas queimadas, pelos garimpos, pela mineração inconsequente e pelos agrotóxicos.

Conforme dados do MAPBIOMAS e IPAM, mencionados por Camila Santana, “de 1985 a 2023, foram desmatados 38 milhões de hectares no Cerrado, uma área maior que o Estado de Goiás. Isso representa uma redução de 27% na vegetação original do bioma, que hoje tem quase metade de sua área (48,3%) alterada por atividades humanas. A outra metade, que ainda permanece em pé, corresponde a 101 milhões de hectares, representando 8% de toda a vegetação nativa do Brasil. No período analisado, a pastagem e a agricultura foram os usos que mais se expandiram no bioma, com aumentos de 62% e 529%, respectivamente. Atualmente, 26 milhões de hectares do Cerrado estão ocupados pela agricultura, dos quais 75% são destinados ao cultivo de soja. O bioma responde por quase metade da área cultivada com o grão no Brasil, totalizando 19 milhões de hectares. Os dados são do levantamento realizado pelo MapBiomas, uma rede colaborativa da qual o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental) faz parte”.

E esta devastação coloca o Cerrado como o bioma e ecossistema mais vulnerável no momento, tendo em vista que, tanto em 2024 quanto em 2025, este bioma é o mais destruído no Brasil, pelo 2º ano consecutivo. Só em 2024, foram desmatados nada menos do que mais de meio milhão de ha, ou seja, 652.197 hectares, e esta saga destruidora não tem limites, razão pela qual precisamos refletir quais as consequências futuras, a curto, médio e longo prazos, se nada for feito para impedir esta destruição.

Além do desmatamento e suas consequências, o Cerrado também tem sido vítima das queimadas, incluindo as queimadas criminosas. Conforme matéria publicada pela CNN Brasil há um ano, em 11 de setembro de 2024, “Embora possua tipos de vegetação que evoluíram para lidar com queimadas, o aumento das secas e das temperaturas extremas, aliado ao uso indiscriminado de queimadas, tem agravado os incêndios no bioma, colocando em risco sua biodiversidade”.

A mesma reportagem informava que “Considerado um dos cinco grandes biomas do Brasil, o Cerrado sofreu com a devastação de 88 milhões de hectares nos últimos 39 anos, segundo dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) nesta quarta-feira (11). Entre 1985 e 2023, a média anual de área queimada foi de 9,5 milhões de hectares”.

A situação do Cerrado é extremamente grave e, mesmo assim, parece que pouco ou quase nada tem sido alterado para conter este processo de degradação. Os dados sobre a destruição do Cerrado são alarmantes. “Incêndios devastam 88 milhões de hectares no Cerrado em 39 anos”, diz pesquisa recente, chamando a nossa atenção para o fato de que a área queimada equivale a 43% de toda a extensão do bioma e supera o território de países como Chile e Turquia, sendo maior do que alguns estados brasileiros.

Outra questão importante para nossas reflexões sobre a degradação ambiental no Brasil e que está presente de uma forma intensa no Cerrado é a degradação dos solos. O Brasil encontra-se diante do desafio de mais de 100 milhões de ha de áreas degradadas, e o Cerrado é campeão nesta triste estatística.

Conforme revelado por Lucas Geraldo, em publicação do IPAM em 5 de julho de 2024, “A área de vegetação nativa remanescente que pode estar degradada no Cerrado está entre 18 milhões e 43 milhões de hectares. Essa é a maior área de vegetação degradada dentre todos os biomas – corresponde a 19% e 45% de toda a vegetação nativa do bioma, respectivamente. Os dados foram levantados de forma inédita em iniciativa coordenada por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e lançada nesta sexta-feira (05) para compor o leque de módulos disponibilizados pela rede MapBiomas”.

Tudo isso é muito contraditório diante da massificação sobre a COP30, a ser realizada dentro de apenas dois meses em Belém, evento que tem mobilizado todos os organismos públicos federais, estaduais e municipais, bem como o mundo empresarial, e também as organizações não governamentais e até mesmo igrejas e religiões diversas, incluindo a Igreja Católica, que estará presente, bem como movimentos sociais, sindicais e representações de povos originários, ribeirinhos e agricultores familiares e, ao mesmo tempo, a saga da destruição ecológica continua a todo vapor. Parece que a destruição do Cerrado nada tem a ver com os temas que serão debatidos na COP30.

Diante desta sanha destruidora que afeta drasticamente três biomas importantes para o presente e o futuro de nosso país e do planeta (Amazônia, Cerrado e Pantanal), dias especiais como este dedicado ao CERRADO, da mesma forma que há poucos dias “celebramos” o Dia da Amazônia e, em 12 de dezembro, será o Dia do Pantanal, devem servir para o despertar da consciência coletiva e chamar a atenção também da opinião pública nacional para a urgente necessidade de mudarmos profundamente os paradigmas, os modelos e os sistemas produtivos e de relações de trabalho e também de nossas relações com a natureza, que tem seus direitos e limites, bem como o direito das próximas gerações a um ambiente equilibrado e sustentável.

Isto só pode ser atingido no contexto da justiça ambiental, justiça climática, justiça intergeracional e também justiça social, considerando que os desequilíbrios, a degradação e a destruição socioambiental afetam, como tem sido sobejamente conhecido, principalmente os pobres e excluídos, como tanto sempre enfatizou o Papa Francisco e, atualmente, o Papa Leão XIV também tem chamado a atenção mundial para a necessidade de um melhor cuidado com a nossa Casa Comum, ou seja, o Planeta Terra.

Esta, pois, deve ser a mensagem neste DIA NACIONAL DO CERRADO.

 

*Juacy da Silva, professor funndador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy

Terça, 02 Setembro 2025 15:29

 

De 12 a 16 de novembro, Belém (PA) sediará a Cúpula dos Povos – Rumo à COP30, espaço de articulação internacional que reunirá movimentos sociais, sindicais, povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações populares em defesa da Amazônia, da justiça climática e da soberania dos povos. O evento ocorrerá em paralelo à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada na capital paraense, entre os dias 10 e 21 de novembro.

A Cúpula dos Povos luta por justiça climática global, proteção dos direitos humanos, uma transição energética que não penalize os mais vulneráveis, e a valorização da agroecologia como alternativa viável. O ANDES-SN, que é signatário do Manifesto “Cúpula dos Povos Rumo à COP30 - Carta Política”, participará do evento, conforme deliberação congressual.

A programação inclui plenárias, assembleias, oficinas, tribunais populares, atividades culturais e a Marcha Global Unificada, que ocorrerá no dia 15 de novembro. O Sindicato Nacional participará especialmente das atividades e plenárias nos dias 13 e 14, fortalecendo a articulação com demais organizações e movimentos.

De acordo com a Circular 350/25, durante a Cúpula dos Povos, a Regional Norte II do ANDES-SN, localizada na Universidade Federal do Pará (Ufpa), funcionará como ponto de apoio e encontro para as e os docentes que participarem da mobilização. Ruth Almeida, 2ª vice-presidenta da Regional Norte II e da coordenação do Grupo de Trabalho de Política Agrária, Urbana e Ambiental (GTPAUA), afirmou que é fundamental a participação da categoria docente na Cúpula. 

“Ter uma COP na Amazônia, em Belém, é também uma forma de ratificar, nesse debate, a apropriação simbólica do nosso território. A Cúpula se coloca como um espaço que evidencia o que a COP30 e seus governantes tentam silenciar: as conexões entre a crise climática, os direitos humanos e os direitos dos trabalhadores. No Pará, em particular, essa questão ganha destaque, já que o estado é um dos que mais registram assassinatos de defensores dos direitos humanos”, criticou a docente.

Segundo a diretora, embora a COP30 seja anunciada como um fórum climático importante, ela se mostra, na prática, direcionada aos interesses das grandes corporações e dos governos, “que estão mais comprometidos com a lógica do capital do que com a voz das populações que sofrem diretamente com a crise climática”. 

Para ela, a presença do ANDES-SN como voz crítica é indispensável. “É preciso disputar essa narrativa, denunciar o racismo ambiental, a injustiça ambiental e o processo que chamamos de mercantilização da natureza”, completou.

Deliberação

A presença do ANDES-SN na Cúpula dos Povos foi deliberada no 43º Congresso da entidade, realizado neste ano, em Vitória (ES), reafirmando o compromisso com a luta em defesa da educação pública, da justiça social e ambiental, mantendo a independência frente a governos e partidos. Além disso, o Sindicato deve incentivar suas seções sindicais a realizarem atividades nos locais de trabalho para mobilizar a categoria e participarem das ações promovidas pela Cúpula dos Povos durante a COP 30, por meio do envio de delegações. 

As seções sindicais também devem promover debates e reuniões coordenadas pelos GTPAUA locais, com o objetivo de preparar a ação do ANDES-SN e dos movimentos sociais na COP 30.

Annie Hsiou, 3ª vice-presidenta do ANDES-SN e da coordenação do GTPAUA, explicou como será a participação da entidade. “O ANDES-SN vai participar da Cúpula dos Povos, tanto na abertura, que será no dia 12 de novembro, quanto nas atividades de enlaces entre os eixos, entre assembleias, oficinas, tribunais e plenárias de movimentos sociais nos dias 13 e 14 de novembro. E, também, está construindo uma Plenária nacional e internacional, no dia 29 de agosto, junto com esses movimentos sociais, e atividades autogestionadas com outros coletivos e movimentos sociais que irão participar da Cúpula dos Povos”, contou.

Plenária

A Plenária Virtual da Cúpula dos Povos será realizada na próxima sexta-feira (29), das 9h às 11h, no horário de Brasília (DF) e é destinada a representantes das organizações signatárias da Carta Política. A inscrição é obrigatória e deve ser feita aqui. O ANDES-SN participará da plenária por meio da coordenação do GTPAUA. 

“É muito importante que todas e todos possam participar desse momento em que o Brasil está no centro das atenções em relação às questões e emergências climáticas. A participação do ANDES-SN será muito positiva na medida em que buscamos construir políticas não só para nossas universidades, institutos federais e cefets, mas também em conjunto com os movimentos sociais”, afirmou a 3ª vice-presidenta.

Confira a programação prévia:

12 de novembro (quarta-feira)
Manhã: Chegada e alojamento das caravanas e delegações;
Tarde: Barqueata e caravanas;
Noite: Abertura cultural.
13 e 14 de novembro (quinta e sexta-feira)
Manhãs: Plenárias dos eixos de convergência, diagnósticos, denúncias e estratégias populares;
Tardes: Atividades de enlaces entre os eixos, assembleias, oficinas, tribunais e plenária de movimentos sociais;
Noites: Festival cultural com temática Amazônica, Caribenha e internacional, feira popular e sessões informativas sobre a COP.
15 de novembro (sábado)
Manhã: Marcha global unificada;
Tarde: Coletiva de imprensa e mobilizações;
Noite: Festival cultural, feira popular e sessões informativas.
16 de novembro (domingo)
Banquetaço coletivo;
Audiência pública com a presidência da COP;
Atividades culturais, sessões informativas e encerramento.

Confira na íntegra a Circular 350/25

 

Fonte: Andes-SN

Segunda, 25 Agosto 2025 11:16

 

 

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“Para o Papa Leão XIV, a Igreja é a comunidade de fé fundada em Jesus Cristo e unida por uma fé comum, com um compromisso com a unidade dos cristãos, a reconciliação e a luta pela justiça social. Ele a vê como um instrumento de evangelização, promovendo a Boa Nova de Cristo e cuidando dos pobres, e também como uma instituição que deve cultivar o pensamento crítico e a compaixão. A Igreja também é um símbolo de unidade e continuidade da tradição apostólica.”

Muita gente imagina ou pensa que, com a morte do Papa Francisco, as preocupações e compromissos da Igreja em relação aos cuidados com a ecologia integral seriam “esquecidos”, diante de novos enfoques em seu magistério.
Todavia, em diversas ocasiões, o mesmo tem não apenas reforçado a importância da caminhada ecológica da Igreja na defesa da ecologia integral, mas também inserido essa caminhada em seu magistério.

Assim, “o Papa Leão XIV, ao discutir o compromisso da Igreja no cuidado com o meio ambiente, tem enfatizado a necessidade de um olhar contemplativo que transforme a relação da humanidade com a criação. Ele recordou que ‘somente um olhar contemplativo pode transformar esta relação com a criação e nos fazer sair da crise ecológica, cuja causa é a ruptura das relações com Deus, com o próximo e com a terra’. Além disso, Leão XIV destacou a importância de uma liturgia que celebre a Eucaristia como um ato de agradecimento ao Senhor e um meio de cuidar da criação, inspirando a conversão e a transformação da sociedade em direção ao bem-estar humano e à dignidade humana. A Igreja, segundo o Papa, deve ser um exemplo de cuidado e responsabilidade social, refletindo os princípios da Encíclica Laudato Si, promovendo a proteção ambiental e a dignidade humana.”

Fonte: site Vaticano News.

Olá, amigas e amigos. Como algumas pessoas costumam dizer, “o tempo voa” e, quando menos percebemos, o ano já está quase terminando e ainda não realizamos tudo o que havíamos planejado no início deste ano — e percebemos quantas coisas importantes deixamos para trás.
Outro dizer popular nos acorda, enfatizando que “o passado já passou”; o importante agora é o momento presente, que também passa rápido, e o futuro que está batendo às nossas portas, como querendo dizer: “Acorda! O tempo de realizar as coisas, de mudar, de transformar a realidade está chegando!” Não se omita. Não deixe que a passividade, a procrastinação, o desalento e a alienação tomem conta de sua caminhada, como na canção/música de Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores”, escrita e interpretada em pleno 1968 (ano do AI-5, início dos anos de chumbo no Brasil), quando diz: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

Em se tratando de Ecologia Integral, nunca é demais enfatizar que a luta pelo cuidado do Planeta, de nossa Casa Comum, está assentada em três pilares ou fundamentos: a espiritualidade ecológica, as ações sociotransformadoras e a mobilização profética. Sem isso, nada é transformado e os desafios ecológicos apenas aumentam dia após dia, como temos observado com a crise climática, que tem se agravado sobremaneira nos últimos tempos.

Isto significa que, conforme tanto enfatizou o Papa Francisco ao longo de seus 13 anos de magistério, voltado profundamente para o resgate das deliberações e definições do Concílio Vaticano II, por meio das encíclicas Laudato Si’ e Fratelli Tutti, e das exortações apostólicas Querida Amazônia e Laudate Deum, em relação aos cuidados com as obras da criação e também às relações sociais, econômicas e políticas, é fundamental combater a destruição do planeta, do meio ambiente e o desrespeito à justiça social, aos direitos humanos, à justiça climática e o resguardo do planeta também para as futuras gerações (justiça intergeracional).

Da mesma forma, resguardando o legado do Papa Francisco e também o legado do Papa Leão XIII, ao publicar a encíclica Rerum Novarum, em 15 de maio de 1891, estabelecendo as bases da Doutrina Social da Igreja (DSI), o Papa Leão XIV também tem insistido que a Igreja deve ser sempre sinodal, mas também profética, samaritana e encorajada a lutar por uma paz desarmada, cuidando das pessoas — principalmente dos pobres, oprimidos, famintos, injustiçados e, claro, sem descurar seu compromisso (da Igreja) com a defesa da ecologia integral, das obras da criação — e que isto só é realizado, não com palavras, mas sim com ações concretas, inclusive com mobilização profética.

Cabe ressaltar que, quando falamos em calendário ecológico, no momento atual, além de inúmeras celebrações, reflexões, ações sociotransformadoras e mobilização profética que podemos e devemos realizar nos diversos territórios onde a Igreja esteja presente, está também em curso uma série de providências, sob a mística “A Igreja rumo à COP30”, como forma de preparar a participação da Igreja no que é considerado o maior evento climático anual do planeta e que, neste ano, em novembro, será realizado em Belém, estado do Pará.

Diante disso, precisamos estimular não apenas as reflexões e ações, e a mobilização profética voltadas para transformações profundas em nossas relações com a natureza, mas também nossas relações com nossos semelhantes e com o Criador, buscando transformações profundas, inclusive quanto aos sistemas econômicos e às relações de trabalho e de produção. Vale dizer: substituir os paradigmas de uma economia da morte, como atualmente existem em nosso país e no restante do planeta, por uma economia da vida, como tanto nos exortou o Papa Francisco.

É neste contexto que precisamos observar o calendário ecológico, seguindo também o método da Igreja: ver, julgar e agir/celebrar, a partir das realidades concretas de cada território eclesiástico — arquidioceses, dioceses, paróquias e comunidades eclesiais de base — e tendo como “pano de fundo” a máxima que nos exorta a “pensarmos globalmente, mas agirmos localmente”. Só assim iremos promover a conversão ecológica (individual e comunitária), para atingirmos um novo patamar de realidade, que denominamos de cidadania ecológica.

Por isso, devemos sempre nos lembrar da máxima do Papa Francisco, quando ele tanto insistia, ao referir-se aos desafios ecológicos:
“Tudo está interligado, nesta Casa Comum.”

Este é o caminho, em tempos de crise e também de esperança, para ainda podermos lutar por um mundo melhor, com justiça, equidade, solidariedade, amor e paz desarmada, como tanto vem enfatizando o Papa Leão XIV.


SEGUE CALENDÁRIO ECOLÓGICO DOS MESES DE SETEMBRO E OUTUBRO DE 2025

SETEMBRO

1º de setembro a 4 de outubro: Tempo da Criação

01 – Festa da Criação e momento de abertura do Tempo da Criação
01 – Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação
03 – Dia do Biólogo
05 – Dia da Amazônia
07 – Dia da Independência do Brasil
07 – Dia Mundial do Ar Limpo (Combate à Poluição do Ar)
11 – Dia Nacional do Cerrado
16 – Dia Internacional de Luta para a Preservação da Camada de Ozônio
19 – Dia Mundial de Luta pela Limpeza das Águas (ver também 22 de março)
21 – Dia da Árvore (ver também 21 de março e 17 de julho)
22 – Dia Nacional em Defesa da Fauna
25 – Dia da Bandeira dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
29 – Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos (Dia Internacional do Desperdício Zero) – ver também 30 de março
29 – Dia Mundial dos Rios

OUTUBRO

01 – Dia do Vegetarianismo
03 – Dia Nacional da Agroecologia
04 – Dia de São Francisco de Assis
04 – Encerramento do Tempo da Criação
04 – Dia da Natureza
04 – Dia dos Animais
07 – Dia Mundial do Habitat
12 – Dia do Engenheiro Agrônomo / Engenheira Agrônoma
15 – Dia do Educador Ambiental
16 – Dia Mundial da Alimentação (Fome Zero)
17 – Dia da Agricultura
31 – Dia Mundial das Cidades

 

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy