Quinta, 12 Março 2026 16:22

 

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP
Docente aposentado da UFMT
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            Por dois anos consecutivos, recortes da cultura brasileira têm sido vistos por plateias mundo afora. Em 2025, vibramos com a estatueta do Globo de Ouro, conquistada por Fernanda Torres, que interpretou as dores, o luto e a luta de Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de melhor filme internacional. Na edição deste ano, já vimos Wagner Moura receber a estatueta de melhor ator/drama e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vencer como o melhor filme de língua não-inglesa.
            Agora, já no aguardo pelo Oscar, para o qual há quatro indicações, registro que, além de leituras de campos diversos do conhecimento, muito já se falou acerca de tópicos específicos de O Agente Secreto, como, p. ex., de sua direção, elenco, figurino, fotografia, trilha sonora, caracterização de época etc.; todavia, penso que ainda haja elementos para reflexões sobre o seu cerne, afinal, em grandes obras, a obviedade não tem espaço.
            Como reflexo estético de época marcada pelo silêncio, irmão do medo, imposto em 1964 por golpistas cívico-militares, o filme diz muito, sem explicitar tanto. A síntese desse clima pode estar na cena em que dona Sebastiana (Tânia Maria), com os dedos deslizando sobre seus lábios, faz o gesto da “boca de siri”, após entregar um pacote a Marcelo (Wagner Moura), que faz gesto semelhante, quando indagado se, de fato, era Marcelo; e, assim, muito de sua narrativa surge por meio de signos e códigos, que pedem pela labor interpretativo do espectador, convidado a imergir na trama para tentar desvelar o que possa estar encoberto por véus (metáforas), ou fria e criminosamente fechado em gavetas de um IML... Enfim, todos precisamos organizar os dados – aparentemente, lançados de forma aleatória – de um intrincado enredo.
            Nesse sentido, contribuindo com o diálogo sobre o filme de Mendonça Filho, vou ao que considero central, reflexionando sobre qual seria o seu ponto de partida como narrativa que demandasse, de fato, por algum “agente secreto” em sua trama. Mas, antes, reafirmo a genialidade dessa construção fílmica, disposta em três grandes partes (“O Pesadelo do Menino”; “Institutos de Identificação” e “Transfusão de Sangue”), subdividas pelo que identifico como “signos focalizados”, além de se ancorar em:
            1º) códigos cifrados para cidadãos refugiados, em geral, politicamente;
            2º) metáforas/signos pictóricos, tais como:
            a) fotografias em paredes de repartições públicas, com ênfase à de Ernesto Geisel;
            b) placas de automóveis, que marcam espaços geográficos da narrativa, auxiliando nos “signos focalizados” de que falei acima;
            c) presença do tubarão, tanto o do filme “Tubarão” (1975), quanto dos que atacam banhistas no litoral pernambucano;
            d) brevíssima projeção de um fragmento de “Le Magnifique” (1973), no qual Philippe de Broca satiriza películas de espionagem, ou seja, de agentes secretos;
            e) gata com dupla face e dois nomes, assim como o grupo das personagens em refúgio no Edifício Ofir, em Recife; aliás, o nome “Ofir” cai como luva para a interpretação do filme, posto estar referenciado na Bíblia como região ou porto lendário, famoso por sua imensa riqueza, especialmente o seu ouro, de inconteste pureza 
            3º) presença de um elemento fantástico (a metonímia da “perna cabeluda”), que – substituindo a integralidade dos corpos de criminosos comuns e de inescrupulosos policiais em “passeios” noturnos pela Praça 13 de Maio, também em Recife – ganha vida própria na trama, servindo como denúncia de violências e assassinatos contra prostituta(o)s e LGBTQIA+, à época (1977), identificados como homossexuais e outros adjetivos nada respeitosos. Detalhe: o nome dessa praça – que também nos ajuda a sentir a densidade do filme – nos remete às pretensões da Lei Áurea, de 1888, possivelmente ainda não alcançada por tantos trabalhadores, inclusive, pelos trabalhadores do sexo.
            Isso tudo, somado ao fato de sua narrativa/enredo não se apresentar cronologicamente linear, faz O Agente Secreto ser mesmo um filme de recepção complexa, que não perde a chance de estabelecer críticas a acontecimentos atuais, como a indignação pela morte de Miguel Otávio, filho de Mirtes Souza, que segue na luta por justiça contra sua ex-patroa, Sari Corte Real, todos igualmente de Recife. Essa paráfrase é tão inesperada quanto reveladora, social e cinematograficamente falando.  
            Diante da complexidade do filme, sinto-me como um dos seus espectadores privilegiados, pois, assim como a personagem Armando (Wagner Moura), fui professor de uma das nossas federais. Concomitantemente à docência, militei no Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, o ANDES-SN – à época, espaço de relevantes debates políticos –, que deu sequência organizacional das antigas associações dos professores universitários. Tais agrupamentos já discutiam, como um dos desafios da categoria docente, a cooptação, em nada secreta, de pesquisadores, em especial das áreas tecnológicas, por parte de representantes do capital (nacional e estrangeiro), quase sempre em conluio com os golpistas/ditadores de 64, que também não eram anônimos ou secretos, ainda que suas práticas fossem realizadas à margem das leis e/ou dos direitos humanos.  
            Portanto, mais do que identificar que Armando fosse chefe de um Departamento da UFPE, é necessário perceber, no cerne da narrativa em pauta, esse processo de cooptação abrangente e bem-sucedido do capital junto a um departamento inteiro; tarefa corporificada por Ghirotti (Luciano Chirolli), empresário inescrupuloso, mas influente no Conselho da Eletrobras, vinculada ao Ministério das Minas e Energia daquele período.
            Na linha do tempo e dos acontecimentos, aqui, é interessante localizar que a cooptação em questão ocorrera em 1974, ou seja, três anos antes daquela cena do posto de gasolina, na abertura do filme, em cujo pátio se encontra um cadáver já em putrefação. Aliás, aquele prólogo, como numa antecipação metafórica do “mau cheiro” reinante no país, é retomado no unhappy end de O Agente Secreto, quando se fica sabendo, via notícia de jornal, do assassinato de Armando, ocorrido em 1977; estendido no chão, sua foto remete à lembrança da cena do cadáver no pátio do posto de gasolina, bem como de todos os demais cidadãos assassinados que “aparecem” no desenvolvimento do texto fílmico.
            Do processo de cooptação, vale ressaltar a resistência, inclusive física, de Armando e Fátima (Alice Carvalho), que – além de pesquisadora nordestina e mulher negra, e, por isso, vítima do racismo praticado por Ghirotti e por seu filho, Salvatore Ghirotti (Luciano Graziosi) – era companheira de Armando, com quem tivera o filho Fernando (Wagner Moura). O casal de pesquisadores, adversários frontais daquela intervenção dos dois representantes do capital, põe-se em situação de extrema vulnerabilidade ao defender seus princípios e origens, bem como a força da ciência/conhecimento vivenciado em universidades fora do eixo Rio-São Paulo.
            Portanto, aqui está, de forma cíclica, a origem do ponto de partida e do epílogo da narrativa. Sem esse conjunto de acontecimentos não haveria ação/motivação para que surgisse O Agente Secreto como filme de memória, fruto de pesquisa acadêmica de uma instituição particular de ensino superior, que investigava – mas, logo, desistira da empreitada – um pouco dos porões de um tempo deveras sombrio de nosso país.
            Todavia, se a instituição interrompera e engavetara seus estudos, a estagiária Flávia (Laura Lufési) não. Ao contrário, é ela quem, ao copiar, clandestina e secretamente, os depoimentos que ajudava a transcrever para a pesquisa institucional, torna-se o sujeito agente que entrega o material num pen drive a Fernando, filho de Armando e Fátima, garantindo, assim, o desvelamento público dos atos ocorridos com seus pais. O restante é despiste, típicos de narrativas tais.
            Nesse sentido, como num lance de fina ironia, Marcelo – que, antes, é Armando –, da cabine de projeção do Cine São Luiz, parece se sentir “espelhado” ao assistir a uma breve cena, na qual a personagem Bob Saint-Clar, uma criação de François Merlin, ambos interpretado por Jean-Paul Belmondo, em Le Magnifique, é que sugere ser o tal “agente secreto”; e até pode ser, mas naquele filme francês. No que nos interessa aqui, outra despista: o “nosso” Bob/Bobbi (Gabriel Leone), como jovem que responde a antigas violências vividas na infância, é um agente silencioso e perigoso, mas não secreto, pois não intelectualiza nada; no limite, apenas age friamente para auxiliar na terceirização – uma das dinâmicas do capital – de um matador de aluguel. Os que recebem propinas para “pequenas tarefas” equivalem, p. ex., às mulas do tráfico. São sempre seres sorrateiros, sem nada intelectualizar ou mesmo intuir algo.
            E, assim, várias ações desonestas vão surgindo, afinal, nos subterrâneos de uma ditadura, ninguém age solo. Há sempre um conjunto de colaboradores do regime, conscientes ou não, trabalhando para algum projeto, via de regras, obscuro. Nos porões, os ratos transitam e se comunicam entre si.
            Nessa perspectiva, em “despretensiosa” informação, à lá notas de rodapé, como nos trabalhos acadêmicos, sabe-se que, após a já mencionada dissolução do departamento da UFPE, houve dispersão daquele antigo corpo docente, que aceitou “tomar um banho de indústria”, conforme sugerido por Ghirotti. Por meio de um “sutil destaque”, registra-se que alguém do antigo grupo de docentes teria ido trabalhar justamente onde Ghirotti também tinha seus tentáculos, ou seja, no Metrô de São Paulo; não por coincidência, era a cidade da placa do fusca que, agora, Marcelo – após o assassinato de Fátima, que, ao invés de pneumonia, teve seu corpo atirado na represa Sérgio Motta – dirigia até o Recife, almejando sair do país em companhia de seu filho.
            Infelizmente, Armando não conseguiu se proteger do Brasil”, como havia sido sugerido pela personagem Elza (Maria Fernanda Cândido). Seu assassinado ocorreu pouco antes de seu autoexílio de um país que ainda busca sua consolidação como pátria, sem ameaça da presença asquerosa de nenhum agente do tipo sorrateiro, sem nenhuma “pirraça”, termo inusitado e maravilhosamente bem escolhido para abranger um amplo leque semântico de todo o retrocesso político, social, cultural e econômico que períodos antidemocráticos implacavelmente podem nos trazer: memória é, de fato, também prevenção ao futuro.



Segunda, 24 Fevereiro 2025 13:02

 


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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Ciências da Comunicação/USP


               Dias atrás, fui ver de novo o filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, até agora, 38 vezes já premiado. Tentei observar melhor como, neste momento do império das fragmentações, um filme, cuja cronologia da narrativa está respeitada e até datada em seus momentos de avanço temporal, pode ser tão envolvente.
               Como resposta, destacarei alguns pontos intrínsecos e outros extrínsecos à obra que podem estar influenciando na aceitação por parte de públicos daqui e do mundo afora.
               Intrinsicamente, começo retomando o que já escrevi sobre o filme, assim que o assisti pela primeira vez. Do roteiro, a força dramatúrgica, principalmente de Fernanda Torres, literalmente, “rouba a cena”. Como nos geniais espaços em branco das páginas de “Un Coup de Dés” (Um Lance de Dados), de Mallarmé, nossa atriz atinge um nível de interpretação para a personagem Eunice Paiva em que, em diversos momentos, o silêncio e a força dos olhares falam mais alto e mais forte do que quaisquer palavras. Isso poderá, sim, lhe render o prêmio de melhor atriz.
               Aliás, os “vazios” e/ou os “brancos” de sua interpretação também se estendem à sua mãe biológica, Fernanda Montenegro, que, em poucos minutos, já no epílogo, sem pronunciar uma palavra, diz tudo o que a personagem Eunice, já com o alzheimer avançado, poderia expressar: ápice das emoções de um filme emocionante por inteiro.
               Mas nem só de “brancos” e “vazios” o filme se consolida. Há cenas que servem como verdadeiros quadros sígnicos, que, literalmente, “gritam” na construção da narrativa, como no interdiscurso com aquele “...Grito Parado no Ar”, peça e música de Gianfrancesco Guarnieri, ambas de 1973. Os gritos de brasileiros torturados no DOI-Codi, no Rio, são de arrepiar, pois acionam imagens de sofrimentos extremos provocados pelos métodos mais cruéis de se torturar alguém.
               Igualmente forte em termos sígnicos é a presença da “água”. Agora, num diálogo discursivo com a música “Eu e a Água”, de Caetano Veloso (“...A água lava as mazelas do mundo// E lava a minha alma...”), o banho que Eunice toma após ter ficado presa por doze dias, enquanto era interrogada por agentes da ditadura, também é de uma força monumental na narrativa.
               Aquele banho, além de resgatar a higiene corpórea da qual Eunice fora privada, ganha dimensão simbológica, pois “fotografa” o momento de sua tentativa de limpeza das imundícies, das injustiças, das dores, das mortes de pessoas torturadas, das mazelas de um país capturado em corpos e alma por um regime assassino. A personagem esfrega-se com tamanha força, como nunca precisara ter feito antes. Ao mesmo tempo, a água a revitaliza, revigorando-a para a luta incessante que passa a ter em busca de resposta sobre o desaparecimento de seu esposo.
               Na verdade, nesse filme, a água tem força de personagem, tanto que, em outro momento, a água lava o sangue de pessoas torturadas nas celas e corredores daquele prédio sombrio que, por si, parece simbolizar uma catacumba. Aquela cena é uma das mais fortes, pois com a água está misturado o sangue de idealizadores de um país melhor, mais humano, inapelavelmente, vistos pelos ditadores como “comunistas”, “subversivos”. Todavia, em outra cena, marcas de sangue ressecado – aliás, de propósito, não lavado – foram deixadas na sala da direção do presídio para auxiliar na tortura psicológica dos interrogatórios, como o de Eunice, que não tinha as informações desejadas pelo regime autoritário.
               Vale lembrar que a maioria das companheiras ignoravam muitas das ações de caráter gigantesco de seus companheiros, que, para poupá-las de consequências pavorosas que poderiam sofrer, silenciosamente, eles ajudavam a esconder compatriotas perseguidos pela ditadura. Durante o interrogatório de Eunice, o agente do regime atira seu resto de cigarro ao chão, repito, que está manchado de sangue já ressecado, e o pisa: cena igualmente chocante, carregada de significados no “não-dito”; no subentendido, é dito que, ali, muitos já foram mortos...
               Enfim, o filme está repleto de signos não-verbais. A cada música da trilha sonora, p. ex., outros signos vão se superpondo, como em mosaico, cabendo ao espectador acionar seu repertório para ir preenchendo os espaços, propositalmente, deixados em branco. Na essência, essas sutilezas é que enriqueceram, no plano interno da construção fílmica, o desenrolar de “Ainda Estou Aqui”, que, também, poderá nos trazer algum troféu.
               Na dimensão externa, que dialoga com o intrínseco das obras, volto a retomar reflexões que já expus em outro artigo. Antes de tudo, é bom lembrar que a arte não nasce do nada; ela tem origem num determinado lugar (espaço) e num tempo. Todavia, e, paradoxalmente, para ser elevada, ela só não pode ficar restrita ao lugar e ao tempo de nascimentos. Se ficar, pode não passar de mera crônica de circunstância ou do cotidiano, geralmente, de menor valor artístico.
               Ademais, “Ainda Estou Aqui” é um grito contra o ódio de regimes e/ou políticos autoritários, que, sustentados por fake news e por discursos do ódio, estão pululando em diversos locais do mundo. Além da eleição de Trump, nos EUA, cujos reflexos já estão sendo sentidos em diversas partes, até na Alemanha, quem diria, a “Far-right politic” está, literalmente, mostrando suas garras.
               No Brasil, para o desconforto, mesmo que in memoriam, de muitos dos que sustentaram a ditadura, bem como aos apequenados de alma que ainda flertam e se identificam com líderes do ódio, se Eunice, nos últimos anos de vida, perdera a memória por conta do alzheimer, hoje, cada um de nós está podendo recuperar um pouco da memória de um passado tão próximo; passado, a bem da verdade, dolorido, tantas foram as suas crueldades, como a que se abatera à família Paiva, que teve de ver, em janeiro de 1971, Rubens ser retirado de sua casa, por agentes da ditadura militar, para um “simples depoimento”, do qual nunca mais regressou.
               Mas se Rubens nunca mais pode voltar da forma como desejava sua família, hoje, ele está de volta; como de regresso está Eunice. E ambos estão – por aqui – tendo um retorno retumbante, até pouco tempo não suposto. Mais: ambos – por toda parte – estão nas telas dos cinemas do mundo inteiro! Quem diria?! Ditadores que se esconderam junto com anistiados políticos estão sendo inapelavelmente desnudos em suas crueldades.
               Que tudo isso nos sirva de lição; que este país não mais alimente a insanidade e a perversidade de criaturas, como Bolsonaro e seres ainda menores (!!!), renderem homenagens a tipos desprezíveis, como o condenado judicialmente coronel Brilhante Ustra, um dos mais cruéis torturadores de todos os torturadores do regime de exceção, até porque, repito o que já disse em outro artigo: BRILHANTE, de verdade, é o filme de Walter Salles. BRILHANTE é a oportunidade de ser contemporâneo de famílias BRILHANTES, como a de Eunice e Rubens Paiva, de Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, que, ao se juntarem no BRILHANTE palco do mundo das artes, estão nos presenteando com o BRILHANTE sentimento de brasilidade, que vai bem além, mas muito além do ato de fixar ou fincar uma bandeira na porta de uma casa, da varanda de um apartamento, no pórtico de um comércio ou na entrada de uma porteira qualquer, de uma estrada qualquer, de uma fazenda qualquer...
               Salve a democracia!
               Ditadores e golpistas nunca mais.

 

Segunda, 21 Outubro 2024 07:23

 

 

Cuiabá irá sediar, esta semana, de 21 a 23 de outubro, um grande encontro. Pesquisadores, educadores, estudantes, sendo a maior parte deles jovens, e demais convidados vão se reunir para a 3ª Olimpíada Nacional dos Povos Tradicionais, Quilombolas e Indígenas e a 4ª Mostra Científica de Povos Tradicionais, Quilombolas e Indígenas do Estado de Mato Grosso. Os eventos concomitantes serão realizados no campus da capital da UFMT, no auditório da Adufmat-Ssind. A iniciativa é da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat) e alia ensino, pesquisa e extensão.

Nos eventos, estarão à mostra e concorrendo na Olimpíada trabalhos que destacam a tradicional dança siriri, a linguiça artesanal, experiência com plantio de morango na escola, festas de santo, benzedeiras, produção de rapadura e farinha, bonecos artísticos, volei em aldeia, artesanato, comidas típicas e o trançado indígenas, a importância das varredoras de ruas em Cáceres, o rio Paraguai, as queimadas no Pantanal, o valor do pescador, a realidade de alunos bolivianos na fronteira, plantas medicinais e um grande número de temas, trazendo vasto conhecimentos e olhares sobre a cultura popular mato-grossense.

Idealizadora e coordenadora dos eventos, a professora doutora da Unemat Lisanil Conceição Patrocínio Pereira, convida todos para esta partilha de expertises das quais muitos de nós já nos esquecemos e têm relação com qualidade de vida. "Faremos o diálogo principalmente com nossos jovens, para deixar evidente o quanto os povos tradicionais, os indígenas, os quilombolas têm a nos ensinar, vamos resgatar isso".

No evento, serão selecionadas 70 bolsas de Iniciação Científica Júnior do CNPq para os jovens estudantes, para que sigam em frente, pesquisando os saberes de Mato Grosso.

Os candidatos às bolsas enviaram relatos de experiências desenvolvidas na escola, em casas e ou comunidades, que expressam a pujança da cultura popular mato-grossense, sua força e relevância.

O objetivo estratégico desses eventos é também fomentar o desenvolvimento sustentável orientado pela ONU, já em sintonia com a Agenda 2030 no Brasil.

Este projeto tem a Unemat como proponente e conta com parcerias da UaB, PPGEO (Mestrado em Geografia) e PPGCI (Mestrado em Ensino Intercultural Indígena), além das escolas públicas.

 

         

 

 

 

Fonte: Divulgação

Sexta, 10 Maio 2024 16:46

 

O Buriti Nagô, grupo de maracatu de baque virado que nasceu na UFMT, completa 10 anos de existência e para celebrar e fortalecer o grupo estamos realizando uma feijoada solidária. Segue abaixo mais informações do evento, convidando todas as pessoas para celebrar nessa bonita festa! 

 

FEIJONAGÔ vem aí para comemorar 10 anos de muito batuque do grupo de maracatu Buriti Nagô._ 

Feijoada, batuque e uma gelada!

 

Programação cultural: 

Ahgave, Anjos da Lata, Buriti Nagô, Dj Smile, Karola Nunes, Pacha Ana e SambAngola.

 

R$15 - Entrada

R$25 - Feijoada (tradicional ou opção vegana)

R$35 - Combo: feijoada e entrada com desconto!

Compra pelo Sympla: https://bit.ly/feijonago

 

 11 de Maio

 12h às 19h

 Casa Cuiabana

 

Venha comemorar com a gente! 

Segunda, 13 Junho 2022 09:14

 

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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT
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          Demorou, mas após tanto tempo, eis que a quadrilha está de volta em nosso país.

          Não! Embora estejamos vivendo em ano eleitoral, não estou escrevendo sob influência de quaisquer resultados de pesquisas recentes de intenção de voto à presidência da República; logo, meu caro leitor, não estou a acionar a memória afetiva ou “desafetiva” de quem quer que seja.

          Nem de longe pensei em nenhum dos inúmeros esquemas nada republicanos de nossopassado e de nosso presente políticos. Não pensei no Propinoduto. Nãome lembrei doMensalão. Tampouco, doPetrolão. Imagine se eu pensaria em Lava-jato! Sequer cogitei falar das Rachadinhas, que, aliás, pairam sobre tais suspeitas de teremsustentado e alavancado um “novo” clã político. “Novo”, mas bem à antiga moda brasileira de ser e estar na esfera de nossa política; por conseguinte, imagine se eu pensaria na atuação incessante de milicianos e de seus fiéis seguidores.

          Definitivamente, não pensei nas milícias, cada vez mais atrevidas e perigosas, como se experimentassem um à vontade “nunca antes vivido na história deste país”. Não pensei nem nas milícias convencionais, visíveis a olhos nus, que, alhures, tomam o lugar do Estado ausente, subjugando e exterminando pessoas, nem nas que atuam de forma virtual, faturandomilhões nas tão frequentadas redes sociais. Cada qual a seu modo, totalmente fora da lei.

          Ah! Quando, há pouco, falei em “fiéis seguidores”, não supôs estabelecer nenhum tipo de relação com a crença religiosa de nenhum filho de Deus. Deus me livre! Nos dias de hoje, falar disso é como que invocar o inominável. Nem mesmo naqueles descaradamente falsos profetas pensei; e olhe que desse tipo há uma abundância que impressiona até quem já poderia ter passado da idade de se impressionar com qualquer tipo de aberração. A desfaçatez desse tipo de falso religioso é tão sem-medida que, literalmente, é de tirar o chapéu para alguns deles... ou de suas próprias cabeças, se é que me entende, meu caro leitor.

          Se duvidares, ligue a TV, principalmente a aberta, de qualquer região deste “país tropical, abençoado por Deus”. Você terá a sua frente um leque gigantesco de todo tipo de descaramento, vendido como expressão de religiosidade. Por isso, em todos esses tipos de canais, que não são poucos, alguém estará, aos brados, tentando te vender um pedacinho no céu. Oh, céus!

          Ainda assim, mantenha-se calmo, leitor. Mesmo acerca do que mais alto estiver bradando, como diz Gilberto Gil, creia, “ele não rasga dinheiro, não”. Pode até voltar a chutar alguma santa desatenta, mas, definitivamente, “não rasga dinheiro, não”.

          Isso posto, ouso dizer que toda essa lembrança das diversas e sofisticadas quadrilhas políticasnão veio de minhas recordações. Joguemos, pois, a responsabilidade disso nas potencialidades semânticas do termo “quadrilha”; por consequência, na dubiedade linguísticada palavra em pauta.Foi essa dubiedade quepode ter acionado algum tipo de lembrança nada nobre a alguém.

          De minha parte, após dois anos sem festejos juninos, a começar pelo título deste artigo, desde o início só pensei em falar da saudade que todos estávamos das quadrilhas de junho e, por conseguinte, das inúmeras músicas que embalam tais momentos. Dentre tantas, para encerrar este artigo de forma lírica, escolhi aquela singela canção em queo eu-poético de Luiz Gonzaga pede para seu amor olhar pro céu, “...Vê como ele está lindo/ Olha pra aquele balão multicor/ Como no céu vai sumindo.../ Foi numa noite igual a esta/ Que tu me deste o coração/ O céu estava assim em festa/
Porque era noite de São João
...”

          Vivas às nossas quadrilhas... juninas, é claro. Oh xente!

Quinta, 15 Julho 2021 15:47

A gestão "Pedro Casaldáliga" convida docentes e toda a comunidade acadêmica da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) para a cerimônia virtual de posse da diretoria da Adufmat-Ssind, na próxima segunda-feira (19), às 15h (horário local). O ato, político e cultural, promoverá uma roda de conversa com o tema "A atual conjuntura e desafios do Movimento Docente", que terá a participação da presidente do ANDES-Sindicato Nacional, Rivânia Moura. Após o debate, artistas mato-grossenses farão apresentações na saudosa arena do sindicato.

Também estão convidados para o debate o diretor de Comunicação da Adufmat-Ssind e docente do Departamento de Serviço Social da UFMT, Leonardo Santos, e o professor da UFMS e base da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (Adufms), Vitor de Oliveira.

A partir das 17h, os artistas Gê Lacerda, Iris, Izafeh e Alexandre Paiva se apresentam, compartilhando com o público um pouco do que a humanidade soube fazer de melhor: música.

Assista, participe e interaja em tempo real pelos canais oficiais do sindicato no Facebook e YouTube.

 

Lunk para evento no Youtube: https://youtu.be/m4gnSQDNV3g 

 

 

Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

Segunda, 05 Julho 2021 18:29

 

O coração vai bater mais forte nessa quarta-feira, 07/07. A partir das 19h, a Adufmat-Ssind anunciará os vencedores da primeira edição do Festival Contra Atacar, nas categorias Música e Poema.

 

Além das obras inscritas, os espectadores conhecerão um pouco mais da história dos artistas selecionados para o evento. Na categoria Poema, os indicados, por ordem alfabética, são: Adham Dantas, com a obra “Cotidiano”; Deh Galeano, com a obra “Isso favorece quem”; e Malu Pimentel, com a obra “Luto pelo mundo”, todas autorais.

 

São também autorais as obras inscritas na categoria Música, com os artistas Alexandre Smile, composição de nome “Contra atacar”; Glaucos Luis, com a obra “O representante”; Luth Peixoto, com “O Sonho na voz do povo”; Renata Cristina, com “Gente que Sonha”, e Zeh Gustavo com “O que é bom cultuar”.

 

O prêmio para quem vencer na categoria Música será o patrocínio da produção de um clipe single (áudio + videoclipe) no valor de R$ 4.000,00 (quatro mil reais). Para quem vencer na categoria Poema, o prêmio corresponderá ao patrocínio da produção de um webclipe no valor de R$ 600,00 (seiscentos reais). Também serão pagos cachês no valor de R$ 200,00 para as músicas e poemas classificados em 2º, 3º e 4º lugares, e de R$ 400,00 para a música e o poema vencedores. 

 

O Festival, já considerado histórico, marcará ainda a transição da gestão do sindicato, com a saída da diretoria “Luto Pela Universidade Pública” (2019-2021) e início da gestão “Dom Pedro Casaldáliga: por uma Adufmat de luta, autônoma e democrática”, eleita na última semana, e que será empossada no dia 09/07 para dirigir o sindicato pelo próximo biênio.  

 

O Festival será exibido ao vivo pelos canais oficiais da Adufmat-Ssind no Facebook e Youtube.

 

Link de acesso direito ao Facebook: https://www.facebook.com/211669182221828/posts/4424648607590510/

Link de acesso direto ao Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=d-UvuGEe79Q

 

Luana Soutos

Assessoria de Imprensa da Adufmat-Ssind

 

Sexta, 25 Junho 2021 08:27

 

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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura/UFMT
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            Hoje, retomo o tema e o ritmo de meu último artigo, intitulado “De cachaça e orações”.
            Desde que o Papa Francisco, zombeteiramente,disseque o Brasil não tinha salvação, pois por aquise vive de“muita cachaça e pouca oração”, passei a perceber o tanto que Francisco foi mesmo injusto com os brasileiros.
            Claro que a cachaça nossa de cada dia é sagrada para muitos, mas “tá pra existir” um povo que ore mais do que o nosso; aliás, isso é historicamente feito a partir da mais cruel das violências simbólicas, advindas desde as primeiras ações catequéticas dos jesuítas, auxiliares da exploração portuguesa, que por aqui estiveram para impor goela abaixo de nossos indígenas a fé cristã. Dos jesuítas do período colonial, destaco a genialidade persuasiva dos padres José de Anchieta, no século 16, e Antônio Vieira, no 17. Pobres indígenas!
            De lá para cá, quase tudo virou motivo deou para oração, pois, nos altares e andores, santos não faltam. Abundam, até! Essa abundância, por certo, é realçada se for aceitoque a “oração”, para o temente, não precisa ser realizada apenas nos moldes mais convencionais.
            Se se compreender, por exemplo, que oração também pode ser “materializada” por meio da exaltação de algum santo/entidade religiosa, toda vez que há uma invocação em alguma canção de nossa rica expressão musical, então, aí, sim, nosso país estoura de vez a boca do balão de tanto rezar.
            E já que falei em “balão”, e estando em pleno mês de junho, me lembrei o tanto que este período do ano já provocou, e ainda provoca, diferentes compositores que acionamtrês santos católicos do mês (Santo Antônio, São João e São Pedro), ardentemente festejados, logo, louvados, mesmo que em espaços profanos, como as maravilhosas festas juninas, que nunca saem de nossas lembranças infantis.
            Só para contextualizar, conforme o site da Diocese de São João Del Rei, “Antes de assumir sua forma cristã, as festas juninas tiveram origem pagã no hemisfério norte, onde se festejava, em junho, o solstício de verão, para comemorar o início das colheitas. Com a expansão do cristianismo, elas foram ganhando novo significado e nova roupagem, tornando-se celebração da festa de São João, chamada de festa joanina (de João) e, posteriormente, junina (de junho). Nela, Santo Antônio e São Pedro passaram a ser também celebrados”.
            Desse trio de santos, é difícil dizer qual é o mais cantado. Mais difícil ainda é eleger qual dascançõesé a melhor, de tantas que há. Por isso, aleatoriamente, registro a singeleza da “Capelinha de Melão” (João de Barros e Adalberto Ribeiro), aquela que “...é de São João/ É de cravo, é de rosa, é de manjericão”.
            De Santo Antônio, chamo a atenção para a beleza do poema-musicado abaixo, intitulado “Santo Antônio” (J. Velloso), belamente interpretada por Maria Bethânia:
            “Que seria de mim, meu Deus/ Sem a fé em Antônio... A luz desceu do céu/
Clareando o encanto/ Da espada espelhada em Deus/ Viva, viva, meu Santo...// Saúde que foge/ Volta por outro caminho/ Amor que se perde/ Nasce outro no ninho... Maldade que vem e vai/ Vira flor na alegria/ Trezena de junho/ É tempo sagrado/ Na minha Bahia...// Antônio querido/ Preciso do seu carinho/ Se ando perdido/ Mostre-me novo caminho...”

            Emboraa música acimaseja um texto profano, a explicitação artística dessa fé em Santo Antônio é de matar de inveja até os melhores e muito bem pagos compositores e cantores gospels, tão em moda e a serviço de “grandes empresas e grandes negócios” do setor da fé e outros.
            De São João, a canção abaixo “São João, Xangô Menino” (Caetano Veloso / Eli Camargo / Gilberto Gil), composta próximo do pastiche, até por conta da miscigenação presente, é um verdadeiro hino popular de adoração a um santo:
            “Ouvir São João, Xangô Menino/ Não encontramos nada./ Meu pai, São João Batista, é Xangô/ É o dono do meu destino até o fim/ Se um dia me faltar a fé a meu senhor/ Derrube essa pedreira sobre mim/ Meu pai, São João Batista, é Xangô...// Céu de estrelas sem destino/ De beleza sem razão/ Tome conta do destino, Xangô/ Da beleza e da razão// (Viva São João) viva o milho verde/ (Viva São João) viva o brilho verde/ (Viva São João) das matas de Oxóssi...// Olha pro céu, meu amor/ Veja como ele está lindo/ Noite tão fria de junho, Xangô/ Canto tanto canto lindo...”
            E como já registrei acima, o rosário de músicas que tematizam os santos das festas de junho é muito extenso, talvez na mesma proporção da devoção de nosso povo que, em tempos de junho, e como ninguém é de ferro, também “processa” a cachaça, sem nunca esquecer que o primeiro gole é do santo, como na receita abaixo:
            “Derreta o açúcar em fogo alto até caramelizar. Adicione o gengibre, o cravo e a canela, exceto a pinga.Mexa até dissolver o açúcar; após, com cuidado e respeito, agora, sim, acrescente a ‘marvada pinga’.Deixe tudo ferver em fogo baixo por alguns minutos. Depois, melhor servir em canecas rústicas,de preferência, de barro, “mode” se manter quentinho”.
            Enfim, com muita cachaça ou pouca oração, ou com muita oração e nem tanta cachaça assim, mas sob um manto de muita enganação sobre todos nós, bom seria se não perdêssemos a memóriadaelegância exuberante de nosso sertão, tão lembrado, mesmo que caricatamente, nos festejos de junho; menos ainda, perdêssemos a chance de estar, toda vez que possível, bem pertinho daquela serra, que vive “branquejando folhas secas pelo chão”.

Segunda, 07 Junho 2021 10:14

 
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Espaço Aberto é um canal disponibilizado pelo sindicato
para que os docentes manifestem suas posições pessoais, por meio de artigos de opinião.
Os textos publicados nessa seção, portanto, não são análises da Adufmat-Ssind.
 
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Roberto Boaventura da Silva Sá
Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura/UFMT
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             Mesmo em meio àdevastadorapandemia da Covid-19, a assertiva“macunaímica”, de 1928, registrada por Mário de Andrade de que os males do Brasil são“pouca saúde e muita saúva” foi trocada, dias atrás, pela máxima “muita cachaça e pouca oração”, enunciada pelo Papa Francisco.
             Em tom de brincadeira, surpreendendo “a deus e o mundo”, o pontíficedisseessas palavras a um sacerdote da Paraíba, que lhe pedia a bênção em nome do povo brasileiro; e o Papa ainda disse que o nosso país “não tem salvação”.
             Mais do que rápido, pelas redes sociais, começaram as respostas à galhofa papal. Em uma delas, houve quem registrasse que “Mal sabe o papa que o problema do Brasil é justamente o povo que ora, não o que bebe!
             Pelo sim, pelo não, o fato é que, desde a primeira missa no Brasil(26/04/1500), celebrada por Henrique de Coimbra, um rosário sem-fim de oração é o que mais tem sido empurrado goela abaixo de nós todos. Quem duvidar, ligue a TV e brinque com o controle remoto na busca de algo que lhe satisfaça. Mas já aviso: há de se ter muito controle emocional para não arremessar o remoto à parede, tantos são os canais de orações, principalmente daqueles tipos tão bem identificados por Gilberto Gil na inteligentíssima música “Guerra Santa”:
             “Ele diz que tem... como abrir o portão do céu// Ele promete a salvação// Ele chuta a imagem da santa, fica louco-pinel// Mas não rasga dinheiro, não// Ele diz que faz... tudo isso em nome de Deus// Como um Papa na inquisição//...Promete a mansão no paraíso// Contanto, que você pague primeiro// Que você primeiro pague dinheiro//...Ele pensa que faz do amor sua profissão de fé// Só que faz da fé profissão// Aliás em matéria de vender paz, amor e axé// Ele não está sozinho não...”
             Nessa mesma perspectiva poética da percepçãodo oportunismo de inúmeros religiosos,mas bem antes das tais “orações” invadirem nossos lares, via satélite, a “Canção do Exílio” do poeta modernista Murilo Mendes –em paródia à antológica e homônima “Canção do Exílio” do romântico Gonçalves Dias –confirma a perturbação social provocada por muitos oradores que, assim como os pernilongos,desde sempre, não respeitam o espaço público:
             “Minha terra tem macieiras da Califórnia... A gente não pode dormir// com os oradores e os pernilongos...”.
             No mesmo plano, e mais que depressa, o cantor e compositor Boca Nervosa – sambista à lá Dicró, Bezerra e Moreira, ambos da Silva – respondeu a Francisco com o seguinte samba:
             “ O Papa falou que o Brasil não tem mais solução// Disse que é muita cachaça pra pouca oração//Santidade, eu descordo do que o senhor tá falando// No Brasil, ‘nós bebe’ cachaça, mas oferece pro santo// Tá certo! Em todo canto tem um cachaceiro// Mas nosso povo brasileiro sempre foi gente de fé// Vai na Igreja, no Centro Espírita// Jura em Umbanda, Mesquita, Budismo e Candomblé, mas todos com a sua fé// Depois do culto, da oração e do compromisso com a fé// Aí é de lei tomar uma lá no bar do Zé// Sem esquecer da fé”.
             Como não discordo do Boca Nervosa, possivelmente analogia à antonomásia “Boca do Inferno”, do poeta baiano Gregório de Matos (1636-96), até pelo contrário, invoco, outra vez, o santo nome poético do também baiano Gilberto Gil,que, na música “Se eu quiser falar com Deus”, dimensiona,como poucos,o grau da submissão de nosso povo a Deus, a começar pela forma como, desde a infância,aprendemosa orar:
             “Se eu quiser falar com Deus/Tenho que ficar a sós/Tenho que apagar a luz/ Tenho que calar a voz/...Tenho que folgar os nós/Dos sapatos, da gravata/Dos desejos, dos receios/...Tenho que ter mãos vazias/ Ter a alma e o corpo nus...// Tenho que aceitar a dor/ Tenho que comer o pão/ Que o diabo amassou/Tenho que virar um cão/
Tenho que lamber o chão/Dos palácios, dos castelos/Suntuosos do meu sonho/Tenho que me ver tristonho/ Tenho que me achar medonho/E apesar de um mal tamanho/ Alegrar meu coração
...”
             Aliás, verdade seja dita, essa submissão, que se parece com algo próximo da embriaguez, já havia sido tratada também no magnífico poema “O padre passa na rua”, do modernista Carlos Drummond:
             “Beijo a mão do padre/ a mão de Deus/ a mão do céu/ beijo a mão do medo/de ir para o inferno/ o perdão/ de meus pecados passados e futuros/ a garantia de salvação...
             Ao me recordardesse poemadrummondiano, como não lembrar também de “Procissão”, outra genialidade de Gilberto Gil, que compara nosso povo, quando participa de procissões, com as cobras, que se arrastam pelo chão:
             “Meu divino São José/ Aqui estou em vossos pés/ Dai-nos chuva com abundância, meu Jesus de Nazaré// Olha lá vai passando a procissão/ Se arrastando que nem cobra pelo chão/ As pessoas que nela vão passando/ Acreditam nas coisas lá do céu/ As mulheres cantando tira o versos/ E os homens escutando tira o chapéu/ Eles vivem penando aqui na terra/ Esperando o que Jesus prometeu...”
             E a produção poética sobre esse tema é absolutamente tão abundante quanto rica nas reflexões sobre a postura, via de regra, submissa,logo, inebriante, de nosso povo no que tange à oração devotada ao um ser que se acredita onipresente, onisciente e onipotente.
             Em contrapartida, de fato, pra não dizer que não falei da cachaça, ela também nos é marca registrada. Aliás, ultimamente, um segmento musical que beira o lixo em termos composicionais, usa e abusa da apologia ao álcool, mas em especial às cervejas, patrocinadoras, por excelência, dos principais espaços onde o produto (no caso, a música) é consumido. O aumento do consumo do álcool é obviedade nacional que dispensa comentários.
             Seja como for, da cachaça propriamente dita, me recordo, a título de ilustração, de duas canções, eu diria que precursoras das composições mais atuais. Ambas se tornaram conhecidas por meio de duas vozes femininas (Elizeth Cardoso e Inezita Barroso), em momentos sociais em que o machismo era quase uma ordem natural a ser seguida.
             Na voz de Elizeth, por décadas, o país cansou de cantara seguinte composição de João do Violão e Luiz Antônio:
             “Eu bebo sim/ s’tô vivendo/ Tem gente que não bebe/ E s’tá morrendo// Tem gente que já s'tá com o pé na cova/ Não bebeu e isso prova/ Que a bebida não faz mal/ Uma pro santo, bota o choro, a saideira/ Desce toda a prateleira/ Diz que a vida s'tá legal...”
             Nesse verdadeiro “hino ao inebrieante”, há de se notar o respeito ao santo. O cachaceiro, como já nos lembrou acima o Boca Nervosa, ao oferecer “uma pro santo”, demonstra sua mais pura forma de oração; quiçá, menos farisaica dos que já se consideram eleitos pra ocupar um lugar à direita de Deus Pai...
             Por sua vez,em 1953, Inezita imortalizou a “Marvada Pinga” ou (Moda da Pinga), de OchelsisLaureano, cantada inicialmente por Raul Torres, em 1937:
             “Com a marvada pinga/ É que eu me atrapaio/ Eu entro na venda e já dou meu taio/ Pego no copo e dali num saio/ Ali memo eu bebo, ali memo eu caio/ Só pra carregar é que eu dôtrabaio...// O marido me disse, ele me falo:/ Largue de beber, peço por favô/ Prosa de homem nunca dei valô/ Bebo com o sor quente pra esfriar o calô/ E bebo de noite é pá fazêsuadô...”
             Ilustrações postas, vem a pergunta: como um povo, o que nos inebria mais, a cachaça ou a oração?
             Ainda que a disputa seja acirrada, ouso dizer que o Papa perdeu essa. É claro que, infelizmente,nos embriagamos mais com as orações do que com as cachaças produzidas para tal; até porque, como nos lembram duas músicas acima citadas,devemos pôr na balança também cada gole de cada cachaceiro oferecido ao seu santo. Isso, repito, é um genuíno e típico modo de oração à lá brasileira, que não pode ser desprezado.
             E justamente porque a oração sempre se sobrepôs à cachaça, é que me junto ao cantor/compositor Luiz Melodia, que na canção “Pra quê?”, apresenta seu sonho sobre seu povo:
             “Só queria que todos tivessem comida/ Tivessem oportunidade, tivessem guarida/ Não precisassem rezar pedindo melhores dias/ Reclamando migalhas, vivendo só de agonia...”
 

 

Sexta, 25 Setembro 2020 16:05

 

Nessa sexta-feira, 25/09, às 19h (horário de Cuiabá) a Adufmat-Ssind realizará a Live “Canto Pela Chuva”, evento cultural online em apoio à Greve Pelo Clima, que tem o objetivo de denunciar os crimes ambientais e reforçar o isolamento social através das apresentações de canto e poesia de artistas mato-grossenses .
 
O evento será transmitido pelas páginas da Adufmat-Ssind no Facebook e Youtube. Acompanhe!
 
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