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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
“Não podemos mais tolerar injustiças estruturais pelas quais quem tem mais tem sempre mais, e, vice-versa, quem tem menos empobrece cada vez mais; a esperança e a justiça são possíveis quando nos reconhecemos como parte de uma mesma humanidade, unida na busca por um futuro mais justo e fraterno”, escreve o Papa Leão XIV na introdução inédita do seu novo livro A força do Evangelho. A fé cristã em 10 palavras, publicado em 20 de novembro de 2026, em língua italiana, pela Livraria Editora Vaticana.
Há poucos meses, quando da publicação de sua primeira Exortação Apostólica, podemos dizer que, “em parceria com o Papa Francisco”, Leão XIV não titubeou em dizer, de forma clara e objetiva, que não se combate a pobreza e as injustiças com ações e políticas públicas assistencialistas e paternalistas, mas que precisamos ir mais a fundo, combater as estruturas sociais, econômicas e políticas que geram a pobreza, a exclusão e as injustiças sociais.
Neste ano em curso de 2026, a CNBB houve por bem escolher o tema Fraternidade e Moradia (popular e digna) para a Campanha da Fraternidade, tendo ainda como lema “Ele (Cristo ressuscitado e libertador) veio morar entre nós”, retirando este lema do Evangelho de São João 1,14, enfatizando que, ao encarnar-se como ser humano, Cristo não escolheu os palácios dos poderosos de sua época e que nem mesmo lugar digno encontrou, razão pela qual encarnou-se como pobre e excluído, migrante, nascendo em uma estrebaria.
Hoje, no Brasil e mundo afora, milhões de crianças, muitas das quais sequer completam um mês ou um ano de vida, nascem, “vêm ao mundo”, nessas mesmas condições de pobreza e miséria absoluta. Nessas crianças e em seus pais pobres, refugiados e excluídos, podemos, com certeza, também ver o rosto do “menino Jesus”.
Tanto no Velho Testamento, principalmente nos livros dos diversos profetas, podemos ver e ler como eles condenavam as práticas gananciosas e injustas, como os pobres de então, da mesma forma que os pobres de hoje, eram maltratados, injustiçados e excluídos.
Da mesma forma, também no Novo Testamento, principalmente nos Evangelhos, podemos observar, tanto nas palavras de Jesus, especialmente em suas parábolas, como também em suas exortações e milagres, que a preocupação com os pobres, doentes, deficientes, marginalizados, excluídos e sofredores fica bem patente.
Ao condenar a ganância, a usura, a violência e tantas formas de exclusão e injustiças sociais, o Novo Testamento, não apenas nos Evangelhos, mas também nas Cartas Paulinas e nos escritos de outros apóstolos, nos exorta quanto às formas antigas e também atuais de ganância e apego aos bens materiais, à acumulação de bens, renda, riqueza e propriedade, que também são tácita e explicitamente condenadas.
Existe uma passagem no Evangelho de São Mateus, capítulo 19, versículos 16 a 24, que ilustra muito bem a dialética entre riqueza e pobreza e como os ricos de então, inclusive os cristãos ricos de hoje, se relacionavam e ainda se relacionam com os pobres, com a pobreza, a exclusão e com as injustiças.
Esta passagem e os diálogos de Jesus com o “jovem rico” e também, depois, o diálogo de Jesus com seus discípulos, que presenciaram aquela cena, falam por si, não precisando de maiores comentários e interpretações teológicas.
Vejamos o que diz o Santo Evangelho: “¹⁶ Eis que alguém se aproximou de Jesus e lhe perguntou: ‘Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?’ ¹⁷ Respondeu-lhe Jesus: ‘Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom. Se você quer entrar no Reino dos céus, obedeça aos mandamentos’. ¹⁸ ‘Quais?’, perguntou ele. Jesus respondeu: ‘Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, ¹⁹ honra teu pai e tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo’. ²⁰ Disse-lhe o jovem: ‘A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda?’ ²¹ Jesus respondeu: ‘Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me’. ²² Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas. ²³ Então Jesus disse aos discípulos: ‘Digo-lhes a verdade: dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. ²⁴ E lhes digo ainda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus’.”
Isto porque os ricos amam mais a riqueza e seus privilégios do que aos seus irmãos pobres, e este apego aos bens materiais distancia as pessoas dos mandamentos e dos ensinamentos de Cristo.
Voltemos à Campanha da Fraternidade e à realidade da moradia popular no Brasil, um dos problemas mais sérios e angustiantes para mais da metade da população brasileira, que não possui moradia popular digna, cuja luta tem sido muito difícil.
Quando falamos em MORADIA POPULAR DIGNA, não estamos falando apenas em quatro paredes, às vezes feitas com resto de material, e um teto, também às vezes feito com resto de material ou apenas coberto com uma lona preta; mas sim em um lar que ofereça condições dignas em sua essência, tanto para o abrigo quanto para o conforto e a possibilidade de progresso material, cultural e humano, tanto pelas dimensões quanto pelos critérios de “habitabilidade” e também pelo seu entorno.
Um casebre, onde oito ou até dez pessoas se amontoam em espaços exíguos, milhões que não têm sequer instalações sanitárias, localizado em uma favela, uma palafita, na beira de algum morro prestes a desabar, um córrego que, na verdade, é mais um esgoto a céu aberto, onde o lixo se acumula por toda a parte, por onde transitam as pessoas e também os animais, “porcos, ratos e urubus”, como dizia o enredo de uma escola de samba há alguns anos.
Onde não existe unidade de saúde, onde falta água tratada e potável, onde não existe escola pública de qualidade, onde não existe arborização para mitigar o calor, onde não existe pavimentação, onde a grande maioria é de desempregados ou subempregados, explorados e, o pior ainda, onde as pessoas sofrem todas as formas de violência, são escravizadas e prisioneiras do crime organizado, traficantes e milícias.
Estar, morar ou habitar em áreas com essas características, como acontece com mais de 150 milhões de pessoas que não têm moradia digna no Brasil, contrasta muito com os bairros ricos e de classe média alta, geralmente cercados com muros altos, cercas eletrificadas, com guarda privada armada, com todo o conforto, mas que são verdadeiros “guetos” ou “apartheids” sociais, culturais e econômicos.
Diante da triste realidade habitacional existente no Brasil, cujo diagnóstico, como estampado no Texto-Base da Campanha da Fraternidade de 2026, na parte relativa ao VER, ou seja, o diagnóstico desta triste realidade em que vivem milhões de famílias na pobreza e insegurança habitacional, insegurança alimentar e insegurança econômica e social, é fundamental que esta realidade seja “iluminada” com as luzes do Evangelho, das Encíclicas e Exortações dos Papas e da Doutrina Social da Igreja, cujos fundamentos estão na Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, que no dia 15 de maio próximo estará completando 135 anos, sendo sempre atualizada para atender aos reclamos e desafios da atualidade.
Cabe ressaltar e relembrar que, da mesma forma que o Papa Francisco inspirou-se em São Francisco de Assis ao adotar seu nome, indicando suas preocupações com a Ecologia Integral e com os pobres, também o Cardeal Prevost, ao escolher o nome de Leão XIV, indicou claramente que pretende seguir os passos de Leão XIII e seu compromisso com o aprofundamento da Doutrina Social da Igreja.
Os cristãos em geral e, particularmente, os católicos, aos quais todos os Papas são seus pastores universais, como ocupantes da “Cátedra” de São Pedro, Bispos de Roma, em torno dos quais se mantém a unidade da Igreja, tendo Cristo como seu guia maior, devem estar atentos para os preceitos evangélicos e doutrinários em relação aos pobres.
É fundamental também, como tem insistido o Papa Leão XIV, que precisamos revisitar as conclusões e preceitos doutrinários aprovados no Concílio Vaticano II (1962–1965), que promoveu uma profunda reforma na Igreja Católica, principalmente quando a Igreja, voltando aos primórdios dos Evangelhos e aos ensinamentos de Jesus, faz a opção preferencial pelos pobres.
Uma Igreja ou uma religião que faz a opção preferencial pelos pobres não pode estar ao lado e abraçada com os ricos, os poderosos, com os donos do poder, com os barões da economia que oprimem os pobres e volta as costas aos oprimidos, injustiçados e violentados; com certeza, está muito distante dos ensinamentos dos Evangelhos. Vide a parábola do Bom Samaritano.
Por isso é que, no caso da Campanha da Fraternidade, um gesto concreto, sem dúvida, é a Coleta Nacional da Solidariedade, que deverá acontecer no dia 29 de março próximo, o Domingo de Ramos. Esta Coleta Nacional da Solidariedade destina-se a contribuir e apoiar financeiramente os projetos sociais de economia solidária da Cáritas Brasileira e das Cáritas Arquidiocesanas ou Diocesanas.
Mas o mais importante é que estejamos ao lado e com os pobres, despertando a consciência de cidadania, embasada na espiritualidade profética e que possibilite a organização da Pastoral da Moradia e Favela em todas as Arquidioceses, Dioceses e Prelazias, como sugere o mesmo Texto-Base, na parte dedicada ao AGIR, onde ainda não esteja presente, como na Arquidiocese de Cuiabá e em todas as Dioceses e Prelazias no Estado de Mato Grosso e nos demais estados do Centro-Oeste, por exemplo.
Somente por meio da Pastoral da Moradia e Favela é que podemos concretizar as lutas, as ações sociotransformadoras e a mobilização profética, de forma contínua, ao longo de todo o ano e de todos os anos, visando políticas públicas que atendam às demandas e desafios da grande maioria da população urbana em nosso Estado e no Brasil.
A moradia digna é a “porta de entrada” para que todos os direitos humanos, sociais, constitucionais e legais sejam conquistados plenamente. Sem moradia digna, não pode haver família vivendo com qualidade de vida e com esperanças renovadas no futuro, principalmente para as próximas gerações.
O Papa Leão XIV, ao escrever seu livro A força do Evangelho: a fé cristã em dez palavras, destaca essas dez palavras fundamentais na caminhada da Igreja e dos cristãos/católicos e, com certeza, também evangélicos e fiéis de outras religiões: 1) a centralidade de Cristo; 2) o coração (o amor) como centro da fé; 3) a Igreja (sinodal, samaritana e profética); 4) a missão da Igreja e dos cristãos como ingrediente fundado na 5) comunhão; 6) a paz, desarmada e desarmante, para romper com o ódio e os conflitos/guerras; 7) os pobres, por quem a Igreja e os Evangelhos fazem a opção preferencial; 8) a fragilidade dos pobres, excluídos e injustiçados; 9) a justiça social (a Doutrina Social da Igreja) como porta de entrada para um mundo melhor, justo e sustentável para todos e todas; e 10) a esperança (que não decepciona) e que nutre as lutas e a caminhada ao lado e com os pobres.
Este livro está sendo considerado o “catecismo” do Papa Leão XIV, que, ao lado da Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), ao tratar em maior profundidade a questão dos pobres, fortalece o embasamento para que a Pastoral da Moradia e Favela seja um instrumento de luta e de inclusão de milhões de famílias que estão à margem da sociedade, condenando milhões e milhões de crianças, adolescentes e jovens a uma vida em que a esperança permanece muito longínqua.
Concluindo, vejamos um recado, enfim, uma exortação oportuna, importante e atual de Leão XIV. Diante da polarização e da prepotência de alguns países, ele adverte que “o ódio e a violência podem expandir-se como um transbordamento contínuo, alimentado por situações de miséria que ferem povos inteiros”.
Diante deste risco, Leão XIV sublinha que “a fraternidade é um caminho realista e necessário: reconhecermo-nos como irmãos constitui um verdadeiro antídoto contra toda forma de extremismo e permite construir vínculos capazes de sarar feridas sociais profundas”.
Diante dessas reflexões é que nós, cristãos, católicos e também, claro, fiéis e adeptos de outras religiões, crenças e filosofias, podemos responder como iremos reagir e agir diante das injustiças, da pobreza e da exclusão tão presentes em nosso país, principalmente para quem luta por moradia popular digna, tendo a Pastoral da Moradia e Favela como um instrumento autêntico de luta e de esperança em cada território onde esta realidade está muito bem presente.
* Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral, ex-secretário de Planejamento e Gestao e ex-ouvidor Geral e ex-diretor Executivo do IPDU da Prefeitura de Cuiabá. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy