*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
O LIXO NOSSO DE CADA DIA - Juacy da Silva
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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JUACY DA SILVA*
Lixo Zero deve ser uma bandeira da verdadeira cidadania ecológica e a chave para uma economia da vida em substituição à Economia da Morte, como atualmente acontece, para dar lugar à Economia de Francisco e Clara, como tanto nos recomendou o Papa Francisco ao longo de seu magistério.
“A terra, nossa Casa Comum, parece transformar-se, cada vez mais, num imenso depósito de lixo. Os resíduos industriais, como os produtos químicos utilizados nas cidades e nos campos, produzem um efeito de bioacumulação nos organismos dos moradores nas áreas limítrofes... Muitas vezes só se adotam medidas corretivas quando já se produziram efeitos irreversíveis na saúde (e na vida) das pessoas.” Papa Francisco, Laudato Si, 24 de maio de 2015.
“O mundo está sendo inundado por lixo plástico. Se as tendências atuais continuarem, em 2050 nossos oceanos terão mais plástico do que peixes, por isso é urgente o combate a todas as formas de poluição. O mundo deve se unir para vencer a poluição por plásticos.” António Guterres, Secretário-Geral da ONU, pronunciamento por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, junho de 2018.
Tendo em vista a gravidade da poluição e da degradação ambiental produzidas pela geração de resíduos sólidos/lixo em todos os países e os impactos econômicos, sociais e políticos, com índices muito superiores ao crescimento demográfico, à urbanização e ao crescimento do PIB mundial, a ONU, em sua Assembleia Geral de 14 de dezembro de 2022, proclamou que, anualmente, 30 de março passaria a ser considerado o DIA INTERNACIONAL DO LIXO ZERO.
A primeira celebração com o aval da ONU e de inúmeros países ao redor do mundo aconteceu em 2023, abordando os impactos do aumento acelerado da geração de lixo e a falta de um cuidado melhor tanto na economia quanto na saúde humana.
Em 2025, o tema que serviu de base ou foco das celebrações foi "Rumo ao desperdício zero na moda e nos têxteis", destacando a necessidade de sustentabilidade na indústria têxtil.
Em 2026, o tema do Dia Internacional do Lixo Zero é “Reduzindo o desperdício de alimentos”, para combater a degradação ambiental, as mudanças climáticas e aumentar a segurança alimentar, tendo como slogan “Lixo zero começa em seu prato”.
Todavia, o movimento pela redução da geração de resíduos sólidos e os vários tipos de lixo teve início nos Estados Unidos bem antes de a ONU criar oficialmente um dia especial para conscientizar a população mundial e também os vários níveis de governo e as empresas a investirem mais em reciclagem e na economia circular, dando mais “vida” aos produtos através do reaproveitamento do que aparentemente não tem mais utilidade, mas que, no contexto da economia circular, onde a reciclagem é um passo importante, torna-se matéria-prima para novos produtos, reduzindo, assim, os impactos negativos que o aumento da geração de lixo impõe ao planeta e à vida humana principalmente.
O movimento Lixo Zero teve início na década de 1970, na Califórnia, EUA, mas só ganhou força a partir dos anos 90, quando se espalhou pelo mundo. No Brasil, a iniciativa começou a se popularizar na década de 2000, com a publicação do livro “Lixo Zero: a Revolução da Reciclagem”, de Bea Johnson.
Em 2010 foi fundado o Instituto Lixo Zero Brasil, uma organização sem fins lucrativos que promove a disseminação do conceito no país através de cursos, workshops, seminários, palestras e consultorias.
Outro marco significativo ocorreu em 2015, quando a ONU estabeleceu os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a Agenda 2030, para orientar a definição de políticas públicas nos diversos países, visando a sustentabilidade como fundamento básico dos sistemas econômicos que respeitem a natureza (“recursos naturais” finitos), respeitem os consumidores (reduzindo o marketing que estimula um consumismo desenfreado e um desperdício sem limites), respeitem os trabalhadores e também respeitem as futuras gerações, considerando que o planeta Terra tem um limite e não “aguenta” uma exploração irracional como acontece com os atuais sistemas econômicos. Este limite é denominado “ponto do não retorno”.
A economia circular, da mesma forma que a economia solidária e a agroecologia, combatem essas distorções dos atuais sistemas produtivos e de consumo. Esses foram os fundamentos dos ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), principalmente o número 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis, buscando tornar as cidades seguras e sustentáveis, em que a questão da geração, tratamento e gestão dos resíduos sólidos é uma dimensão super importante, e também o ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis, buscando garantir padrões de consumo e produção sustentáveis, principalmente ao estimular uma redução do consumismo e do desperdício, que são os fatores determinantes na produção de lixo e, também, uma ênfase na economia circular.
A economia circular, além de reaproveitar o que é descartado pelas empresas e pelas famílias, transformando “lixo” em matéria-prima para novos produtos, também estimula uma mudança dos hábitos de consumo e estilo de vida perdulários e do desperdício.
Anualmente o mundo perde em torno de 200 bilhões de euros, ou R$ 1,2 trilhão, por não reciclar e reaproveitar produtos e materiais que podem ser reciclados, e no Brasil, conforme matéria do site Sustentabilidade Brasil de 12/08/2024, este “prejuízo”, por deixar de reciclar, é de R$ 120,0 bilhões anualmente, um volume superior, quase o dobro do destinado, por exemplo, para a agricultura familiar pelo Governo Federal em 2024, que foi de R$ 64,9 bilhões.
Todo este movimento decorre da gravidade da situação do “lixo”, resíduos sólidos no mundo, em que os padrões de consumo, principalmente nos países desenvolvidos, estão colocando em risco a vida do e no planeta.
Só para termos uma ideia, em 1970, a geração de lixo foi de 0,64 bilhão de tonelada (ou seja, “apenas” 640 milhões de toneladas/ano), passou para dois bilhões de toneladas em 2020, com previsão de chegar a 3,8 bilhões de toneladas em 2050, ou seja, um crescimento de 212,5% entre 1970 e 2020, e 90% entre 2020 e 2050.
Entre 1970 e 2050, ou seja, em menos de um século, o aumento do volume da geração/produção de lixo deverá ser de 493,75%. Neste mesmo período, o crescimento da população mundial foi de “apenas” 164,9%, ou seja, menos da metade do aumento da geração de lixo.
Em termos de produção de lixo per capita ao ano, também podemos observar este crescimento “exponencial”. Em 1970 cada habitante do planeta, em média, produzia 172 kg, ou seja, 0,47 kg (menos de meio quilo por dia), passou para 256 kg ao ano em 2020 (0,70 kg/dia) e a previsão é de que em 2050 a produção per capita ao ano seja de 388 kg, um pouco mais de 1,06 kg/dia, um crescimento de 225,5% entre 1970 e 2050.
No entanto, esses indicadores representam uma “média” mundial e não refletem a diferença quanto à produção de lixo entre países desenvolvidos, principalmente da Europa, América do Norte e alguns países asiáticos, e países de outros continentes, de menor renda per capita e de PIB nacional, como na África, a maior parte da Ásia e América Latina e Caribe.
Os dez países que mais produzem lixo são os seguintes: Estados Unidos, que lideram em volume total e lixo plástico; China, que é o maior produtor de lixo plástico e eletrônico; Índia, que ostenta um alto volume devido à população, a maior do mundo atualmente; Brasil, que é o 4º maior produtor mundial de lixo em geral e em lixo plástico em particular, apesar de ser a 10ª maior economia do planeta; e depois vêm a Indonésia, a Rússia, a Alemanha, o Reino Unido, o Japão, que também é um dos líderes mundiais na produção de plásticos, e a Arábia Saudita, que também tem uma grande produção de lixo e de resinas plásticas.
Os dez países que mais produzem lixo são responsáveis por mais de 70% de todo o lixo gerado no mundo em 2025, com média de mais de 1,3 kg per capita/dia, bem acima da média mundial, demonstrando que, da mesma forma que são os maiores poluidores em geral, também são os maiores geradores de lixo, principalmente lixo plástico e, mais recentemente, lixo eletrônico.
Apesar da gravidade da situação do lixo na grande maioria dos países, a presença da economia circular e os índices médios de reciclagem são bastante variáveis. Por exemplo, a Europa Ocidental apresenta um índice de 56% de reciclagem; a América do Norte (que inclui Canadá, Estados Unidos e México) a reciclagem fica em apenas 37%; a América do Sul recicla apenas 6% do lixo produzido; e o Brasil, apesar de ser o quarto maior produtor de lixo, só recicla 4%, bem abaixo da média dos países desenvolvidos e até mesmo da média mundial de reciclagem, que em 2025 foi de 6,9%. Isto demonstra que ainda estamos muito aquém de uma gestão correta e recomendável dos resíduos sólidos, principalmente de plásticos.
De acordo com dados recentes do Ministério das Cidades (SINISA, 2024), apenas 1.300 cidades, ou seja, 36,7% dos municípios brasileiros, tinham coleta seletiva e reciclagem. Em termos de população, apenas 22% dos habitantes do país são atendidos por reciclagem e coleta seletiva.
O panorama é bem variável e distinto entre as regiões. Na Região Norte, apenas 23 cidades têm reciclagem, ou seja, 5,9% das cidades e 4,8% da população; na região Nordeste, 124 cidades, apenas 9,4% dos municípios e 4,4% da população; já na Região Sul, 516 cidades, 46,1% dos municípios têm reciclagem; na Região Sudeste, são 543 cidades, 36% dos municípios e 44,6% da população; finalmente, na Região Centro-Oeste, apenas 94 cidades têm reciclagem, o que representa 22,3% dos municípios e 45,5% da população.
Mais da metade das cidades com 100 mil habitantes ou mais, incluindo diversas capitais, como Manaus, Belém, Cuiabá, Porto Velho e outras, ainda continuam destinando o lixo para lixões a céu aberto ou incinerando, apesar da lei que regulamenta a questão dos resíduos sólidos ter sido aprovada em 2010.
O marco dos resíduos sólidos no Brasil, conhecido como Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), foi aprovado e sancionado em 02 de agosto de 2010. Instituída pela Lei 12.305, essa legislação define diretrizes, obrigações e metas para a gestão de lixo no país, incluindo a responsabilidade compartilhada.
Diante desses números e indicadores, percebemos a importância de um Dia Internacional do Lixo Zero, para possibilitar uma reflexão mais crítica e construtiva em relação a esta questão e, ao mesmo tempo, pressionar os governantes para que definam e implementem políticas públicas voltadas para os problemas e desafios socioambientais, inclusive em relação aos resíduos sólidos/lixo, envolvendo poderes públicos, empresariado, as diversas organizações não governamentais e a população em geral.
De leis, regulamentos, estudos e discursos sobre questões ambientais e em relação ao lixo, o Brasil e diversos países já estão “cheios”; faltam, na verdade, ações concretas, pois somente as ações transformam a realidade!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram: @profjuacy
ÁGUAS E FLORESTAS 2026 - Juacy da Silva
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
Ao publicar a Encíclica Laudato Si, em maio de 2015, o Papa Francisco, um verdadeiro apóstolo da Ecologia Integral, enfatizava que “tudo está estreitamente interligado no mundo”, em nossa Casa Comum, o Planeta Terra.
Neste final de semana celebramos dois momentos significativos que é o DIA INTERNACIONAL DAS FLORESTAS, criado por Resolução da Assembleia Geral da ONU em 28 de novembro de 2013, e celebrado anualmente, desde então, em 21 de março, com o objetivo de despertar a consciência das pessoas e podermos refletir sobre a importância das florestas no equilíbrio socioambiental, principalmente em relação ao clima e, também, a estreita relação que existe entre as florestas e a questão da água, duas dimensões fundamentais para o bem-estar e a qualidade de vida das atuais e futuras gerações.
Sem florestas, os rios secam, as nascentes morrem, as pessoas e animais não sobrevivem e, o pior, o regime de chuvas é alterado, provocando secas intensas em alguns lugares e chuvas torrenciais em outros, ou seja, o equilíbrio ambiental cede lugar aos desastres “naturais”, com impactos devastadores, como temos observado com maior frequência década após década, ano após ano no Brasil e em tantos outros países.
As árvores e as florestas desempenham um grande papel também como mecanismo de sequestro dos gases de efeito estufa que são produzidos por diversos fatores, como a queima de combustíveis fósseis, estocando no solo e subsolo esses gases.
Com a destruição das florestas, seja pelo desmatamento ou por queimadas, inclusive as de natureza criminosa, além de perderem esta capacidade/função de sequestrar os gases de efeito estufa, também bilhões de toneladas desses gases que foram sequestrados e “armazenados” embaixo das florestas são liberados, contribuindo ainda mais para o aquecimento global e as temíveis mudanças climáticas.
Por isso é que o Brasil, apesar de ter uma matriz energética considerada razoavelmente limpa, pelo uso de fonte hídrica, devido à destruição de suas florestas, principalmente dos biomas Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Caatinga e, mais ainda, a Amazônia, ocupa um lugar de destaque nas emissões de gases de efeito estufa.
No Brasil, ao longo dos últimos 40 anos, entre 1985 e 2025, foram desmatados/destruídos mais de 120 milhões de hectares de florestas nativas. Demorou e ainda está demorando muito para que nossos governantes, nossos empresários, principalmente do setor agropecuário, percebessem que o desmatamento, as queimadas e a degradação dos solos, erosão, têm um impacto profundo não apenas na economia, mas também no equilíbrio ambiental e na saúde humana.
De acordo com matéria divulgada pela Agência Brasil, utilizando dados de diversas fontes, inclusive do MapBiomas, em 05 de julho de 2024, a estimativa em relação ao tamanho das áreas degradadas em nosso país até aquele ano variava entre 60 milhões de hectares e 135 milhões de hectares, ou seja, uma média de aproximadamente 100 milhões de hectares de áreas outrora ocupadas por florestas e que atualmente não têm mais fertilidade e causam impactos extremamente negativos tanto ao meio ambiente quanto à economia nacional.
Outras fontes destacam que o tamanho das áreas de florestas que hoje são terras degradadas pode ser superior a 140 milhões de hectares, área maior do que a ocupada tanto por agricultura quanto por pastagens.
O desmatamento, queimadas, áreas degradadas causam um grande impacto não apenas no Brasil, mas na quase totalidade dos países, principalmente aqueles que têm florestas tropicais, como a Amazônia, as florestas do Congo e também de diversos países asiáticos.
Nas décadas de 1980 até o ano 2000, a média anual de destruição das florestas ao redor do mundo era de 17,6 milhões de hectares, ou seja, em 20 anos o mundo “perdeu” em torno de 352 milhões de hectares de florestas nativas.
Mesmo que este processo de destruição tenha sido “reduzido bastante”, a destruição anual das florestas mundiais entre 2000 e 2015 foi de 11 milhões de hectares, “caindo” para 10,9 milhões de hectares entre 2015 e 2025. Isto significa que nos últimos 25 anos mais de 273 milhões de hectares foram desmatados mundo afora.
O impacto deste processo de destruição de florestas tem afetado todos os países, tanto no aspecto da degradação dos solos, na destruição das nascentes, na evapotranspiração das florestas que alimentam os chamados “rios voadores” e no regime de chuvas, como já mencionamos, ou seja, sem florestas as fontes de água doce e inclusive as águas subterrâneas, como os aquíferos, são afetadas drasticamente, contribuindo para a crise hídrica já presente em mais de uma centena de países, inclusive no Brasil, que tanto se ufana de ter a “maior reserva” de água doce do planeta, mas que pouco tem feito para reduzir os impactos da crise hídrica nas regiões mais populosas do país, como as regiões metropolitanas de São Paulo e outras mais, que já enfrentam sérios problemas de abastecimento urbano.
De forma semelhante, a questão da água ou das águas tem sido objeto de reflexão, debate e preocupação desde a realização da 1ª Conferência Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em Estocolmo em 1972.
Todavia, só na Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992, a chamada ECO 92, quando foi aprovada a Carta da Terra, é que, por resolução da ONU, foi criado o Dia Mundial da Água, a ser celebrado anualmente em 22 de março. A primeira celebração ocorreu em 1993 e, desde então, a cada ano um tema é escolhido para orientar essas celebrações.
Em 2025 o tema foi “Preservação das geleiras” e neste ano de 2026 o tema é “Água e Gênero”, com destaque para a luta por justiça climática e justiça de gênero, tendo em vista o papel da mulher em relação à questão da água, por ser a mulher quem mais de perto assume os cuidados com a moradia.
Tendo em vista tanto o desmatamento quanto as queimadas e a degradação dos solos que afetam profundamente a questão da água, ainda temos mais outro fator que também afeta tanto os sistemas de abastecimento quanto a qualidade da água, que é o acelerado processo de urbanização, que aumenta o volume de resíduos sólidos/lixo e a falta/precariedade do sistema de esgotamento sanitário, contribuindo para a degradação da qualidade da água a ser utilizada no abastecimento urbano.
Quando refletimos sobre a questão da água, não podemos deixar de mencionar também o impacto causado pelos agrotóxicos, pelo mercúrio e pelos rejeitos de garimpos ilegais e mineração em todos os biomas, principalmente no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia, afetando a qualidade de todas as fontes de água.
Apesar do crescimento também acelerado da economia mundial (PIB) ao longo dos últimos 50 anos, no mundo atualmente mais de 2,1 bilhões de pessoas (25% da população mundial) não tinham acesso à água potável e mais de 3,4 bilhões de pessoas não tinham acesso a saneamento básico (Fonte Agência France Presse, 26 agosto 2025).
Em alguns países da África, da América Latina e na Ásia mais de 50% da população desses países não tem acesso à água potável e mais de 90% não tem acesso ao saneamento básico, afetando profundamente a qualidade de vida dessas populações.
Mesmo o Brasil, que não é um país pobre, estando entre as 8, 10 ou 12 maiores economias do mundo, mas cujos governantes têm considerado moradia, água, saneamento básico e meio ambiente (florestas, por exemplo) apenas como mercadorias, sujeitos apenas às leis do mercado e não como direitos humanos fundamentais à dignidade das pessoas, também ostenta índices vergonhosos nesses aspectos.
Conforme matéria amplamente divulgada nesta semana (18 março de 2026), quase 90 milhões de brasileiros não possuem acesso a redes de coleta de esgoto. Isso representa mais de 40% da população. O dado faz parte do Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil.
Cabe ressaltar que percentualmente esses índices são muito mais precários nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para as cidades maiores, o que nos permite deduzir que a situação nas demais cidades (menores) e na área rural, o Brasil ostente índices e indicadores semelhantes a diversos países extremamente pobres da América Latina, Ásia e África.
Em relação à água tratada, potável e de qualidade, a situação no Brasil ainda deixa muito a desejar, tendo em vista que mais de 32 milhões de pessoas continuam sem acesso à água tratada no meio urbano e dificilmente este “déficit” será solucionado a curto e médio prazo, tendo em vista tanto o crescimento das cidades quanto o uso da água para atividades econômicas rurais e urbanas pelos respectivos setores econômicos/produtivos, que demandam muito mais água do que o abastecimento para fins de consumo humano/familiar.
A falta de acesso à água potável, tratada, tem causado a morte de 1,4 milhão de pessoas todos os anos, ao redor do mundo, ou seja, desde a criação do Dia Mundial da Água em 1992, em torno de 35 milhões de pessoas já morreram de diarreia, cólera, febre tifoide e outras doenças relacionadas com a questão da água, tragédia muito maior e muito pior do que a recente pandemia de COVID-19, que tanto sofrimento e vidas ceifou.
De forma semelhante, também o impacto da falta de saneamento na vida e na saúde das pessoas tem contribuído para milhões de mortes desnecessárias e “evitáveis” no Brasil e no mundo.
Em 2024, no Brasil, por exemplo, mais de 340 mil pessoas foram hospitalizadas em decorrência de problemas relacionados à falta de saneamento, à falta de água tratada, causando um impacto significativo na saúde pública e também para o orçamento das famílias.
Tanto em relação ao desmatamento quanto às queimadas, à destruição das nascentes, à erosão, considerando o ritmo atual da implementação de políticas públicas nesta área, o Brasil ainda vai precisar de várias décadas para ostentar índices compatíveis com os cuidados necessários, fruto inclusive de acordos internacionais firmados pelo nosso país, como no Acordo de Paris.
Em relação às questões da água e do saneamento básico, a situação também não é nada animadora. Alguns estudos indicam que, se apenas os atuais níveis de investimento nessas áreas forem mantidos como atualmente acontece, ainda levaremos pelo menos mais 3 ou 4 décadas para universalizar o acesso à água tratada e ao saneamento básico. Até lá, centenas de milhares de pessoas, principalmente crianças e idosos, vão morrer de causas plenamente evitáveis, ou seja, mortes prematuras que poderiam ser eliminadas em nosso país e também ao redor do mundo.
Concluindo, quem mais sofre com o desmatamento, com as queimadas, com a degradação socioambiental, com a falta de acesso ao saneamento básico e à água potável/tratada e com os “desastres” ecológicos são os pobres, excluídos, oprimidos e injustiçados, como sempre enfatizou o Papa Francisco e também tem enfatizado o Papa Leão XIV, quando afirmam que “o clamor/grito da terra é também o clamor dos pobres e excluídos”.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste.
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Juacy da Silva*
A cada dia presenciamos o aumento de “desastres naturais”, como mais furacões, tornados, chuvas torrenciais, maremotos, secas prolongadas, ondas de calor extremo e também de frio extremo, impactando milhões e bilhões de pessoas ao redor do mundo, com enormes prejuízos materiais, sofrimento e mortes que poderiam ser evitadas, se cuidássemos melhor do planeta.
Instituições nacionais e internacionais têm produzido estudos e pesquisas com dados e informações científicas sobre o aquecimento global, sobre as mudanças climáticas que dentro de poucos anos poderão superar a meta aprovada no Acordo de Paris, de 1,5º graus acima da média histórica, quando do início do período da industrialização, e até mesmo os temíveis 2,0º acima daquele limite, considerado o chamado “ponto do não retorno”, que poderá inviabilizar todas as formas de vida no planeta, principalmente a vida humana, afetando vários bilhões de pessoas.
O despertar da conscientização mundial sobre as mudanças climáticas é o único caminho a seguir, é uma urgência crítica, focada não apenas em mitigar os impactos de gases de efeito estufa (GEE): petróleo, gás natural e carvão, componentes principais da matriz energética e elétrica da maior parte dos países, gerados por atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento, o aumento da produção de lixo, a elevação da temperatura média das águas dos oceanos e, finalmente, a tão temível crise climática que já está entre nós.
Por isso foi criado o DIA NACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS, a ser celebrado no dia 16 de março no Brasil, inspirado no Acordo de Paris e nos ODS, aprovados em 2015 pela ONU.
O Dia Nacional de Conscientização sobre as mudanças climáticas foi instituído pela Lei Federal 12.533/2011, durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, em uma referência direta ao Protocolo de Kyoto, aprovado durante a COP 3, em 1997, no Japão, ou seja, há quase 30 anos, sendo um dos primeiros tratados internacionais que demonstrou a urgente necessidade da redução das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis diretos pelo aumento do aquecimento global e pela crise climática e seus impactos.
A ONU também “celebra” o Dia Mundial da Conscientização sobre as mudanças climáticas por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente em 05 de junho e também em 23 de março, Dia Mundial da Meteorologia, e através do estímulo à implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, principalmente o ODS 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima, aprovados também em 2015 e que fazem parte da Agenda 2030, tendo como objetivo combater as alterações climáticas e seus impactos e como foco a resiliência, a adaptação e a redução das emissões desses gases de efeito estufa e, também, uma mudança radical, uma transformação profunda em nossos hábitos e estilos de vida, enfim, mudanças essas que contribuem para o surgimento de um novo modelo de economia, como a Economia de Francisco e Clara.
Diante disso, os cristãos em geral e a Igreja Católica em particular, dando seguimento às exortações apostólicas e à Encíclica Laudato Si, publicada também em 2015 pelo Papa Francisco, que oferecem subsídios e novas bases de conhecimento e inspiração, através da Espiritualidade Ecológica, e, assim, contribuirmos para este despertar da consciência ecológica, individual e, também ou principalmente, coletiva, comunitária.
Por isso, cuidar da Casa Comum, do planeta e lutar pela Ecologia Integral não é algo opcional aos cristãos, principalmente aos católicos; para tanto, precisamos mudar radicalmente nossos hábitos que impactam negativamente o meio ambiente e substituirmos a omissão (que é um pecado pela doutrina católica) pela conscientização e por ações sociotransformadoras.
Como bem disse e escreveu o Papa Francisco: “O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos (governantes, empresários, consumidores, trabalhadores, enfim, a população em geral)”.
Além disso, ele (Papa Francisco, que também tem sido seguido pelo Papa Leão XIV) insistia que “A Igreja, com sua ação, como por exemplo através da Pastoral da Ecologia Integral, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza, mas também proteger o ser humano de sua própria destruição, pois, afinal, ‘o clamor/grito da terra é também o clamor, gemido e grito dos pobres, excluídos e injustiçados’, pois são esses as maiores vítimas das mudanças climáticas e das tragédias ambientais”.
A partir do Magistério do Papa Francisco, a Ecologia Integral passou a fazer parte da Doutrina Social da Igreja e, neste contexto, está umbilicalmente ligada à opção preferencial pelos pobres que a Igreja tem feito ao longo de milênios, mas de uma forma mais enfática e clara nas conclusões do Concílio Vaticano II, que precisa ser resgatado por fiéis e também pela hierarquia eclesiástica.
Diante disso, podemos afirmar com certeza que você, como cristão, católico, cidadão, contribuinte e também pertencente a outras religiões, pode fazer a diferença, mudando seus hábitos de consumismo, de desperdício e de destruição da natureza, que contribuem para a degradação do meio ambiente e fazem parte da CRISE CLIMÁTICA, que a cada ano está se tornando mais grave e mais recorrente, com impactos cada vez mais terríveis.
Este despertar da consciência ecológica também abrange o que denominamos de mobilização profética e a luta por políticas públicas que cuidem melhor do meio ambiente e de nosso sofrido planeta.
Por isso, diga NÃO ao consumismo, ao desperdício, à geração de mais lixo, aos agrotóxicos, ao desmatamento, às queimadas, às invasões dos territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos, à destruição da biodiversidade, à poluição das águas e do ar, à degradação promovida pela mineração e garimpos ilegais e à maior causa do aquecimento global, que são os combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão). Isto tem um nome: A LUTA PELA SUSTENTABILIDADE.
Tudo isso está ao seu alcance, basta despertar a sua consciência ambiental, ecológica e juntar-se a outras pessoas de sua comunidade, sua cidade, sua paróquia, sua Igreja e aí, juntos, podemos fazer uma grande diferença.
Além disso, precisamos nos unir para uma grande MOBILIZAÇÃO PROFÉTICA PLANETÁRIA e lutar contra os modelos econômicos que não respeitam a natureza, nem os trabalhadores e muito menos os consumidores e as futuras gerações.
Esses modelos foram condenados pelo Papa Francisco, que os denominava de Economia da Morte, que precisam ser substituídos pela ECONOMIA DA VIDA, fundada na Economia Solidária, na agroecologia e na produção orgânica, garantindo uma qualidade de vida digna para as atuais gerações e também para as gerações futuras.
A conscientização sobre os riscos e impactos das mudanças climáticas é o primeiro passo para as ações sociotransformadoras e, neste contexto, cabe um destaque ao papel da Educação Ambiental, Educação Ecológica Libertadora, tanto na escola, em todos os níveis, da educação infantil até a universidade, bem como componente dos movimentos sociais, populares, ONGs e, também, nas igrejas.
Vale a pena destacar qual deveria ou deve ser o papel da educação ambiental libertadora para o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si: “A educação ambiental (libertadora) deveria predispor-nos a darmos um salto para o mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo”.
Assim, uma educação ambiental libertadora, juntamente com ações sociotransformadoras, abre caminho para a plenitude da sustentabilidade e novas formas de organização da sociedade e dos sistemas econômicos.
Isto é o que podemos denominar de uma verdadeira cidadania ecológica, onde existe um profundo respeito pelo meio ambiente, pelas obras da criação e também o respeito à dignidade dos trabalhadores, dos empresários e consumidores, com os olhos postos nas futuras gerações, ao respondermos à indagação: “que planeta queremos ou vamos deixar para as próximas e futuras gerações?”
Pense nisso. Esta deve ser a essência da mensagem neste Dia Nacional e Mundial de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, neste 16 de março de 2026.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
Após pressão indígena, governo Lula revoga decreto de concessão de hidrovias na Amazônia
O governo federal revogou, nessa segunda-feira (23), o Decreto 12.600/2025, que autorizava a concessão de hidrovias na Amazônia, incluindo trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. A medida ocorre após forte mobilização de povos indígenas e comunidades tradicionais no Pará.
Foto: Movimento Tapajós Vivo
O decreto vinha sendo alvo de protestos desde janeiro. Em Santarém, indígenas ocuparam por mais de um mês o porto da multinacional Cargill, em um movimento que ganhou repercussão nacional. Após a revogação da norma, as lideranças informaram que desocuparão a área em até 48 horas.
As organizações indígenas denunciaram que o projeto poderia impactar territórios tradicionais, modos de vida e o equilíbrio ambiental da região, sobretudo com a ampliação da navegação de grande escala para o escoamento de grãos. Outro ponto central das críticas foi a ausência de consulta livre, prévia e informada às comunidades potencialmente atingidas, direito garantido pela Organização Internacional do Trabalho por meio da Convenção 169.
Para a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), a revogação da norma representa uma conquista construída com resistência e unidade. Em publicação nas redes, a entidade afirmou que a decisão reafirma que direitos indígenas não são negociáveis e que qualquer medida que impacte seus povos deve respeitar o direito à consulta prévia. A organização também destacou que a mobilização fortalece o movimento indígena na defesa dos territórios, da autonomia e dos direitos constitucionais. “O Tapajós mostrou que a luta organizada é capaz de barrar retrocessos e afirmar nossos direitos constitucionais”, afirmou a Coiab.
Foto: Imagem extraída de vídeo do Cita
Já o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), que representa 14 povos do Baixo Tapajós, também celebrou a decisão. Em publicação nas redes sociais, a entidade afirmou que a conquista é fruto da força coletiva dos povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais. “Nossos rios não são mercadoria, são vida, cultura e futuro. Seguiremos vigilantes, porque quando o povo se levanta, a luta vira vitória!”, declarou.
Mobilização
Desde 22 de janeiro, centenas de indígenas e integrantes de movimentos sociais protagonizaram mobilizações em Santarém (PA) contra o projeto de concessão e dragagem do Rio Tapajós, ocupando o porto da Cargill na cidade. A pressão levou o governo federal a suspender o pregão eletrônico para a dragagem da hidrovia, que estava sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
Apesar da suspensão da licitação, o decreto que autorizava a concessão das hidrovias permaneceu em vigor, até a revogação anunciada nessa segunda (23). Por isso, as e os manifestantes intensificaram as ações com a realização de barqueatas, o fechamento do aeroporto local, a ocupação do escritório da multinacional e manifestações em frente ao prédio da Cargill, em São Paulo.
Além dessas ações diretas, o movimento também protocolou na Câmara Municipal um pedido de impeachment do vereador Malaquias Mottin (PL), acusado de avançar com um carro contra manifestantes durante ato no porto.
Fonte: Andes-SN
Em defesa do Tapajós, indígenas mantêm ocupação de porto da Cargill em Santarém (PA)
Governo federal suspende edital de drenagem, mas mobilização cobra revogação de decreto
Representantes de povos indígenas do Baixo Tapajós e de movimentos sociais mantêm a ocupação da área da Cargill no porto de Santarém (PA), iniciada em 22 de janeiro. Após muita pressão da mobilização, inclusive com o fechamento do aeroporto de Santarém (PA) no último dia 4, o governo federal suspendeu o Pregão Eletrônico nº 90515/2025, cujo objeto é a contratação de empresa especializada para a execução do Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária (PADMA) na Hidrovia do Rio Tapajós, sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
Foto: Cita / @vittiin_silva2006
Em nota publicada na sexta-feira (6), o governo informou que irá instituir um Grupo de Trabalho Interministerial, com a participação de órgãos e entidades da administração pública federal, bem como de representantes indicados pelos povos indígenas da região do Rio Tapajós com a finalidade de discutir, sistematizar e orientar os processos de consulta livre, prévia e informada; e apresentar, em diálogo com os povos indígenas, o cronograma dos processos de consulta livre, prévia e informada referente à Concessão da Hidrovia do Tapajós. Também já foram realizadas reuniões entre representantes do Executivo Federal e dos povos indígenas.
Porém, as e os manifestantes permanecem ocupando a área e comunicaram que só encerrarão a ocupação após a publicação, em diário oficial, da revogação do Decreto nº 12.600/2025, que incluiu trechos hidroviários no rio Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND) e pretende transformar o rio em um canal industrial para o agronegócio. Segundo o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), além da revogação, o grupo também pede a anulação do pregão e a publicação dos atos no Diário Oficial.
No domingo (8), foi realizada uma caminhada na orla de Santarém, reunindo o movimento indígena e diversos movimentos sociais comprometidos com a defesa da vida e do território. “Seguimos nas ruas e na orla de Santarém porque o rio não é mercadoria, é ser vivo, é ancestralidade, é existência. Contra a dragagem e contra os decretos que ameaçam nossos territórios, seguimos firmes, com coragem e coletividade. Defender o Tapajós é defender a vida”, afirmou o Cita em suas redes sociais.
Foto: Cita / @kamsampaio
Nesta segunda-feira (9), 19º dia de ocupação do porto da Cargill, manifestantes foram à Câmara Municipal de Santarém para protocolar o pedido de impeachment do vereador Malaquias Mottin (PL). Na última quinta-feira (5), o vereador avançou com seu automóvel contra indígenas que estavam na barreira de contenção da ocupação. “Não aceitaremos violência, intimidação ou criminalização da luta indígena. Quem ataca o nosso povo não pode nos representar. Nossa presença é resistência. Nossa luta é pela vida, pelo Rio Tapajós e pelo respeito aos povos indígenas”, afirmou o Cita.
Fonte: Andes-SN (com informações do Cita e Tapajós de Fato)
7 anos após crime em Brumadinho (MG), outras duas minas da Vale registram vazamento
Desde a data que marcou os 7 anos do crime da Vale em Brumadinho (MG), domingo (25), outras duas minas da empresa registraram vazamento, na cidade de Congonhas (MG). O primeiro problema ocorreu na madrugada do dia 25, na mina de Fábrica, e o segundo, na segunda-feira (26), na mina de Viga.
Foto: Divulgação / Defesa Civil de Congonhas
Não houve feridos. No entanto, segundo comunicado da prefeitura de Congonhas, foram identificados danos ambientais “decorrentes do carreamento de sedimentos e assoreamento de cursos d´água afluentes do Rio Maranhão”.
A Vale suspendeu operações nas duas minas, após receber ofício da prefeitura de Congonhas. O governo estadual de Minas Gerais também determinou que a empresa “cumpra imediatamente uma série de medidas emergenciais, incluindo ações de limpeza do local afetado, assim como o monitoramento do curso d´água atingido”.
A Vale também terá de apresentar um plano de recuperação ambiental para limpeza das margens, desassoreamento e outras medidas necessárias à recuperação do curso da água.
Além dessas determinações, a empresa será multada por causar poluição e degradação de recursos hídricos e também por não ter comunicado o acidente em até duas horas a partir da ocorrência.
“O rompimento ocorreu no dia em que se completam sete anos do crime da Vale em Brumadinho, onde 272 pessoas morreram. A empresa nunca foi responsabilizada pelo crime e segue impune, praticando mineração predatória que causa impactos socioambientais nos territórios minerados”, lembrou, em nota, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
Integrantes do MAB estão na região acompanhando o caso e em diálogo com moradores, sindicatos e o poder público. O movimento reforça a necessidade da implementação de todas as exigências da Política Nacional das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), fomentando a participação popular na fiscalização e na transparência de informações, bem como todas as iniciativas que fortalecem as políticas públicas que garantam segurança para os atingidos na região

Mina de Fábrica
No caso do rompimento dessa cava da mina de Fábrica, o material atravessou o dique Freitas e seguiu carreando sedimentos e rejeitos de mineração, provocando impactos ambientais. Houve vazamento de 263 mil metros cúbicos de água turva que continha minério e outros materiais do processo de beneficiamento mineral.
Esse vazamento provocou o alagamento das áreas da unidade Pires, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), localizada em Ouro Preto, onde cerca de 200 trabalhadores ficaram em risco, provocando danos materiais. O abastecimento de água e as operações foram interrompidos.
Depois, essa lama atingiu o rio Goiabeiras, que atravessa parte da área urbana da cidade, antes de se encontrar com o Rio Maranhão, já na área central de Congonhas.
Mina de Viga
Um outro vazamento foi registrado menos de 24 horas depois na mesma região. Desta vez, em um tanque secundário da mina Viga, também da Vale, localizada na estrada Esmeril, a cerca de 22 km do local da primeira ocorrência.
De acordo com a Defesa Civil, também já foi constatado extravasamento de água para o rio Maranhão, que deságua no Paraopeba, o mesmo que passa por Brumadinho (MG) e foi atingido pelo rompimento de uma barragem da Vale, em 25 de janeiro de 2019.
7 anos sem justiça
O rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão em Brumadinho, em 2019, matou 272 pessoas e deixou dezenas de desabrigadas e desabrigados e causou danos ambientais irreparáveis.

Conforme estudos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o rio Paraopeba ainda apresenta contaminação por metais acima dos níveis seguros. Grande parte dos rejeitos permanece no ambiente, e a água segue imprópria para diversos usos, comprometendo modos de vida, trabalho e segurança alimentar das comunidades afetadas.
Segundo o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), além dos danos ambientais, o crime aprofundou a exclusão social e o adoecimento coletivo. Mais de 70% dos domicílios de Brumadinho relatam impactos na saúde mental, como ansiedade, depressão e estresse crônico, aponta uma pesquisa da UFMG.
De acordo com Luiz Paulo Siqueira, biólogo e dirigente nacional do MAM em Minas Gerais, o caso expressa um cenário de “total impunidade, de desapropriação do crime e de aplicação sistemática da lei em favor das empresas”, resultado de um modelo de mineração predatório, orientado pelo lucro, que normaliza a destruição e transfere os danos para as populações afetadas.

No dia 23 de fevereiro devem começar as audiências de instrução na 2ª Vara Federal Criminal da Subseção Judiciária de Belo Horizonte. Até maio de 2027, vítimas não letais, testemunhas e réus serão ouvidos.
Ao final do extenso prazo de audiências, a juíza federal Raquel Vasconcelos Alves de Lima poderá decidir levar o caso para julgamento em júri popular. Quinze pessoas poderão ser responsabilizadas criminalmente. Onze são ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale, privatizada em 1997, e quatro são empregados da TÜV SÜD, empresa multinacional de capital alemão, contratada para monitorar e atestar a qualidade da barragem que rompeu.
Fonte: Andes-SN (com informações da Agência Brasil, do MAB e do MAM)
CALENDÁRIO ECOLÓGICO 2026 - Juacy da Silva
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para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
O final do ano se aproxima, indicando que em breve estaremos em 2026 e, como sempre acontece, precisamos visualizar o que deve acontecer no próximo ano e nos posicionarmos em relação ao futuro que está diante de nós.
Tendo em vista a importância das questões socioambientais, elaboramos um calendário para orientar nossas reflexões e também nossas ações, com o objetivo de enfrentar os principais desafios que estão diante de nós e, assim, cada pessoa, cada instituição pública e privada, incluindo as Igrejas, as Escolas, o empresariado rural e urbano e, também, os meios de comunicação, possam fazer sua parte nesta verdadeira cruzada em defesa de nossa Casa Comum.
Diante da crise climática, que a cada dia está se tornando mais grave, mais frequente e cujas consequências são terríveis, e da degradação dos biomas e ecossistemas, do desmatamento, da destruição das florestas, das queimadas, da poluição em níveis elevadíssimos das águas, dos solos e do ar, da falta de arborização urbana, da fome, da exclusão de bilhões de pessoas pelo mundo afora e milhões no Brasil, é importante, necessário e fundamental que haja um esforço coletivo para enfrentar esses problemas e desafios, antes que todas as formas de vida no planeta, inclusive a vida humana, sejam afetadas profundamente.
Os anos de 2015 e 2025 podem ser considerados “anos emblemáticos” em relação aos desafios socioambientais no mundo. Em 24 de maio de 2015, podemos identificar três marcos significativos para o movimento ambientalista mundial. Em maio daquele ano, o Papa Francisco publicou a Encíclica Laudato Si, um marco na história da Igreja, “resumindo tudo” o que a Igreja, ao longo de décadas ou séculos, havia exortado sobre o meio ambiente, a natureza como Obra da Criação, conectando as questões ambientais à Doutrina Social da Igreja e com a Opção Preferencial feita pela Igreja, principalmente no Concílio Vaticano II.
Em 27 de setembro, a ONU homologou e publicou os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, os ODS, denominados desde então de Agenda 2030, estabelecendo 17 grandes objetivos para ajudar os países a nortearem suas políticas públicas e articularem ações globais, mundiais, para enfrentar os grandes desafios mundiais, inclusive as mudanças climáticas, a destruição da biodiversidade animal e vegetal e as secas e desertificação.
E entre os dias 30 de novembro e 12 de dezembro foi realizada a COP21, tendo como principal resultado e marco o Acordo de Paris, em que a quase totalidade dos países firmou um compromisso internacional no sentido de reduzir e controlar as emissões de gases de efeito estufa (GEE), para que a temperatura média do planeta não exceda 2,0 ºC até o final do século XXI e, se possível, não ultrapasse 1,5 ºC até 2040. O que, diga-se de passagem, já foi ultrapassado em 2024, considerado o ano mais quente em mais de um século e meio.
Pois bem, dez anos depois desses três marcos significativos, o mundo encontra-se em situação socioambiental pior do que em 2015, e foi nesse clima que, há poucas semanas, realizou-se em Belém, Estado do Pará, a COP30, entre muita “pompa e circunstância”, muitos discursos, euforia, discussões, mas que, ao final, trouxe poucos resultados quanto aos principais desafios socioambientais, principalmente quanto ao estabelecimento de um ponto de referência temporal para que o mundo abandone a produção e uso de combustíveis fósseis e promova uma transição energética no contexto da Justiça Climática, da Justiça Social e Intergeracional.
Assim, chegamos ao final de 2025, há apenas cinco anos do marco “final” para que o mundo e todos os países atinjam os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, indicando que estamos perdendo a corrida para as catástrofes socioambientais, que a cada ano estão se intensificando e com mais intensidade e impactos ao redor do mundo.
Todavia, os aspectos cruciais que provocam a degradação socioambiental, o aquecimento global, as mudanças climáticas, o aquecimento e elevação dos níveis e da temperatura das águas dos mares e oceanos, aumentando o risco de deslocamento de bilhões de pessoas que moram em áreas costeiras e em milhares de ilhas em todos os continentes — repito, os principais desafios — sistematicamente, por pressão dos grandes poluidores, têm ficado fora dessas discussões e das ações de mitigação ou resolução dos problemas.
O conhecimento já produzido por inúmeros cientistas, estudiosos e relatórios de organismos de estudos e pesquisas, e também por parte do Painel Intergovernamental do Clima – IPCC, da ONU, tem demonstrado sobejamente que 75% da produção e emissão dos gases de efeito estufa – GEE decorrem do uso de combustíveis fósseis (petróleo e seus derivados), gás natural e carvão mineral, e que 80% dessas emissões são produzidas pelos países ricos ou mais desenvolvidos, ou seja, o famoso G20, do qual o Brasil também participa.
Pelo Acordo de Paris, firmado entre mais de 180 países e territórios em 2015, na COP21, os países ricos e os maiores poluidores se comprometeram a aportar recursos para um fundo a ser utilizado pelos países pobres, que menos poluem, mas que sofrem com as consequências da degradação socioambiental produzida pelos maiores poluidores.
Todavia, esse compromisso tem sido sistematicamente descumprido, e esses mesmos países produtores e consumidores de combustíveis fósseis, inclusive o Brasil, também se recusam a assumir o compromisso de colocar um ponto final, a partir de uma data a ser acordada, no uso desses combustíveis sujos, indicando que a elevação da temperatura média do planeta deverá superar não apenas os 1,5 ºC, mas, certamente, os 2 ºC dentro de poucas décadas, colocando em risco todas as formas de vida no planeta Terra, principalmente a vida humana.
Precisamos de mais ações, de mudanças de estilo de vida, de consumismo, de desperdício, enfim, precisamos de CONVERSÃO ECOLÓGICA e de um pacto global para salvar a ecologia integral, o planeta Terra, nossa CASA COMUM, enquanto é tempo, pois o “ponto do não retorno” já está entre nós.
Além das datas/dias relacionados com eventos ecológicos, cabe registrar que, em 2026, a Campanha da Fraternidade, coordenada pela CNBB e desenvolvida em todas as mais de 12 mil paróquias, em todos os Estados e o DF, terá como tema FRATERNIDADE E MORADIA e, como tal, é um tema umbilicalmente relacionado com a Ecologia Integral, com a pobreza e a exclusão em todas as dimensões.
Existe uma máxima que diz ser importante pensarmos globalmente e agirmos localmente, individual, mas, de preferência, COLETIVAMENTE, cujos resultados terão um maior poder de transformação de estilos de vida e, consequentemente, maiores impactos nas questões socioambientais.
Assim, ao longo do ano de 2026, da mesma forma que em anos anteriores e no futuro, tanto a nível internacional/mundial quanto dos países, inclusive do Brasil, o calendário destaca algumas datas importantes que nos propiciam uma reflexão mais profunda sobre aspectos particulares da ecologia e que devemos aproveitar esses dias ou semanas especiais para celebrarmos, comemorarmos ou inclusive alertarmos a população/opinião pública sobre a importância das diferentes ações que possam estimular mudanças de comportamento, de atitudes e de estilo de vida, que possam contribuir para um melhor cuidado com a Casa Comum, que é o nosso planeta Terra.
Procure saber mais e refletir criticamente, ao longo do próximo ano, sobre esses dias e semanas especiais, voltados para a Ecologia Integral.
CALENDÁRIO ECOLÓGICO DE 2026
JANEIRO
11 — Dia do Controle dos Agrotóxicos
26 — Dia Mundial da Educação Ambiental (ver também 03 de junho)
26 — Dia Internacional da Energia Limpa
31 — Dia do Engenheiro/Engenheira Ambiental
FEVEREIRO
02 — Dia Mundial de Proteção das Zonas Úmidas
06 — Dia do Agente da Defesa Ambiental
07 — Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas
18 — Quarta-feira de Cinzas – Início da CF 2026 Fraternidade e Moradia
20 — Dia Mundial da Justiça Social
MARÇO
01 — Dia do Turismo Ecológico
03 — Dia Mundial da Vida Selvagem
04 — Dia Mundial da Engenharia para o Desenvolvimento Sustentável
05 — Dia Mundial da Eficiência Energética
13 — Dia do Conservacionismo
14 — Dia Internacional contra as Barragens
16 — Dia Mundial da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas
21 — Dia Mundial das Florestas
22 — Dia Mundial da Água (ver também 19 de setembro)
23 — Dia Mundial da Meteorologia
29 — Dia da Coleta Nacional da Solidariedade – Domingo de Ramos
30 — Dia Internacional do Lixo Zero (ver também 29 de setembro)
ABRIL
03 — Sexta-feira da Paixão
05 — Domingo de Páscoa
15 — Dia Nacional da Conservação do Solo (ver também 05 de dezembro)
17 — Dia da Botânica
19 — Dia dos Povos Indígenas – Brasil (ver também 09 de agosto)
22 — Dia da Terra
28 — Dia Nacional da Caatinga
MAIO
11 — Dia Mundial das Aves Migratórias
12 — Dia Nacional da Sanidade Vegetal
16 — Dia do Gari (cuidado com o lixo/resíduos sólidos)
17 — Dia Internacional da Reciclagem (ver também 05 de junho)
20 — Dia Mundial das Abelhas (ver 03 de outubro)
21 — Dia das Plantas Medicinais
22 — Dia Internacional da Biodiversidade Biológica
16 a 24 de maio — Semana Laudato Si
24 — 11º aniversário da publicação da Encíclica Laudato Si
25 — Dia do Trabalhador Rural
27 — Dia Nacional da Mata Atlântica
29 — Dia Mundial da Energia
JUNHO
01 a 08 — Semana do Meio Ambiente
03 — Dia Nacional da Educação Ambiental (ver também 26 de janeiro)
05 — Dia da Ecologia
05 — Dia Mundial do Meio Ambiente
05 — Dia Nacional da Reciclagem (ver também 17 de maio)
05 — Dia Internacional contra a Pesca Ilegal
07 — Dia Mundial da Segurança dos Alimentos
08 — Dia Mundial dos Oceanos
11 — Dia do Educador Sanitário / Educadora Sanitária
17 — Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca
17 — Dia do Gestor Ambiental
30 — Dia Nacional do Fiscal Agropecuário
JULHO
03 — Dia Internacional Sem Sacos Plásticos
12 — Dia do Engenheiro Florestal
13 — Dia do Engenheiro de Saneamento / Sanitarista
17 — Dia Mundial de Proteção das Florestas (ver também 21 de março e 21 de setembro)
26 — Dia Mundial de Proteção dos Manguezais
AGOSTO
08 — Dia Interamericano da Qualidade do Ar
09 — Dia Internacional dos Povos Indígenas (ver também 19 de abril)
10 — Dia dos Pais
10 — Dia Internacional do Biodiesel
10 — Dia da Solidariedade Cristã
12 — Dia Nacional dos Direitos Humanos
21 — Dia Nacional da Habitação
28 — Dia Nacional do Voluntariado
SETEMBRO
1º de setembro a 4 de outubro — Tempo da Criação
01 — Festa da Criação e momento de abertura do Tempo da Criação
01 — Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação
03 — Dia do Biólogo
05 — Dia da Amazônia
05 — Dia Internacional da Sobrecarga de Plásticos (Dia Internacional do Excesso de Plásticos)
07 — Dia da Independência do Brasil
07 — Dia Mundial do Ar Limpo (Combate à Poluição do Ar)
11 — Dia Nacional do Cerrado
16 — Dia Internacional de Luta para a Preservação da Camada de Ozônio
19 — Dia Mundial de Luta pela Limpeza das Águas (ver também 22 de março)
21 — Dia da Árvore (ver também 21 de março e 17 de julho)
22 — Dia Nacional em Defesa da Fauna
25 — Dia da Bandeira dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
29 — Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos (Dia Internacional do Desperdício Zero — ver também 30 de março)
29 — Dia Mundial dos Rios
OUTUBRO
01 — Dia Internacional e Nacional das Pessoas Idosas
01 — Dia do Vegetarianismo
03 — Dia Nacional da Agroecologia
03 — Dia Nacional das Abelhas (ver 20 de maio)
04 — Dia de São Francisco de Assis e encerramento do Tempo da Criação
04 — Dia da Natureza
04 — Dia dos Animais
07 — Dia Mundial do Habitat
12 — Dia do Engenheiro Agrônomo / Engenheira Agrônoma
15 — Dia do Educador Ambiental e Dia do Professor e da Professora
16 — Dia Mundial da Alimentação (fome zero)
17 — Dia da Agricultura
17 — Dia Mundial de Erradicação da Pobreza
31 — Dia Mundial das Cidades
NOVEMBRO
01 — Dia do Veganismo
08 — Dia Mundial do Urbanismo
09 a 16 — Semana Mundial dos Pobres
12 — Dia do Pantanal
16 — Dia Mundial dos Pobres (33º Domingo do Tempo Comum)
20 — Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra (feriado nacional)
DEZEMBRO
05 — Dia Mundial do Solo (ver também 15 de abril)
10 — Dia Internacional dos Direitos Humanos (Meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito de todas as pessoas – ênfase no conteúdo do Art. 225: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”)
Como podemos perceber, ao longo de 2026 teremos inúmeros momentos (pelo menos 78 dias e algumas semanas especiais para a ecologia integral, que aqui estão destacados) para refletirmos sobre aspectos importantes relacionados com a vida no planeta Terra e a CRISE CLIMÁTICA, que a cada dia e ano são mais constantes, cujos efeitos são cada vez mais catastróficos.
Cabe-nos, a todos nós, população em geral, empresários, governantes, lideranças sociais, políticas e religiosas, aproveitarmos esses dias para estimularmos as pessoas e as instituições governamentais e não governamentais, inclusive as religiosas, clubes de serviços, empresários, escolas etc., a dedicarem um pouco de tempo para refletirmos e encontrarmos caminhos e saídas para esta grave crise climática e desafios socioambientais que tanto nos afetam.
Esta é uma forma, também, de praticarmos a Educação Ambiental, na verdade, a EDUCAÇÃO ECOLÓGICA CRÍTICA E LIBERTADORA!
Finalmente, precisamos transformar nossos discursos, nossos sonhos em realidade. Somente as ações produzem transformações socioambientais, mudanças de costumes, de estilo de vida e de sistemas produtivos. Precisamos ter mais respeito pela natureza, pelas Obras da Criação, combatermos o consumismo, o desperdício e a geração de lixo, resíduos sólidos, da mesma forma que precisamos promover uma transição energética justa e rápida. Se o mundo não abandonar a produção e uso de combustíveis fósseis, a tendência será o aumento das catástrofes, e a humanidade terá que conviver com condições extremamente desfavoráveis a todas as formas de vida no planeta Terra, principalmente a vida humana.
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, Sociólogo, Mestre em Sociologia, Ambientalista, Articulador da Pastoral da Ecologia Integral – PEI – Região Centro Oeste; E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.; Instagram @profjuacy
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Juacy da Silva*
A criação clama em meio a inundações, secas, tempestades e calor implacável. Uma em cada três pessoas vive em extrema vulnerabilidade devido a essas mudanças. Para elas, a mudança climática não é uma ameaça distante. Ignorar essas pessoas é negar nossa humanidade compartilhada. Ainda há tempo para manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5°C, mas a janela está se fechando. Como administradores da criação de Deus, somos chamados a agir com rapidez, fé e visão de futuro para proteger o dom que Ele nos confiou. Caminhamos ao lado de cientistas, líderes e pastores de todas as nações e religiões. Somos guardiões da criação, não rivais por seus recursos. Papa Leão XIV, 17 de novembro de 2025, em sua Mensagem “As Igrejas particulares do Sul Global reunidas no Museu Amazônico, em Belém, Estado do Pará, durante a COP 30”.
A Igreja Católica, tanto a Romana quanto a Ortodoxa, bem como todas as demais Igrejas e religiões, consideram que existe um princípio divino criador do Universo, incluindo o Planeta Terra e tudo o que nele existe. Essas são obras da criação, cabendo à humanidade cuidar, zelar e preservar todos os biomas e ecossistemas, para que, da mesma forma que as gerações anteriores e presentes, também as futuras gerações possam usufruir de um meio ambiente saudável, harmônico e equilibrado.
Todavia, há vários séculos, a partir da Revolução Industrial e, principalmente, nas últimas cinco décadas, tanto em decorrência do aumento populacional, quanto da urbanização e do acelerado crescimento econômico, este equilíbrio entre sistemas produtivos, consumismo, desperdício e uma ganância extrema, a humanidade vem explorando os chamados recursos naturais de uma forma irracional e descontrolada, em proveito de uma minoria da população.
Fruto deste processo de acumulação de capital, bens, riquezas e rendas, o desequilíbrio socioambiental tem produzido consequências e impactos, como a exaustão desses recursos, danos ambientais profundos com a poluição das águas, dos solos e do ar; a destruição da biodiversidade, o aumento das emissões de gases de efeito estufa, que produzem aquecimento global e a atual crise climática, enfim, tornando a vida no planeta em risco permanente, principalmente a vida humana.
Ao longo dos últimos 63 anos, todos os Papas desde então, de forma direta ou indireta, têm exortado tanto os fiéis católicos quanto a população em geral e a própria Igreja enquanto Instituição, representada pela sua hierarquia eclesiástica, a ter um cuidado maior com o meio ambiente, evitando que o mesmo venha a se deteriorar e afetar diretamente todas as formas de vida em nossa Casa Comum, que é o Planeta Terra.
O Concílio Vaticano II, que foi um marco na história da Igreja (1962-1965), não abordou explicitamente as questões socioambientais como um tema central e independente, mas lançou as bases teológicas para o desenvolvimento posterior da doutrina social da Igreja sobre ecologia integral.
A principal abordagem do Concílio Vaticano II estava centrada na relação entre o homem e a natureza no contexto do desenvolvimento e do bem comum, a destinação universal dos bens da natureza e o domínio responsável dos seres humanos em relação às obras da criação.
Ao lado da opção preferencial pelos pobres, também a consciência ecológica e a crise ambiental ganharam destaque nas décadas seguintes ao Concílio, o que levou os Papas subsequentes a aprofundar a questão com base nos fundamentos estabelecidos e também no desenvolvimento científico e tecnológico, que lançaram luzes sobre a finitude do planeta e o chamado “ponto do não retorno”.
Assim, o Papa João XXIII (hoje São João XXIII), que convocou o Concílio Vaticano II, em outubro de 1962, como Bispo de Roma, demonstrou sua preocupação a respeito do uso dos recursos naturais no planeta, dizendo: “O Paraíso sobre a Terra é o uso moderado e prudente das coisas belas e boas que a Providência espalhou pelo mundo, sem ser exclusivas a ninguém e úteis a todos”.
Em 1971, o Papa Paulo VI – na Encíclica Pacem in Terris – criticou a exploração insensata, gananciosa, exagerada e sem racionalidade dos recursos naturais finitos, que são obras da criação divina, em proveito de uma minoria, excluindo a grande maioria, bilhões de pobres, tema retomado de uma forma bem direta pelo Papa Francisco, quando diz, na Encíclica Laudato Si, que “o grito da terra é também o grito dos pobres, excluídos e oprimidos”.
Já o Papa Bento XVI enfatizou diversas vezes, em seus pronunciamentos, a necessidade de uma correção dos modelos de crescimento econômico que não levam em consideração o meio ambiente, que deve ser usado em benefício de todas as pessoas e não para atender apenas aos interesses de uma minoria, como atualmente acontece.
Coube ao Papa Francisco, em maio de 2015, antes que a ONU houvesse definido os ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – e também antes mesmo da realização da COP 21, cujo marco significativo foi o estabelecimento do Acordo de Paris, firmado por 195 países e territórios, consolidar todo o conhecimento acumulado pela Igreja e por inúmeros teólogos e cientistas, contidos na Encíclica Laudato Si.
Em 15 de outubro de 2017, dando sequência às suas preocupações e ao cuidado com o meio ambiente, o Papa Francisco convocou o Sínodo da Pan-Amazônia, que foi realizado entre 6 e 27 de outubro de 2019.
Após o encerramento do Sínodo da Amazônia, em 12 de fevereiro de 2020, mais uma vez o Papa Francisco demonstrou seu apreço pela Ecologia Integral ao publicar a Exortação Apostólica Querida Amazônia.
Foi, todavia, em 4 de outubro de 2023, com a publicação da Exortação Apostólica Laudate Deum, endereçada aos participantes da COP 28 e a todas as pessoas de bem, convocando o mundo a cuidar melhor do Planeta como única forma de evitar uma tragédia que já está em curso.
Também a Igreja do Brasil, representada pela CNBB, através da Campanha da Fraternidade, há mais de seis décadas tem escolhido temas ecológicos para serem objetos dessa iniciativa.
Como podemos mencionar, os temas e lemas das diversas Campanhas da Fraternidade que abordaram temas ecológicos são os seguintes: 1970 – Por um mundo mais humano – Preserve o que é de todos; 1986 – Fraternidade e a terra – Terra de Deus, terra de irmãos; 2002 – Fraternidade e povos indígenas – Por uma terra sem males; 2004 – Fraternidade e água – Água fonte de vida; 2007 – Fraternidade e Amazônia – Vida e missão neste chão; 2011 – Fraternidade e vida no planeta – A criação geme em dores de parto; 2016 – Casa Comum, nossa responsabilidade – Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça como qual riacho que não seca; 2017 – Fraternidade e biomas brasileiros e defesa da vida – Cultivar e guardar a criação; e, finalmente, em 2025 – Fraternidade e a Ecologia Integral – Deus viu que tudo era muito bom; e, em 2026, o tema será Fraternidade e moradia.
A preocupação da Igreja Católica com as questões socioambientais tem acontecido paralelamente com um despertar mundial, estimulado e articulado pela ONU desde a 1ª Conferência sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, na Suécia, em 1972, seguida da ECO 92, realizada no Rio de Janeiro em 1992.
A ECO 92 foi um marco significativo neste despertar, tendo como frutos a promulgação da Carta da Terra e o estabelecimento das bases para três convenções importantes para diversas ações que foram ou continuam sendo realizadas, incluindo a convenção pelo clima (motivada pela organização do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), a convenção sobre a proteção da biodiversidade e a convenção para o combate às secas e à desertificação; além de aprofundar o conceito de desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade ambiental, como parâmetro fundamental para nortear as políticas públicas e os sistemas produtivos em todos os países.
Em 1995, foi realizada a primeira COP – Conferência das Partes sobre o Clima – em Berlim, iniciando uma sequência anual dessas conferências, culminando com a COP 30, atualmente em curso em Belém, no Estado do Pará.
A COP 3, em 1997, realizada no Japão, foi o marco para o surgimento do Protocolo de Kyoto, que teve vida curta e poucos resultados concretos, principalmente pela baixa adesão dos países responsáveis pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa, incluindo a saída dos EUA, o maior poluidor histórico do planeta. Em 2012, o Protocolo de Kyoto praticamente chegou ao fim, deixando um hiato entre as preocupações com a crise climática e a falta de ações concretas para enfrentá-las.
O ano de 2015 foi um marco significativo na história das COPs e também das discussões sobre a necessidade de um acordo sobre o clima, em que os países que mais poluem deveriam pagar, ou seja, a necessidade de um fundo para financiar as ações de combate aos impactos produzidos pela degradação do planeta, o que não tem acontecido.
Diversos temas diretamente relacionados ao combate à crise climática não têm obtido consenso nas diferentes COPs, demonstrando que existe um grande fosso entre os discursos, os acordos e protocolos internacionais e as ações, que são extremamente limitadas ou inexistentes.
Durante a COP 21, em 2015, na França, foi firmado o Acordo de Paris, com inúmeros objetivos e metas a serem estabelecidos pelos diversos países, mas, da mesma forma que o Protocolo de Kyoto, a maioria dos países poluidores, como Estados Unidos, China, Índia, outros do G7 e outros integrantes do G20, não têm cumprido com suas obrigações, demonstrando a falta de compromissos de fato com o combate às mudanças climáticas e seus impactos.
Os Estados Unidos, durante os dois governos de Trump (o anterior e o atual), saíram do Acordo de Paris, apesar de ser o maior poluidor mundial historicamente considerado e o segundo desde há muito tempo, logo após a China, que é o maior poluidor do planeta há várias décadas.
De acordo com dados de diversas instituições internacionais e nacionais de pesquisas, e a própria ONU em seus relatórios, têm demonstrado que 75% do total das emissões de gases de efeito estufa são provenientes da produção e uso de combustíveis fósseis — petróleo e derivados, gás natural e carvão — e que 83% de todos esses gases poluidores são produzidos pelos países do G20, no qual, inclusive, o Brasil participa.
Diante dessas evidências, causa espécie o fato de que em todas as COPs jamais colocam a questão da necessidade de um acordo internacional para parar com a produção e o uso dos combustíveis fósseis, bem como a responsabilização dos países que mais têm poluído o planeta ao longo da história e ainda atualmente continuam sendo os maiores poluidores, pagarem pelos danos ambientais causados pelos mesmos.
Todas as COPs, sem exceção, têm sido ótimos fóruns de diálogo, troca de experiência e de mobilização social e política, mas com poucos ou nenhum resultado mais efetivo que aponte para uma transição energética, pondo fim ao uso dos combustíveis fósseis e à substituição dos mesmos por energias limpas e renováveis.
Precisamos de mais ações e menos discursos, acordos, tratados e protocolos internacionais que jamais são cumpridos.
Por exemplo, em 1972, ano da realização da 1ª Conferência Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente, até 2025, momento da realização da COP 30, a produção e emissão de gases de efeito estufa que se acumulam na atmosfera passaram de 16,22 bilhões de toneladas métricas/ano equivalentes de CO₂ para 54,5 bilhões desses gases anualmente.
Entre 1972 e 1995, quando foi realizada a primeira COP, essas emissões praticamente dobraram, atingindo 33,31 bilhões de toneladas métricas por ano.
Em relação à produção e uso de petróleo e derivados, apesar de todas as discussões ocorridas em todas as COPs, relatórios de organismos internacionais (ONU e outros) indicam um aumento imenso, passando de 20,2 milhões de barris/dia em 1972; para 60,6 milhões de barris/dia (COP1); para 104,9 milhões de barris/dia em 2025.
Já a produção de gás natural, também combustível fóssil, gerador de energia suja, passou de 1,7 trilhão de metros cúbicos em 1972; caindo para 1,6 trilhão em 1995; e novamente aumentando para 4,1 trilhões em 2022.
Outro combustível fóssil que, além de sujo, continua sendo utilizado amplamente como fonte de energia, principalmente na China, na Índia e em vários países europeus, é o carvão, com produção de 5,8 bilhões de toneladas métricas em 1972; para 4,6 bilhões de toneladas métricas em 1995; aumentando para 8,8 bilhões de toneladas em 2024.
Outro indicador que também demonstra a falta de cumprimento dos acordos internacionais relacionados com a crise climática é o desmatamento. Apesar de a ciência demonstrar sobejamente a importância das florestas, da mesma forma que mares e oceanos, enfim, todos os corpos d’água têm no controle da poluição, sequestrando gases de efeito estufa e armazenando-os no subsolo das florestas, mesmo assim, o mundo assiste passivamente à destruição de todas as florestas, principalmente as florestas tropicais, onde estão incluídas a Amazônia, a floresta do Congo e de alguns outros países asiáticos.
Entre 1972 e 1995, o total de desmatamento no mundo atingiu 180 milhões de hectares, caindo para 107 milhões de hectares entre 1995 e 2015, mas aumentando para 109 milhões de hectares entre 2015 e 2025, totalizando 396 milhões de hectares de áreas desmatadas.
Vale a pena mencionar também que o mundo enfrenta outro problema socioambiental terrível: mais de 100 milhões de hectares de áreas, outrora agricultáveis, anualmente se transformam em áreas degradadas, com muitos impactos na produção de alimentos, na desertificação e nos biomas e ecossistemas.
O Brasil, por exemplo, tem mais áreas degradadas do que ocupadas com agricultura, demonstrando a gravidade deste problema ambiental.
Diante desta realidade, apesar de muita euforia, um certo ufanismo e uma grande mobilização mundial despertados pelas diversas COPs, inclusive a COP 30, poucos resultados concretos têm surgido ao longo dessas décadas, e isto também deve acontecer com a COP 30. (Quem viver verá!)
Isto demonstra que, tanto para a Igreja quanto para todas as demais organizações públicas e não governamentais, o desafio de um cuidado melhor com o meio ambiente permanece, cabendo a cada pessoa e a cada entidade ações mais efetivas, possibilitando uma mudança radical e profunda nos paradigmas dos sistemas de produção e nas relações de consumo, dentro de uma ótica de justiça social, justiça climática e justiça intergeracional.
É neste contexto que a Igreja tem diante de si, tanto no Brasil quanto em todos os demais países, um enorme desafio: ser coerente com as Encíclicas, Exortações Apostólicas de seus Papas e também com os alertas advindos de milhares de cientistas demonstrando que estamos perdendo muito tempo em “discussões”, dedicando pouco tempo em ações; afinal, são essas ações que, de fato, mudam a realidade!
*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em Sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro Oeste. E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ; Instagram @profjuacy
ANDES-SN participa da barqueata histórica, que abriu a Cúpula dos Povos em Belém (PA)
Mais de 5 mil pessoas em cerca de 200 embarcações participaram da barqueata histórica, que marcou a abertura da Cúpula dos Povos de 2025, em Belém (PA), nesta quarta-feira (12). A iniciativa é construída por mais de mil movimentos sociais e organizações populares de todo o mundo, que lutam por justiça climática e denunciam o que chamam de “inércia dos países do Norte Global”. O ANDES-SN esteve presente com uma embarcação com docentes e participa das atividades da Cúpula até domingo (16).

A Barqueata da Cúpula reuniu caravanas que partiram de outros municípios, estados e países para denunciar falsas soluções climáticas e anunciar que a resposta para um mundo sustentável é o povo das águas, das florestas e das periferias que resiste com suas práticas coletivas, agroecológicas e ancestrais.
Faixas e cartazes ornamentavam os barcos de grande e pequeno porte, durante o percurso de 7 milhas náuticas, denunciando as contradições da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP 30) e expondo as pautas dos povos, movimentos e entidades. A manifestação teve início na Universidade Federal do Pará (UFPA), território da Cúpula dos Povos, e seguiu margeando o rio Guamá - que depois vira rio Guajará - até a Vila da Barca, área de palafitas onde parte da população vive sem qualquer saneamento.

De acordo com nota divulgada pela Cúpula dos Povos, na preparação da cidade de Belém para a COP 30, a Vila da Barca receberia uma estação de tratamento do esgoto, uma maquiagem apenas para compor a paisagem turística. A área tornou-se um exemplo das contradições das conferências que tomam decisões equivocadas, ignorando os mais impactados pelos eventos climáticos extremos.
“Hoje, teve a abertura da Cúpula dos Povos, um espaço dos movimentos sociais paralelo à COP 30, onde os movimentos sociais demandam por justiça social, que a conta da crise climática não caia sobre os povos indígenas, tradicionais, dos movimentos de direita à terra, enfim, para que a COP 30, de fato, tenha um papel determinante colocando o Brasil no centro da luta pela justiça climática”, contou Annie Hsiou, 3ª vice-presidenta do ANDES-SN que está na atividade.
A docente ressaltou que há a preocupação com os rumos da COP 30, em relação aos compromissos que serão assumidos pelos governos para diminuir, de fato, a emissão de gases de efeito estufa, compensação de carbono. “Enfim, quanto vai ser investido para isso, qual o orçamento e também qual a preocupação e o orçamento para preservar as comunidades originárias e tradicionais do mundo todo que demandam por justiça climática”, alertou.

Annie Hsiou lembrou que a categoria docente deliberou no 43º Congresso do Sindicato Nacional, realizado no início deste ano, pela participação na Cúpula dos Povos. “[Decidimos participar], por entender que é a esse espaço de luta que o ANDES-SN deve se somar, junto aos diversos movimentos sociais e segmentos que lutam por justiça climática e pela manutenção e avanço dos direitos socioambientais. Então, é nesse sentido que o Andes está aqui, contribuindo, reforçando e, inclusive, reafirmando o seu compromisso histórico com a classe trabalhadora e com todos os atravessamentos que a classe tem como gênero, raça e etnias”, acrescentou.
Segundo a diretora, a embarcação do ANDES-SN levou cerca de 30 pessoas. Além disso, a Associação Docente da Universidade Federal do Pará (Adufpa Seção Sindical) também esteve presente, e está, com outros movimentos sindicais da educação, na construção da Tenda da Educação na Cúpula, que terá atividades na UFPA.
“A gente tem uma programação intensa a partir da tarde de hoje. E nessas atividades, junto com outras entidades sindicais que estão construindo a Tenda da Educação, nós vamos fazer as atividades enlaçadas da Cúpula dos Povos. Vamos encerrar nossa participação na Marcha Mundial em Defesa do Clima, no dia 15, e no dia seguinte com a entrega da carta de reivindicações, somando junto com os demais movimentos que constroem a Cúpula dos Povos, no dia 16”, concluiu.

Tenda da Educação na Cúpula dos Povos
Diversos painéis irão ocorrer nos próximos dias na tenda da Educação, na Cúpula dos Povos. Nesta quarta, ocorrem debates com os temas “Educação e Luta de Classes diante da crise climática: desafios e enfrentamentos para a contra-hegemonia em territórios amazônicos” e “Capitalismo, conflitos climáticos, civilizatórios e direitos humanos”.
Na quinta-feira (13), a primeira mesa abordará “Dimensão geopolítica da Amazônia no coletivo dos povos”. Na sequência, acontecerá a seção pública da Universidade Popular dos Movimentos Sociais. No período da tarde, estão previstas as mesas “Futuro e Alternativas para a educação com território e com o clima” e “Conflitos e possibilidades da educação escolar indígena, quilombola e do campo na Amazônia”.

Já na sexta-feira (14), os impactos da reforma curricular na educação básica e a formação de professores e professoras e currículo para a Educação antirracista serão pautados na Tenda. Também acontecerá o painel “Cúpula das infâncias: Justiça climática e bem viver, só com participação de crianças e adolescentes”, seguido de atividade cultural. No final do dia, ocorrerá a plenária final da Cúpula, com a consolidação da declaração dos povos.
No sábado (15), as e os participantes da Tenda da Educação se somam às demais pessoas presentes na Cúpula dos Povos para a Marcha dos Povos pelo Clima, ato unificado por justiça climática e defesa dos territórios. O ato vai sair do Mercado de São Brás e segue por quatro quilômetros, até a sede da organização Aldeia Cabana, no bairro Irituia.
No domingo (16), está prevista audiência pública com a presidência da COP 30, para entrega da carta com a declaração. Apesar da programação oficial encerrar no domingo (16), atividades estão previstas para ocorrer também na próxima semana. Confira aqui a programação oficial.

A Cúpula dos Povos é guiada por seis eixos temáticos: Justiça Climática e Reparação; Transição Justa, Popular e Inclusiva; Soberania Alimentar; Direitos Territoriais e das Florestas; Internacionalismo e Solidariedade; e Perspectivas Feministas e dos Povos nos Territórios.
Encontro Regionais NI e NII
Antecedendo a Cúpula dos Povos, as Regionais Norte 1 e Norte 2 do ANDES-SN realizaram um encontro conjunto, na terça-feira (11). Com o tema central “Cúpula dos povos: outra sociabilidade é possível!”, o evento ocorreu na Universidade Federal Rural do Amazonas (UFRA).
Foram debatidas as perspectivas ecossocialistas para um mundo em múltiplas crises; a luta das mulheres amazônidas no movimento sindical; e a luta pelo território e a Amazônia. A atividade foi encerrada com o show musical “Latino Amazônico”, da professora Deia Palheta, da UFRA.

“Ontem (11), aconteceu o segundo encontro conjunto das regionais Norte 1 e 2, na Universidade Federal Rural, também aqui em Belém. Tivemos três mesas que constituíram o evento, que foi um esquenta para a abertura do dia de hoje (12), da Cúpula dos Povos”, comentou a 3ª vice-presidenta do ANDES-SN.
Fonte: Andes-SN | Fotos: Eline Luz
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
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Juacy da Silva*
Manter as florestas em pé, os mares limpos e as geleiras eternas é um, ou talvez o maior, desafio que está posto à humanidade nesta fase histórica do aumento e agravamento da crise climática, da degradação dos biomas e da destruição da biodiversidade animal e vegetal.
A convite da Profa. Mestra em Sociologia Marlene Renck, participei, hoje, 06/11/2025, de uma roda de conversa, diálogo, com uma de suas turmas da disciplina de Sociologia, do penúltimo ano do Ensino Médio da Escola Estadual Liceu Cuiabano Maria de Arruda Müller, em Cuiabá.
O tema objeto da reflexão foi Desmatamento e Crise Climática, no contexto dos desafios socioambientais brasileiros e do planeta, exatamente no dia em que o Brasil realiza as primeiras reuniões com chefes e representantes de delegações de mais de uma centena e meia de países, para discutir a crise climática, na COP30, em Belém, Estado do Pará, tendo como uma das grandes propostas apresentadas pelo presidente Lula a criação do Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, como mecanismo de preservação do que ainda resta das florestas tropicais, diante da importância das mesmas para o enfrentamento da crise climática.
Creio que essas são oportunidades que devemos explorar tanto na dimensão da Educação Ambiental Crítica quanto em relação às ações que todas as organizações públicas e também não governamentais, inclusive a Igreja, representada, por exemplo, pela Pastoral da Ecologia Integral, devem fazê-lo de uma forma constante.
Despertar a consciência ecológica tanto entre crianças, adolescentes e a juventude é uma forma de motivarmos um maior engajamento dessa camada demográfica no cuidado com a Casa Comum, com o futuro do planeta Terra, diante do agravamento da crise climática e de tantas outras formas de degradação e destruição do meio ambiente.
Fico extremamente grato à Profa. Marlene pela oportunidade e tenho certeza de que podemos articular mais eventos como este em inúmeras escolas e também em parceria com o movimento comunitário e outras iniciativas, para buscar uma maior aproximação de crianças, adolescentes e jovens, para participarem mais diretamente desta jornada.
Ao fazermos este diálogo, estamos promovendo também Justiça Intergeracional, pois são as crianças, adolescentes e jovens de hoje que irão viver, dentro de mais 10, 20, 30 ou 40 anos, como adultos, em um planeta e em um país cada vez mais destruídos pela forma como produzimos, como consumimos e como nos relacionamos com a natureza — enfim, nosso estilo de vida, nosso sistema produtivo e nossas relações de trabalho.
Diante da gravidade da crise climática e de um desastre anunciado, chegando ao que o secretário-geral da ONU, António Guterres, tem alertado — que já estamos atingindo o “ponto do não retorno”, a partir do qual as consequências e impactos desta catástrofe serão devastadores —, precisamos transformar os atuais paradigmas econômicos, tecnológicos e nossos hábitos consumistas e de desperdício por outros que coloquem a sustentabilidade, a economia circular e a economia solidária como eixos principais da caminhada que a humanidade precisa realizar neste planeta a partir de agora.
Assim, somente as crianças, os adolescentes e os jovens têm o potencial para tais mudanças radicais, proativas, inovadoras e participativas, que devolvam o equilíbrio entre a natureza e os seres humanos. Sem isso, estamos condenados ao fracasso!
É neste sentido que devemos acreditar, ainda, no papel de uma educação libertadora e em uma educação ambiental crítica, cada vez mais, com esperança, como as chaves para um futuro diferente, mais harmônico e mais feliz!












